à primeira vista era uma serpente gigantesca aninhada em si mesma após jantar um veado. mas chegando mais perto era possível enxergar uma pontinha de unha rasgando, por dentro, a barriga do bicho, e seu coração sendo empurrado para fora. agora o animal estava morto e ela poderia escapar sem ser engolida de novo. eva, a moça que fora caçada.
mas não seria tão simples: por onde passou um coração de serpente passaria também uma cabeça de gente mas jamais os ombros e o resto do corpo. para abrir a passagem, eva havia deixado todas as unhas no couro do réptil; e seus dentes não fariam melhor. decidiu, então, usar os do próprio animal. com um braço para fora, tateou a cabeça do bicho e enfiou a mão em sua boca estofada de gengivas. arrancou uma presa, arrancou a outra. usou-as para alongar o rasgo. saiu lá de dentro rolando em meio a vísceras ainda quentes.
eva notou que o coração havia se transformado numa maçã - tudo o que precisava para afastar a fome da noite. mas ela queria mais. então tomou nas mãos a cabeça da serpente e procurou sua língua. dela sugou o veneno, cuspiu-o na maçã, deu uma mordida e viveu para sempre.