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dezembro 14, 2006
Contigüidade
Contigüidade
Data: semana passada. Local: UCL. Ocasião: cerimônia de premiação de bolsistas. Presentes: Eu, Ana, Cheng, Cheng, Cheng, Cheng, Cheng [...] e Cheng. Ah, e um vice-reitor aê.
Por alguma razão que ainda não se mostra clara, eu acreditei que a coisa não seria de todo enfadonho. 'Refreshments will be provided,' dizia o convite. 'Vai que,' pensei.
Há perigos insondáveis a rondar este tipo de evento. O primeiro são os chineses deslocados. Alguém tentou argumentar comigo outro dia que todos os chineses, mesmo os do Bruno Porto, são deslocados. Não é bom pensar que existem (quantos?) bilhões de deslocados no mundo.
Mas os chineses deslocados ficam à deriva no salão, copo de vinho na mão (chineses bebem vinho), à espera de um contato visual. É difícil escapar do contato visual com um chinês deslocado. É mais difícil ainda escapar do chinês deslocado após o contato visual. Aí vale tudo: ir ao banheiro (onde?), pegar mais um copo de vinho (não o do chinês), recorrer ao engenheiro deslocado (supondo que este não seja chinês; e se é que a melhora é muita). Vale até - perdão - apelar e fingir interesse nos O.E.N.I.s.
O O.E.N.I. (Objeto Empanado Não-Identificado) é outra presença constante nestes eventos. São identificáveis à distância, de crosta gordurosa e essência enigmática. Há O.E.N.I.s de todas as formas, cores, tamanhos, texturas e... sabores?
Um dos O.E.N.I.s mais interessantes desta última ocasião apresentava um rabo de camarão para fora da parte empanada que o caracterizava. Isso pode ter levado alguns a acreditar que por baixo da carapaça seboso-farinácea havia... um camarão. A conclusão é precipitada e parte de um pressuposto a priori: de que existe uma natural e inabalável relação de contigüidade entre um rabo de camarão e um camarão inteiro (menos o rabo).
A causa do mal-entendido é regressiva. Freud explica que a criança, que tem como referencial o Camarão Primordial, de Totem, Tabu e Chop-Suey, assume que todo camarão tem um rabo. É um momento traumático aquele em que o O.E.N.I. advém em seu campo visual e que, ao dar vazão à pulsão oral, descobre que o rabo em questão não corresponde a um camarão. A criança fica desorientada e pega mais um copo de vinho, tornando-se presa fácil para o chinês deslocado (representado por Lacan pelo matema <¦Þ ).
Há, no entanto, quem negue a separação simbólica entre o camarão e seu rabo, e insista na fantasia de que há um camarão por trás do O.E.N.I. (em outras palavras, na tese de que há substância no O.E.N.I.). Estas pessoas estão condenadas a uma vida de neurose, psicose e arterioesclerose.
No próximo capítulo, vamos entender o que acontece com o corpo separado do camarão, analisando as hipóteses de que ela realize:
a) um retorno ao Camarão Primordial, saindo assim do simbólico e da data de validade;
b) a simbolização do Camarão Primordial, desfazendo assim a idéia de um Camarão Real (como visto em toda em qualquer lasanha ou O.E.N.I. de camarão à venda no supermercado).
c) que ela passe a integrar a Sopa Primordial, que figura diariamente no cardápio do boteco da esquina: mesmo gosto, mesmos ingredientes, mesma data de fabricação, dia após dia.
Posted by sergiom at dezembro 14, 2006 9:13 AM
Comments
Ah, que bom, os Chengs te acharam! Te entregaram o cavalo do playmobil?
É só não alimentá-los depois da meia-noite com camarão (nem molhe-os com refreshments!) que tudo fica bem e eles não mexem com você.
Posted by: Bruno Porto at dezembro 15, 2006 12:22 AM