categoria ~ brooshas



sexta-feira, julho 13, 2007

{and sleep al mar}

mesmo náufraga preservou a paz de espírito. quatro dias de bote, mar, sol, céu; e mais ninguém além da irmã desmaiada de sede e terror. mesmo assim.

punha a cabeça na barriga dela e olhava bem pro meio do sol. fechava as pálpebras e assistia o imprint redondo de luz posar formas amorfas, mais ou menos como acontece quando observamos nuvens mudando de desenho.

valia-se, ainda, das manchinhas estranhas do campo de visão. dizem que é efeito da própria mente, hindus clamam prana e médicos especulam partículas do ar deslizando no líquido lacrimal. que fosse, para ela era muito decorativo. basicamente, recriava a noite na abóbada de seu próprio crânio.

tipo bandeira de navio pirata. encantou-se de uma vez por todas com a possibilidade, e até mesmo com a hostilidade da tripulação.

mas o tempo corria viscoso e só o que surgia era mais correnteza debaixo do bote.

e enfim a irmã engatou do delíquio à morte.

que só foi percebida quando os lábios defuntos ressecaram como casco réptil, vesículas purulentas pelo pescoço. então, a outra mergulhou em estilo homem ao mar.

lá do fundo vigiava a pequenina embarcação na superfície. seguia-a. não emergiu jamais, nem para pegar ar. de noite, para não perder o rastro, amarrava a cintura numa das cordas pendentes do mausoléu da irmã e dormia, sempre submersa, no meio das medusas.

várias semanas se passaram até que decidisse voltar ao bote. e foi o que encontrou: os cabelos estavam lá, intocados mas endredados; costelas e fêmures inteiros dentro da roupa; anéis ao redor do esqueleto das mãos. mas acima de tudo: o crânio redondíssimo, os dentes maltados, a mandíbula encaixada.

ela, num arroubo: jack sparrow!

e começaram um affair que o cinema nunca vai contar.



segunda-feira, julho 02, 2007

{matryoshkado}

da chita calungosa ao chapéu de raíssa, bons volumes de peito e cada vez menos altura fazem-nas star.

sai uma de dentro da outra.

aquela que é a maior está grávida de suas fractais. é o conjunto-universo que gentilmente abre ventre de si mesma para contemplar todas mais.

as intermediárias, entrelinhas da grande-mãe, competem por identidade própria dentro do clã de clones. organizadas por ordem de tamanho, assumem autoridades verticais.

mas a última: tão somente o essencial e completo, pequenina e roliça. resultante do descasco das bonecas mais velhas, encerra-se em seu próprio solipsismo de bombom do ovo de páscoa.

é inviolável, logo virgem. no lugar do corte da cintura - lógica herança de suas ascendentes - há um hímen intacto. está caçula, inteira e indivisível: olho do everlasting desabrocho do lótus.

seja talvez a matriarca suprema e tivesse criado todas as outras que a involucraram. ave maria da tundra.

ou não.

matryoshkas dominarão o mundo quando tudo acabar: serão feitas por sobreviventes com restos da lataria de mísseis, alegrando toda uma nova geração de meninos atômicos.

elas são o amanhã.



quarta-feira, junho 06, 2007

{devoré}

tão grudados estavam seus olhos no costureiro que pularam do meio dos cílios para as abas da cartola dele. linha de bronze suturou veludo rubro ao longo da coluna para já modelar a roupa no corpo, o rapaz equilibrava as orbes no chapéu e alfinetava o pulso dela com babados, alinhavava colchetes em seu abdômen, costurava seus quadris à máquina para pregar anáguas. plissados traumáticos, brocados ulcerosos, debruns.

sacou os olhos rolantes e os usou para botões da gola. passou fita pelas cavidades oculares vazias e deu um laço bem no meio.

das chagas vazadas de sangue fez-se belíssima estampa ton-sur-ton sobre o vestido.



quinta-feira, maio 31, 2007

{videira}

olhaqui: não insista em tirá-los do vinhedo. deixe-os lá, levando fogueiras nas mãos enquanto batem asas para espalhar o calor pelos bagos. pois senão, com esse frio, não teremos anja fazendo vinho com os pés na próxima primavera; não veremos suas coxas massivas manchadas de semente. se as uvas congelarem, nos faltará estímulo para assaltar-lhe o vestido no começo do verão.

como sabe, tal estação me é mal quista. o burgo migra para a costa amalfitana e volta com os ouvidos cheios de sal. os que ficam, como nós, giram como peões de uma oliveira a um cipreste, para mais tarde penetrar a alcova úmida onde anja não está. então transformamos o lugar numa bodega, na qual plantamos putinhas eslavas que nos ojerizam - pequenina vendetta pela ausência dela.

pasadías hasta que llega, uma amarrotada passa outonal. canta a verdade que nômade mouro fizera-lhe sevillana, enlaçado dos pés a cabeça dela. cuspimos vírus. usamos toda roupa de anja para alimentar o fogo de outra vinha invernal. por longo tempo, vestiu não mais que minhas calças, suspensórios e chapéu.



quarta-feira, maio 30, 2007

{skin stripper}

puxas o fio da maldade: uma ponta de lã, perdida na trama do casaco vermelho, desmancha o périplo de calor ao redor da pele. cada ponto desfeito casa com um poro fazendo bico, um baterzinho de queixo, um mamilo tensionado; arábias do umbigo sem véu, rumores sobre cotovelos, colo divulgado.

acabaria aí.

se não prosseguisses puxando o fio.

que estava de braços dados com a tez da minha nuca.

e assim começastes a desembaraçar hélices de dna; esgarçando toda pele do meu corpo; devolvendo-me para o quente carmim da veste inicial.



terça-feira, maio 29, 2007

querido,

defrostei-me tão logo noite e graus desmaiaram sobre este corte de trópico, filetes de sangue escorrendo entre o cálcio do meu sorriso e essas suas maneiras glaciais.

defrostei-me ao reverso de pupas e ainda assim cresceram-me petúnias no lugar dos dentes, que me levaram a bocejar pálida geada de pétalas.

defrostei-me enquanto a superfície fazia-se polar; mas não, não tenho como defrostar afetos que se paralizam em gelo cabal.

a neve cai aqui fora, mas faz primavera dentro de mim.



segunda-feira, junho 12, 2006

THURSDAY´S CHILD BECOMES MONDAY´S VALENTINE

iurimanonperf.jpg

Botão de orquídea saiu da nuca do meu vestido igualmente fúcsia, deu a volta sobre o ombro e desabrochou monstra bem em frente da minha boca. Ninguém mais entendia o que eu dizia e logo também não teria mais importância, porque ao longo da linha superior da minha sobrancelha nasceram gotas viscosas do látex dos meus receios. Uma dentada e arranquei a pétala mais próxima, língua, saliva e lábios graxos trazendo-a para as mastigadas e, uh!, tem até um melado doce no final. O problema é que demais pétalas estavam longe do alcance da minha mandíbula e meus dedos tinham virado folhas. Qualquer articulação em ameaça de dobra quebraria como um caule - nem valia a tentativa, posto que muitas raízes já haviam fixado minha planta dos pés no tapete do salão. Todos foram embora; vegetativa, contemplei-me. Um gafanhoto alojou-se debaixo de minha axila. Uma abelha colheu néctar das minhas narinas. E uma lagarta começou a comer voraz a artéria saltada que levava à minha virilha, perfilando-se como uma premonição ao longo dela. Feels se aproximou, afastou a abelha e me beijou com cuidado. A orquídea balançou e polinizou meus olhos. Só vejo flores em você.

- colagem: iuri kothe e manon



sexta-feira, fevereiro 03, 2006

THURSDAY CHILD

Botão de orquídea saiu da nuca do meu vestido igualmente fúcsia, deu a volta sobre o ombro e desabrochou monstra bem em frente da minha boca. Ninguém mais entendia o que eu dizia e logo também não teria mais importância, porque ao longo da linha superior da minha sobrancelha nasceram gotas viscosas do látex dos meus receios. Uma dentada e arranquei a pétala mais próxima, língua, saliva e lábios graxos trazendo-a para as mastigadas e, uh!, tem até um melado doce no final. O problema é que demais pétalas estavam longe do alcance da minha mandíbula e meus dedos tinham virado folhas. Qualquer articulação em ameaça de dobra quebraria como um caule - nem valia a tentativa, posto que muitas raízes já haviam fixado minha planta dos pés no tapete do salão. Todos foram embora; vegetativa, contemplei-me. Um gafanhoto alojou-se debaixo de minha axila. Uma abelha colheu néctar das minhas narinas. E uma lagarta começou a comer voraz a artéria saltada que levava à minha virilha, perfilando-se como uma premonição ao longo dela. Feels se aproximou, afastou a abelha e me beijou com cuidado. A orquídea balançou e polinizou meus olhos. Só vejo flores em você.



sexta-feira, julho 01, 2005

APROVEITANDO O ENSEJO ou ainda DEBANDADA GERAL

Marmanjos egotripados escrevedores de livros! Ela vai passar por cima de vocês como um ROLO COMPRESSOR!



segunda-feira, maio 16, 2005

ADOREI AS ALMAS! Sábado passado

ADOREI AS ALMAS!
Sábado passado teve gira de Preto Velho no terreiro de Umbanda e eu fui. O Marcio me levou. O Marcio freqüenta, é a fé dele. É uma fé branca. Magia negra é Candomblé e de Candomblé eu passo longe. Umbanda é firmeza. Tinha família inteira e muita criança, quando um bebê chorava no meio da reza o mestre dizia, "deixa a criança chorar, criança nunca atrapalha".

Fui pela CURIOSIDADE ANTROPOLÓGICA, pela latência da vontade de cruzar as entranhas do Brasil. É bem análoga à minha atração pelos índios, mas perde por causa da restrição intrínseca a toda representação. Todo ritual é uma representação - um meio, não o próprio fim.

A entrada era guardada por uma CAIXA DE ZÉ PILINTRA, um TRANCA-RUA e uma MARIA PADILHA; depois deles, nenhuma outra entidade rasteira: na parte esquerda do jardim jazia um altar em forma de cabana com a placa CRUZADA DE MARIA CONGA; na direita, um protótipo de casinha de boneca cor-de-rosa com pirulitos de madeira grudados no telhado, para os ERÊS; e na testeira da casa branca um relicário de luz azul guardava IEMANJÁ.

A porta dianteira dava numa pequena sala onde uma mulher listava os nomes dos participantes junto ao da entidade que eles queriam consultar. Era noite de Preto Velho e quase fui parar num vovô benedito da vida, mas senti que a minha corrente feminina tava pegando e troquei pra Vovó Xica.

Daí deixamos a fumaça do defumador impregnar o último fio de cabelo e entramos no salão. Tava todo mundo de branco, só tinha eu de cor-de-rosa - o clássico vestido com babados e manga bufante que usei em minha primeira e DESAVISADA noite gótica onde todo mundo vestia preto.

Urano no mapa É FODA.

Lá dentro os médiuns circulavam sobre um enorme brasão pintado no chão e nós lotávamos os bancos. O pessoal da esquerda começou a meter bronca nos atabaques e GERAL pregou a garganta no BALALAUÊ e ATOTÔ, os pelinhos do meu braço ERIÇANDO e um CALOR DE VELUDO crescendo pela traquéia.

Pouco antes dos VOVÔS e VOVÓS DESCEREM, o mestre lembrou da escravatura, cuja abolição aniversariara no dia anterior - só pra ninguém esquecer das raízes da tradição. E então, um a um, os médiuns começaram a ENCURVAR A COLUNA e ACENDER CACHIMBOS, alguns tremelicavam e outros buscavam seus cajados, e aos poucos as ENTIDADES ENCARNADAS sentavam-se em seus banquinhos salvaguardados por galhos de arruda. Segundo o Marcio, a médium com maior TÔNUS recebia VOVÓ JOANA D´ANGOLA e ficou combinadíssimo que na próxima gira a gente ia nela.

Pretos Velhos se amarram num conversê e demorou um bocado pro ajudante da Vovó Xica vir me buscar. Ele me levava pela mão no meio do terreiro e o meu coração DOBRAVA a percussão, mas foi um susto MENOR do que quando MINHA VELHA me viu: ela gritou "FROMOSA! FROMOSA!", saltou do banquinho e deu uma CABEÇADA no meu baixo ventre; ficou com a cabeça ali, me segurou pela cintura e me chacoalhou uma porrada de vezes; o ajudante dela veio por trás e inclinou minhas costas pra frente, de modo que eu quase abraçava a médium. De repente me soltei toda - estava num gostoso semi-transe; a ponta do meu cabelo batia no chão e eu não conseguia ver o rosto de quem passava e me saudava alto, "ADOREI AS ALMAS!"

EU TAMBÉM!

Finda a AÇÃO, Vovó Xica sentou-se de volta e me perguntou o que eu queria dela. Eu não fazia A MENOR IDÉIA porque não tinha ido ali exatamente pra me CONSULTAR, mas para ter a experiência. Minha cabeça ficou no SEARCH e tentei encher o espaço perguntando se ela tinha algum recado pra mim. O TÊTE-A-TÊTE foi um pouco vago e às vezes era difícil entender o que ela dizia porque Preto Velho fala naquele português SENZALA. Tudo VIGOROU quando eu trouxe o PAPO BRABO pra roda - uma macumbeira que andava urubuzando pessoa querida. Vovó Xica disse que não DESFAZIA TRABALHO, mas deu conselhos PERTINENTES e mandou eu escrever o nome do amigo num papel. Entornou MEL em cima, dobrou e entregou pro ajudante com instruções ao pé do ouvido.

Antes de ir embora, perguntei onde ela morava. Ela disse que nas florestas, "numa charneca escondida no mato".

Falei que de vez em quando eu me refugio mentalmente numa relva verde, e que procuraria por ela.

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