categoria ~ brooshas



segunda-feira, junho 23, 2008

santa inferno

para javi as boas mulheres - como sua santa, acima - são volumosas.

curiosamente, da divina comédia ele só leu o inferno.



sexta-feira, março 14, 2008

conto tonal

é o beija-flor da manhã. já me espera empoleirado no espelho da cama. questão de abrir os olhos para que ele me espete a pupila esquerda com o bico laminar. paraliso até que termine de beber toda minha íris verde, até que mude de azul para esmeralda, e saia zumbindo feito besouro pela janela para o canteiro das flores rosadas.

meus gatos não gostam de ver meu olho sem cor. sobra o pingo negro de pupila boiando no resto branco. então a única forma de reviver a íris verde é bebendo clorofila no desjejum. um simples suco de laranja me poria a cor do sol poente de amsterdam, e a gente da rua estranharia muito. talvez se eu fosse david bowie.

noutra manhã bem cedo ouvi um frenesi perto da cerca. meus gatos armaram tocaia contra o vampiro de penas e quase o dentaram. a avezinha se safou e desesperou-se para o meu quarto. foi fácil tomá-lo na mão e duro concluir que ele estava fraco e precisava consumir minha cor. então pensei. abri os botões da camisola branca e trouxe um seio para fora. ele fincou o bico na ponta do mamilo e o bebeu. voltou cor-de-rosa para o canteiro das flores e, camuflado, nunca mais teve problemas com os gatos. eu recuperei o tom do mamilo com um prato de morangos gelados.



quarta-feira, janeiro 23, 2008

- - paralisia infantil -

epílogo: demorou tantos anos para descobrir a cura. mas nem sempre foi moça de muletas. seus gizmos mentais faziam-na acreditar que de nada sofria, e diversos foram os saltos e farfales em camas elásticas e trens-fantasmas. seus gizmos mentais até que foram gênios, apesar de neuropatológicos.

a poliomielite estava lá, mas só agia quando a moça se acreditava deficiente.

stand up, chick. você brilha no escuro, mesmo quando pula numa perna só.



terça-feira, janeiro 22, 2008

..back to business........


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stand up, chick.



segunda-feira, setembro 17, 2007

*blush*

espalmou-lhe um tapa na cara, o bruto.

ela se levanta delicadamente do chão, senta-se na penteadeira e apaga a marca vermelha com demaquilante.



terça-feira, agosto 28, 2007

{anel de cálibos}

usualmente samaria acorda, cata castanhas, cascas de salgueiro e água do poço, empoço de choros represados pela súbita ausência dos meus cortejos. eis o dissabor que deverás reverter a teu favor, mancebo. essamaria só tem coração para mim e não a quero, digo sim a quero - inteira agremiada por rapaz típico e hábil como tu.

verás que a moça tem suas virtudes, outras além da rotina cerimoniosa de toda manhã: é versada em matemáticas e tem gosto por porcelana, com especial simpatia por aparelhos de chá das famílias da colônia.

no entanto, se envaidece ao desfilar maneiras de vagabundo entre os freqüentadores da taberna. crê-se, assim, mais atraente e confiante. isto em si não representa um revés para os objetivos carnais masculinos, o contrário: apenas mostra que samaria está tão disposta a conseguir flertes que prefere fugir de comparações contra moças comuns. mais um sinal a teu favor, já que delata a verdade sobre ela: uma amedrontada, uma fraca.

alguns rapazes cairão pateticamente em seus enredos de rata, acreditando estar diante de mulher inigualável. mas pertenço a uma maçonaria devotada aos ardis das mais caprichosas donzelas e sobre elas tudo sei. sobre samaria hei de ensiná-lo: de seu corpo tiramos o desfrute; dentre seus cabelos um tufo como troféu; e de sua covardia a garantia de que um próximo homem poderá deleitar-se do mesmo que nos deleitamos.

então, quando não mais a quiseres,
tome todo cuidado no preparo do novo pretendente,
como contigo agora faço.



sexta-feira, julho 13, 2007

{and sleep al mar}

mesmo náufraga preservou a paz de espírito. quatro dias de bote, mar, sol, céu; e mais ninguém além da irmã desmaiada de sede e terror. mesmo assim.

punha a cabeça na barriga dela e olhava bem pro meio do sol. fechava as pálpebras e assistia o imprint redondo de luz posar formas amorfas, mais ou menos como acontece quando observamos nuvens mudando de desenho.

valia-se, ainda, das manchinhas estranhas do campo de visão. dizem que é efeito da própria mente, hindus clamam prana e médicos especulam partículas do ar deslizando no líquido lacrimal. que fosse, para ela era muito decorativo. basicamente, recriava a noite na abóbada de seu próprio crânio.

tipo bandeira de navio pirata. encantou-se de uma vez por todas com a possibilidade, e até mesmo com a hostilidade da tripulação.

mas o tempo corria viscoso e só o que surgia era mais correnteza debaixo do bote.

e enfim a irmã engatou do delíquio à morte.

que só foi percebida quando os lábios defuntos ressecaram como casco réptil, vesículas purulentas pelo pescoço. então, a outra mergulhou em estilo homem ao mar.

lá do fundo vigiava a pequenina embarcação na superfície. seguia-a. não emergiu jamais, nem para pegar ar. de noite, para não perder o rastro, amarrava a cintura numa das cordas pendentes do mausoléu da irmã e dormia, sempre submersa, no meio das medusas.

várias semanas se passaram até que decidisse voltar ao bote. e foi o que encontrou: os cabelos estavam lá, intocados mas endredados; costelas e fêmures inteiros dentro da roupa; anéis ao redor do esqueleto das mãos. mas acima de tudo: o crânio redondíssimo, os dentes maltados, a mandíbula encaixada.

ela, num arroubo: jack sparrow!

e começaram um affair que o cinema nunca vai contar.



segunda-feira, julho 02, 2007

{matryoshkado}

da chita calungosa ao chapéu de raíssa, bons volumes de peito e cada vez menos altura fazem-nas star.

sai uma de dentro da outra.

aquela que é a maior está grávida de suas fractais. é o conjunto-universo que gentilmente abre ventre de si mesma para contemplar todas mais.

as intermediárias, entrelinhas da grande-mãe, competem por identidade própria dentro do clã de clones. organizadas por ordem de tamanho, assumem autoridades verticais.

mas a última: tão somente o essencial e completo, pequenina e roliça. resultante do descasco das bonecas mais velhas, encerra-se em seu próprio solipsismo de bombom do ovo de páscoa.

é inviolável, logo virgem. no lugar do corte da cintura - lógica herança de suas ascendentes - há um hímen intacto. está caçula, inteira e indivisível: olho do everlasting desabrocho do lótus.

seja talvez a matriarca suprema e tivesse criado todas as outras que a involucraram. ave maria da tundra.

ou não.

matryoshkas dominarão o mundo quando tudo acabar: serão feitas por sobreviventes com restos da lataria de mísseis, alegrando toda uma nova geração de meninos atômicos.

elas são o amanhã.



quarta-feira, junho 06, 2007

{devoré}

tão grudados estavam seus olhos no costureiro que pularam do meio dos cílios para as abas da cartola dele. linha de bronze suturou veludo rubro ao longo da coluna para já modelar a roupa no corpo, o rapaz equilibrava as orbes no chapéu e alfinetava o pulso dela com babados, alinhavava colchetes em seu abdômen, costurava seus quadris à máquina para pregar anáguas. plissados traumáticos, brocados ulcerosos, debruns.

sacou os olhos rolantes e os usou para botões da gola. passou fita pelas cavidades oculares vazias e deu um laço bem no meio.

das chagas vazadas de sangue fez-se belíssima estampa ton-sur-ton sobre o vestido.



quinta-feira, maio 31, 2007

{videira}

olhaqui: não insista em tirá-los do vinhedo. deixe-os lá, levando fogueiras nas mãos enquanto batem asas para espalhar o calor pelos bagos. pois senão, com esse frio, não teremos anja fazendo vinho com os pés na próxima primavera; não veremos suas coxas massivas manchadas de semente. se as uvas congelarem, nos faltará estímulo para assaltar-lhe o vestido no começo do verão.

como sabe, tal estação me é mal quista. o burgo migra para a costa amalfitana e volta com os ouvidos cheios de sal. os que ficam, como nós, giram como peões de uma oliveira a um cipreste, para mais tarde penetrar a alcova úmida onde anja não está. então transformamos o lugar numa bodega, na qual plantamos putinhas eslavas que nos ojerizam - pequenina vendetta pela ausência dela.

pasadías hasta que llega, uma amarrotada passa outonal. canta a verdade que nômade mouro fizera-lhe sevillana, enlaçado dos pés a cabeça dela. cuspimos vírus. usamos toda roupa de anja para alimentar o fogo de outra vinha invernal. por longo tempo, vestiu não mais que minhas calças, suspensórios e chapéu.

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