(Hud, 1962 - EUA)
De um lado Hud Bannon (Paul Newman), de outro seu pai Homer (Melvyn Douglas), muito mais do que as diferenças de visão entre o moderno e o conservador, os dois batem de frente sob os valores morais. Hud não hesita em envolver-se com todos os tipos de mulher, e leva a vida entre o trabalho no rancho e as bebedeiras na cidade. Enquanto isso seu pai administra a criação de gado tal como aprendeu décadas atrás. No faroeste, ultra-moderno à época, do diretor Martin Ritt os cavalos dão lugar às camionetes e um tom de bom humor capitaneado por Hud aos poucos dá espaço ao apelo dramático que o filme pretende demonstrar. Infelizmente não passa de uma enormidade de pequenos clichês conduzidos de forma correta e bem compassada. O drama familiar e o interesse dos homens pela empregada da casa perdem em espaço para o problema da febre aftosa e todas as conseqüências que tal doença pode acarretar aos animais e aos criadores. Há quase no fim uma cena poderosíssima, com rifles em punho e disparos intermináveis, a dor de quem entregou sua vida a sua fazenda.
abril 2008 Archives
O texto é esperto, a comédia não perde o ritmo, Marcos Jorge ainda consegue elevar seu pequeno filme a uma pequenina jóia com seus enquadramentos fugindo ao óbvio, cenas mais longas e monólogos sem cortes. Mas nada disso é páreo para o talento sem precedentes de João Miguel que a cada filme destaca-se ainda mais. Aqui na pele do nordestino Raimundo Nonato que chega faminto e desempregado numa grande cidade e na esperança de um futuro promissor arruma, por sorte (ou azar num primeiro momento) emprego num pequeno boteco aprendendo a fazer deliciosas coxinhas. O filme transcorre em dois tempos, presente e passado, temos o protagonista preso narrando sua situação dentro da cela enquanto explica com detalhes o ocorrido que o fez ser encarcerado. Em ambos a história o bom humor sobrepõe-se a qualquer outro gênero que insista em surgir, a paixão por uma prostituta, a relação com um dono de restaurante que lhe oferece um bom emprego, o dom de cozinheiro que abre-lhe portas na cadeia, isso tudo é enredo para nos entreter. O que transforma Estômago num filme especial é a fisionomia do ator, a paixão pela cozinha em seus monólogos contando a história do gorgonzola ou outras especialidades, o segredo é aquele jeito de falar meio simples, meio engraçado, meio nordestino, meio só dele, que nos deixa fascinado.
(25th Hour, 2003 - EUA)
Depois dos atentados de 11 de Setembro, era de se esperar que muitos cineastas repensassem o estilo de vida norte-americano em diversas nuances. Spike Lee deixou de lado o racismo para tentar resgatar algum desses valores perdidos. E discute através da última noite de liberdade de Monty (Edward Norton), condenado por tráfico de drogas. Entre flashbacks e os acontecimentos do dia, temos um retrato da figura deste homem, sua relação com o pai, os momentos de flerte com sua atual namorada, e a longa amizade com os dois grandes amigos (um corretor da bolsa aparentemente duro, e um professor inseguro e introvertido). O dinheiro fácil que corrompe as pessoas, por essa via Lee exagera ao trazer o sonho infantil de ser bombeiro, sempre aliviando a barra de gente consciente do mundo ilícito em que está vivendo, por outro lado discute a aceitação dos honestos (que dizem não se envolver), porém também não recriminam (e até usufruem) desse dinheiro sujo. Um filme de reflexão de seu personagem, e que almeja refletir sobre uma sociedade, quando na verdade só consegue ser bonito em todas as nuances de sua fotografia e na capacidade de resumir boa parte de um país em meia-dúzia de personagens numa única noite.
Imagine tudo que de mais terrível um romance possa possuir, agora eleve à máxima potência. Temos os ingredientes do filme dirigido por Gil Junger. As piores cenas possíveis, com atores desprovidos de qualquer talento (Paul Nicholls e Jennifer Love Hewitt) e clichês dos sabores mais gastos possíveis. Você pode até comprar a história superficial, mas nem com muito esforço é possível aceitar cada toque de mau-gosto que está espalhado pela trama. Trata-se de um filme terrível do início ao fim, e o final então, o que era aquilo? Um clipe musical perdido no caminho ou eu que estava com o dvd errado?
(My Blueberry Nights, 2007 – EUA)
Está tudo ali, cada obsessão que Wong Kar-Wai tema em repetir exaustivamente em seus filmes, fazendo mais do que uma marca pessoal e sim uma absoluta demonstração de que fazendo mais do mesmo este genial cineasta é capaz de nos emocionar de forma deliberada e incondicional. O ritmo muitas vezes lento, os travellings laterais simplesmente hipnóticos, um balcão de lanchonete, simbologias, o silêncio, os olhares perdidos ao léu, a fumaça do cigarro, um quarto de hotel com cores mórbidas na parede, os amores irrealizáveis. Kar-Wai mistura aqui elementos de suas duas fases, sai de cena a Hong Kong de décadas atrás e reaparece a visão noturna com neons e outras luzes em tons vermelhos.
Norah Jones (fraquíssima) como Elizabeth é o fio condutor de várias histórias de amores não-felizes, ela própria encabeça um desses romances angustiados ao ser trocada pelo namorado e buscar consolo em Jeremy (Jude Law) e suas tortas de mirtilo (blueberry). A primeira parte do filme que basicamente acontece dentro do bar de Jeremy é uma verdadeira maravilha filmada pelo cineasta, a aproximação dos dois solitários, a forma como Jeremy reconhece seus clientes, o vidro guardando chaves das quais ele não se liberta por acreditar que essas portas ainda podem ser abertas. Kar-Wai filma o lugar numa mistura de mistério e ternura, cada detalhe daquele balcão, da porta de entrada, da câmera que filma o ambiente no intuito de segurança, mas Jeremy busca nelas um consolo que sua alma não sabe explicar.
Na fase seguinte temos um road movie, Elizabeth parte pelo mundo trabalhando como garçonete pelos rincões dos EUA, busca prumo para sua vida, busca livrar-se das dores do coração. Deixa para trás a faísca de romance que poderia surgir entre ela e Jeremy. E a cada passo da história e das relações amorosas que se despedaçaram bem à frente dos olhos de Elizabeth, mais um pouco de reconstrução pessoal é restabelecida por ela, como se fosse esse um bem necessária para que seu coração pudesse amar novamente. Assim temos a história de um policial alcoólatra completamente apaixonado por sua ex-esposa (Rachel Weisz espetacular, viva, altiva); e também a garota viciada em pôquer (Natalie Portman iluminada) que vive uma relação mal-resolvida com seu pai. Também não posso esquecer da russa (Cat Power em estado de graça) que reaparece na vida de Jeremy num dos momentos mais enigmáticos e desconcertantes do filme. Naquela seqüência no frio de Nova York, um diálogo quebradiço, cheio de sentimentos e segredos que não podem ser explicitados de forma direta, uma mistura do obliquo e do superficial.
E Kar-Wai surpreende, deixa escapar um fio de esperança entre seus amores, talvez inebriado pelos EUA, talvez adocicado pelas tortas de mirtilo, talvez completamente entregue ao clima romântico-melancólico da trilha sonora escolhida a dedo, a verdade é que os que dizem que Kar-Wai está se repetindo provam que não conhecem bem seu cinema, aquele beijo é de uma plástica e beleza sem precedentes, quase se pode notar o gosto, e o mar de esperanças que ele abre é apenas mais um dos mistérios que Kar-Wai está a nos oferecer. My Blueberry Nights é Kar-Wai puro!
Sou o tipo de cinéfilo muito mais ligado a uma história interessante e bem contada, que me acerte de alguma forma, do que um filme destacado essencialmente em quesitos técnicos. E Barry Lyndon me pareceu um elefante branco. Enorme em sua duração, todo pomposo como filme de época. Uma utilização fantástica, magistral, diria perfeita da iluminação natural (o uso das velas é algo delirante). Porém a saga do Sr Lyndon não me motiva, é a mesma história contada da mesma forma, não que seja um filme ruim porque Kubrick jamais fazia filmes ruins, mas é igual a tantos outros que passaram por mim praticamente em branco. Burgueses, homens que desaparecem da sociedade depois de preconceitos e voltam riquíssimos, impondo-se perante aqueles que outrora desfizeram de sua posição menos nobre.
(Silent Hill, 2006 - EUA/JAP/FRA)
Aos olhos tudo parece perfeito, em algumas cenas a sensação é de se estar no jogo de videogame que o originou. Só que infelizmente o filme dirigido por Christophe Gans não passa desse apuro técnico, e a história de uma mãe (Radha Mitchell) conduzindo a filha a uma cidade fantasma a fim de compreender e cessar com as alucinações de sua pequena, não passa de uma coleção de cenas aborrecedoras, repleta de absurdos lógicos e um final que deseja imensamente tornar-se arrebatador. E no encaixar de peças deste quebra-cabeças, só iremos nos lembrar dos furos grotescos, detestando tudo ainda mais.
Rose (Radha Mitchell) não consegue aceitar o fato de que sua filha Sharon está morrendo de uma doença fatal. Apesar dos protestos do marido, ela a leva a uma viagem a fim de encontrar um curandeiro. No entanto, acaba atravessando um portal que as leva à cidade deserta de Silent Hill. Sharon desaparece na cidade e Rose segue o que julga ser a sombra da menina por todos os lugares. É quando ela descobre que Silent Hill é habitada por uma série de figuras demoníacas que saem praticamente de todos os lugares. Mas ela também encontra alguns humanos que estão na mesma situação. Com a ajuda da policial Cybil (Laurie Holden), Rose procura por sua filha, enquanto descobre a história da estranha cidade.
Stranded - Venho de um Avião que Caiu nas Montanhas (Stranded: I Have Come from a Plane that Crashed on the Mountains, 2007 - URU/FRA)
Com o passar do tempo o documentário de Gonzalo Arijon torna-se mais e mais fascinante, mesmo com pequenos toques melodramáticos (principalmente na trilha acidental). O que se iniciava como um vôo de fim de semana no Chile (para muitos dos passageiros), com cenas de reconstituição em forma de fragmentos de memória e tudo mais, após a queda da aeronave em plena Cordilheira dos Andes e principalmente toda a heróica jornada por mais de setenta dias naquele frio congelante totalmente ilhados do mundo, aguça nosso interesse de uma forma que não é possível pensar em outra coisa a não ser descobrir como tudo aquilo terminou.Desde as dificuldades iniciais, o racionamento de comida, as mortes durante a jornada, a expectativa por equipes de busca, até os momentos mais dramáticos, a discussão do tabu de lutar pela sobrevivência apelando para o canibalismo nos corpos dos companheiros de vôo que não resistiram a todas as adversidades. O filme resgata cada momento desse sofrimento coletivos até a última expedição, ao fim do inverno, quando são finalmente resgatados os poucos sobreviventes pesando aproximadamente trinta e oito quilos e de um esgotamento físico e mental irrepreensíveis. Por fim, após toda essa heróica luta pela vida, a imprensa internacional os repreende de forma avassaladora, a discussão do canibalismo toma a tona no início da década de setenta, e aquelas vidas ficam sob julgamento como se não tivessem sido tão penalizadas após tanto sofrimento, após se verem obrigados a mutilar corpos de conhecidos, a comer pedaços de corpos cortados com cacos de vidro, a buscar em pó de ossos alguns nutrientes necessários à sobrevivência. Sem dúvida que resistiram os de melhor preparo físico, se a maioria não fosse de uma equipe de rugby, certamente não estariam vivos até hoje. Gonzalo Arijon traz a tona uma história de fascínio sem precedentes, com fotografia de César Charlone nos oferece uma riquíssima radiografia de um fato tão espetacular.
(Jumper, 2008 – EUA)
Não perco meu tempo me perguntando porque raios exista filmes como Jumper. Eles estão aí e seu público continuará interessado em consumi-lo como entretenimento e satisfazer-se com o mar de possibilidades que tal tipo de filme abdica para que atenda esse único e insólito propósito. Partindo de toda essa esquizofrênica, porém aceita, situação, o filme de Doug Liman não merece tantas críticas negativas por se tratar de um produto totalmente enquadrado em seu propósito. Um jovem com poder de se teletransportar cai na vida assaltando bancos e gozando da fortuna. Há outros como ele, e há os paladinos que tentam cassá-los a todo custo. No meio da confusão nosso jovem resolve buscar sua paixão da infância e pronto, todos os elementos para cenas de ação, fugas e capturas, e uma mar de momentos que não chegam à empolgação, mas também não causam irritação (absurdos à parte, Jumper cumpre seu papel como cinema, um triste papel como a maioria de seus pares, mas está cumprido a risca dentro da cartilha decorada por indústria-grande público).
Bem cuidado sob todos os aspectos pelo diretor Mark Waters, esta fábula infantil reúne, sem grandes pretensões e com sagacidade, tanto a riqueza do mundo imaginário da fantasia quanto uma boa dose de aventura e emoção. Um livro secreto guarda segredos que nas mãos de algumas criaturas (invisíveis à maioria) pode causar terríveis males, uma família sofrendo com a recente separação dos pais muda-se para a casa onde tal livro estava guardado. Dessa descoberta, inúmeras e arriscadas aventuras estão reservadas a Jared (Freddie Highmore) e seus irmãos que se vêem transportados a esse mundo de fantasia povoado pelas mais estranhas criaturas.
Entra em cartaz hoje um filme de Sokurov que vi alguns anos atrás na Mostra SP, como sou grande apreciador do cineasta russo segue aqui o texto escrito e publico à época.
O Sol (Solnze / The Sun, 2005 – RUS/FRA/ITA/SUI)
O Japão vive os momentos finais da Segunda Guerra Mundial, o Imperador Hiroito é tido como um mito pela população, um semi-Deus. Atônitos ouvem pela primeira vez sua voz, quando o mesmo discursa no rádio solicitando que o país cesse com os combates. Alexander Sokurov nos oferece novamente um filme poderosíssimo, metafórico, contundente. A desconstrução da figura de mais um ditador, de mais um mito. Alguns dizem que essa tetralogia busca humanizar essas figuras tão enigmáticas e endeusadas, quando o cineasta apenas desmistifica, retira-os do pedestal para colocá-los no mesmo nível de seus pares (o que não deixa de ser uma forma de humanizá-los).
Hiroito não é tratado como um ser perverso, megalomaníaco, ao contrário, está muito mais para o indiferente, ao fútil. Enquanto entrega o poder às mãos dos norte-americanos, o Imperador demonstra preocupação com a biologia (sua verdadeira paixão), o país sangrando pela derrota e seu líder buscando consolo em suas plantas, seu casulo para enfrentar situação tão vexaminosa.
Um homem culto e inegavelmente aristocrata, o Imperador encanta-se com as descobertas das novidades vindas do Ocidente, a conversa com o general McArthur é prova cabal de toda sua excelência de etiqueta e verdadeiro desapego aos assuntos de guerra. Fraco, visivelmente derrotado, Hiroito sabe muito bem o que significa aquela derrota, a invasão dos costumes ocidentais numa nação tradicionalista, enclausurada em sua ilha. Hiroito ainda assim não perde a pose, a cena em que empregados fecham as dezenas de botões da roupa do Imperador demonstra a manutenção dos costumes, um mar de futilidades e serenidade num momento de perda, de grande humilhação nacional.
As cenas são curtidas a seu tempo, é um típico filme de Sokurov, a fotografia bela, amarelada, quase sem tom, como se um espelho demonstra-se a alma de Hiroito e do próprio Japão. Issey Ogata é um caso a parte dentro do filme, um ator em momento de esplendor, um fenômeno de recriação, a cada segundo podemos notar a aristocracia, o momento sem-jeito, a alma partida pela derrota, porém a verdadeira personalidade do Imperador exposta com seus anseios e costumes. Sokurov com seu jeito vagaroso, bate forte, Hiroito sem máscaras, descolando aquela figura forte e nacionalista que criamos para todos os líderes vencidos, quem disse que todos agem (agiram) assim?
Hiroito (Issey Ogata) Gal MacArthur (Robert Dawson)
(2 Days in Paris, 2007 - FRA/EUA)
Ele, norte-americano. Ela, francesa. Casal de férias, aproveitam para voltar a Paris a fim de conhecer a família da moça. Alguns dias de estadia entre os clichês comportamentais franceses e parte da realidade violenta da cidade, são até que contornáveis para Jack, os problemas começam ao conhecer a família e principalmente os ex-namorados da parceira. Julie Delpy dirige buscando algo que aprendeu e praticou nos filmes de Linklater, porém exagera na dose das situações, passando do ponto e ocasionando mais que um inferno aceitável na vida de Jack (o excelente Adam Goldberg). Chega a ser decepcionante, mas ainda assim a um tratamento especial ao tema ciúmes, e particularmente a relação tênue que mantemos com as antigas experiências amorosas-sexuais de nossos parceiros.