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julho 7, 2005
Sobre fogo, calma e espaços ideológicos
Sobre fogo, calma e espaços ideológicos
Hoje de manhã, estava no aeroporto de Luton, ao norte de Londres, quando tocou meu telefone. A notícia me alcançou assim: esperando minha mala, recém-chegado de Budapeste. Mais cedo, enquanto saía da capital húngara, apreciava com alguma distância a cor sépia e os carros velhos que insistiam em circular por entre os bondes da cidade. Budapeste, pérola do leste europeu, ainda cultiva uma atitude em relação ao seu passado que oscila entre a nostalgia e a monumentalização. Na praça onde a embaixada americana e seu aparato de segurança circundam um velho monumento soviético, a Guerra Fria é relegada à poeira dos livros e museus. Aquele monumento, longe de demarcar qualquer espaço, é agora um monumento de si mesmo.
Luton estava lotado. Não havia para onde ir, nem como. Os poucos que moram no centro de Londres - e eu moro aqui, colado em Russell Square - ainda podiam pegar um trem especial para casa. Especial porque vazio, porque os funcionários advertiam que não era exatamente aconselhável voltar naquele momento para o centro de Londres.
Alguns dias antes, discutia com a Clarisse sobre a eficácia do Live 8. Na opinião dela, há que se respeitar eventos que mobilizam espaço ideológico em torno de uma causa. Em Budapeste, o monumento soviético agora sinaliza outra ideologia, a do museu ao ar livre. Sua pompa e dignidade tornaram-se um trófeu.
Na Holborn Avenue, os ingleses caminhavam com uma certa calma distraída. Não havia trânsito nem expediente, mas um barbeiro colocou sua TV do lado de fora da loja. No estande em frente, os jornais estavam mais preocupados com Londres 2012. Só que o dia de ontem, coisa incrível, teimava em não vender. Não é como em Budapeste.
No trem para Londres, um galês me perguntava o que se passa na cabeça de quem deixa uma bomba no metrô. Comunicação, pensei sem responder. Um pouco dessa cabeça agora ecoa na de todos nós. Espaços ideológicos: são as sobras da utopia de Bob Geldof, do cadáver moscovita em Budapeste e do ônibus retorcido em Tavistock Place. Admiração e condenação são os tijolos e o cimento deste espaço.
Em Budapeste, nenhum pé-direito tem menos de quatro metros. Nada que uma objetiva simples não capte. Já em Londres, o monumento é natimorto: cada um já quer seu naco, como quem arranca um pedacinho do muro de Berlim.
Eu ouvi a explosão. Eu passo lá todo dia. Essa linha do metrô passa embaixo do meu apartamento.
Em Budapeste, as pessoas sentem saudades de quando podiam ser heróis.
Em Londres 2012, David Beckham vai estar velho.
E aqui, no International Hall, me avisaram: nem adianta tentar ir ao Tesco. A rua está interditada. Você não vai chegar lá.
Posted by sergiom at julho 7, 2005 3:58 PM