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Carta Aberta (e carinhosa) (e improvisada rapidamente) à Cindi

Esta carta é uma reação a este excelente post escrito por uma menina muito talentosa de 16 anos. Ela é e será artista plástica. O assunto parte da Bienal do Mercosul de 2007 para uma reflexão sobre a arte em geral. Achei estimulante e escrevi rapidamente todo o texto abaixo num comentário em seu blog. Saiu longo para um comentário e resolvi trazê-lo para cá:

Gostei muito da tua argumentação. Há uma pureza e franqueza tão grandes que fico pensando no quanto tergiverso para esconder-me. Mas este é outro tema.

Vou te dizer uma coisa absolutamente surpreendente: eu já tive 16 anos.

(Sim, em 1973, havia muita novidade para ser julgada, talvez mais do que hoje. Pense que o Pink Floyd estava lançando Dark Side, que teu ídolo Picasso morrera em abril - estou em novembro de daquele ano -, que o pessoal do Pinochet matara Allende há dois meses, que a guerra do Vietname recém acabara, que o grupo que mais vendia discos - LPs! - era o Led Zeppelin, que a ditadura estava no ar, que líamos Quarup de Antônio Callado, que Dali fazia declarações de amor a Franco, que JL Borges estava alive and kicking, que havia um jornalzinho chamado O Pasquim, etc. Não pense que cito isto para dizer que minha juventude foi melhor que a tua. É que os mortos ou finalizados têm uma aura meio fabulosa.)

Outra surpresa: eu lembro muito bem como era.

E outra: por um mecanismo que não conseguiria explicar, mas do qual tenho convicção epitelial, digo-te que a maioria de nós é mais preconceituosa nesta idade do que depois. Eu também andava de lá para cá com meus adesivos, tentando colar rótulos em coisas e pessoas. Depois, a gente desiste pois cada rótulo está associado a um contexto e o quem é revolucionário aqui é bombeiro ali e vice-versa.

Não te digo isto por ter gostado de Jorge Macchi - pois gostei -, mas porque acho que as coisas são assim.

Feliz ou infelizmente, a arte, mesmo a literatura, está virando coisa de especialista. Precisa de manual de instruções, como Stanley Kubrick defendeu uma vez. Ele achava que ficar pensando cinco anos sobre um filme para depois as pessoas darem-se conta de apenas 10% do que estava sendo mostrado era desmotivador.

Eu também achei fraca a Bienal - não entendi as charadas? Certamente não!

Edward Said disse que não existe mais a possibilidade de um discurso comum porque, em primeiro lugar, nossa formação é extremamente especializada e, depois, porque todo o aparato financeiro está voltado para a fragmentação do conhecimento. È vero. Então, a cultura parece que começa a dialogar apenas com seu meio de uma forma tão esquizofrênica que nenhum Led Zeppelin atual cheio de novidades poderá superar as vendas da Shakira bonitinha e chatinha. Este hipotético Led Zepp formará apenas um círculo de iniciados assim como o Radiohead ou David Lynch possuem. E será seu máximo.

Agora, reduza os parâmetros até a pequena literatura brasileira ou às pequenas artes plásticas que chegam à pequena Porto Alegre.

É horrível de dizer mas o público comum ou o "povo" a que te referiste - e ainda mais o nosso - está cada vez mais longe de entender algo um pouco mais complexo ou especializado. Os romances mais lidos têm a mesma estrutura dos de Balzac. A música mais ouvida é mais simples que a dos Beatles. A música erudita moderna é ainda um desafio para a maioria dos apaixonados por música erudita - e veja bem que neste caso já estamos na fatia mínima da fatia mínima. Então, como concordo com tua definição de arte (*) e porque este comentário já vai longo demais, creio que para ser tocado há que ter uma rede cada vez mais intrincada de referências às quais poucos têm acesso.

Em resumo, daqui há poucos anos, tu, Cindi, terás um referencial tão rico que vais ficar criticando surpresa as incompreensivas opiniões alheias. Te tornarás especialista, se já não és. É algo de nosso tempo, acho.

Beijo.

(*) A arte segundo Cindi: “Arte é tudo aquilo que o homem cria, capaz de tocar alguém de maneira significativa”.

Comments

Esta é a minha menina!!

Milton:
gostei muito, mas muito mesmo de ambos os posts.
Mas eles requerem - o que, aliás é maravilhoso - reflexão.
Principalmente se levarmos em consideração que a Cindi soube muito bem fazer diferença entre dois momentos do que se chama "estética da recepção".
Se mudou de opinião, não sei.
É sobre isso que queria refletir.
Tomara que não tenha mudado.
Quanto a você, analisa a situação cultural afetivo-existencial, de forma brilhante.
Compreendamos porém, que experiências de um modo geral não são absorvidades de maneira antropofágica.
Um beijo, querido.Um grande beijo e saudades

Dois textos inteligentes e claros.

Tanto o da jovem artista quanto a sua "Carta a uma Jovem Artista", só para quase citar Rilke.

Beijo.

Milton, sem querer puxar o teu saco, que sabes não sou dado a isso: é por isso que vale a pena esse negócio de blogs. Eu queria ter dezesseis anos de novo e ler um post como esse.
Forte abraço

Bonito texto. Concordo com muito do que vc disse! A menina tem um bom tutor intelectual.

Forte abraço

O Valter tinha razão ao indicar este seu post. Bom fim de semana, Milton.

Ela tem 16 anos? Só se for em cada orelha. Ótimo post de ambos.
E outra coisa, "Edward Said disse..." é muita redundÃncia pra minha cabeça. ahaha

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