mesmo náufraga preservou a paz de espírito. quatro dias de bote, mar, sol, céu; e mais ninguém além da irmã desmaiada de sede e terror. mesmo assim.
punha a cabeça na barriga dela e olhava bem pro meio do sol. fechava as pálpebras e assistia o imprint redondo de luz posar formas amorfas, mais ou menos como acontece quando observamos nuvens mudando de desenho.
valia-se, ainda, das manchinhas estranhas do campo de visão. dizem que é efeito da própria mente, hindus clamam prana e médicos especulam partículas do ar deslizando no líquido lacrimal. que fosse, para ela era muito decorativo. basicamente, recriava a noite na abóbada de seu próprio crânio.
tipo bandeira de navio pirata. encantou-se de uma vez por todas com a possibilidade, e até mesmo com a hostilidade da tripulação.
mas o tempo corria viscoso e só o que surgia era mais correnteza debaixo do bote.
e enfim a irmã engatou do delíquio à morte.
que só foi percebida quando os lábios defuntos ressecaram como casco réptil, vesículas purulentas pelo pescoço. então, a outra mergulhou em estilo homem ao mar.
lá do fundo vigiava a pequenina embarcação na superfície. seguia-a. não emergiu jamais, nem para pegar ar. de noite, para não perder o rastro, amarrava a cintura numa das cordas pendentes do mausoléu da irmã e dormia, sempre submersa, no meio das medusas.
várias semanas se passaram até que decidisse voltar ao bote. e foi o que encontrou: os cabelos estavam lá, intocados mas endredados; costelas e fêmures inteiros dentro da roupa; anéis ao redor do esqueleto das mãos. mas acima de tudo: o crânio redondíssimo, os dentes maltados, a mandíbula encaixada.
ela, num arroubo: jack sparrow!
e começaram um affair que o cinema nunca vai contar.