tem esse filme "bernard & doris", que é uma das mais recentes perolazinhas da locadora. doris é doris duke, personagem real, que foi servida pelo mordomo bernard durante os últimos anos de sua vida. doris era trilhardária - uma magnata que administrava diversas instituições ligadas às artes, ciência, meio-ambiente, filantropia e educação, incluindo a celebrada duke university. num determinado ponto do filme, vemos doris assinando um cheque de cinco milhões de dólares para pagar a fiança de imelda marcos.
a primeira coisa que me veio à cabeça foi que o ato de solidariedade para com imelda tinha apenas, mas profundamente, a ver com sua notória loucura por sapatos (a ex primeira-dama filipina tinha cerca de três mil deles). o filme não esclarece a motivação de doris duke, mas em pesquisa pela net descobri que ambas eram amigas. "talvez a paixão por sapatos seja o denominador comum da amizade", insisti em racionalizar. ou talvez seja o meu denominador comum com imelda marcos, e eu esteja projetando sobre doris duke.
eu não sei qual é o lance que algumas de nós têm com sapatos. não dá pra explicar. o simples fato de que incrementam o andar e arte-finalizam um look, condenando-o ou fazendo-o vencedor, não basta. sapatos estão além da eloquência de um par de óculos ou do status de uma bolsa: mais que qualquer outro acessório - não raro mais que a própria roupa - ele diz a que você veio. e isso ainda não é o bastante.
eu não tenho tara por jóias - eu nem tenho jóias. não ligo a mínima para relógio, anel, pulseira, brinco; lingerie, perfume, automóvel, i-phone, itens de fetiche em geral: zero. mas eu preciso de coisas de vestir. compro tecido, mando fazer roupa. escolho bolsas com cuidado, posso levar meses para encontrar um calçado que preciso pra ontem. e são eles, mais que uma bolsa ou um vestido, aos quais me apego mais.
isso não é explicável pela boa impressão que um sapato causa. isso não é explicável, simplesmente.
e ainda assim eu não saio comprando todos os sapatos que existem no mundo, não faço questão de manolos e loubotins - pelo contrário. compro só o que se encaixa em mim e no meu orçamento. o princípio do sapatinho de cristal - aquele que apenas calça a cinderela - se aplica: posso morrer de amor por um modelo mas, numa loja, passo batida por ele caso não faça parte da minha auto-imagem em primeiro lugar.
tudo isso para revelar que hoje cheguei perto, mas falhei em me desfazer do meu par queridinho. o par queridinho tem quase cinco anos e já passou do prazo de validade, mas eu insisto. ele jamais recebeu um elogio em especial, e isso é porque ninguém vê a beleza que eu vejo nele. ele tem um formato dianteiro que eu nunca vi em lugar nenhum. ele tem um salto sabrina, que é o salto mais lindo do universo, e seu interior é todo forrado de couro branco com estampa de cerejas. os dois últimos detalhes pirotescos: ele não foi comprado numa sapataria e sua cor original era rosa-goiaba.
era. porque com o tempo ele precisou de pintura e ficou vermelho. e hoje, entre jogá-lo fora e dar a ele uma sobrevida, fiquei com a segunda opção. o próprio sapateiro sacou minha fraqueza ao insistir na recauchutagem. teve pena de mim. prometeu passar a melhor tinta e recuperar 200% o saltinho.
em 2010, ainda encontramos anjos como antigamente.