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agosto 11, 2007

Estadão Novo

Estadão Novo


Começo remetendo a este post do Tiagón. É sobre a lebre que ele levanta e suas oportunas colocações que quero comentar.

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De início, um pouco de análise semiológica da coisa toda. Sinteticamente:

O que está sendo dito: que existem bizarrices de toda sorte espalhadas pela world wide web. Fair enough. Que nesta selva, portanto, é muito fácil comprar gato por lebre. Que a rubrica Estadão garante que no seu monitor só vai chegar informação de qualidade.

O que não está sendo dito: que existem bizarrices de toda sorte espalhadas por páginas de jornal mundo afora. Que, implícito na argumentação da campanha está o conceito de que o leitor é um idiota, incapaz de avaliar por conta própria a informação que recebe. Que qualidade é um conceito pra lá de vago e que todo ato de seleção é também um exercício de poder: ou seja, que os critérios utilizados pelo Estadão ou por qualquer outro veículo podem atender mais a agendas políticas e econômicas específicas do que a critérios de qualidade objetivamente verificáveis.

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O ponto que sustenta a viabilidade da campanha é a insegurança. Peguemos, por exemplo, o caso do malandro lendo o blog do macaco. O quadro rapidamente pintado é de que ele - o leitor, não o macaco - seria uma espécie de intelectual. Afinal, cada palavra num comercial de 30 ou 60 segundos é cuidadosamente escolhida, e não é à toa que a figurinha menciona que faz uma pós em economia. A mensagem, portanto, é de que não importa o quão preparado você seja, não há como se proteger de bancar o palhaço ao recorrer a informações independentes.

Bueno, desnecessário dizer que o mundo hoje não é exatamente um mar de tranquilidade e segurança. Pelo contrário, poucas coisas produzem mais ansiedade no sujeito contemporâneo do que o bombardeio de signos - faça, compre, seja - e a velocidade com a qual nós somos exortados a responder a estímulos. Em poucas palavras, o mediascape é a morada do Superego. E o que o humor presente na campanha faz é justamente dar uma forma socialmente aceitável a um ato de terrorismo. Algo como uma bomba invisível de ansiedade.

É aí que entra o Estadão. Por um lado, agindo como um farol no meio da tormenta. É necessário que todos sejamos otários em potencial para que algo como qualidade garantida de informação seja um bem inestimável. Por outro lado, o Estadão também garante uma eficiência industrial na manufatura de um eu inteligente. O trecho final do comercial, com a edição acelerada, conota muito bem isso: em contraposição à morosidade do pseudo-intelectual em tons de sépia, numa coisa assim meio Berlim Oriental, entra uma edição rápida em primeira pessoa, aliviando o espectador/leitor de uma possível identificação com o pateta em questão. Muito pelo contrário, no Estadão você não só vai na certa, como vai rápido. Com o Estadão, velocidade não é signo de ansiedade, pero de eficiência. Engulam essa, gurus de auto-ajuda.

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O senso comum tem o péssimo hábito de ver a publicidade como um dado cuja qualidade varia do neutro ao natural. Em verdade, isso vale para outros componentes da paisagem ideológica que estruturam nosso dia-a-dia - meios de comunicação em geral, signos espalhados pela cidade, hábitos e costumes, expressões corriqueiras etc -, mas é surpreendente que até a publicidade, logo ela, consiga passar ilesa por nosso crivo diário. A publicidade nos chama atenção, sim, quando a tomamos como explicitamente ofensiva, ou seja, quando algo em seu conteúdo fere nossa sensibilidade. É dos poucos momentos em que percebemos a presença de algo nos endereçando permanentemente. Mas é um acontecimento em geral muito restrito, análogo a ler no jornal uma matéria sobre um assunto do qual entendemos: é dos poucos momentos em que notamos que as 'verdades' diárias que nos batem à porta são tão falíveis e parciais quanto as pessoas e sistemas por trás de sua escrita.

Mas como nenhum sistema roda bonitinho o tempo inteiro, até a publicidade tem seus momentos acidentais de subversividade. O que me remete a isso aqui. De certa forma, a mensagem final é a mesma: nossa informação é mais confiável que a informação dos outros. Não vou analisar todas as diferenças entre as duas campanhas aqui, mas apenas focar em uma que me parece bastante crucial. A campanha da Folha posiciona o que eu vou chamar de 'ansiedade da informação' no mecanismo mais caro à ideologia do jornalismo: a informação livre, isenta e objetiva. Ele mostra que o mais tecnocrata dos jornais, ou seja, aquele que crê piamente nesta ideologia, é o mais falível. Que o erro está embutido no próprio sistema. O Estadão, ao contrário, projeta esta mesma ansiedade em cima do leitor. Se o leitor, como eu disse, é sempre um otário em potencial, o jornal fica livre para assumir a posição não apenas de entidade infalível, mas de instância terapêutica. Como publicidade - mídia de massa, lembremos -, infelizmente, é muito mais eficiente: apela ao sujeito em toda a sua complexidade.

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Eficiente ou não, é, como o Tiago bem colocou, um tiro no pé. E o é porque nos obriga a parar e tomar uma postura crítica. De certa forma, a publicidade cumpre melhor seu papel quando passa despercebida. E o Estadão, melhor que ninguém, deveria saber que coisas assim geram celeuma na blogosfera.

Só me vejo obrigado a discordar do foco escolhido pelo Tiago para sua crítica. Vejo pouca necessidade de defender os blogs desse ataque, até porque isso é jogar segundo as regras que o próprio Estadão pôs sobre a mesa. É ficar na defensiva. Pode parecer que os blogs estão sob fogo cerrado, mas até o presente momento, o maior ataque quem sofreu foi o leitor. Ele é que foi chantageado e chamado de idiota. E obrigado a rir disso.

O que está em jogo aqui não é simplesmente a validade dos blogs, mas toda uma economia e uma ideologia da informação. Nessas horas, a melhor defesa é o ataque.

Posted by sergiom at agosto 11, 2007 8:27 PM

Comments

Era só mais um Silva Que a estrela não brilha Ele era blogueiro mas era pai de família

Posted by: Brenda at agosto 31, 2007 12:43 AM

Era só mais um Silva / Que a estrela não brilha / Ele era blogueiro / mas era pai de família

Posted by: Brenda at agosto 31, 2007 12:41 AM

Eu *sei* o que mais incomodou Tiagón em toda essa história.

Veja com seus olhos a cena de abuso e desrespeito à questão dinossáurica que a campanha retrata:

http://img462.imageshack.us/img462/3101/estado2vb3.jpg

Tenha medo.

Posted by: Brenda at agosto 15, 2007 5:47 PM

o que tem de bizarrice dentro de redações ou nas páginas dos jornais é de assustar qualquer blogueiro.
:>)

Posted by: Biajoni at agosto 14, 2007 3:18 PM

Linda analise...

Minha impressao e' de que o publicitario alvejou os blogueiros justamente para ter a campanha bastante discutida na internet. Se vai ser tiro no pe' ou nao, e' dificil saber. E' como aqueles comerciais horriveis e que irritam tanto que todo mundo comenta ("Ei, voce se lembra da minha voz?" ou o "Head On-Apply directly to forehead-Head On-Apply directly to forehead"...

Posted by: Leila at agosto 14, 2007 12:35 PM

de uma forma, talvez tenha sido mais corporativo do que gostaria, no meu post. o tom de desafio que eu quis dar no fim do texto deveria intuir isso: que, de fato, os blogs não precisam de defesa, porque se estabelecem numa relação diversa à que a campanha propõe. mas é possível que eu tenha excedido as explicações, mesmo.

quanto à tua 'defesa' do viés da campanha, posso compreendê-lo - mas, em se tratando de propaganda, é muita semiótica envolvida. e como não se trata de uma campanha que deva ficar memorável, acho que logo se perde e se lamenta.

ainda que não se fale de resultados - porque o tiro no pé ainda pressupõe o consumidor idiota, e números não fazem discrição alguma.


e, grande análise :)

Posted by: tiagón at agosto 11, 2007 11:33 PM

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