setembro 2008 Archives

Filmes: Secret Sunshine

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(Milyang / Secret Sunshine, 2007 - COR)

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Shin-ae (Jeon Do-yeon) aguarda com o filho pequeno, à beira da estrada, socorro mecânico ao seu carro. Desde este primeiro momento a luminosidade inunda a imagem, o sol brilha incessante e majestoso, a claridade domina plano-a-plano e conduz a história. Os dois buscam nova vida, Milyang é a cidade natal do ex-marido, seu nome tem como significado algo como "secreta luz do sol". O que Lee Chang-dong propõe é um mergulho ao sofrimento, seu filme não segue padrões tradicionais, a chegada à cidade é marcada pela descoberta, pelas novas amizades, por enquadrar-se numa nova rede social. E também pela cobiça alheia, pela inveja, até a chegada da tragédia.

E nesse ponto passamos para um novo filme, que começa marcado por dor, busca salvação na fé e religião, até encontrar um equilíbrio entre o que foi possível recolher dos cacos dessa vida em frangalhos. Shin-ae acredita que possa perdoar aquele que lhe fez um mal tão terrível, mas surpreende-se com o caminho espiritual que o mesmo tomou. Segundo as próprias palavras do criminoso, Deus me perdoou, e aquilo não cai bem aos ouvidos de Shin-ae que se pergunta como Deus pôde perdoá-lo antes dela? E o sol continua iluminando essa mulher perdida, quiçá indicasse alguma direção, se é que é possível retomar as rédeas da vida numa situação dessas. E Lee Chang-dong cria uma estrutura interessante, perdendo um pouco dessa distância que a câmera nos coloca, trazendo para junto o desequilíbrio emocional dos personagens.

Filmes: Alexandra

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(Aleksandra, 2007 - RUS)

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Pode-se olhar aos noventa minutos de duração e com incomodo afirmar: Nossa não acontece nada! Não deixaria de ser uma interpretação, já que a octogenária avó que cruza a Rússia até alojar-se numa base militar na Chechênia só para matar um pouco da saudade do neto, não poderia oferecer seqüências ágeis, por exemplo, ou numerosos conflitos. Aleksander Sokurov praticamente nos coloca na pele daquela senhora (Galina Vishnevskaya), de andar vagaroso, de necessidade de sentar-se e descansar a todo o momento porque as pernas doem, de sabedoria adquirida pelas experiências de vida. Nunca se esteve tão próximo do exército, de suas rotinas (dormir mal naquele calor, limpar as armas), do dia-a-dia pacato, com sua câmera complacente enxergamos desde as lindas seqüências em que a senhora caminha pela base militar naquele terreno árido de chão de terra batida, até a descoberta de cada alojamento (a sensação de documentário é forte), onde se come, onde se dorme, onde se lavam as roupas. Trata-se de um filme de laços familiares fortes, avó e neto discutem a família, como toda senhora ela cobra que o rapaz se case, ele escancara que a mãe sempre teve necessidade de um afeto materno. Ela afirma que ele tem o cheiro bom de homem, que todos os homens são maravilhosos.

O maior vôo do filme é o passeio de Alexandra pela pequena comunidade da região, e de forma discreta Sokurov escancara a realidade e traz a tona outro lado do conflito (o que resta depois da guerra, construções e pessoas). Os prédios parcialmente destruídos, em ruínas, a população local vive da venda de artigos para o exército (cigarros, biscoitos, botas) em pequenas barracas pela rua, o que se vê não é ódio, mas uma espécie de consentimento pela realidade. Um garoto afirma que só queria que os russos fossem embora e os deixassem em paz, Alexandra no alto de sua sabedoria diz que as coisas são mais complicadas que isso. O que o cineasta quer não é criticar esse ou aquele, identificar culpados, seu filme seguindo essa senhora é um documento sobre as relações pessoais, sobre a exposição dessa realidade que se vive todos os dias, sobre os efeitos de uma guerra combatida por jovens imaturos e despreparados em entender a inutilidade daquilo tudo.

Nessa semana chegam filmes descartáveis, refilmagens e continuações, e escondido um filme que pode ser bastante simpático. Infelizmente isso tudo é pouco, já que a grana é curta. E aproveitando a fase de festivais, com o início ontem do Festival do Rio e a proximidade da Mostra SP, na próxima semana posts com filmes que tenho visto e, estão ou devem estar, na programação desses eventos.


Baby Love (Comme Les Autres) - mais um daqueles casos em que estou saturado do trailer, e isso chega a desanimar a conferir o filme sobre o mistério da paternidade e o desejo de um casal homossexual em ter um filho.


Controle Absoluto (Eagle Eye) - chega de pessoas comuns metidas em histórias de conspiração internacional. Não quero ver mais correria e ação a troco de nada.


Fay Grim - lembro de rotularem como a continuação aproveitadora de As Confissões de Henry Fool, com não vi nem o primeiro...


Mulheres... o Sexo Forte (The Women) - refilmagem do filme As Mulheres de 1939, com Meg Ryan(que faz tempo que não acerta), cheiro de drama de mulherzinha.


Promessas de um Cara de Pau (Swing Vote) - já esse tem Kevin Costner como um pai solteiro, bon-vivant que se torna crucial na disputa presidencial nos EUA. Só lendo sobre o filme para entender que o título e o cartaz não condizem com a história pitoresca e satírica do ridículo sistema de votação da terra do Tio Sam.


Musicagen
- documentário sobre a indústria da música no Brasil, ou algo do tipo, só sei que tem entrevistas com músicos, gente dos estúdios e etc.

Filmes: Plata Quemada

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(Plata Quemada, 2000 - ARG)

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Um filme sobre um assalto a um carro-forte na década de sessenta. Um filme sobre um casal gay de matadores-de-aluguel e sua relação à-flor-da-pele. Um filme sobre um bando de assaltantes argentinos refugiando-se do cerco da polícia no Uruguai. Todos esses elementos condensados num único resultado, o diretor Marcelo Piñeyro traz a história verídica dos "gêmeos", como eram conhecidos Angel (Eduardo Noriega) e Nene (Leonardo Sbaraglia). Vivendo os conflitos de uma relação conturbada, cercada pela fé religiosa de um deles, pela libido intensificada do outro.

Numa fotografia impecável e uma direção de arte vistosa (principalmente a cena do assalto), os gêmeos e os demais participantes do roubo são obrigados a trancafiar-se provisoriamente num apartamento enquanto aguardam a poeira baixar, a angústia de se fazerem de mortos, a tensão do distanciamento da civilização e seus comportamentos inquietos e eufóricos, transformam aquele esconderijo numa panela de pressão. Plata Quemada nos conquista principalmente pelo visual estético, por interpretações precisas e pela relação dos gêmeos e Cuervo (Pablo Echarri), tanto o caso amoroso quanto a amizade entre os três. Isso sem falar numa seqüência fantástica intercalando uma exuberante cena de sexo com Giselle (Letícia Brédice) e a melancolia inconseqüente de um dos assaltantes.

Filmes: Mr. Vingança

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(Boksuneun naui geot / Sympathy for Mr. Vengeance, 2002 - COR)

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Marcando a primeira parte de sua famosa trilogia da vingança, Park Chan-wook imprimia aqui as características marcantes que pontuaram toda a trilogia. Cenas frias e sanguinárias, tramas regadas ao ódio, pessoas sedentas por vingança ao ponto de transformar suas vidas, abdicar. Ryu (Shin Ha-kyun) é um garoto surdo-mudo de cabelos verdes que trabalha como operário e vive com sua irmã que precisa urgentemente de um transplante de rim, não aparecem doadores compatíveis. Abre-se a primeira ponta da trama, a quadrilha de tráfico de órgãos e Ryu oferece um rim seu mais uma grana por um rim compatível. Lá se foi a grana que pagaria o transplante, e o recém-demitido é coagido por sua amiga "colorida" e terrorista a seqüestrar a filha de seu chefe a fim de obter o dinheiro. Personagens na trama e hora de começarem as vinganças, e pena que Park Chan-wook não encontrou outra forma a não ser transformar Ryu num bobalhão, praticamente um retardado mental. Sob este ponto de vista, um surdo-mudo não tem capacidade de ter raciocínio normal, inteligência, porém é capaz de uma fúria mortal. A morte da irmã desencadeia um acidente que culmina em violência, vingança, e uma série de acontecimentos que o diretor por um lado esbanja enquadramentos inteligentes, por outro se ocupa de uma trama rala, vagarosa, irritante.

Interessante e acertada a posição de mostrar como a vingança desencadeia vingança, é violência que gera violência e o processo parece não ter filme. Corajosamente a segunda fase do filme possui outro protagonista, é o pai da garota seqüestrada que busca sua vingança. Aquele homem que viu sua mulher fugir de casa quando a filha há pouco nascera, e cuidando de sua fábrica de forma pouco humana dedicou-se à filha. Triste, o filme já estava equivocado demais, e por mais que cresça na parte final (inclusive com uma cena final genial), a vontade de ser visceral de Park Chan-wook o leva ao esquizofrênico, a necessidade de se tornar cult transforma seu filme numa sucessão de combinações enfadonhas, aliás seu filme não incomoda pelo resultado e sim pela forma e pela ingenuidade travestida de genialidade.

Filmes: Conflito Mortal

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(Wong gok ka Moon / As Tears Goes By, 1988 - HK)

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Take My Breath Away numa versão em cantonês marca um dos momentos mais emblemáticos e açucaradamente românticos da estréia de Wong Kar-Wai. E entre uma estética oitentista, repleta de cenas de brigas filmadas com estilo próprio (em ângulos, em ritmo, em quebra de seqüência), e perseguições e/ou discussões pelas ruas de uma Hong Kong constratada pelo cinza das construções e o vermelho e azul do neon, seguimos a saga de Wah (Andy Lau) vivendo do submundo. Primo pobre da máfia local, divide-se entre os trabalhos ao Grande Chefe e controlar os ímpetos do seu destemperado parceiro Fly (Jacky Cheung). Meio mal-humorado recebe a prima Ngor (Maggie Cheung) para uma rápida passagem pela cidade em busca de um tratamento médico. A presença da doce e prestativa garota traz um novo alento, copos novos, almoço caseiro, paixão à vista. O clichê é óbvio, e entre as irregularidades de um início de carreira, estão pontuadas tantas características tão presentes em sua obra ao longo dos anos, os cigarros esfumaçando as cenas, os amores irrealizáveis, cabines telefônicas, alguns lindos planos estáticos. Um filme vibrante, de seqüencias frenéticas e melodramáticas, resultando em muitas cenas quase toscas, e um momento inebriante enquanto Ngor aguarda ansiosamente Wah descer às escadarias da estação de trem.

Queria tanto ver o documentário Iluminados, porém passando no Frei Caneca no único horário das 16:40 ficou impossível...

Violência Gratuita (Funny Games U.S.) - finalmente chega o indigesto remake de Michael Haneke de seu próprio filme cult (vide post de ontem).


Linha de Montagem - volta às telas o documentário de Renato Tapajós sobre o fenômeno do movimento sindical brasileiro entre os anos de 19788-1982. Não deixa de ser curioso investigar a faísca do que seria o fenômeno que anos mais tarde se tornaria presidente do Brasil, o sindicalista Luis Inácio que ainda nem usava o apelido Lula no nome.


Brigada Pára-Quedista - ainda não vi nenhum documentário do renomado Evaldo Mocarzel, tenho certeza de que estou perdendo coisa fina, e dessa vez é o cotidiano de uma tropa do exército que foi o assunto do documentarista.


Branca de Neve Depois do Casamento (Blanche-Niege, la suite) - animação européia para adultos, comédia sobre uma realidade não tão encantadora do pós casamento do príncipe com a Branca de Neve. Promete uma história maliciosa, deturpada dentro de um mar de tédio e mal-gosto (não que eu não goste de histórias maliciosas).


A Casa da Mãe Joana - Hugo Carvana continua suas histórias de malandragem, com grande elenco, promete boas risadas, bem capaz de ir conferir.


Missão Babilônia (Babylon A.D.) - Vin Diesel num mundo futurista, dirigido pelo francês Mathieu Kassovitz, até o Gerard Depardieu entrou nessa, mas eu não.

Nem Por Cima do Meu Cadáver (Over Her Dead Body) - comédia boboca, comédia boboca, comédia boboca.

Cinema: Violência Gratuita

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(Funny Games U. S., 2008 - EUA)

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Normalmente não são com bons olhos que vejo diretores renomados europeus e asiáticos chegarem ao cinema americano, na maioria das vezes trata-se de uma experiência frustrante aos fãs. Quando soube que Michael Haneke refilmaria seu próprio filme, só que dessa vez falado em inglês e com atores mais internacionalmente conhecidos, realmente temi, desanimei, um gosto amargo na boca de mais uma repetição. Entretanto Haneke é um cineasta tão singular, que sua própria atitude é capaz de nos fazer refletir e permanecer em dúvida sobre suas reais intenções. Mais do que uma refilmagem, a sensação é de que ele levou Naomi Watts, Michael Pitt, Tim Roth e os demais aos mesmos cenários e os posicionou milimetricamente nas mesmas posições, os mesmos figurinos, os mesmos objetos em cena. Haneke não mudou quase nada. Agora me pergunto: qual o intuito disso tudo? Bom, o filme está lá, poderoso como sempre, cada dia mais atual (e o título em português deve ser o mais feliz da história dos lançamentos no Brasil), acusando o próprio público de gerar violência em forma de resultados de ibope, sendo os responsáveis pelos programas que eles mesmos criticam (e continuam assistindo).

Também escancara um tipo de violência que não está ligado à classe social, jovens ricos e educados, barbarizando sadicamente uma família. A dor no estômago do espectador também está lá, mesmo sabendo de cor cada movimento, cada fala, cada acontecimento terrível e sanguinário; ainda assim permaneceremos incomodados, estáticos. Será que Haneke queria testar seu público, e obviamente atingir um público maior? Não, não pode ser, quem conhece um pouco do seu trabalho não pode ficar preso a um pensamento tão pequeno. Pode haver certa prepotência, em acreditar que seu filme era tão perfeito que não precisava de uma alteração qualquer no tom, na luz, no cenário, nos diálogos, em nada. Pode ser, mas Haneke poderia também estar cutucando o próprio sistema cinematográfico, como quem diz: "olhem só americanos, o dinheiro é de vocês e vocês só são capazes de apreciar o mundinho de vocês, então eu pego o dinheiro de vocês, os atores, e mostro que vocês precisam é capital intelectual que está fora daí.". As verdadeiras razões seriam apenas motivo de discórdia e discussão, mas que ele é um grande cara-de-pau, isso não pode-se negar, e ainda por cima faz alguns filmes ótimos.

(The Ladykillers, 2004 - EUA)

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Um blues, sempre um blues delicioso tocando enquanto a câmera passeia por aquela cidade americana no Mississipi, a comunidade negra se encontra freqüentemente para celebrar sua fé. Essa é uma das pretensões dos irmãos Joel e Ethan Coen, familiarizarem o público com esse ritmo de vida pacato dos negros de cidades interioranas sulistas dos EUA. Pitadas de um humor negro e refinado, ou sua predominância, são características constantes na obra dos Coen, e o inegável talento de Tom Hanks no papel do distinto professor G.H. Dorr, obcecado por Edgar Allan Poe, seria a condensação perfeita para o clima reservado ao filme.

Refilmagem da comédia O Quinteto da Morte, o exagero é o grande mote causador dos equívocos que pontuam todo o filme, o refinamento com que os Coen filmam e demonstram toda sua (também inegável) capacidade presente de impor seu ritmo pessoal, cada um dos demais personagens esbanja em exagero caricato para buscar humor em pequenas esquetes que se funcionam isoladamente, não dão consistência a um todo que por muitas vezes parece débil ou tolo. Se a delícia narrativa nos cativa, a cada nova situação um desgosto pelo filme torna-se mais presente causando desconforto principalmente em sua parte final. Personagens tão absurdamente caricatos naufragam um filme que partia da interessante premissa de uma quadrilha de assaltantes penando nas mãos de uma bondosa velhinha (Irma P. Hall).

Oscar: Brazuca escolhido

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E lá vamos nós novamente, comoção nacional, torcida ecoando grito, mascote fazendo dancinha bonitinha e uma esperança que não tem fim. E tudo por causa de quê? Expectativas renovadas para o tal esperado Oscar de Filme Estrangeiro da Academia. E o escolhido para frustrar a torcida da vez é o filme de Bruno Barreto. Última Parada: 174 é baseado no ótimo documentário Ônibus 174, e vamos novamente com uma história de violência e pobreza nos morros cariocas, um novo Cidade de Deus ou Tropa de Elite. E chega de crianças e judeus, e chega dessa história de tentar adivinhar o que os velhinhos da Academia gostam. Escolham o melhor filme e aguardem as escolhas. Agora, se Última Parada: 174 é o melhor filme, eu não sei, mas quem fez a escolha deve ter pesado que o filme já tem um zumzum internacional e que Bruno Barreto já foi indicado por O que É Isso Companheiro? como também já filmou (fracassos em Hollywood). O filme vai abrir o Festival do Rio, e não dá para falar antes de assistir, mas de antemão não creio que seja dessa vez que o Brasil leva o caneco, ou o careca dourado.

(Scoop, 2006 - EUA/ING)

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Alguém mais cansou do Woody Allen, ou fui o único? Em minha opinião ele anda se repetindo demais, inclusive a mesma atriz nos mesmos filmes, não estou querendo mais ver Scarlett Johansson num novo filme de Allen. Desde que passou a filmar em Londres é sempre a mesma história de retratar gente rica envolvida numa trama de morte e algum mistério. Seus filmes não são ruins (exceto o mais recente, se bem que Match Point é ótimo), e se suas gags ainda funcionam vez ou outra, os temas cansam de tão gastos, sobra imaginação nos meios de tratar o mesmo fim.

Scoop trata de um furo jornalístico, o grande jornalista Joe Strombel (Ian McShane) morreu e passou a dica para uma estudante de jornalismo, Sondra Pransky (Scarlett Johansson). E ela corre atrás da notícia que envolve o assassino do tarô, e o milionário-acima-de-qualquer-suspeita Peter Lyman (Hugh Jackman). Preciso dizer que parece investigar ela irá aproximar-se do figurão e depois viverá a dúvida entre paixão e jornalismo? Pois é, Woody Allen volta à cena como o mágico Sidney Waterman que interpretando o eterno personagem de Allen ajudará a moça em tal investigação. Um filme sem brilho, de uma cena ou outra com algo a se tirar, no meio de um oceano de idéias repetidas, personagens repetidos, situações cansativas. Acho que entendo porque ele não anda conseguindo financiamento para seus filmes.

Filmes: O Efeito Borboleta

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(The Butterfly Effect, 2004 - EUA)

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"E se...", você também já se perguntou diversas vezes na vida se a decisão fosse outra, o que teria ocorrido. Aliás, estamos o tempo todo nos perguntando, já que sempre nos deparamos com duas possibilidades, com escolhas. Eu ficava olhando para aquele roteiro bem arranjado, aquele mar de situações que quanto mais se alteravam, mais complexos e negativos tornavam-se os resultados. Depois de quinze minutos da proposta já não há mais novidade e ficamos apenas a cabo das criações, alterações em passado e futuro, e demais idéias provenientes da cabeça dos roteiristas-diretores Eric Bress e J. Mackye Gruber. Nesse contexto, Evan (Ashton Kutcher) é um garoto que sofre com um distúrbio de memória e descobre ser capaz de voltar no tempo e mudar as atitudes que perfizeram o presente. O poder de alterar o passado não é capaz de controlar as coisas, apenas oferecer uma nova proposta. E a idéia é melhorar a vida daqueles à sua volta, principalmente sua paixão Kayleigh Miller (Amy Smart) e sua mãe Andrea (Melora Walters).

A brincadeira toma tons trágicos, e numa edição exageradamente ágil o filme conquista seu público pela linguagem jovem e a proposta "tentadora". No meio de tudo isso, dessas idas e vindas, Evan se encontra no futuro com características totalmente distintas, amigos opostos e uma sensação de que os diretores poderiam ter desenvolvido melhor um aspecto curioso que seria o quanto do meio nos faz ser as pessoas que somos? No caráter está constituído em nosso nascimento, ou são as relações, e o condicionamento do nosso estilo de vida que nos fará ser exatamente a pessoa que somos? Indies, mauricinhos, cdf, violentos, carinhosos, até que ponto está em nossos genes e até que ponto os meios causam os fins?

(Blindness, 2008 - CAN/BRA/JAP)

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Fernando Meirelles não cansa de ressaltar, com orgulho, o ótimo trabalho técnico da equipe, a fotografia esbranquiçada que traz sensação ao público da cegueira branca do best-seller de José Saramago, e o som extremamente presente que é parte dos olhos dos cegos. De uma fidelidade ferrenha ao texto de Saramago, o filme torna-se morno e peca exatamente nesse ponto. Não seria possível retratar todos os personagens e acontecimentos num filme comercial, porém o descompasso dos dois está na questão moral, o filme não passa de um acumulo de imagens (muito bem filmadas) que contam uma história de uma epidemia inexplicável que assola uma grande metrópole devastando sua população, e trazendo o caótico à sociedade. Aquele ritmo de parábola narrada por um ancião (como se ouvíssemos o autor recitar sílaba por sílaba) chega ao filme como uma seqüência de ação, que não nos oferece tempo para pensar, para digerir, aquele amontoado de cenas pouco-a-pouco cria uma historia muito bem contada, impecavelmente reconstituída, e morna, porque a mensagem de uma sociedade que libera seus desejos oprimidos, sua ganância ressentida e o egocentrismo primitivo, fica implícita no desejo e não na realização.

Mais importante do que colocar na boca da mulher do médico (Julianne Moore) que as roupas estão sujas, apresentar as mulheres no banho da varanda, ou recriar a cena de sexo do médico (Mark Ruffalo) com a garota de óculos escuros (Alice Braga) seria trazer personagens que na dubiedade de suas ações demonstram toda a complexidade que o livro projeta quando tirado elemento tão vital da vida humana. Quase tudo do livro está lá, mas falta o essencial, e fica claro que Meirelles queria mesmo expor essa urgência da obra, essa crítica social marcante e arrebatadora e por mais que tenha elementos comerciais, fez um filme forte (especialmente na fantástica cena dos cães e a da saída do supermercado), transformou São Paulo (divertido reconhecer tantos pontos da cidade) num local realmente caótico, sujo, feio, desesperador, porém faltou um ritmo compassado em alguns momentos, e que a aflição dos personagens não estivesse só no ritmo do filme, como também em suas emoções.

Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness) - finalmente chega o filme tão aguardado por aqueles que acompanharam o blog do filme sobre todas as filmagens e etc. Meirelles + Saramago + Julianne Moore, vamos ver no que deu, hoje chega ao fim a longa espera.


Iluminados - reservo interesse nesse documentário sobre alguns dos principais fotógrafos do cinema brasileiro. Chance de aprender bastante.


Mamma Mia! (Mamma Mia!) - musical com grande elenco e cara de comédia boboca sobre a filha de uma ex-hippie que quer entrar com seu pai no altar e terá de descobrir entre três candidatos.


Perigo em Bangcok (Bangkok Dangerous) - cansei dos filmes do Nicolas Cage, não aguento mais sua figura de canastrões. E dessa vez ele é um matador profissional que em Bangcok se enrola com uma garota.


Paranóia Americana (Civic Duty) - sabe que o argumento é urgente e bastante atual, um americano ficando paraóico com o novo vizinho muçulmano. O filme deve ser uma bomba, mas não duvido que isso aconteça na terra do Tio Sam.


Quatro Minutos (Vier Minuten) - uma presidiária descobrindo seu talento para música clássica e a velha história de concurso musical, e gente boicotando...

Cinema: Linha de Passe

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(2008)
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O foco está nas mãos que tremulam a enorme bandeira da Fiel durante um clássico contra o arquirrival São Paulo, corte para as mãos que pedem benção num inflamado culto religioso, o novo filme da parceria Walter Salles e Daniela Thomas começa sob os efeitos do fanatismo, num tom extremamente documental e numa beleza emocionante algumas cenas entre torcida e o clássico chegam no cinema num bom gosto jamais visto. Extremo da zona leste paulistana, uma empregada doméstica (Sandra Corveloni) vive sozinha com seus quatro filhos e grávida novamente. No pequeno universo familiar os diretores traçam um perfil preciso, humano e profundamente honesto de tantas vidas que se repetem ao esmo pela capital paulistana. O garoto que sonha ser jogador de futebol, o motoboy sempre na pendura, o jovem que virou pai antes da hora, o garoto em busca da ausente figura paterna, o delinqüente que se converteu em alguma religião evangélica, o jovem discriminado pelo patrão (tudo bem, alguns destes casos estão nos mesmos personagens).

Nesse microcosmo proposto por Salles e Thomas, o incomodo no estômago vem oriundo de retrato tão fiel de uma sociedade que vive sob o estigma dos sonhos irrealizáveis, de um destino limitado, e a sensação de proximidade íntima surge tanto da abordagem das histórias quanto dos enquadramentos que com planos sempre fechados dá ênfase aos rostos marcados pelas dificuldades incessantes.

Onde os diretores não se saem bem é exatamente no ponto onde deveriam obter a consagração. As histórias se intensificam, e a simplicidade dos cineastas inibe que o clímax alcance o sufocante, o emocionante. As coisas atingem o exasperante e a imagem continua contida, como se Salles e Thomas permanecessem complacentes, incapazes de mergulhar nas profundezas em que seus próprios personagens foram assolados. O que evidentemente não diminui a capacidade dos dois de buscar no cotidiano, personagens (ou pessoas), tão capazes de oferecer conflitos, dores e uma poesia rebuscada. A pia da cozinha entupida é metáfora para aquela família, e torna-se apenas a primeira a ter nova guinada. Um filme de profunda delicadeza.

Cinema: Lemon Tree

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(Etz Limo, 2008 - PAL)
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Você é uma viúva palestina que cuida de um pomar de limoeiros que seu pai plantou há mais de cinqüenta anos. Daqueles lindos limões amarelos que oferecem um suco delicioso (segundo todos os que tomaram no filme) tirou a subsistência para criar os três filhos (principalmente após a morte do marido). Até que chega o novo vizinho, ninguém menos que o Ministro da Defesa de Israel, e além do batalhão de jornalistas, seguranças e militares, eis que o Serviço Secreto decide cortar as árvores porque elas atrapalham a segurança do Ministro.

Esse mundo é completamente louco mesmo, não acham? Quando o Ministro escolheu a casa não reparou nos limoeiros da vizinha? E como tem o poder, quem está lá há décadas é que deve aceitar as medidas necessárias para garantir a segurança e conforto do recém-chegado? O filme dirigido por Eran Riklis é mais um a apontar a situação irremediável dessa região, e parte dessa simplicidade para humorizar com os israelense, o faz de forma falsamente discreta, na verdade é impiedoso (principalmente com relação ao militar da guarita fazendo testes ridículos). Os vizinhos brigam na justiça porque Salma Zidane (Hiam Abbass) não consegue aceitar a destruição daquilo que lhe é mais sagrado, a situação chega aos jornais, à Suprema Corte; sem que os vizinhos tenham trocado uma palavra entre si. Nesse quadro, Mira (Rona Lipaz-Michael), esposa do Ministro, é peça-chave, sua insatisfação não consegue mantê-la calada por tanto tempo.

A infelicidade do filme está na relação da mulher sofrida com o advogado solitário, desviando atenções e colocada num tom de quem pretende abraçar o mundo de temas. Salma já tinha dramas e conflitos demais, não precisava desse fio de esperança de sua libido. Mais um filme despertando os absurdos que a humanidade se propõe, a invasão da casa de Salma após o atentado, e principalmente a falta de limões no jantar de gala da casa do Ministro são os momentos mais emblemáticos e competentes de um filme que nasce necessário, mesmo que não seja urgente em sua linguagem.

Cinema: Pelos Meus Olhos

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(Te Doy Mis Ojos, 2003 - ESP)

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O primeiro encontro se dá na porta da casa da irmã, há poucos dias ela fugira de casa com seu filho e se refugiara ali. Marido e mulher, parcialmente frente a frente, ele tenta se controlar, grita, bate na porta, ela com medo, se lembra de tudo que já passou, mágoa e amor se conflitam, ele toca-lhe o rosto, a cena é linda, difícil, espremida como os corpos pela janelinha da porta. A diretora Icíar Bollaín discute a violência familiar, maridos que espancam suas esposas, os lares destroçados pelo medo, insegurança, ciúmes, pela falta de respeito e individualidade. Antonio (Luis Tosar) busca auxílio em terapias em grupo com outros homens que cometem violência doméstica, se esforça para controlar seus ímpetos de fúria. Pilar (Laia Marull) passa a trabalhar numa igreja de beleza impecável que repleta de obras de arte recebe turistas e visitantes; assim descobre as artes e uma paixão em compreender os quadros e a história de cada um deles. Não são mais as mesmas pessoas, numa cena ela empolgadíssima conta sobre seu trabalho, seu entusiasmo bate de frente com um muro, aquele homem egoísta e xucro só deseja que as coisas voltem a ser como antes, que sua esposa fique cuidando da casa e do filho para que ele chegue e encontre sua cerveja, a janta pronta e uma mulher sedenta por fazer amor. Na reaproximação do casal o despertar da paixão faz novamente parte daqueles corpos e almas, mas é difícil entender que as pessoas amadurecem, aprendem, e Antonio acredita que meia dúzia de sessões de terapia foram capazes de controlar seus ímpetos agressivos, quer possuir sua esposa, ser dono de cada parte do seu corpo, só que nessa nova relação ela não mais lhe pertencem tem por ele amor, desejo, porém as coisas são diferentes e o ciúmes corrói o vendedor de geladeiras. Numa das grandes cenas do filme, Antonio conversa desesperado com o terapeuta, Pilar não havia atendido o celular e ele entrega seus sentimentos, seu medo de que ela encontre alguém interessante já que ele enxerga que no fundo ele tem muito pouco a lhe oferecer. Pelos Meus Olhos é daqueles filmes que guardam dois ou três momentos que ficaram guardados na memória, pela realidade crua, e principalmente pela capacidade de trazer a tona (em forma de metáfora ou não) os mesmos problemas que enfrentamos em nossas relações pessoais.

A última semana foi boa, 3 idas ao cinema e um deles uma grande surpresa que conto na semana que vem. E nessa aqui coisas interessantes e que não devem sobrecarregar a agenda.


Linha de Passe - necessário dizer alguma coisa? Sandra Corveloni ganhou melhor atriz no último Festival de Cannes.


Hellboy II - O Exército Dourado (Hellboy 2: The Golden Army) - já devem estar cansandos de saber que se trata de um tipo de filme a qual não me interesso e só por influência de terceiros me fazem conferir. Tem direção de Guillermo Del Toro e uma forte rede de fãs do filme anterior.


Canções de Amor (Les chansons d'amour) - desde já a melhor trilha sonora do ano, as canções são ótimas, o texto escrito na última Mostra SP segue abaixo:
O musical de Christophe Honoré talvez seja a perpetuação dos enlaces amorosos contemporâneos. Relações a três, envolvimentos heteros, homos, o mundo cada vez mais anda livre, anda bissexual. Por outro lado está longe de ter aquela carga positiva presente nos filmes desse gênero, trata-se de um musical com muitos momentos melancólicos, inserções musicais surgindo naturalmente sempre num mesmo tom pop e normalmente rebatidas em diálogos. Honoré não pretende que seus atores possuam vozes poderosas, são pessoas comuns cantando num tom que lhes permite soar agradável, pessoas de carne e osso que sofrem, quem amam, que deixam seus amantes, que explodem de paixão ou pela falta dela. A todo o momento o diretor tira o personagem central (Ismael) de cena para trazer novas vibrações, outros sentimentos. Pena que Louis Garrel comece a se repetir em seus personagens. Entre o amor e a tragédia, a dor e a comédia, Canções de Amor insere-se como parte de nosso próprio dia-a-dia num improvável musical melancólico.


Caçadores de Dragões (Chasseurs de dragons) - animação francesa sobre um dragão prestes a destruir o mundo e blábláblá


O Aborto dos Outros - documentário retratando o mundo dos abortos no Brasil, clandestinos "pero no mucho".

Filmes: O Grande Truque

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(The Prestige, 2006 - EUA/RU)

Brincar com o tempo é um dos passatempos preferidos do cineasta Christopher Nolan em seus filmes, freqüentemente os flashbacks são de importância vital e aqui não é diferente na história de dois mágicos obcecados. E como foco de sua obsessão, a fama e o poder, colocam-se em segundo plano, em detrimento de uma rixa estabelecida entre Robert Angier (Hugh Jackman) e Alfred Borden (Christian Bale). De aprendizes a oponentes que não medem esforços para prejudicar ao outro, roubar seus truques e ferir da maneira mais leviana possível. Nolan transforma a mágica numa obsessão compulsiva após um acontecimento mal-explicado leva à morte da esposa de um deles. Família, amor, dinheiro, nada é tão importante quanto a disputa mortal travada pelos promissores mágicos londrinos não perdoa seus entes queridos Cutter (Michael Caine), Sarah Borden (Rebecca Hall) e a pivô de muita discórdia Olivia Wenscombe (Scarlett Johansson).

Mesmo fazendo de maneira convencional, Nolan sabe impor ação e principalmente dar cadência à sua narrativa, sempre privilegiando roteiros engenhosos e bem arquitetados o cineasta perde-se na grandiloqüência do próprio roteiro que escorrega feio nos últimos vinte minutos com soluções mirabolantes e outras pouco interessantes. O desejo de sempre oferecer um final inventivo e inesperado nem sempre surte os efeitos desejados, e pode transformar grandes truques em mera formalidade estilística.

Cinema: Os Desafinados

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Os Desafinados (2008)

Olhar com bons olhos não significa esconder alguns problemas tão aparentes, e por mais que o filme de Walter Lima Jr. venha repleto de boas intenções e esteja muito mais para o os bons filmes, ainda assim há tanto o que se comentar, o que se discordar, e até mesmo incomodar. Declaradamente uma homenagem ao estilo musical tão fino e requintado, e encharcado dessa brasilidade que conquistou o mundo. Entre passado e presente, acompanhamos a saga e os desdobramentos das aventuras de um grupo de amigos que parte à Nova York com instrumentos debaixo do braço e um sonho musical. Com ele um amigo que escolheu outro instrumento, uma câmera, o sonho de ser cineasta.

E a fase nova-iorquina é um deleite, o entusiasmo dos jovens, o encontro com a espevitada Glória, a descoberta de um novo mundo, de novas possibilidades, os pequenos bares, o romance. Tudo isso é narrado em tom de flashback, e a fase atual é artificial, carregada de um saudosismo exagerado que é negativo ao resultado, uma completa falta de assunto e falas soletradas e não vividas (parece apenas cumprir formalidades). O filme tenta resgatar a relação entre as ditaduras violentas sul-americanas e as artes, artistas perseguidos, sumindo inexplicavelmente, exílios. Resumindo, o filme quer demais, e se ater ao humor leve daqueles jovens ultra-empolgados é o melhor que se tem a oferecer. E nesse quesito, Rodrigo Santoro e Ângelo Paes Leme, vão muito bem, já Selton Mello, bom é redundante, mas ele dá um novo show.

Cinema: U2 3D

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(U2 3D, 2007 - EUA)

Montagem com vários momentos dos shows realizados pela banda na última turnê na América do Sul, a direção ficou a cargo de Catherine Owens e Mark Pellington. O primeiro ponto é a inexplicável razão em se usar partes do show de São Paulo e Buenos Aires (a grande maioria) o que ocasiona uma salada de bandeiras e idiomas sem que isso possa trazer grande benefício ao show. O espetáculo em 3D que nos fazer sentir que pudéssemos tocar as mãos de Bono Vox, ou bater junto com o batera, são realmente um espetáculo deslumbrante que deixa de ser novidade após os primeiros trinta minutos. E ficamos com um show, excelente, energizante, e a frustrante sensação de ficar sentado na poltrona, em leve silêncio e um tedioso espetáculo que aos seus parece empolgante. Se a montagem é tosca, e o show musical e tecnológico é fantásticos, a sensação de estar em casa vendo um DVD com alguns amigos desanimados, é o que prevalece.

Filmes: O Bom Pastor

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(The Good Shepherd, 2006 - EUA)

Naquela primeira olhada, você enxerga no filme dirigido por Robert De Niro o ar sombrio, o clima de silêncio e mistério a cada fotograma, o surgimento da CIA, o nacionalismo. E entre um ou outro fato interessante, principalmente a amizade com um soviético que divide um posto parecido no governo adversário, Edward Wilson (Matt Damon) justifica toda esse nacionalismo, um homem íntegro em seus cromossomos, capaz de renegar sua existência "ao bem" da pátria. E De Niro comprova tudo isso num ritmo modorrento, numa sucessão de fatos confusa, um ar de querer ser um grande filme, quando apenas momentos pincelados servem para além da papagaiada americano. Inclusive no filme, um italiano questiona, e Wilson sai com a resposta que De Niro acredita legitimar quando na verdade apenas intensifica sua incessante busca pelo patriotismo.

E assim desperdiça personagens curiosos, como Margaret (Angelina Jolie) e outros coadjuvantes de luxo. E toda a abordagem da Guerra fria é o cume, por mais que hoje seja fácil escancarar a melindrosa base econômica soviética na indústria bélica, é interessante acompanhar as disputas, as trocas, as negociações entre as super-potências que dominavam o mundo. Sem dúvida trata-se de um filme refinado por natureza, chamuscado por um ar de segredo a cada sílaba, a cada respiração, e uma crueldade inerente a uma guerra que consumiu décadas, sem disparar um tiro sequer.

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Michel Simões