INTRO
EU TENTEI. Tentei entender o que Stephen Hawking escaramuçou em "O Universo numa Casca de Noz". Afinal, eram espirais de exemplares empilhados na livraria, tais quais móbiles de Ligia Pape. A editora claramente esperava vendas em massa. Física sofisticada para leigos.
Se a pilha de livros fosse menor, menos humilhante teria sido minha experiência com "O Universo". Excetuando-se o capítulo sobre BRANAS, eu não entendi NADA. O nada em si rende equações excitantes para os cientistas, mas, no meu caso, só uma ignorante para não entender frase escrita num best-seller planetário.
Comentei sobre meu desapontamento com o físico que trabalha na empresa e combinamos que ele ficaria com meu "O Universo" e eu com o "Alice no País do Quantum" dele. Formidável a idéia de usar o LEARYANO "das Maravilhas" para fazer Física Quântica didática.
Reincidentemente, INCOMPREENSÍVEL.
No longa "Ponto de Mutação", Liv Ullman conseguiu uma primeira e MACIA introdução do assunto em minha cabecinha confusa. Mas foi com Carl Sagan em seu INCLASSIFICÁVEL "Cosmos" que finalmente voltei a sentir-me parte do universo CONSCIENTE.
I. É PARA ISTO QUE SERVE A SUA TELEVISÃO
CERTAMENTE a mais expressiva contribuição dos anos 80 para a humanidade, "Cosmos" é uma série de 15 capítulos - todos transmitidos em 1981 por algum canal de tevê. Lembro-me do frisson de vovó a cada início de episódio. Começava a musiquinha e ela levantava os braços e fechava os olhos, como uma WICCA californiana. Eu, desde MÍNI fascinada por mistérios diversos, quatro planetas na casa oito, contentava-me com as imagens das galáxias: quando você ainda é dente-de-leite, qualquer explicação proferida por Sagan soa ARAMAICO.
Vinte e quatro anos mais tarde, tipo novembro último, passei no jornaleiro para dar um gás no isqueiro e bati de frente com a CAIXA "Cosmos". A caixa com todos os CINCO devedezes. Os cinco devedezes que Rodrigo, o querido mais pioneer em matéria de conteúdos magnéticos, estava comprando semanalmente um de cada vez e ainda não tinha completado. A caixa comemorativa dos 25 anos de "Cosmos", celebrando os 18 da "Super Interessante", e o saber sorriu para mim.
"Cosmos" é muito mais que um cientista de arromba ilustrando a dinâmica do universo para as massas. É também uma viagem ao futuro e um dejá vu. Olhar para os confins das galáxias é olhar para o passado - a gênese das estrelas, dos planetas e a origem da vida. Mas para chegar ao telescópio que nos permite, tivemos que avançar no alcance da modernidade tecnológica.
Sagan evoca a Biblioteca de Alexandria, que já adiantava o heliocentrismo (conhecimento que desapareceu com a destruição do lugar e demorou séculos para ser redescoberto por esforço próprio de Copérnico); a Kepler, que mapeou os movimentos celestes; a Hubble, que descobriu que o universo está em expansão; e um sem-número de cabeções, incluindo povos primitivos que colecionavam preciosas notações sobre o céu de milhares de anos atrás. Sempre retroagindo na história, somos lançados para as mais sedutoras teorias e recentes descobertas.
Naturalmente, Einstein é um desses sujeitos. Após exemplificar a Teoria da Relatividade (com ajuda de dois garotinhos e uma motoneta na cidade de Vinci), Sagan apresenta as implicações de uma visita a uma galáxia vizinha: somente viajando próxima a velocidade da luz uma tripulação bem jovem conseguirá chegar, idosa, a outro planeta; mas enquanto para ela apenas décadas transcorreram, aqui na Terra milhões de anos terão se passado. Para quem se desloca perto da velocidade da luz, o tempo passa cada vez mais devagar. Nunca teríamos notícias de nossos astronautas. Pior: o sistema solar já teria desaparecido. Eles não teriam para onde regressar.
Sem dúvida os melhores episódios focam o espaço sideral. Se não são imagens incríveis de corpos e fenômenos celestes, é Sagan pilotando sua "nave imaginária", com painel de botões de acrílico e janelão. Estrelas nascem em ninhadas de poeira cósmica, passam a maior parte de suas existências girando em galáxias espiraladas e morrem em apoteoses que variam segundo suas massas iniciais. Daqui a milhões de anos nosso sol, estrela de grandeza menor, vai se expandir até engolir todos os planetas do sistema e depois encolher até ficar do tamanho de uma cidade - uma densa bola de matéria morta chamada Anã Branca. Estrelas maiores se expandem ainda mais (fenômenos conhecido como Gigante Vermelha) até explodir enlouquecidamente, liberando enormes quantidades de gases que formarão estrelas-bebês. Então retrai-se para o tamanho de uma bola de golf, tão densa que suga até a luz: um buraco negro, voilá.
II. SEM IMAGINAÇÃO NÃO HÁ REALIDADE
Daí Carl Sagan pega nossa vontade de ir a outro planeta, mais uns buraquinhos negros e joga com a hipótese de usá-los como atalho para chegar num destino alienígena. É possível que o espaço sideral, que nos parece tão lisinho, esteja repleto do que os cientistas chamam de Buraco de Minhocas (talvez a salvação para o Mochileiro das Galáxias). Mais: cogita-se que o universo conhecido seja curvo como uma bolha de sabão e que as galáxias estejam escorrendo por sua superfície. Note: apenas o universo conhecido.
Ficar no VÁCUO é normal. Sagan faz uma revelação contundente no momento um e você perde o momento dois, três, quatro e cinco porque sua imaginação ainda está viajando no primeiro. É, imaginação. O assunto exige capacidade de abstração altamente desafiadora para leigos e criaturas cuja percepção só alcança a terceira dimensão (toda a raça humana). De modo que "Cosmos" é pontuado por parâmetros e situações hipotéticas que ajudam a alavancar nossas mentes para perto da realidade natural.
Para dar uma noção mais precisa de tempo em escala cósmica, por exemplo, nosso SCIENTIFIC AMERICAN divide o intervalo entre o Big Bang e o hoje em um ano. Em 365 dias, tudo acontece: o sistema solar é formado, a Terra esfria, a vida surge na água, plantinhas, dinossauros, mamíferos, chimpanzés. Nosotros só aparecemos nos últimos DEZ SEGUNDOS da festa.
Sagan deseja que o homem aumente sua participação no ano cósmico ao invés de virar abóbora quando dá meia-noite no dia 31 (recordemos que, na época, a Guerra Fria comia solta e destruição em massa era o fato iminente). Mensagens ecológicas ventam subliminar ou diretamente. No capítulo sobre seres alienígenas, elabora para as câmeras um cálculo cientificamente aceito que indica as chances de vida inteligente aqui mesmo, dentro de nossa galáxia. O resultado vai de um mínimo de dez planetas civilizados até 100 milhões. Ainda que minúscula e fugaz, vida é o que existe de mais raro - e magnífico - no tempo-espaço.
Acostume-se com materiais tipo hélio, carbono e hidrogênio, eles estão por toda parte. Aliás, se a tabela periódica atormentou-lhe o vestibular, a hora é agora. Pode ser porque professores não sabem ensinar, pode ser porque ficamos mais velhos ou simplesmente porque Sagan coloca as substâncias em seus devidos papéis, e tudo ganha sentido. É todo um maravilhoso mundo da Química a endossar Moby: somos todos feitos de material estelar.
III. SPIRITUAL SKEPTICAL CIENTIST
CARL SAGAN não só apresentou como escreveu e encabeçou a realização da série - depois da legenda Cosmos by Carl Sagan do início de cada programa, com caracteres toscos da era pré-computador pessoal, vêm os dizeres A Personal Voyage. A despeito do penteado CHANERD e figurino setentista, seu carisma é esmagador; sua locução, gesticular redondo e ABSOLUTEZ diante da câmera conferem-lhe um magnetismo from outter space.
Em particular, o sucesso da série está no fato de Sagan ser um cientista espiritual. Está rigorosamente alinhado com a cética Ciência sem aniquilar a fé e o significado; pragmático e inspirador sem ser supersticioso. O mais próximo à religião que chegou foi no capítulo sobre os ciclos de criação e destruição do universo. Lá está Sagan na Índia, CÍTARA ao fundo, citando o Mahabharatha. Na seqüência, explica que o hinduísmo é a única filosofia espiritual cuja doutrina se afina com a Ciência contemporânea. Ele fala sobre a perturbadora semelhança entre o contínuo "sono com sonho" e "sono sem sonho" de Brahma e a tese formalmente aceita sobre o ciclo de nascimentos e mortes do universo. Há uma grande explosão, expansão da matéria, retração e nova explosão em sucessões infinitas, bem como a célebre e eterna dança de Shiva. Tanto para o hinduísmo como para a Ciência, jamais houve uma primeira grande explosão nem haverá uma última, mas inúmeras, desde sempre e para sempre. O universo sempre se expandiu e retraiu; nós somos uma gota temporária bem no meio de uma das marés do oceano sem fim.
Permanentemente embevecido com o conhecimento, Carl Sagan dedicou a segunda parte de sua vida para a popularização da cosmologia. "Cosmos" foi somente sua principal empreitada neste sentido: ainda publicou romances de ficção científica que familiarizam o sujeito médio com alguns conceitos até então restritos ao meio especializado. O mais famoso é "Contato", que virou filme co-produzido pelo autor e estrelado por Jodie Foster.
Aqui você troca a tevê pela tela do computador para fazer "Cosmos" LIVE FROM THE TELESCOPE.
"Não devemos ter medo dos confrontos. Até os planetas se chocam e do caos, nascem as estrelas" (Charles Chaplin)
Querida, amei o post. Quero assistir ao "Cosmos" e não vamos nunca deixar de falar sobre isso... Nada é por acaso. Cruzamos nossos caminhos porque temos de trocar sempre...
Te adoro! Bjs
vide amit goswami, baby.
muito bom moreee
Nossa!!! D+!!!
Jojo, TEMOS que fazer a sessão do Connections do James Burke.
mujer! fabuloso!
sou louca por esse tema! ag ente podia fazer uma namers session com esses programas!!!! o q vc acha??
vamos disseminar na lista!
ah, vc viu "what the bleep do we know?" (tradução horrível: "quem somos nós?")
é bem por aí tb: física quantica, espiritualidade, relações humanas! documentário muito bom (apesar de perder o foco um pouco no meio do filme...se bem que...)
bora fazer a session!
beijunda
ainda não li o post, mas tava rindo sozinho lembrando da tua imitação HILÁRIA do véio Sagan.
impagável!
Arrasou, jojo !
Também sou fascinada pelo tema ! Precisamos sentar pra conversar mais sobre todas essas teorias cosmogônicas :)
"With a palm full of stars, I throw them like dice (repeatedly) until the desired constelation appears.."
- advinhe quem canta isso ? ;)
beijorks
Joana Espacial Especial,
cada vez mais voamos mais longe em sua espaconave literaria.
quando sai o livro afinal????
(que livro? pq nao?)
beijos de seu admirador terraqueo
Boa Jojo!!!!
Precisamos mesmo fazer uma sessão para ver...
Super beijo lindona!!!!
Sagaz o Sagan, hein?
{argh}