ADOREI AS ALMAS!
Sábado passado teve gira de Preto Velho no terreiro de Umbanda e eu fui. O Marcio me levou. O Marcio freqüenta, é a fé dele. É uma fé branca. Magia negra é Candomblé e de Candomblé eu passo longe. Umbanda é firmeza. Tinha família inteira e muita criança, quando um bebê chorava no meio da reza o mestre dizia, "deixa a criança chorar, criança nunca atrapalha".
Fui pela CURIOSIDADE ANTROPOLÓGICA, pela latência da vontade de cruzar as entranhas do Brasil. É bem análoga à minha atração pelos índios, mas perde por causa da restrição intrínseca a toda representação. Todo ritual é uma representação - um meio, não o próprio fim.
A entrada era guardada por uma CAIXA DE ZÉ PILINTRA, um TRANCA-RUA e uma MARIA PADILHA; depois deles, nenhuma outra entidade rasteira: na parte esquerda do jardim jazia um altar em forma de cabana com a placa CRUZADA DE MARIA CONGA; na direita, um protótipo de casinha de boneca cor-de-rosa com pirulitos de madeira grudados no telhado, para os ERÊS; e na testeira da casa branca um relicário de luz azul guardava IEMANJÁ.
A porta dianteira dava numa pequena sala onde uma mulher listava os nomes dos participantes junto ao da entidade que eles queriam consultar. Era noite de Preto Velho e quase fui parar num vovô benedito da vida, mas senti que a minha corrente feminina tava pegando e troquei pra Vovó Xica.
Daí deixamos a fumaça do defumador impregnar o último fio de cabelo e entramos no salão. Tava todo mundo de branco, só tinha eu de cor-de-rosa - o clássico vestido com babados e manga bufante que usei em minha primeira e DESAVISADA noite gótica onde todo mundo vestia preto.
Urano no mapa É FODA.
Lá dentro os médiuns circulavam sobre um enorme brasão pintado no chão e nós lotávamos os bancos. O pessoal da esquerda começou a meter bronca nos atabaques e GERAL pregou a garganta no BALALAUÊ e ATOTÔ, os pelinhos do meu braço ERIÇANDO e um CALOR DE VELUDO crescendo pela traquéia.
Pouco antes dos VOVÔS e VOVÓS DESCEREM, o mestre lembrou da escravatura, cuja abolição aniversariara no dia anterior - só pra ninguém esquecer das raízes da tradição. E então, um a um, os médiuns começaram a ENCURVAR A COLUNA e ACENDER CACHIMBOS, alguns tremelicavam e outros buscavam seus cajados, e aos poucos as ENTIDADES ENCARNADAS sentavam-se em seus banquinhos salvaguardados por galhos de arruda. Segundo o Marcio, a médium com maior TÔNUS recebia VOVÓ JOANA D´ANGOLA e ficou combinadíssimo que na próxima gira a gente ia nela.
Pretos Velhos se amarram num conversê e demorou um bocado pro ajudante da Vovó Xica vir me buscar. Ele me levava pela mão no meio do terreiro e o meu coração DOBRAVA a percussão, mas foi um susto MENOR do que quando MINHA VELHA me viu: ela gritou "FROMOSA! FROMOSA!", saltou do banquinho e deu uma CABEÇADA no meu baixo ventre; ficou com a cabeça ali, me segurou pela cintura e me chacoalhou uma porrada de vezes; o ajudante dela veio por trás e inclinou minhas costas pra frente, de modo que eu quase abraçava a médium. De repente me soltei toda - estava num gostoso semi-transe; a ponta do meu cabelo batia no chão e eu não conseguia ver o rosto de quem passava e me saudava alto, "ADOREI AS ALMAS!"
EU TAMBÉM!
Finda a AÇÃO, Vovó Xica sentou-se de volta e me perguntou o que eu queria dela. Eu não fazia A MENOR IDÉIA porque não tinha ido ali exatamente pra me CONSULTAR, mas para ter a experiência. Minha cabeça ficou no SEARCH e tentei encher o espaço perguntando se ela tinha algum recado pra mim. O TÊTE-A-TÊTE foi um pouco vago e às vezes era difícil entender o que ela dizia porque Preto Velho fala naquele português SENZALA. Tudo VIGOROU quando eu trouxe o PAPO BRABO pra roda - uma macumbeira que andava urubuzando pessoa querida. Vovó Xica disse que não DESFAZIA TRABALHO, mas deu conselhos PERTINENTES e mandou eu escrever o nome do amigo num papel. Entornou MEL em cima, dobrou e entregou pro ajudante com instruções ao pé do ouvido.
Antes de ir embora, perguntei onde ela morava. Ela disse que nas florestas, "numa charneca escondida no mato".
Falei que de vez em quando eu me refugio mentalmente numa relva verde, e que procuraria por ela.