quinta-feira, outubro 06, 2005

DEVOTA DE SÃO JORGE

Sao Jorge.jpg

Oito dias em zero freqüência: de tanto que desejei virou realidade e, sem programar, entrei em rota de encontro com ela. Me diga há quantos anos eu sonho em ficar perdida no nada-para-fazer de um povoado que nem existe no mapa? Se o Chamado serviu para alguma coisa (bem porque foi um fiasco ele serviu para muitas), uma delas foi pra me botar bonitinha no ônibus para São Jorge. É uma pracinha bem pequena com nem duas dezenas de ruas esquadrinhadas ao redor, não tem jornal nem correio nem internet nem muito do que a gente conhece. Pelo menos não como a gente conhece: a farmácia, por exemplo, divide seus oito metros quadrados com a sorveteria.

Fez crunch feito o chocolate quando desci do ônibus porque lá não tem rodoviária e largam a gente no meio da rua principal mesmo. Fez crunch porque o asfalto ainda não chegou e o solo é todo feito de tritura de cristal branco e rosa. Dá até pra escolher e levar pra casa. De noite a iluminação é fraca ou dá blecaute (a eletricidade chegou tem só dez anos) e quando a lanterna bate no chão os cacos brilham feito olho de gato. Vai que é por causa da energia em crise que os vagalumes são tão grandes e luminosos, e tão rápidos!, anoiteceu e faltou luz e pareciam naves de filme de ficção, as crianças correndo em bandos atrás deles no escuro.

Antes mesmo da gente assentar as barracas no quintal do Pelé eu catei um telefone público, muito saltitante por ter um ali tão facinho, e liguei pra ma Feels pra contar que todo o meu sonho de ficar vendo a vida passar em lugar nenhum estava se realizando, e mesmo com este post vocês jamais me entenderão como ele me entendeu naquela ligação. Se existe uma criatura que tinha que estar lá comigo era ele, e não só porque ele é o meu tudo, mas porque compartilhamos igual encanto pela doçura da roça.

As coisas de Brasil que ele me ensina estavam nas paredes naïf das casas, no chão da pracinha...

naif e diabinho.jpg

... na minha constante saudade de Vitor Ramil, Quinteto da Paraíba e dos outros. E tudo o que eu desejo agora é que eu nunca mais fique tão longe dele, posto que é sofrido, e que se for pra ir só se for junto - de preferência pra Canudos, deserto do Jabotão ou qualquer lugar que rendesse um cordel bem gracioso.


E QUE NEM EM PENSAMENTO ELES POSSAM ME FAZER MAL

Estátua de São Jorge, o santo, eu já tive duas e as duas danaram. A primeira eu cheguei em casa e encontrei carbonizada, a vela votiva incendiou misteriosamente e a parede ficou preta até o teto. A cera derretida misturou com o vermelho da capa do santo queimado e pareceu sangue. Vai que, se não fosse ele, teria sido minha casa toda.

A segunda era maiorzinha um pouco. Ficava no aparador junto com outras antenas místicas e bela noite Calvin derrubou no chão. Era pra ter quebrado em caquinhos, mas nada: ficou inteiriço, não tivesse partido bem no pescoço do santo. A cabeça de gesso pendurada tal qual saída de nove décimos de guilhotinagem.

Vai que, se não fosse a dele, teria sido a minha.

3 Comments

Eu tb pisei nestes cristais! É uma das melhores sensações desta Chapada. Linda a imagem de São Jorge. Preciso de um aki em casa tb. Bem agora q vc voltou, vou te procurar pra trocarmos figurinhas de viagem. Beijão.

Sao Jorge 10 a zero no Chamado. Goleada...

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Esta página contém um post de joana publicado em outubro 6, 2005 2:21 PM.

é a postagem anterior.

A QUESTÃO INDÍGENA é a próxima postagem.

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