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abril 30, 2008

Chinesas e alemãs

Chinesas e alemãs


São dois tipos, isso. Foi o que descobri.

Como descobri? Cultura televisiva. Para ser mais exato, tudo começou com a morte neste mundo de mais uma televisão - a minha. Nada de trágico, adianto: foram nove meses comigo, e mais provavelmente nove anos nas mãos dos meus predecessores. Estava vermelha, estertorando listras diagonais e paralelas.

Certificado de óbito na mão, fui-me para Green Lanes, rua próxima daqui, onde um senhor turco encastelava-se por detrás de uma parede de televisores, completos ou esquartejados, como queiram. Havia passado ali em frente e o cenário me chamara a atenção, mais que ele os splashes de papelão e suas cifras bem mais modestas que as de qualquer Argos ou Currys da vida. Nada novo sairia dali, claro, mas, tal qual a história do ateu no avião, a atmosfera capitalista londrina me fez crer na reencarnação.

Vi o modelo que queria - 70 libras. Armado de subterfúgios, adentrei o recinto - mais que nunca, senti que ali renasceria em mim uma lenda da barganha. Um mito. O Sovina das Green Lanes, seria esta minha alcunha.

A batalha foi árdua, mas saí de lá com o modelo que queria - 70 libras. But, lo: o controle remoto veio de graça. E com pilhas. O Sovina de Green Lanes, seria um dia minha alcunha. Nada como crer na reencarnação.

Mas e o interior do castelo televisivo? Restos mortais abundavam, bem como placas, setas e sinais. Aerials, remotes, cables, plasma, sets, pest control...

Yep, pest control. Eis que o turco encastelado era também globalizado. Foram vinte e cinco anos vendendo e consertando tevês até que ele decidisse ampliar sua atuação para este ramo tão afim, a dedetização. Cupins, formigas, ratos, baratas...

Baratas? - perguntei. Não há baratas em Londres. Em todos os meus anos nesta indústria vital, nunca me aconteceu de cruzar com uma mísera sequer. Já morei em apartamentos, casas; tive jardins, entrei em lixeiras; freqüentei espeluncas, andei pela beira do rio - nenhuma, sério.

Ha! - disse-me o senhor do castelo - you wish! E explicou-me que estavam lá, à espreita, aos borbotões. Convenceu-me de que não vê-las só tornava mais terrível a ameaça. Eram dois os tipos - as facções? Chinesas e alemãs. Uma é média, lenta e capaz de escalar a mais lisa das paredes. A outra, minúscula, rápida e fértil, anda apenas pelos cantos e arestas junto ao chão. As americanas - prosseguiu - nunca haviam chegado.

Ao contrário dos esquilos, estes agora mais americanizados do que nunca. Pois eis que a lista prosseguia - cupins, formigas, ratos, baratas, insetos [agh! um, um... INSETO!], esquilos. A desesquilização, esta sim, o must do momento.

Mas baratas - insisti -, não vem. Não há baratas em Londres.

Sua resposta foi silenciosa. Abriu o caderninho de chamados e me apontou para a data de uns seis dias antes. Um chamado proveniente de Newington Green. Estava tudo ali, na verdade da caneta Bic azul. Hora, endereço e o problema a ser sanado: cockroaches. E a verdade da caneta Bic azul, desequilizai-me se estiver mentindo, é a Palavra.

E ele era Deus. Aquele senhor turco, encastelado entre aerials, remotes, insects e um farto bigode, era Deus.

Posted by sergiom at 10:10 AM | Comments (2)

abril 4, 2008

Contra a tolerância

Contra a Tolerância


Quarenta anos passados, cabe tentar entender alguma coisa sobre o dia de hoje.

Não se trata de tolerância: esta palavra estava praticamente ausente dos discursos do homem. Ouvia-se justiça, igualdade; não tolerância. Pois tolerar é afirmar uma desigualdade, é um ato de blindagem. Depende, em seu mais básico, de uma distância a ser mantida, e a distância serve ao status quo.

As idéias não são minhas, e eu passo a bola com prazer.

Posted by sergiom at 4:11 PM | Comments (0)