agosto 2008 Archives

Depois de uma semana com apenas três estréias, surge essa enxurrada excessiva, entre elas estréias interessantes, inusitadas e prometendo alguns filmes pequenos que podem render ótimos momentos cinéfilos.


Os Desafinados - há muitos meses aguardo a chegada do filme de Walter Lima Jr, com Cláudia Abreu, Rodrigo Santoro, Selton Mello, não quero ler nada a respeito, é correr para o cinema.


U2 3D - Qual será a reação da platéia? Ficar sentadinhos assistindo, ou cantar as músicas? Pular que nem canguru? Tenho minhas dúvidas, mas a galera se mobilizou, já combinei com a patroa e no fim de semana vamos conferir o show do U2 no cinema.


Pelos Meus Olhos (Te Doy Mis Ojos) - O crítico do Estadão (Luiz Carlos Merten) elogiou com fervor, não que isso seja motivo para sair correndo à sala escura. Violência doméstica e a promessa de um filme duro.


O Mistério do Samba - correndo na contramão da estréia acima chega esse documentário, bastante apropriado diga-se de passagem, fazendo homenagem a esse ritmo musical tão impregnado de brasilidade. É Marisa Monte correndo atrás dos sambistas da velha Guarda, é para um público restrito e apaixonado e tem cara de ser uma delícia.


O Nevoeiro (The Mist) - mais uma adaptação de um suspense escrito por Stephen King, novamente um livro do escritor sob direção de Frank Darabont (verdade que os dois anteriores ficaram bem acima da média). E que venha a névoa mortal.


O Retorno - 50 anos depois, o diretor Rodolfo Nanni refaz o mesmo trajeto pelo nordeste analisando em seu documentário as mudanças da vida social de lavradores da região. Filme premiado, de temática pra lá de interessante.


Trovão tropical - mais uma comédia dirigida por Ben Stiler. Atores filmam guerra e acabam entrando numa real. A sensação é daqueles para assistir com a galera espalhada pelo chão da sala, regado à pipoca e refrigerante.

Ainda Orangotangos - primeiro filme brazuca filmado num único plano-seqüência, é da turma do meu "amigo-virtual" Milton do Prado, e por esse motivo já me causaria interesse. Portanto está na lista dos que gostaria de assistir.

O Reino Proibido (The Forbidden Kingdom) - Tá bom, vou fazer uma confissão, eu fujo dos filmes que tenham Jet Li no elenco.


Bezerra de Menezes - O Diário de um Espírito - quando criança, sempre ouvia falar de uma entidade no bairro que prestava ajuda aos carentes. Sempre me perguntei quem seria Bezerra de Menezes. Agora está aqui a chance de descobrir.


Shortbus - diretamente do mundo underground, jovens, festas, drogas, romances, como gosta de rotular uma amiga: pornô cult rs


Andarilho - Pra que tanta estréia boa? O documentário de Cão Guimarães chega carregado de elogios, sobre três andarilhos percorrendo destinos no nordeste de Minas Gerais.


La León - filmado em preto e branco, este drama argentino narra a vida de um pescador homossexual, praticamente trancado entre sua solidão e sua paixão pelos livros.


Castelar e Nelson Dantas no País dos Generais - mais quanto mais fuço, mais descubro coisas interessantes, olha que barato este documentário sobre parte da história do cinema mineiro durante a Ditadura Militar. Está difícil escolher.

(27 Dresses, 2008 - EUA)

Jane (Katherine Heigl) é uma dama de honra profissional, já foram 27 cerimônias em que ela se vestiu com um daqueles vestidos ridículos, ajudou a noiva bêbada a ir ao banheiro durante a festa, e ajudou nos preparativos para a festa. Ela se divide entre essa atividade obsessiva e seu trabalho onde se empenha para ser notada pelo chefe, George (Edward Burns). Eis que aparece sua irmã, eis que o chefe se apaixona por ela, e também aparece o jornalista Kevin (James Marsden) e suas inúmeras investidas para conquistar o coração da moça.

O problema não são os clichês utilizados à exaustão, o filme dirigido por Anne Fletcher é mesmo patético, tanto pelo argumento insosso, quanto por personagens tolos, e aquela incomoda e permanente sensação de atentado contra nossa inteligência. Nada, simplesmente nada funciona num conjunto de piadas pobres e romance pastelão, e as atuações? Bem, as atuações são um caso à parte, um triste caso à parte. Que filme patético.

Filmes: Os Incríveis

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(The Incredubles, 2004 - EUA)

Na época do lançamento me recordo de um trailer hilário quando um super-herói tentava desesperadamente afivelar o cinto da calça, só que a barriga enorme não permitia, e ele fazia contorcionismo. Era um aperitivo de dar água na boca, mas quando do lançamento ouvi que a cena não constava no filme, e no final acabei deixando o filme passar (não por esse motivo). Numa fase atual de peregrinação que estou por filmes que deixei passar quando das estréias no cinema (graças à promoção de preços da locadora), automaticamente veio à cabeça tal cena.

Tinha para mim que a animação dirigida por Brad Bird vinha com foco na comédia, ledo engano. Começa com um drama inusitado (até adulto demais para um filme com público alvo para todas as idades), a opinião pública processando os heróis pelos danos causados na luta contra os vilões (prédios, carros e outros bens destruídos). Os super-heróis são obrigados a trocar de identidade e viver na surdina, como se fizessem parte do programa de proteção à testemunha.

Na primeira metade Sr. Incrível sofre com a impossibilidade de usar seus poderes, vive de um emprego modorrento, sua família vive em crise. Felizmente chega a segunda parte, a ação toma conta e não só Sr. Incrível, como sua esposa Mulher-Elástica e os filhos partem para uma aventura no meio de uma ilha a fim de evitar os planos maquiavélicos de um vilão. Pelo que foi possível perceber na última oração, é a mesma história de sempre, agora nossa vida é refletida nos problemas dos super-heróis, até que os clichês do gênero prevaleçam e nesse caso transformem o filme em algo mais interessante.

(Le Goût des Autres, 2000 - FRA)


O filme fala de gosto, começo pelo bom gosto do próprio. A atriz Agnès Jaoui estreava na direção com um toque refinado, um bom gosto nos diálogos, na criação dos personagens, no tom. Um filme sutil em tantos aspectos, capaz de empunhar a bandeira de tantos personagens tomando por base de comparação os gostos díspares, as diferenças e, sobretudo as influências. Talvez a obviedade more na relação entre cunhadas, uma refazendo sua vida e a outra rica, metida a estilista, causando choque por impor suas preferências.

Entretanto é Castella (Jean-Pierre Bacri, ótimo, excelente) quem serve de vértice para tantos personagens, um rico homem que obrigado a comparecer na estréia teatral da sobrinha, apaixona-se por uma atriz (Anne Álvaro) e mergulha no mundo da arte. Porém, é mal-recebido, sofre preconceito por sua "ignorância artística", por seus modos pouco coerentes ao meio e enquanto, ao seu modo, joga as armas da sedução, a sua volta pintores, atores e envolvidos zombam, se aproveitam. Por fim há o motorista de Castella, Bruno Deschamps (Alain Chabat), e o segurança de seu chefe que largou a polícia por princípios, e entre uma amiga-amante (a própria diretora) que trabalha num bar e trafica haxixe. Se a relação dos dois parece totalmente adulta, entre pessoas preparadas e calejadas, cansadas de sofrer, acostumadas com diferenças até o ponto em que sua própria ética possa ser ferida. Enquanto isso Bruno parece parado num tempo de amadurecimento, uma existência tão pacata que beira ao sem-graça. E o desenrolar dessas histórias reafirma uma dura crítica a uma burguesia francesa (intelectual e/ou elitista), além de uma afirmação da tese proposta, os gostos, as diferenças e onde cada decisão pode nos levar.

E novamente adiaram a estréia de Desejo e Perigo do Ang Lee, sorte que matei minha ansiedade e assisti esta preciosidade, ufa. Semana boa, só se for para colocar em ordem os filmes que ficaram para trás. Mais uma semana que adiei Lemon Tree, espero que dessa não passe.


Um Crime Americano (An American Crime) - não precisa ser expert em nada para ter uma idéia de todos os terríveis acontecimentos que devem marcar a história do filme dirigido por Tommy O'Haver, com Ellen Page no elenco trata de uma história real que horrorizou o estado de Indiana, quando duas irmãs foram presas num porão por uma família e sofreram diversos maltratos.

O Procurado (Wanted) - estréia do cineasta russo Timur Bekmambetov (Guardiões da Noite) em Hollywood com história baseada em HQ. Sociedade secreta, herança, assassinato, habilidades hereditárias. Tem Angelina Jolie, James McAvoy e Morgan Freeman no elenco. Entretenimento para os fãs de filmes de ação.

Reflexos da Inocência (Flashbacks of a Fool) - Nos primeiros momentos do trailer achei que se tratava de um novo 007, nada disso, dessa vez Daniel Craig assume o papel de um ator arrogante e decadente em busca de um novo trabalho. E aquela velha história de um acontecimento mudando uma vida.

(Basquiat, 1996 - EUA)


Foi contando a biografia do seu amigo artista plástico Jean Michel Basquiat (Jeffrey Wright) que o também artista plástico Julian Schnabel marcava sua estréia na direção. De morador de rua e grafiteiro de guetos a alta sociedade em Nova York e a amizade com Andy Warhol (David Bowie), esse negro de ascendência caribenha firmou seu nome como um dos expoentes do neo-expressionismo.

A vida de Basquiat não foi muito diferente de tantas apresentadas por aí, do limbo ao luxo, dos grafites assinados com o pseudônimo Samo (same old shit) aos restaurantes badalados, o que Schnabel nos apresenta é um personagem que vaga por aqueles acontecimentos, sem que sua alma seja colocada em frente às câmeras. Passamos todo o filme acompanhando o mundo underground das rodas de arte, galerias e festas, drogas, e nomes que hoje se tornaram famosos (por exemplo, Vicent Gallo), sem realmente identificar quem é Basquiat por trás daquelas pinturas. Sua morte prematura por overdose colocou fim a uma vida perturbada, um personagem que poderia render muito mais. A Schnabel faltou o compromisso de ir além de retratar fatos, ele mesmo preferiu um alter-ego no espaço que caberia a sua pessoa na vida de Basquiat, talvez não devesse realmente tentar encontrar maiores impressões sobre as angustias desse jovem perdido entre o sucesso. Interessante como o elenco é composto de tantos nomes que eram ou se tornaram astros como Benicio Del Toro, Dennis Hopper, Gary Oldman, Christopher Walken, Courtney Love, e outros, até Willem Dafoe como um mero eletricista de uma única cena.

Filmes: Não Matarás

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(Krotki Film o Zabijaniu, 1987 - POL)

Pode-se encontrar diversas interpretações políticas, principalmente baseando-se no cinema político e engajado que Krzysztof Kieslowski já realizara no início de sua carreira. Visão ressaltada devido às transformações tão recentes, ou melhor, acontecendo simultaneamente às filmagens (fim do Socialismo polonês, volta do partido Solidariedade e etc). Só que temos outro contexto, Kieslowski interessa-se pelas relações humanas, por apontar e discutir temas tão famigerados e próximos de nossos valores morais, em buscar dentro dos Dez Mandamentos a legitimidade para falar sobre pena de morte. Há claro, uma precisa composição social polonesa, os tipos populacionais, os prédios mal-cuidados, os carros, e acompanharmos os meandros do desempregado delinqüente e violento vagando pelas ruas de Varsóvia tem dupla função: de caracterizá-lo (fundamentando suas ações futuras) e também oferecer toda essa perspectiva de nação em momento de transição econômica.

A trama traz o encontro de três personagens, um taxista rabugento e arrogante lava seu carro enquanto despreza clientes, um recém-formado consegue aprovação para iniciar-se na carreira de advogado. As motivações para um crime bárbaro são óbvias (e Kieslowski teima em justificá-las quando nem seria necessário, mas o tema político não lhe escapa às mãos e por isso uma namorada, a relação com a família, tudo amenizando atos e humanizar assassinos), e após o julgamento e condenação é que a pena de morte assume-se como grande tema em questão. Por isso, indiferente sabermos qual será o destino de cada um desses personagens, o que deseja aqui o cineasta é discutir a legitimidade de destituir-se de um ser humano o direito de sua cidadania. E saber enriquecer um filme com cores, posicionamentos de câmera, e pequenos detalhes (que fogem à trama central) são artimanhas que transformam um filme qualquer numa obra diferenciada. E o advogado vem na função de dar voz ao diretor, povoado de sua ética aguerrida, assiste e participa de um sistema de justiça que questiona e com suas migalhas de poder expõe sua visão contrária e reformista.

Filmes: Não Amarás

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(Krotki Film O Milosci, 1988 - POL)

O jovem, tímido e solitário Tomek (Olaf Linde Lubaszenko) nutre uma obsessão, que o mesmo chama amor, pela vizinha do prédio em frente (Magda). Ela, uma mulher madura, já não acredita mais no sentimento após as aguras que a vida acometeu-lhe. Tomek age com a ingenuidade de um apaixonado, trabalhando no correio intercepta cartas, transforma-se em entregador de leite só para arrumar desculpa para talvez encontrar-se com seu objeto de desejo. Pela luneta de sua janela admira sua musa, faz denuncia anônima à polícia apenas para evitar o ato sexual. Até que finalmente declara-se, e Magda (Grazyna Szapolowska) que num primeiro momento acredita ser apenas uma atração sexual da puberdade, começa a ser tocada por uma percepção de que o amor pode realmente prevelecerr. Talvez seja essa a grande mensagem do filme de Krzysztof Kieslowski, o amor do jovem é levado às últimas conseqüências, sua existência parece destinada à presença da mulher e toda essa dedicação é prova cabal daquilo que o amadurecimento humano pode tornar como dúvida. Há uma seqüência crucial, em que a tensão (sexual também) é elevada à máxima potência, Kieslowski faz da imagem uma poderosa arma de sedução e principalmente de líbido extremada, e ainda legitima a virada que a história seguirá imediatamente.

Que semaninha de estréias fracas, ou aparentemente fracas. Os filmes são pouco animadores, então os textos ficam mais curtinhos. Bom porque assim consigo assistir Lemon Tree que acabei adiando.


Olho de Boi - a tragédia de Édipo Rei adaptado à realidade do sertão. Cara de filme duro, de frio triste, daqueles que doem na espinha, procurando espaço na agenda.


Star Wars - The Clone Wars - animação narrando fatos ocorridos entre o 2º e o 3º filme da nova trilogia. A saga de Skywalker parece não ter fim, que dá uma pontinha de curiosidade, isso dá.


Nossa Vida Não Cabe Num Opala - em eterna dúvida entre o interesse e um pé atrás, continuo em cima do muro sobre o filme adaptado de uma peça teatral de Mário Bortolotto (figura importante no teatro paulistano, das duas peças que vi, não fui com seu estilo). Aparentemente o roteiro bebe em outros nomes famosos como Plínio Marcos e Nelson Rodrigues, para retratar uma família violenta de ladrões de carro, boxeador, e aquele ar de vida marginal que tanto se gosta de levantar no cinema brasileiro.


Zohan - O Agente Bom de Corte (You Don't Mess With the Zohan) - mais uma daquelas comédias bestas com Adam Sandler, ou Ben Stiler, ou Eddie Murphy...


Quebrando Regras (Never Back Down) - disputas de artes marciais, lindas garotas, típico filme bomba.


Show de Bola - quando conseguirão fazer um filme de futebol que seja interessante? Nem quero ler uma linha.

Juventude em Marcha (Juventude em Marcha, 2006 - POR)

Ventura, um pedreiro de cabo-verde que construiu sua vida em Portugal, tenta recolocá-la nos eixos após ter sido deixado por sua última esposa, busca reaproximar-se de seus filhos e almeja o simplíssimo desejo de um apartamento onde haja quartos para todos. Há no filme de Pedro Costa essa mistura entre o ingênuo e o lírico, um duelo que até faz bem ao filme. Além do eterno tema da imigração, aqui eclipsado na relação entre a independência de Cabo Verde e o dia em que Ventura apaixonou-se pela mãe de seus filhos. A verdade é que tinha tudo para ser um grande filme, só que o resultado é de um filme cheio de pose (incluindo a tentativa de reinvenção do olhar com uma câmera posicionada mais abaixo, um uso da iluminação diferenciado, um ar poético-artístico em cada plano). Há coisas sinceramente muito bonitas, como a construção e lembrança da carta que se repete aos fragmentos por todo o filme e drama do personagem central (vide parágrafo abaixo). Alguns filmes de autor permitem-se lacunas demais que oferecem este ar pomposo, ademais o ritmo tão lento torna a longa duração em momentos angustiantes resultando numa irregularidade mórbida.

Segue a carta mencionada:
"Nha cretcheu, meu amor, o nosso encontro vai tornar a nossa vida mais bonita por mais trinta anos. Pela minha parte, volto mais novo e cheio de força. Eu gostava de te oferecer 100 000 cigarros, uma dúzia de vestidos daqueles mais modernos, um automóvel, uma casinha de lava que tu tanto querias, um ramalhete de flores de quatro tostões. Mas antes de todas as coisas bebe uma garrafa de vinho do bom, e pensa em mim. Aqui o trabalho nunca pára. Agora somos mais de cem. Anteontem, no meu aniversário foi altura de um longo de pensamento para ti. A carta que te levaram chegou bem? Não tive resposta tua. Fico à espera. Todos os dias, todos os minutos, todos os dias, aprendo umas palavras novas, bonitas, só para nós dois assim à nossa medida, como um pijama de seda fina. Não queres? Só te posso chegar uma carta por mês. Ainda sempre nada da tua mão. Fica para a próxima. Às vezes tenho medo de construir estas paredes eu com a picareta e o cimento e tu, com o teu silêncio. Uma vala tão funda que te empurra para um longo esquecimento. Até dói cá dentro de ver estas coisas más que não queria ver. O teu cabelo tão lindo cai-me das mãos como erva seca. Às vezes perco as forças e julgo que vou esquecer-me."

Mostra SP: Resquícios

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Estava dando uma arrumada nos textos e arquivos de Mostras anteriores, relendo alguns textos, e me deparei com dois filmes que fizeram muito sucesso em grande parte da crítica. Gostei de um, e não do outro, mas o entusiasmo dos críticos é do empolgante que por vezes me pergunto onde estou que não captei esse entusiasmo. Tudo bem, gosto é gosto. Resolvi reformular os textos desses dois filmes e por isso reedito os posts hoje e amanhã.

Síndromes e um Século (Sang Sattawat, 2006 - TAI)

Duas vezes a mesma história, mas a mesma história não acontece exatamente da mesma forma, então os mesmos diálogos repetem-se sofrendo pequenas variações devido às mudanças que podem ser minúsculas ou gigantescas. No enigmático filme de Apichatpong Weerasethakul uma médica atende um monge budista e entrevista um novo médico para a clínica, na primeira história aquela é uma clínica rural tailandesa; na segunda um moderno hospital. Dentro desse panorama o cineasta faz uma comparação entre o avanço da tecnologia e a melhoria das condições de infra-estrutura do atendimento médico, e o relacionamento médico-paciente (que não se altera ao longo do tempo e das modernidades, a necessidade da atenção, os mesmos métodos repetidos). Há uma presença muito forte da natureza em seu filme, seja ela representada pelo verde, pelo clima bucólico e pelo barulho dos insetos, seja ela nos diálogos demonstrando a natureza humana. Sem críticas, há uma discussão, ou melhor, uma chamada às diferenças entre campo e metrópole, em meio a singeleza dos diálogos e a visão imparcial de Weerasethakul, temos um filme lento, que não deixa de ser uma interessante análise sobre a vida humana e sua relação com o tempo e com a natureza.

Durante muito tempo fui taxativo, não queria acompanhar nenhuma série americana de tv. Resguardado pelas recordações dos anos 80, chamava-as de novelas gringras, e por mais que assistisse quando criança Barrados no Baile, Melrose, Águia de Fogo, SuperMáquina, não passam de novelões dramáticos ou de ação, mas pura fantasia tola que nos mantém ficcionados por nos aproximarmos dos personagens e ficarmos dependentes da curiosidade dos destinos de cada um, longe de uma qualidade inquestionável. Isso sem falar nas comédias com aquelas risadas ao fundo ridículas como Elf, O e Teimoso, Vicky e tantas outras.

Porém ultimamente o boom tomou conta, talvez pela difusão da tv a cabo que as popularizou no país, mas principalmente pela qualidade de roteiros e histórias que cada dia mais emprega gente competente e que ganha seu espaço com méritos. Consegui passar inerte de a Lost, CSI, 24 Horas e tantas outras. Mas eu continuava relutando, não queria ficar preso a um dia e horário específico, continuava rejeitando por amor a minha liberdade de horário, mas aí vem meus melhores amigos e falam o tempo todo, e começam a se ver em alguns personagens, e você vai se sentindo perdido, atrasado, retrógrado. E de repente surge box das duas primeiras temporadas de Grey's Anatomy na minha mão, culpa da Mikie. E vejo a primeira achando tudo aquilo pouco interessante, mas o capítulo final te deixa louco, e você engole a segunda temporada assistindo sozinho algo em torno de seis horas por dia, uma verdadeira maratona. E depois a descoberta dos downloads de séries, pronto agora você pode acompanhar on-line, corre baixar a terceira e chegar à quarta para finalmente não estar mais atrasado (dos seus amigos porque bem à frente da programação local). E sua noiva chega trazendo na bagagem a fixação por Heroes, e nova maratona para não ficar atrasado já que você sabe que gostando ou não vai ter que assistir. E o amigo Renato Doho te manda alguns dvds com filmes e no meio episódios de algumas séries, entre elas os sete primeiros episódios de In Treatment e quando você percebe se já está baixando mais uma série, tentando correr para chegar onde todos estão (espero não gostar de Scrubs, se não será mais uma hehe).

É, você tenta passar ileso, mas não é possível, se lembrar bem já ganhei de presente da Alê Marucci a primeira temporada de Friends, alguns meses recebi do amigo Ailton Monteiro a quarta de Seinfield, vou continuar lutando, mas agora para não aumentar o leque de séries que já estão na minha rotina. Nas próximas semanas faço um apanhado geral das três que oficialmente estou tentando assistir atualmente, Grey's Anatomy, Heroes e In Treatment.

Filmes: Família Rodante

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(Familia Rodante, 2004 - ARG)

A idéia parece completamente atarantada, mas quando uma decisão familiar é totalmente racional? Olhando para aquela dúzia de membros de uma família tipicamente latina, é possível identificar um primo, uma tia, sua avó. Pablo Trapero transforma aquele trailer antiquado, apertado para tanta gente atravessar a Argentina para um casamento na fronteira com o Brasil, num sucinto resumo das posições de cada membro, seus conflitos e angustias, e ficamos assim, reféns daquela câmera que trafega juntamente àquele veículo tão estranho e enfadonho, repleto de gente maluca que num convívio tão próximo apenas intensificam as pessoas que propriamente são. Aliás, vale citar que Trapero busca ângulos capazes de nos aproximar a ação e ainda assim encontra espaço para detalhes sensíveis como as pernas inchadas da senhora, ou escrotos como o cofrinho ridículo da bermuda ultrapassada do cunhado motorista.

Claro que uma enormidade de clichês trará aventuras impares a toda essa expedição por um país terceiro-mundista de posto de gasolinas enfiados em fazendas, estradas de terra e vilarejos rurais (para não dizer desprovidos de modernidade). E desse misto de conflito familiar e comédia, Trapero vem com a verdade de sua idéia, um filme sobre moral, sobre dignidade, e sobre quais são atitudes perdoáveis, quais são louváveis, quem luta a favor da união familiar e quem é apenas um escopo vulgar. Seu filme, divertido sem pieguice, é sobre o núcleo, tratando exatamente dos temas que realmente importam (e nesse quesito dinheiro é mero detalhe) quando se estão em jogo filhos, amor, respeito, fidelidade, companheirismo, solidariedade e compreensão.

Lemon Tree (Etz Limon/ Lemon Tree) - o trailer do filme de Eran Riklis me convenceu, a sinopse e a vitória na Mostra Panorama do Último Festival de Berlim já eram motivantes. Uma daquelas histórias só possíveis no Oriente Médio, uma viuva palestina brigando na justiça para conservar seu pomar que o novo vizinho (ministro do governo israelense) quer derrubar em sua própria segurança.


Encarnação do Demônio - a volta de Zé do Caixão após mais de 30 anos sem dirigir, e ainda por cima o filme fecha a trilogia. Fãs corram porque dessa vez ele tinha verba para fazer o filme caprichado como nunca havia acontecido antes. Infelizmente não vou conferir, sem preconceitos, mas já sei que não é para o meu bico.

A Caçada (The Hunting Party) - trata da história de três jornalistas americanos (um deles é Richard Gere, o outro Terrence Howard que procuram na região dos Balcãs um dos criminosos mais procurados pela polícia internacional, em busca de uma entrevista exclusiva que obviamente traria ares positivos às suas carreiras. Textos posivitos a respeito do filme.


Asterix nos Jogos Olímpicos (Astérix aux jeux olympiques) - na esteira do início das Olimpíadas chega essa aventura, vi um filme anterior da série e a lembrança foi tá desagradável que não há chances de interesse pela chegada dos Jogos na terra de Asterix e Obelix. De Michael Schumacher e Zidane a Alain Delon, o elenco de celebridades é grande.


O Grande Dave (Meet Dave) - tem recebido elogios o novo filme de Eddie Murphy, depois de tantas escolhas e roteiros equivocados, nem mesmo sua boa participação em Dreamgirls alavancou novamente sua carreira. Para quem é fã de comédias, pode ser uma boa pedida.


Mais do que Você Imagina (My Mom's New Boyfriend) - Meg Ryan e Antonio Banderas, mulher namorando um homem suspeito de roubar obras de arte, enquanto isso o filho dela é o agente do FBI que o investiga. Estou fugindo.

Violência em Família (Suburban Mayhem) - drama australiano sobre uma família problemática, daquelas com histórico de violência, abandonos de casamento, mãe solteira e prisões. Aquele típico filme que se você tiver um tempinho e conferir, pode descobrir uma pequena jóia, só falta o tempo.



Devoção
- documentário sobre religião no Brasil, crença, misticismo, fé.

(Mio Fratello è Figlio Unico, 2007 - ITA)

Numa Itália empolvorosa politicamente entre as décadas de sessenta e setenta, o filme percorre a vida dos irmãos Accio (Elio Germano) e Manrico (Riccardo Scamarcio) que mesmo criados numa pequena cidade viveram euforicamente todas as mutações políticas e disputas inflamadas entre comunistas e fascistas. Pontuado por um humor descolado, proveniente do falante e briguento irmão caçula que ao desistir do seminário sente-se como um "patinho feio" no retorno ao lar o filme dirigido por Daniele Luchetti tem esse frescor de quem sabe tratar anos de política com eufemismos que suavizam as situações. E nessa toada cruzamos quinze anos da vida dessa família e todos os tumultos que eles enfrentam por suas escolhas políticas, discussões filosóficas e inclusive a paixão pela mesma mulher. Da efervescência da juventude, até a maturidade de uma idade mais avançada, os caminhos se cruzam, descobrimos que o povo é povo em qualquer lugar do planeta e o melhor exemplo é toda a história relacionada à casa própria e os votos para o partido "da casinha". Neste filme singelo, o grande destaque é o jovem Vittorio Emanuele Propizio que interpreta Accio ainda jovem.

(Boarding Gate, França, 2007)

Por mais que Olivier Assayas filme com propriedade e uma fotografia prateada que é belíssima e crua como seus personagens, a trama envolvendo tráfico de drogas, golpes, assassinatos e uma conspiração internacional não é empolgante como história. Repetição de contextos e por isso que Assayas não se preocupa com detalhes, com informações, a trama está ali porque é necessária e o diretor faz o mínimo uso dela.
O que temos de riqueza, além da mão segura de Assayas e uma mise-em-scène que particularmente me agrada muito, é o embate entre os personagens Sandra (Asia Argento) e Miles (Michael Madsen). Ela uma ex-prostituta que era usada por esse figurão para atrair e distrair clientes, enquanto viviam uma relação de sexo regado a sadomasoquismo e outras práticas. O primeiro encontro dos dois no escritório de Miles, e o reencontro para um "jantar" na casa dele, são de longe os grandes momentos desse filme. Ali brilham os três, os dois atores e Assayas, o clima é sufocante por mais lenta que sejam as falas, e tantas emoções estão contidas naqueles dois. O desejo aflora suas peles, o passado amargura-os e no presente cada um tem seus objetivos que serão definitivos após aquela noite.
Depois começa a fuga para Hong Kong e as cenas de ação continuam impregnadas do estilo do diretor, mas já não contam com tanta sensualidade e inspiração, e pelo vai-e-vem caímos na vala comum de um filme que guarda alguns momentos de temperatura eletrizante. Asia Argento em momento de êxtase.

Quando assisti Magnólia pela primeira vez fiquei completamente estarrecido, boquiaberto, buscando compreender detalhes e pequenas informações complementares que estão espalhadas pelo filme e nos fazem buscar algo além de sua projeção. Mas o filme é tão estarrecedor que cada história em si é um pequeno filme, uma pequena jóia da natureza humana, das mazelas que percorrem nossas vidas, culminando com o "coisas estranhas acontecem" e por não podermos controlar tudo, o inesperado é o que faz da vida a surpresa diária que ela é. Voltando a Magnólia, já fiz revisões, já assisti apenas algumas cenas em particular, não importa, o filme continua forte, continuo delirando com o travelling dentro do bar ao som de Supertramp, ainda me emociono e arrepio com duas cenas explosivas de Julianne Moore e tantas outras situações que despertam uma montanha-russa de sentimentos.

Depois disso tudo o nome ficou marcado na mente, o californiano Paul Thomas Anderson era um cineasta para olhar atentamente, e hoje me impressiona a solidez de uma carreira com apenas cinco longa-metragens. Só que P.T. Anderson fez por merecer, construiu essa carreira sólida com alicerces tanto num cinema autoral de temas pouco ou não tão profundamente discutidos, ora num conjunto de planos e movimentos de câmera que passaram de marca registrada a obsessão cinéfila, na repetição de atores talentosos que hoje são grandes nomes do cinema (melhor exemplo é Phillip Seymour Hoffman), e ultimamente distanciando-se das constantes comparações com Robert Altman e seus filmes painéis.

Sua estréia promissora foi com Jogada de Risco (saindo de uma espécie de workshop no Festival de Sundance), uma trama policial envolvendo cassinos e esse submundo do jogo, só que de uma maneira paternalista, Anderson esconde a beleza da reparação de um erro do passado, nessa trama que fede a dinheiro de uma forma muito elegante. Ali estava Philip Baker Hall num personagem distinto que com a elegância das tomadas tornava-se simultaneamente glamoroso e humilde, sobrando pouco espaço a um explosivo Samuel L. Jackson, e um pacato John C. Reilly, além da dúbia Gwyneth Paltrow.

Dali partia para o seu primeiro filme-painel, Boogie Nights trata do mundo do cinema pornô, entre festas e gravações conhecemos a vida, os problemas, a fama e a desgraça de atores, cineastas, técnicos e demais envolvidos nesse lucrativo nicho cinematográfico. Envolto em um clima positivo de festas à beira da piscina, o que temos são personagens flagelados, tristes, ou que não conseguem lidar com a fama que surge de repente. Mark Whalberg é um astro, bem-dotado, em franca ascensão. Um mundo marcado por solidão, vício de drogas, sonhos, e uma carência familiar. E P.T. Anderson acompanha o desenrolar de tantos personagens prevalecendo a depressão que pontua suas vidas.

Depois veio sua obra-prima, novo filme-painel, dessa vez Magnólia e formado por várias histórias que se entrecruzam por ocorreram na rua Magnólia, além de haver certa proximidade em cada uma delas. Pais e filhos, solidão, sucesso e fracasso, amor, dinheiro, erros e mais erros que cometemos e nos arrependemos e nos culpamos e esperamos até o limite para serem reparados. Mas a vida esconde surpresas, o inesperado acontece, e no filme de P.T. Anderson no momento de maior clímax, quando tudo parece fadado ao fracasso total, surge uma intervenção, um acontecimento, e cada pessoa encontra seu destino, seu fim, um refúgio para sua estrada.

Quando aportou pelo gênero comédia romântica, o cineasta quis fazer algo diferente, e Adam Sandler descobre um erro numa promoção de iogurtes, e encontra o amor nos contornos da doce e delicada Emily Watson. E P.T. Anderson nos embriaga pelo êxtase do sentimento que toma conta do personagem central, e ficamos ali anestesiados pela presença constante do azul e vermelho, pela sutileza com que se desenlaça o romance, pela guerra verbal de Sandler e Philip Seymour Hoffman. Pela genuinidade de amor que transcende a solidão e a timidez de uma forma a quebrar comportamentos pré-definidos e nos refazer como pessoas.

E finalmente a consagração do grande público veio com as inúmeras indicações ao Oscar de Sangue Negro, um filme ambicioso, megalomaníaco, tal qual Daniel Plainview e sua feroz busca por perfurações de petróleo em cada canto dos EUA. Um homem solitário, desprendido de sentimentos a qualquer pessoa, focado em sua meta ambição. Trata-se de um filme de sangue, de crenças, de religião, e do sentimento que no fundo rege a sociedade, a ganância. P.T. Anderson quer provar que no fundo, os outros sentimentos só valem quando não estão ferindo a ganância. E dentro de um apuro técnico invejável, o cineasta traz uma narrativa surpreendente, um épico moderno.

Busco encontrar os temas mais recorrentes em sua busca, já que seus cacoetes são tão claros e elogiados/criticados por todos os lados. Além da beleza de seus planos, de cenas memoráveis e da busca por sufocar seus personagens rumo ao limite, há em P.T. Anderson a exploração da solidão como constante humana, em todos os seus filmes há pessoas solitárias em suas vidas, incapazes de se desprenderem dessa tristeza. O tema pai e filho também se repete, e de formas e visões diferentes, desde o desprezo do pai, ao desprezo do filho, e até mesmo a ressurreição dessa relação. E a obsessão por dinheiro/sucesso/fama também é figura presente, e aqui o diretor não se cansa de alternar situações para comprovar que a humanidade está fadada a viver sob a constante busca por mais, uma forma incessante de manter-se em eterna depreciação.


Cotações (até 5 asteriscos):
Jogada de Risco ***
Boogie Nights ***
Magnólia ******
Embriagado de Amor *****
Sangue Negro ****

Semana passada foi de filmes vistos em casa, foi semana de Arquivo X, e com apenas 3 estréias nessa semana, ficou fácil correr para conferir o que despertar grande interesse. A Alegria de Emma voltou a ter pré-estréia, boa notícia:


Meu Irmão é Filho Único (Mio fratello è figlio unico) - aguardo por mim há um bom tempo, e com altas doses de expectativa, chega essa comédia italiana dirigida por Daniele Lucchetti retratando a situação política da Bota lá pela década de 60. De cara me lembro do maravilhoso O Melhor da Juventude, e as críticas positivas ao filme são o tempero que faltava. Presença garantida.


O Verdadeiro Amor (Sweet Land) - o filme do diretor Ali Selim caiu no meu colo como uma estréia completamente desconhecida, e a história transcorrida na década de 20 de uma imigrante que chega ao interior dos EUA, com um gamofone para um casamento arranjado, tem ingredientes interesssantes e merecem um olhar mais cuidadoso.

A Múmia: Tumba do Imperador Dragão (The Mummy: Tomb of The Dragon Emperor) - precisa escrever alguma coisa? O terceiro filme da série é tão oportunista que estréia na rabeira das Olimpíadas, passando-se na própria China.

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Michel Simões