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agosto 22, 2005

Classe A

Épicos Cotidianos
capítulo de hoje: a ignomínia


Gente é o tipo da coisa, vocês sabem, que não me inspira lá muito amor. Em homenagem a toda essa categoria, portanto, me gustaria agora trazer para vocês mais um bela e instrutiva história de altruísmo e hombridade.

Alguns dos nobres talvez se lembrem da saga de Rogenas da Silva, a empregada doméstica que ganhou um Mercedes Classe A, mas não levou. Foi no supermercado, fez as compras, preencheu os cupons, ganhou; tudo lindo. Ou não, como bem lembra a Folha de São Paulo:

Na ocasião, Adelino Bulhosa e Sandra Conrado Bulhosa, patrões de Rogenas, alegaram que a empregada tinha obtido os cupons com as compras feitas para eles. Naquele ano, o casal tinha na garagem quatro carros: um Fiat Coupé, um Vectra, uma caminhonete e uma Dakota Sportage.

E terminou demitida e processada. Rogenas inicialmente ganhou a questão, mas os finos exemplares de virtude que a empregavam tiveram a manha de recorrer ao STJ.

Fica melhor. Os patrões não acreditaram quando ela disse que também havia feito compras para sua casa. Mas-contudo-porém-todavia-entretanto:

"Conseguimos fazer uma perícia e foi comprovado que os cupons da família tinham sido depositados. A Rogenas fez questão de escrever os nomes dos chefes e dos filhos deles nos recibos. A partir daí, ficou mais fácil provar a inocência dela", disse o advogado Antônio Augusto Pereira Lopes.

Ganhou. Ganhou um carro usado e desvalorizado após cinco anos acumulando mofo na garagem do Golden Green - mesmo condomínio onde tem casa o Parreira, o Ronaldo, os Bulhosas, a Dakota, o Vectra e o Fiat Coupé (quer dizer, imagino que os três últimos já tenham sido devidamente trocados por brinquedinhos atualizados).

"Após toda a humilhação que passei, vou vendê-lo o mais rápido possível e comprar minha casa", disse Rogenas, que mora de aluguel em uma favela de Jacarepaguá, zona oeste do Rio.

Não me espanta muito profundamente que os bacanas não tenham noção. Mas me fascina que não tenham amigos, alguém para chegar e mandar um 'alôu? tá maluco, maluco?'

Nah. Mas algo me diz que devem ter encontrado muitos compadres e comadres dispostos a concordar que, com Rogenas, o carro estaria destinado a 'virar chachaça na mão dum vagabundo qualquer.'

Classe A.

E boa segunda-feira. De repente o mundo até sobrevive a mais esta semana.

Posted by sergiom at agosto 22, 2005 10:02 AM