... o indivíduo no campo de concentração:
o artifício não vale nada quando a essência diz tudo e exprime a verdade absoluta da espécie. sobre a ss, robert anteme escreve: "ela pode matar um homem mas não pode transformá-lo em outra coisa". aí está a primeira verdade descoberta em um campo de concentração, ela é de natureza ontológica: a existência de uma única espécie, e a natureza essencial do homem dentro do homem, cavilhada ao corpo, visceralmente associada à carne, ao esqueleto, à pele e aos ossos, àquilo que resta de um ser, contanto que um suspiro, mesmo frágil, o anime ainda. a verdade de um ser é seu próprio corpo.
tolhido por furúnculos, esfolado por antrazes, as chagas carcomidas de vermes, a carne devorada pelos piolhos (...) - nesses extremos, o corpo de um homem triunfa no local inexpurgável de sua humanidade. (...) a essência é a existência, e vice-versa.de modo que essa ontologia esclarecida por uma fisiologia, senão o inverso, impõe que se entenda o indivíduo como essencial, certamente não o sujeito, o homem ou a pessoa. (...) o que faz a irredutibilidade de ser um ser é sua individualidade, não sua subjetividade, sua humanidade ou sua personalidade. é o indivíduo que sofre, pena, sente frio e fome, vai morrer ou se salva, é ele, dentro de sua carne, portanto de sua alma, que é submetido aos golpes, sente progredirem os parasitas assim como a fraqueza, a morte ou o pior.
a política do rebelde - tratado de resistência e insubmissão, michel onfray, 1997.
