« fevereiro 2005 | Main | abril 2005 »
março 28, 2005
Dessa pra melhor
Dessa pra melhor
Bom estar com vocês, brincar com vocês, mas c'est fini. Amanhã, abandono meus canais, conexões e sinapses à deriva e embarco para um limbo de vinho e comida chamado Portugal. Não esperem que eu poste, responda, atenda ou pule corda.
Mas, caso vocês queiram esperar, tudo bem. Dentro de três semanas, eu e Sonja voltaremos com novidades criptografadas da terrinha e da Catalunha. Maestro McMurdo, o personagem mais equivocado deste blog, vai pra casa comer deep fried pizza. Feliz Páscoa ortodoxa procês.
Até pensei em fazer um apanhado dos últimos meses. Tipo uma Millenium Collection, sabe? Decidi que era melhor não. Mas, se adianta de algo, me agrada muito aquele post sobre ostras revestidas com veludo.
Com quem diabos eu tô falando, anyway?
Posted by sergiom at 5:18 PM
março 25, 2005
MIÚDOS PROCURA:
MIÚDOS PROCURA:
- Indivíduo que já tenha assistido a Eliana e o Segredo dos Golfinhos, para acareação e testes neurológicos em geral. Após a sessão, o suicídio será incentivado.
Posted by sergiom at 2:06 PM
março 23, 2005
6 Pilotos para o Novo Milênio
Seis Pilotos para o Novo Milênio
que nem é mais tão novo assim, mas merece uns programas melhorzinhos
I. X-TREME Flâneurs
Mix de reality show e esporte radical, este programa foi concebido por um grupo de antropólogos doidinhos para mostrar que esse papo de pós-modernidade é o maior caô. De acordo com o press release, o lance mesmo é a tal da supermodernidade, com seus ritmos acelerados e fluxos frenéticos (nem pensem em montar uma banda com este nome, já está tudo registrado). A proposta é atualizar Baudelaire. Em cada episódio, os participantes vão competir para ver que consegue ignorar mais informações por segundo ao passear casualmente por ruas abarrotadas e cenários espetaculares. Um bônus extra será conferido a quem for eleito o mais blasé no voto popular. No piloto, rodado em Londres, o idealizador do programa mostra como usar o British Museum apenas como passagem, ignorando sumariamente artefatos sumérios de milhares de anos. X-TREME Flâneurs ainda vai substituir a Sessão da Tarde das sextas-feiras, marcando a volta dos programas educativos para toda a família, do tio disfuncional à prima autista.
II. Wild Banking Cheerleaders
O Itaú declarou o maior lucro da década. O Unibanco, da história. O Bradesco, da história em todas as suas realidades paralelas, incluindo aí aquela em que o Brasil é dominado por uma oligarquia de doninhas telepatas. Para tirar proveito da situação - é essa a palavra-chave, né? -, vem aí as Wild Banking Cheerleaders. No dia da divulgação dos balanços trimestrais, o programa vai reunir diversas torcidas organizadas - como a Força Personalitté e a Young Moreira Salles -, enquanto as cheerleaders realizam uma série de coreografias patéticas, porém empolgantes. O programa termina quando o balanço é divulgado, a torcida perdedora lincha o gerente do banco rival e começa a revolução. Os idealizadores prometem recordes de audiência e cenas inspiradas em Apocalipse Now Redux. Desnecessário dizer, é um produto televisivo para exportação. Ou você realmente troca meio minuto de praia por um bando de teenagers americanas de saiote?
III. Se Meu Ikebana Falasse...
Remake vegetariano de um velho sucesso da Disney. Com Erik Marmo no papel principal.
IV. Telecurso 2000, Nostalgia Edition
Programa dedicado a vestibulandos conscientes, que repudiam a ideologia do progresso. Um lugar onde a comunidade científica ainda pode debater seriamente temas como geração espontânea, lei do impulso e o Gênesis. No piloto, o quadro 'Não Se Fazem Mais Números Como Antigamente' ensina como fazer contas de divisão com numerais romanos.
V. A Cozinha Maravilhosa do Sr. Spock
Gene Rodenberry morreu, antes ele do que eu. Com este slogan, Leonard Nimoy vai audaciosamente mostrar um lado da Enterprise onde nenhum trekkie jamais esteve. No piloto, enquanto uma mesa redonda de nutricionistas de South Beach discutem genealogia da barriga do William Shatner, Nimoy prepara maravilhas da culinária Klingon, equipado apenas com um set de espátulas, um avental e um par de orelhas postiças. Vida longa, prosperidade e bom apetite!
VI. TV Divã
Inspirado no sucesso da Santa Missa em Seu Lar, vem aí o programa que vai revolucionar o inconsciente coletivo. A cada episódio, um psicanalista convidado senta na poltrona com seu bloco de notas à mão e passa uma hora olhando para câmera sem falar absolutamente nada, mas balançando a cabeça de tempos em tempos. A produção promete ainda um 'especial Lacan', em que o programa é interrompido em seu décimo-quarto minuto para que a audiência "pense bem nisso até a semana que vem".
Posted by sergiom at 5:56 AM
março 17, 2005
Ufa
Ufa
Forças ocultas têm me impedido de postar. Elas também têm me impedido de comprar iogurte e de buscar as crianças na escola, o que é mais sério.
Como eu ia dizendo, hoje é dia de St. Patrick. Ou, como gosta a colônia, dia de St. Patrick's. De quebra, é também o primeiro dia com cara de primavera em Londres. Passei minha manhã deitado num gramado de um parque estudando. Mais ou menos como se eu estivesse numa universidade gringa.
Peirce gostava muito de falar em semiose ilimitada. Eu finalmente descobri o que isso significa: você deita na grama, pega seu livro de semiótica e abre em cima do rosto. O que antes significava um chatíssimo conjunto de regras, segundo as quais as coisas significam, passa a significar um protetor solar e o direito de uma sonequinha ao ar livre antes da aula. Tudo sob agradáveis dezessete graus.
A grande frustração é que eu não consegui arrumar os chapéu de leprechaun e os óculos verdes que a Guinness estava distribuindo. Mas comprei um Independent por vinte pence e ganhei uma barra de chocolate grátis, daquelas que ajudam um camponês de Gana a vender seu cacau por um preço justo. 1 x 1. Vocês NÃO vão me matar, ouviram bem?
Títulos traduzidos dos meus três últimos ensaios:
Dan Flavin: a Subjectividade Tecnólogica e o Vazio Contemporâneo
Picasso, Ingres e a Ideologia do Retrato
Ok, esse eu não consegui traduzir:
Subject and Utterance in Jenny Holzer's Truisms
Depois eu começo a sentir gosto de café na minha Guinness e ninguem sabe o porquê.
Um único comentário sobre o gazzag: aquilo consegue ser mais tosco que o orkut (ah, vai, esse eu não preciso linkar, né?).
Posted by sergiom at 6:28 PM
março 7, 2005
Teoria da conspiração
Eles estão entre nós
Como todo mundo sabe, não passamos marionetes. Enquanto nos ocupamos com nossa existência mundana e com nossas mesquinharias cotidianas, eles puxam as cordinhas. Este dossiê que vocês estão prestes a ler custou a vida de vários de nossos colaboradores imaginários. Eles, vocês devem imaginar, não gostam de intrometidos. Como já dizia um sábio, eles querem nos matar. E pior: eles vão conseguir. Verdade. É só perguntar para qualquer taxista.
A Imperial Ordem dos Garçãos [sic]
Fundada no Segundo Reinado pelo venerável Francisco Ribamar de Souza, o Chico, a Imperial, como é popularmente conhecida esta sociedade secreta, é hoje presidida pelo Grão-mâitre Francisco Gonzaga Soares, o Chico. Seu estatuto prevê uma rígida hierarquia, sub-repticiamente infiltrada em cada cardápio da cidade. Os neófitos são autorizados a servir apenas o couvert - ah, ahah - opcional, e sempre sob a supervisão de um Imperial mais graduado. São necessários aproximadamente doze anos até que um Imperial chegue aos pratos principais, e dezesseis até que ele receba seu primeiro honorífico, normalmente Manel, Zico ou Robespierre. Por conta desta arcaica estrutura, a chapa da situação, encabeçada por Franciso Louzada da Silva, o Chico, e apoiada pela maioria dos botecos portugueses, enfrenta hoje uma séria crise. Pela primeira vez na história da Imperial, uma diretoria progressista pode ser eleita, representada pelo carismático Raimundo José Teixeira, o Chico, e apoiada por uma aliança cool entre lounge bars. Dias de rúcula estão a caminho.
Os Sith, by Ralph Lauren
Ser nerd agora é moda. Onde antes havia apenas descoordenação motora, espinhas mais do que justificadas e intermináveis sessões de RPG, agora há indie superstars, cabelos desgrenhados e o que é mais incrível: um séqüito de menininhas superpoderosas, envoltas em motivos nipônicos e casaquinhos ploc. A Gogo quem pega é o Toby. Conseqüência: preteridos por quem costumavam a preterir na hora de bater o time, inúmeros playboys e mauricinhos andam enforcando-se em seus pull-overs. Mas, já nos ensina a história, grupos dominantes não largam o osso sem briga. Assim surgiram os Sith by Ralph Lauren, seita que vem repetidamente infiltrando componentes nas JediCons pelo Brasil afora. Lá eles semeiam a cizânia em mesas de GURPS, sabotam fitas de Atari e inflacionam o preço dos bonequinhos vintage de Star Wars. Mestres do subterfúgio e donos de um baita bônus no move silently – graças aos seus mocassins Sr. Gato -, estes biltres são identificáveis apenas pelo indefectível cavalinho tatuado no peito.
Anônimos Anônimos
Pouco se conhece da agenda desta misteriosa sociedade, que consta no Guinness por conta da mais longa assembléia constitutiva de todos os tempos. Sabe-se apenas que a reunião continua, pois os participantes ainda não conseguiram definir uma forma adequada de apresentar-se uns aos outros.
Velhinhas da Vernissage
Grupo sediado em Copacabana, as Velhinhas da Vernissage são absolutamente democráticas: da pintura em cerâmica à performance multimeios, de Romero Britto a Tunga, toda abertura merece prestígio. Capazes de farejar um canapé a quilômetros, as Velhinhas da Vernissage repetem a mesma estratégia: elas chegam aos pouquinhos e ocupam posições estratégicas junto à saída da cozinha. Michel Foucault, o Chico, ficaria orgulhoso: a vasta rede de informações das Velhinhas é capaz de mobilizar grandes números em poucas horas, e nenhuma vernissage é exclusiva o suficiente para passar despercebida. A menos que seja regada apenas a pão e água, claro.
Intelectuais da Geral
Apesar de sua fama, são pouquíssimos os integrantes desta irmandade, todos ex-professores de Antropologia Cultural que não escutaram suas avós e leram Althusser após comer manga. Irrecuperavelmente desiludidos com a sociedade, decidiram abandonar a academia em prol de táticas de guerrilha não-linear e dominação de massas: infiltrados nas torcidas organizadas, eles se aproveitam do momento de perda de identidade coletiva que o espetáculo contemporâneo reifica para puxar corinhos subversivos:
- Ô, lê lê! / Ô, lá lá! / Édipo vem aí! / O bicho vai castrar!
- Sou / sou pós-modeeerno / sou muito fluuuido / sou fragmentáá-áário!
- Ê, ô! / Ê, ô! / Meu Zeitgeist é o terror!
As ações têm se mostrado terrivelmente eficazes: o lateral-direito da seleção já anunciou que está revendo sua posição e pretende disputar o próximo campeonato na meia-esquerda. Um famoso grupo de jogadores religiosos acaba de perder vários membros devido ao surgimento de uma dissidência laica: os Atletas de Nietzsche. Por fim, um grande clube já anunciou a contratação de um novo preparador metafísico, alegando que é necessário cuidar do condicionamento existencial dos jogadores. “A gente tem que parar com esse papo teleológico” - declarou o técnico - “campeonato se ganha é na síntese dialética.” Enquanto isso, na Segundona, só se fala em “sair da Caverna.”
Posted by sergiom at 8:13 AM
março 2, 2005
Dizem as más línguas que
Dizem as más línguas que eu hoje faço aniversário. Mentira. Eu não nasci, nem fui nascido. Darwin e Pasteur estão mortos, e posso afirmar sem temer bio-terroristas: sou um produto da geração espontânea. Espontânea tal qual uma apresentação da Britney Spears. Onde antes havia uma luminária de mesa, uma figurinha do Zico e um burrito requentado, eu aconteci. Como conseqüência, não tenho tempo e nem idade, só prazo de validade. Mas não dá pra ver. A etiqueta tá em cima.
Posted by sergiom at 9:59 AM