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dezembro 23, 2006
E no sétimo dia, Deus fez a digestão
E no sétimo dia, Deus fez a digestão
Em dois dias, celebraremos o mistério máximo da criação: por que diabos se come comidas de inverno no Natal brasileiro?
Empanturrados de castanha, peru, presunto, rabanada e afins (castanha, peru, presunto e rabanada são afins?), lembraremos que existe mais no mundo do que aquilo com que nos deparamos em nosso apressado dia-a-dia. Exemplos: tâmaras, frutas secas, farofa e purê de maçã.
Alguns reunirão a família e ligarão o ar-condicionado.
Outros recorrerão ao eparema da meia-noite.
Alguns, ainda, acreditarão que noz é digestivo. Ok, fé não se discute.
Ao contrário da maior parte de vocês, eu tenho a felicidade de contar com um clima ideal para o reencontro com estes alimentos calóricos: zero graus, humidade, vento, chuva fina e nevoeiro. Não precisarei me dividir entre um tender no estômago e um mate na praia. Posso tremer até os ossos com o prazer de saber que o aquecimento falho da minha casa não vai interferir no caminho natural dos suínos natalinos.
Ha! - pra vocês.
Estes são os votos saudosos de Miúdos (ok, esse final foi péssimo. vou comer mais um panetone como punição).
p.s.: e se o champanhe acabar, basta reeditar um antigo milagre com ingredientes caseiros e tascar sonrisal no vinho branco. É batata (não, obrigado, tô satisfeito...)!
Posted by sergiom at 10:48 AM | Comments (1)
dezembro 22, 2006
Metereologia para leigos
Metereologia para leigos
Dizem que está um fog incrível aqui em Londres. Mas ainda não consegui ver, tem muita neblina.
Posted by sergiom at 3:42 PM | Comments (1)
dezembro 14, 2006
Contigüidade
Contigüidade
Data: semana passada. Local: UCL. Ocasião: cerimônia de premiação de bolsistas. Presentes: Eu, Ana, Cheng, Cheng, Cheng, Cheng, Cheng [...] e Cheng. Ah, e um vice-reitor aê.
Por alguma razão que ainda não se mostra clara, eu acreditei que a coisa não seria de todo enfadonho. 'Refreshments will be provided,' dizia o convite. 'Vai que,' pensei.
Há perigos insondáveis a rondar este tipo de evento. O primeiro são os chineses deslocados. Alguém tentou argumentar comigo outro dia que todos os chineses, mesmo os do Bruno Porto, são deslocados. Não é bom pensar que existem (quantos?) bilhões de deslocados no mundo.
Mas os chineses deslocados ficam à deriva no salão, copo de vinho na mão (chineses bebem vinho), à espera de um contato visual. É difícil escapar do contato visual com um chinês deslocado. É mais difícil ainda escapar do chinês deslocado após o contato visual. Aí vale tudo: ir ao banheiro (onde?), pegar mais um copo de vinho (não o do chinês), recorrer ao engenheiro deslocado (supondo que este não seja chinês; e se é que a melhora é muita). Vale até - perdão - apelar e fingir interesse nos O.E.N.I.s.
O O.E.N.I. (Objeto Empanado Não-Identificado) é outra presença constante nestes eventos. São identificáveis à distância, de crosta gordurosa e essência enigmática. Há O.E.N.I.s de todas as formas, cores, tamanhos, texturas e... sabores?
Um dos O.E.N.I.s mais interessantes desta última ocasião apresentava um rabo de camarão para fora da parte empanada que o caracterizava. Isso pode ter levado alguns a acreditar que por baixo da carapaça seboso-farinácea havia... um camarão. A conclusão é precipitada e parte de um pressuposto a priori: de que existe uma natural e inabalável relação de contigüidade entre um rabo de camarão e um camarão inteiro (menos o rabo).
A causa do mal-entendido é regressiva. Freud explica que a criança, que tem como referencial o Camarão Primordial, de Totem, Tabu e Chop-Suey, assume que todo camarão tem um rabo. É um momento traumático aquele em que o O.E.N.I. advém em seu campo visual e que, ao dar vazão à pulsão oral, descobre que o rabo em questão não corresponde a um camarão. A criança fica desorientada e pega mais um copo de vinho, tornando-se presa fácil para o chinês deslocado (representado por Lacan pelo matema <¦Þ ).
Há, no entanto, quem negue a separação simbólica entre o camarão e seu rabo, e insista na fantasia de que há um camarão por trás do O.E.N.I. (em outras palavras, na tese de que há substância no O.E.N.I.). Estas pessoas estão condenadas a uma vida de neurose, psicose e arterioesclerose.
No próximo capítulo, vamos entender o que acontece com o corpo separado do camarão, analisando as hipóteses de que ela realize:
a) um retorno ao Camarão Primordial, saindo assim do simbólico e da data de validade;
b) a simbolização do Camarão Primordial, desfazendo assim a idéia de um Camarão Real (como visto em toda em qualquer lasanha ou O.E.N.I. de camarão à venda no supermercado).
c) que ela passe a integrar a Sopa Primordial, que figura diariamente no cardápio do boteco da esquina: mesmo gosto, mesmos ingredientes, mesma data de fabricação, dia após dia.
Posted by sergiom at 9:13 AM | Comments (1)
dezembro 4, 2006
Voltei
Crianças, voltei!
O retiro foi longo, mas está findo o longo inverno. O inverno metafórico, isso é, porque o inverno aqui na Inglaterra está apenas começando. Portanto, o que eu quero dizer é que, no âmbito deste blog, a seca de palavras - seca, daí a metáfora do inverno - está acabada. Tudo bem, palavras não secam, mas... ah, enfim, é isso.
Na verdade, eu esperava um sinal para voltar a postar. Procurei em todos os lugares, mas nada.
Procurei nos novos episódios de Lost, onde o Rodrigo Santoro parece ter se especializado em dizer what happened?, mas nada.
Procurei na história do espião russo aqui em Londres, mas só achei polônio. Ahh-TCHIM!
Procurei no gravy, mas gravy não tem substância, o que torna minha proposição logicamente absurda.
Procurei no eBay, mas lá encontrei apenas ingressos para o Magic Numbers, Clap Your Hands Say Yeah! e outras coisas que são até bacaninhas, mas que não dão sinal algum.
Procurei no Tesco. Lá tinha, mas tinha acabado.
Tentei procurar nos peitos da Jessica Alba, mas tudo o que esta empreitada me rendeu foram sinais de punhos no rosto. Não eram estes os sinais que eu procurava.
Até que tive um sonho. Foi na noite passada.
Sonhei que assistia a uma aula. Quem dava essa aula era Karl Marx.
Karl Marx era uma mulher. Ela tinha bigode pontudo, estilo Pai Mei. O estranho, pra mim, era que Karl Marx estava vivo.
Assim sendo, considero recebido meu sinal. Porque se isso não é o sinal, não quero nem saber o que é.
Eu disse que NÃO QUERO SABER, ok?
Posted by sergiom at 8:04 PM | Comments (2)