
O Riccardo foi a Vivian quem achou. Ele também fugia do Chamado e estava sem rumo sobre uma tigela de açaí em Alto Paraíso. Eu e Carol levantamos do meio-fio, batemos nossos jeans vermelhos de terra e fomos ver qual era. Em cinco minutos ele decidia vir pra São Jorge conosco.
No primeiro momento achei que Riccardo era alcunha inventada pra cair no mundo, a exemplo da inglesa Nalini, que na real se chamava Nathalie, ou do velho Mote, oficialmente registrado como Patrick em algum cartório de Austin, Texas. Era um pouco decepcionante que Riccardo não atendia por nenhum Nassib ou Mohammed, a família preferiu honrar o avô italiano; mas Abd-El-Zob, o sobrenome, vá lá, satisfazia.
Bom mesmo foi quando sentamos no primeiro restaurante de São Jorge e ele começou a falar árabe com um gaúcho que havia comentado alto demais que morara no Cairo por alguns meses.
E melhor ainda foi escutá-lo revelar pormenores da tradição da narghee-la no Egito, dali engatando para um debate sobre a melhor marca de shisha.
Teve uma vez que choveu e todo mundo se amontoou no Maksoud Plaza que era a barraca da Letstellar e o atacamos de perguntas sobre o povo do Nilo. A família de Ricca era rica e ele aprendeu a história dos faraós igualzinho a gente aqui no Brasil, na linha da História Geral, porque quem tem dinheiro no Egito estuda em escola francesa e aprende a olhar seu próprio país com lentes de estrangeiro.
O ponto central era que Riccardo não parava uma porra de um minuto de cantar musiquinhas que aprendeu durante sua morada em Olinda; e quando ele sumia a gente preocupava, porque não existia um raio de um lugar em que ele não tivesse causado. O olho vermelho, arrumou no show do Chico César em Lençóis, quando um local disse que "não gostava de gringos" e Ricca, muito doce DE VERDADE, segurou o nariz do maluco e disse, "mas eu gosto de você!"
Foi JUNTADO.
De nossa posse e guarda, limitava-se a chutar a barraca do Folopo enquanto ele dormia lá dentro, jogar areia na cara de alguém ou puxar o meu cabelo. Nos revezávamos espontaneamente no tomar de conta dele; e ficamos secretamente tocados quando nos demos conta de que ele tinha a simpatia da cidade inteira.
Ele tinha uma sunga de macaco e se comportava como um símio eletrocultado.
Ele não usava xampu pro cabelo ficar duro pra cima.
Ele tinha um quê de NOWHERE MAN.
Ele nos chamava, as moças, de habibsis. E em troca o ensinamos a cantar a parte do "além de trabalhar como empacotadeira nas Casas Bahia".
Pela primeira vez desde que nos despedimos dele, recebemos notícias:
From: Riccardo Abd-El-Zob
Wednesday, October 19, 2005 1:01 AM
To: Joana Barata, Joana Coccarelli, Folopo Barbirato, Mônica Scofano, Letícia Gismann, Leticio, Tainá Del Negri
Subject: message from habibi your favorite egypcian monkey
eai BRASIL!!!!!!!!!!!!!!!!
todo bom?
finalemente sai de sao jorge... quasi um meis!! foi bom de mais, foi na todas as trilhas e encontrei muitas pessoas de todo o brasil!!!
mas con certeza voces foram a gallera a mais MANEIRA!!!
(depois de velho joe meu champion #1 of course)
to na brasilia na casa dum rapaz que me deu uma carona....very fancy stuff ...
vou pra ouro preto amanha ou depois d amanha... deveria chegar nou rio no comenco de novembro (e bom com voce habiba joana?? a hookah sera pronta pra o grande farao?)
Muitos beijos pra todo mundo, tem MUITO saudade de voces leimors!!
PS: cade as fotos, Foloco?? Joanna?? Monica? voces sao muito fuleiros!! ! Quero ver os tesoros de mea terra!!!
PPS: Vamos pra ilha grande quando vou chegar!!!!!!!!!!!! CHAMADO-DO-DO!!!!
1luv jah rastafari.
Prometi-lhe belewas e shisha de uva.