sexta-feira, fevereiro 24, 2006

OH, YOKO

Pra vocês verem como eu sou praticamente uma balzaquiana, lembro-me do jingle do comercial de lançamento da Barbie no Brasil.

Barbies brazucas de então diferiam das americanas pelo rosto mais tosco e o cabelo que espigava logo. A minha tinha brincos ofuscantes e vestido azul.

Daí meus pais viajaram para Nova York e me trouxeram uma Barbie que eles acharam O HYPE. Ela usava calça jeans, camiseta de pelúcia rosa e botas de caubói da mesma cor. No universo inteiro não existe Barbie que não seja EXTRA CAFONA, nem as da linha Oscar de la Renta se salvam, mas PARENTS pensavam que essa fugia à regra. Já eu a achava horrivelmente simplória - mas fiquei feliz porque pelo menos o rosto era bem mais bonito e o náilon do cabelo era descente.

Já contabilizava umas sete Barbies, um Bob, um Ken COM CABELO e uma Skipper quando o Américo me deu a mais ESTONTEANTE criatura de plástico criada pela Mattel: a Japanese Barbie 1st Edition 1985. Em outras palavras, uma Barbie GUEIXA.

Foi explosivo como HIROSHIMA entre minhas amiguinhas BARBEADAS, o auge do exótico.

Mesmo assim, ninguém me pedia para ficar com ela na hora de brincar: Barbie tinha que ser loira de olho azul e bochecha rosada. Mas não para mim. Boneca alguma era mais arraso do que a de cabelo preto, olho castanho e maquiagem laranja que eu tinha. Ela não sorria, o charme definitivo. E nunca foi chamada de Barbie. Barbie eram as outras. Minha japa girl era YOKO. Arigatô.

Eu tinha uma Barbie Rocker, uma de férias em Honolulu (que atualmente reside na estante da sala de papai trajando um modelo ANOS DOURADOS que costurei enquanto assistia ao drama de Lurdinha e Marcos na Globo), uma gran-gala cintilante (a cara da Cybill Sheperd) e muitas outras à imagem e semelhança da querida Olivia Newton-John - mas a balada era com Yoko. Minhas Barbies usufruíam de imbatível variedade de modelitos e acessórios, automóvel, móveis e banheira de espuma sugestiva, mas era a Yoko, com seu quimono vermelho fechado até o pescoço, que conquistava o Bob e o Ken.

PASTICHE DE SUSHI
Japanese Barbies, contudo, não funcionam no cinema. Excetuando-se cenário, figurinos e roteiro tipo fatos reais, "Memórias de uma Gueixa" é Hollywood com pobres pretensões nipônicas. Embora orientais, as atrizes negam o biótipo clássico (e adorável) da japonesa dentuça de pescoço curto: são altas, postura emancipada e caminhar de modelo, a delícia das salas de cinema ocidentais (sem contar com a lente de contato azul da personagem principal, que de "olhos de chuva" mais parecia OLHOS DE CATARATA). Com isto, destroem o delicado veneno da gueixa original, que acontece de ser muito mais excitante - Sada Abe tira A PROVA DOS SESSENTA-E-NOVE em "O Império dos Sentidos".

3 Comments

Querida,
Vou te emprestar o livro "Memórias de uma gueixa". É maravilhoso!!!
Sua barbie Yoko é linda. Milhões de vezes ela do que as tradicionais barbies "patrícias" loiras, sem graça, sem opinião, sem personalidade, sem noção e COM CHAPINHAS!!! hahahhahahahahaha

Ansioso pelo relato "Jojo in the blocks".

Surviviste ao Carnaval do Feels?
Bjs

Linda!
Sabe q eu tb tinha milhões e milhões de barbies, né? Meu pai foi um homem do mar e para compensar a ausência, trazia muitos presentes para compensar sua ausência. Os meus sempre vinham em forma de barbies e td que fazia parte do universo desta boneca. Eu até q gostava de todas, devia ser meio cafoninha, mas a que conquistava os corações dos meus Bobs e Kens era uma negra. Pense.... uma barbie negra! Eu não sei se já existem delas por aqui, mas na época era mega novidade. E minhas amigas olhavam para ela com um misto de inveja e preconceito. Mas eu a amava, e logo tratei de amarrar um pano na cabeça dela para fazer parcer um turbante. Naquela época maracatus, côcos, emboladas e folguedos ainda não faziam parte da minha vida, apenas o samba.
Mas meu coração já mostrava pelo que ele batia mais forte...
AH! E Enquanto as bonecas das minhas amigas eram denominadas de Jeniffer, Kelly e outros nomes americanizados, minha neguinha se chamava simplesmente Maria.
Temos muito mais coisas em comum do q imaginamos, não é mesmo Jojô?
Sempre q eu passo por aqui descubro algo.
Obrigado por vc existir. É uma pena q a gente tenha tão pouco contato.
Beijocas no seu coração.

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Esta página contém um post de joana publicado em fevereiro 24, 2006 1:22 PM.

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