Tinha esse barbante separando o camping da área do Puxirum no Chamado.
Armamos nossas barracas bem na fronteira, onde havia uma sombra de árvore - que vale ouro quando a umidade do ar está em 20%. Rápido o camping encheu; quando a Carol chegou, perto da gente e com sombra decente só tinha lugar ali, logo do outro lado do BARBANTE DE BERLIM.
Na Rainbow Family não havia demarcação de áreas e para nós o esquema do Chamado era um absurdo total. Ao contrário da Rainbow, que repousa tradicionalmente na benevolência, intuição e independência dos participantes, o Chamado apostou na ignorância e partiu do princípio que tudo ali precisava ser patrulhado. Eu e Carol acreditávamos que a ocasião não poderia ser melhor para defender nossos valores e praticar saudável "desobediência civil" em nome da vontade de integração geral.
Como enquanto armávamos a barraca Juan, um índio quéchua, se aproximou, apresentou-se amistosamente e nos ofereceu ajuda dentro daquela que seria a área de seu povo, interpretamos como boas-vindas, e sossegamos.
Contudo não tardou para que uma espanhola com maneiras de fada Sininho totalitária perguntasse se conhecíamos o sujeito que havia erguido a barraca ali. Carol não estava e respondi que sim. Ela disse que a barraca estava na área particular indígena e eu argumentei que aquela demarcação de território era a própria propriedade privada que todos tanto execravam. Fada Sininho se irritou e disse que eram as regras, eu contra-argumentei que aquelas regras feriam a integração que nós desejávamos e que não obedeceríamos. Sininho disse que os índios precisavam de privacidade e contei sobre a receptividade de nosso amigo Juan, sugerindo em seguida que organizássemos um círculo de debates com os próprios índios para resolvermos o impasse. Sem mais o que dizer, ela se foi.
Três dias depois eu me preparava para seguir para São Jorge e Carol decidiu vir comigo, mais Folopo e Vivian. Ajudava-a a desarmar sua barraca quando um espanhol chegou com sorriso doce e agradeceu por estarmos nos retirando da área do Puxirum. Imediatamente esclareci que desarmávamos a barraca para ir embora de um encontro que primou pela verticalidade e intolerância, e que se tivéssemos resolvido permanecer, só retiraríamos a barraca caso os próprios índios solicitassem. Nosso interlocutor levantou a voz e apresentou-se como CHEFE DO PUXIRUM e que aquelas eram as regras. Eu levantei a voz igual e disse que a diferença entre ele e um engravatado da Babilônia era ZERO; e que um espanhol tomando conta do espaço dos índios me remetia a 500 anos atrás.
Carol tentou harmonizar as coisas alegando que, para nós, brasileiros, a maioria com índios na ascendência, era muito difícil convencer que aquele Puxirum não era um pouco nosso também. Era o caso dela, de avó índia.
O maluco ainda apelou pro badabauê e disse que o Puxirum - que até então não tinha uma parede em pé e, fui saber, jamais chegou a ter - havia sido projetado para funcionar como uma ANTENA ENERGÉTICA e que não poderia haver INTERFERÊNCIAS. Eu rasguei um sorrisinho e vomitei a discriminação pungente: então nós, os participantes, éramos o vibrião potencialmente causador de interferências na santitude ameríndia! Com isso levei o CORONEL às tapas do sangue quente; e ele bateu em retirada.
Miolos fervidos também estavam os meus; ao avistar Valdez, o índio amazonense que conhecemos dias antes em Alto Paraíso, senti-me no dever de revelar o episódio, para que ficasse bem claro o que caras-pálidas andavam fazendo em nome dos pele-vermelhas.
Valdez ficou lívido, desculpou-se pela fada Sininho e pelo coronel e disse que os índios jamais reivindicaram delimitação de espaço próprio durante o evento. Chorei um pouco, eu e Carol expressamos a alegria de tê-lo conhecido e nos despedimos com um longo abraço.
Aguardávamos o ônibus para São Jorge na rodoviária de Alto Paraíso quando nos deparamos com Valdez, também recém-despedido do Chamado: depois que fomos embora, ele discutiu com o espanhol sobre o caso da barraca; além disso, não havia abrigo nem alimentação adequada para sua gente. Arrumou suas coisas, ligou para a FUNAI e SUSPENDEU A IDA DOS 80 ÍNDIOS que aguardavam seu parecer sobre o evento. Não havia condição.
Daí arrebentou a primeira chuvarada da Chapada em três meses.
Em SAINT GOURGEOUS a viagem recomeçou como se absolutamente nada tivesse acontecido.