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maio 31, 2005

E continua

E continua...


Pra quem pegou o bonde andando, comentei essa história pela primeira vez três posts abaixo, logo ali.

Sabia que a coisa iria ganhar proporção. Já está entre as top stories de um site internacional de notícias. Eis um pedacinho:

The case drew national attention and threw a spotlight on the subculture of role-playing games, which often employ occult imagery. Legislators in Espirito Santo state hastily introduced a bill to ban the games, and priests and pastors across Brazil penned sermons denouncing them.

"We must put the brakes on anything that encourages violence in our state," said Espirito Santo state assemblyman Robson Vaillant.

Botou deputado, padre e pastor fazendo coro, vai querer o quê? Resposta: unanimidade, no sentido mais rodrigueano do termo. Daqui a pouco vão dizer que está comprovado que jogadores de RPG usam camisinha. É o demo.

Falando em demo, gostaram da parte do "often employ occult imagery"? É isso que está sob os tais dos holofotes. Mas essa bola eu já cantei antes, então dispenso mais comentários sobre o assunto. O que ainda ensaia um salvamento nesse caso é que a imprensa gringa é um pouco menos patética do que a nossa. Adiante, na matéria, eles finalmente se dão ao trabalho de tentar entender minimamente do que diabos (sempre ele) estão falando:

To enthusiasts of role-playing games, the police version is full of holes. They say games can last for months or years and that there are no winners and losers, and never any betting.

Rodrigues and Mendes were working-class men who had known each other for more than 10 years and met the middle-class Guedes only on the day of the killing. It seemed more than suspicious that Guedes was the loser, and that they were playing at his home with his parents there to watch.

(working-class, middle-class, agora vai)

Mas já tá melhorzinha que a matéria que linkei no post anterior. Agora, se me permitem, posso bater numa mesma tecla? Lá vai:

Receita Caseira de Normalidade

Ingredientes:

1 subcultura
1/2 tigela de jornalistas
1 punhado de ideologias não-questionadas
Doses fartas de passividade bem madura, cultivada por anos
Imbecilidade a gosto

Modo de preparo:

Tire a subcultura daquele canto bem esquecido da sua geladeira velha e cubra-a bem com os jornalistas. Coloque tudo numa bandeja e recheie bem com as ideologias, de modo que não sobre nenhum espaço para questionamento ou profundidade. Enquanto cozinha, certifique-se de que o paladar dos convidados (é importante que não sejam paladares) já esteja bem saturado de passividade. Sirva imediatamente. A imbecilidade é fundamental para dar a liga ao prato, mas seu sabor deve ser totalmente encoberto pela ideologias. No improvável evento de algum convidado percebê-la, mantenha a calma: leve-o até a cozinha, corte-o em pedacinhos, guarde-o no freezer junto com as subculturas restantes e utilize-o na próxima vez em que você fizer esta receita.

Dicas adicionais:

O segredo deste prato está em escolher a subcultura certa para o gosto dos convidados. RPG costuma a funcionar muito bem, mas música alternativa, arte contemporânea, gays e blogs também podem render bons resultados. É essencial evitar quaisquer nuances no sabor, reduzindo qualquer subcultura ao mesmo aroma pasteurizado, superficial e distante, muito distante. Procure não repetir muito a mesma subcultura, pois familiaridade estraga o prato por completo.
Importante: você pode ter dificuldade em achar uma subcultura que se rotule como tal. Não importa, faça você mesmo. Basta encontrar algo que você não entenda ou tolere muito bem, rotular e usar. Experimente, é divertido.

***

E de sobremesa, o brilhante comentário da mãe de um dos assassinos, sobre RGPs:

"My son never played them at home," she said. "He's a good boy, and never behaved strangely."

Posted by sergiom at 8:38 AM | Comments (3)

maio 24, 2005

Âncora

âncora


Queria falar sobre Laurie Anderson, Star Wars e muitas outras coisas. Mas, sei lá, não sai do 'queria'.

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"In the end of each sentence, instead of stops, there should be small clocks that showed the time it took to write that sentence."

É a teoria dela sobre pontuação.

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Quanto a Star Wars, por enquanto deixo só isso.

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No mural do meu quarto tem uma frase do amigo Tiagón, selecionada pela Clarisse:

eu quero página nova parede branca disco formatado

***

Troco todos os portos seguros do mundo por uma âncora.

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Não é que este blog esteja em manutenção. Quem está é o autor.

Posted by sergiom at 6:23 AM | Comments (3)

maio 18, 2005

Agora vai?

Agora vai?

foragarotinhos.gif

Peguei lá no Gejfin. Bom de mobilização o rapaz. Mas foi aqui que o bicho começou a pegar.

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Política, né? Ou, como bem disse o Tutty, "o que significa o caso Roberto Jefferson diante da possibilidade de o homem ter sido jogado de um transatlântico enquanto tocava Ivan Lins?"

Posted by sergiom at 5:45 AM | Comments (0)

maio 15, 2005

Playball

Playball


A última vez em que li o que quer que seja sobre RPGs na mídia - tirando os milhares de anúncios sobre realinhamento postural global e acupuntura - foi há uns dois anos, quando começaram a insinuar que o estupro e assassinato de uma menina em Ouro Preto tinha a ver com rituais satânicos e, conseqüentemente, com RPG.

RPG, portanto, é coisa do coisa ruim.

Desde então, silêncio absoluto. Agora, sai a seguinte gracinha na versão online de um dos principais jornais do país:

Jogo de RPG motivou assassinato de família
Uma das vítimas perdeu partida e permitiu mortes

A notícia se refere a um crime ocorrido em Guarapari. Dois elementos teriam cobrado aposta de um amigo, que entregou a própria vida e a dos pais para pagar derrota nos dados. Não sei o porquê do espanto, isso não é normal? Eu já chacinei porque ganhei no War. Degolei por conta do Banco Imobiliário. Envenenei o chopinho de um camarada que perdeu o set no tie-break (só pros amigos: aquele ponto decisivo foi totalmente roubado).

Na buena, de volta aos fatos. RPG faz parte de um negócio chamado subcultura. Dado que o nome chega a ser gratuiro, obviamente não é algo cujo destaque na mídia seja lá muito maior que o de uma convenção de hamsters neurastênicos. Para ser mais exato, não acho que o grande público - essa entidade onipresente que responde pela minha, sua, nossa moral - tenha um pingo de noção do que se trata. Ou será que não?

Satanistas do RPG estupram e matam estudante

Roleta-russa do RPG abala balneário

Subculturas são manifestações sem muito espaço nas representações mainstream. Ou que, no máximo, ganham seus minutos de fama sob a égide de curiosidades antropológicas. "Olha que engraçado!" Que curioso! Que doido! Que mórbido! Que sádico! Que absurdo! Que degenerado!

(Degenerado. O termo tem história. Max Ernst, Paul Klee, you name it: estavam todos na exposição organizada pelos nazistas para mostrar os caminhos que desvirtuavam seus ideais de pureza.)

Curiosamente, aquilo de que nunca se fala às vezes vira assunto. Não se matou por psicose. Por ganância. Por descontrole. Por mal-estar social. Mas sim por causa do RPG.

(Assim como o Holocausto foi culpa única e exclusiva de um punhado de monstros. Hitler, Goebbels, Himmler; nenhum deles era humano, né? Já que o assunto é jogo, fica fácil brincar de mundo real quando você regula o nível de dificuldade para 'easy'.)

Semiótica para iniciantes. As coisas ganham significado de acordo com seu lugar no sistema. Que tal enumerar, a título de tédio existencial, os companheiros de sistema que nossa boa mídia resolveu atribuir ao RPG?

satanismo-estupro-chacina-roubo-cadáveres-guarapari

Ôpa, agora vai! Bons tempos em que o pior que uma virada de noite matando orcs me rendia eram algumas espinhas e olhares de desprezo por parte de uma meia-dúzia de patricinhas. Deve ser a vingança CONTRA os nerds. Afinal, anos de dedicação e ciência nos mostraram que desgrenhar os cabelos, meter um all-star e ouvir The Libertines transformam qualquer CDF em dono do pedaço. Ou dono da 'lua', como diria o Cebolinha.

Ah - dirão -, mas é fato: neguinho matou por causa do RPG. Siiim. Como fulano matou por causa das vozes que ouvia. Ou como sicrano degolou porque 'ela era má'. Só assim que a subcultura ganha mídia: quando ela é devidamente restrita à sua taxonomia. Esquisitice, nerdice, bizarrice... perigo.

Perigo pra quem, cara-pálida?

Nunca imaginei que possuir um dado de vinte lados fosse virar atitude subversiva.

Posted by sergiom at 7:43 PM | Comments (4)

maio 13, 2005

Have you ever criticized normality?

Have you ever criticized normality?


Acho que eu perdi o verão londrino. Foi anteontem, entre duas e duas e meia. Eu estava na biblioteca. Crap.

***

Fui ver Downfall ontem no cinema. Minha companhia era o Philip Seymour Hoffman, que ria em momentos inadequados. E vem se juntar ao Capitão Picard na minha lista de celebridades avistadas em Londres.

Life Aquatic vai ser sábado, no baratíssimo Prince Charles Cinema. Ingresso a apenas 3,50 libras. Se você for membro, claro.

***

Pelo menos a moça da bilheteria já não me olhou tão estranho quanto daquela vez em que comprei ingresso para ver Nine Songs.

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O jogo de Vampire vai bem. Na última sessão, assisti uma vampira destruir o estofamento de uma poltrona do Starbucks. Exciting. Pelo menos rolou uma pizza de pepperoni e uma San Miguel.

Por sinal, o comercial da San Miguel nos cinemas é absolutamente nonsense. No mau sentido. A reação de Philip Seymour Hoffman foi o que os ingleses chamam de raspberry.

***

*Brenda* me repassou isso. Fiquei light, só no 'total geek'.

E have you ever criticized normality? é a melhor.

Posted by sergiom at 6:39 AM | Comments (2)

maio 8, 2005

inventário conciso das coisas pensadas nas últimas duas horas

inventário conciso das coisas pensadas nas últimas duas horas

este pepino deveria ter ficado menos tempo na geladeira. ex-modelos também fazem phd em filosofia. isso é longe, muito longe. meu mapa cheira a azeite. borges já fez isso. o café acabou. eu gostaria de fotografar todas as placas de bustos. não me imagino areando uma panela industrial. clarisse não vai ter o que jantar. não, preciso de uma camisa maior para me sentir bem. se eu andar até mornington crescent, a viagem fica toda na área dois. a gente nunca deveria ter aberto aquele baú. será que cabe tudo na geladeira? pelo cep, dizem eles, você chega em qualquer lugar. isso não pode estar certo. eu queria poder dedicar minha dissertação a alguém. putz, é longe mesmo. nunca imaginei que eu fosse sentir falta disso. 'eu tenho medo de matar jim'. não tenho nenhuma idéia, só as idéias que eu tive. estou esquecendo de alguma coisa.

Posted by sergiom at 12:32 PM | Comments (3)

maio 4, 2005

Deu no Guardian de hoje

Brazil spurns US terms for Aids help

Deu no Guardian de hoje:

Brazil yesterday became the first country to take a public stand against the Bush administration's massive Aids programme which is seen by many as seeking increasingly to press its anti-abortion, pro-abstinence sexual agenda on poorer countries.

Campaigners applauded Brazil's rejection of $40m for its Aids programmes because it refuses to agree to a declaration condemning prostitution.

The government and many Aids organisations believe such a declaration would be a serious barrier to helping sex workers protect themselves and their clients from infection.

The demand from the US administration, heavily influenced by the religious right, follows what is known as the "global gag" - a ban on US government funds to any foreign-based organisation which has links to abortion. This has resulted in the removal of millions of dollars of funding from family planning clinics worldwide.

Continua aqui.

A posição do governo brasileiro é um ato de repúdio a qualquer espécie de pragmatismo cego e imediatista. A origem do dinheiro - legal ou ideológica - importa sim, senhor. Mais importante ainda: é a compreensão de que o lucro que os 40 milhões trariam de forma alguma compensariam o prejuízo de ter um programa de saúde pública manchado por um discurso reacionário. Mas deve ser realmente insuportável para a ultradireita religiosa testemunhar o sucesso de um programa baseado na inclusão.

De acordo com a matéria, a administração Bush já havia riscado da lista de beneficiários toda e qualquer organização ligada ao aborto. O apelido que esta determinação ganhou é pra lá de sugestivo: mordaça global. Dá pra ver, portanto, que essa coisa de democratização da comunicação tem implicações bem mais amplas do que pode parecer. E fica mais grave, neste caso, pela situação descrita por Sônia Corrêa:

"The US is doing the same in other countries - bullying, pushing and forcing - but not every country has the possibility to say no."

Posted by sergiom at 4:17 PM | Comments (6)

Retrospectiva 2005

Retrospectiva 2005
na visão do sapo Jeremias


Janeiro: o girino Jeremias inicia uma grandiosa campanha em prol de sua metamorfose.

Fevereiro: com o apoio do Ibama, da Beth Carvalho e da bancada ruralista, o girino Jeremias realiza sua metamorfose.

Março: o sapo Jeremias é avistado numa noite de quinta-feira, sem maiores conseqüências. Todas as colunas esportivas são publicadas normalmente.

Abril: Bento XVI é eleito Papa. O sapo Jeremias não emite nenhuma declaração a respeito.

Maio: numa lagoa no interior da Alemanha, o sapo Jeremias infla, triplicando de tamanho, até finalmente explodir.

***

Disclaimer: nenhum rumor de que o sapo Jeremias teria comido mais legumes pôde ser confirmado até o momento.

Sapo Jeremias® é uma realização natimorta do Fundo Miúdos para Personagens Fracassados.

Posted by sergiom at 2:34 PM | Comments (10)