março 2008 Archives
As edições anteriores da saga do Aranha primavam muito mais por um despojado e afável desenlace de um romance marcado pela disputa de dois amigos pelo coração de uma encantadora Mary Jane, fora isso as seqüencias vibrantes de ação e toda a mitologia de Peter Parker completavam o caldo de sucesso, mas era a competência no aprofundamento da questão envolvendo Mary Jane e os rapazes que diferenciava a saga dos demais filmes do gênero. Dessa vez o enfadonho ocupa espaços e as lembranças a cada dia que passam tornam-se ainda piores, porque os personagens perdem-se na altura da fase adulta em situações e vai-e-vens que desperdiçam o encanto conquistado anteriormente. Resta cenas empolgantes do Aranha em ação, especialmente uma caçada entre espaços estreitos entre os prédios, porém com o melhor de seu conteúdo renegado a disputinhas de ego entre aprendizes de fotógrafos e bobagens insensíveis de Parker no quesito amor, fica difícil esperar por algo que faça uma nova aventura recuperar a magia.
(Vantage Point, 2008 - EUA)
Impossível negar que os primeiros vinte minutos nos deixam ligados, principalmente pela opção da primeira visão dos fatos sob a ótica da equipe de TV, oferecendo uma ágil seqüência das imagens e fatos. Os fatos serão narrados diversas vezes, e a cada retorno terão a perspectiva de um novo personagem e novos detalhes esclarecedores surgirão. É no roteiro que o filme dirigido por Pete Travis se alicerça, e o assassinato de um presidente dos EUA frente as câmeras e uma multidão, fora as explosões de bomba, são obviamente fatos intrigantes. Porém o filme transcorre e começa a perspectiva de terroristas comedores de criancinha, de fatos e idéias mirabolantes, nacionalismos, segurança nacional, heróis indestrutíveis e perseguições inimagináveis. Para piorar tudo, há um dos finais mais escabrosos do cinema, um emaranhado de personagens corruptos e um clímax brochante de tão inverossímil fazem do que seria um thriller de ação, um grande atentado a nossa inteligência já que de Rambo a Jack Bauer, arrumaram espaço para todo mundo.
(Out of Rosenheim, 1987 - ALE)
Uma fábula sobre as relações humanas, uma comédia sobre como do mais inesperado pode surgir um evento que irá mudar sua vida profundamente. Quem poderia imaginar que de um começo conturbado, nasceria uma estreita relação entre uma turista alemã gorda e simpática e uma mal-humorada e mal-cuidada negra norte-americana dona de um posto de gasolina e um bar no Arizona. O que há de estranho no filme de Percy Adlon, há de mágico e representativo, se optou pela fábula é porque sabia que ela ofereceria todos os ingredientes para tornar essa mistura heterogênea num belo capítulo da magia que só a amizade pode perpetuar.
O Orfanato (El Orfanato, 2007 – ESP)
A maestria de J. A Bayona talvez esteja contida na capacidade de alternar tantos clichês e fazer com que tudo funcione com primazia. Não há novidades, o roteiro é todo picotado de outros filmes do gênero, e mesmo assim a história torna-se gradativamente envolvente, surpreendente e emocionante. Um espetáculo cinematográfico principalmente na direção de arte e fotografia, a câmera alternando-se entre planos abertos e fechados, leves travellings, rotações em 360º, seqüências emocionantes sem cortes (a do esconde-esconde é angustiante), e sustos, bons sustos. अ. mãe desesperada para descobrir o paradeiro do filho pequeno, envolta a fantasmas de crianças habitando o casarão onde moram (um antigo orfanato onde vivia a própria protagonista). Tem início sua incansável luta, a obstinação de uma mãe, os pequenos segredos revelados pouco-a-pouco, uma fantástica viagem de horror, fantasia, drama e suspense, sem deixar de tratar temas como doenças incuráveis, crianças deficientes, religião e fé, paranormalidade. O filho e seus amigos imaginários, o pai e sua descrença total, e a mãe como sempre se apegando ao último fio de esperança e capaz de atitudes destemperadas por sua cria.
É a naturalidade com que Lucia Puenzo conduz a trama que nos causa maior proximidade com o drama robusto e complexo. Cadenciado entre o denso e a leveza, trata da vida de uma adolescente hermafrodita sofrendo com as incertezas sobre sua sexualidade e personalidade, e também do preconceito da população de uma pequena cidade pesqueira. A mais forte cena sexual causa estranheza por diversos aspectos, mas também é a perfeita tradução do filme e principalmente da personagem ainda incapaz de resolver-se tamanha incerteza entre seus instintos. A rebeldia está intimamente ligada a toda essa complicada situação vivida por alguém que já sofre uma idade de descobertas e aprendizados e ainda precisa lidar com toda uma questão sexual que aflora de seu corpo. Puenzo também nos oferece uma participação interessante de Ricardo Darín, no papel de biólogo e pai de Alex (Inês Efron) que enxerga-se como incapaz de discernir qual a decisão correta que sua filha deveria seguir. E sofre com as dificuldades da filha, ainda assim respeitando-a e protegendo-a seu modo.
Pode-se custar a acreditar que o personagem Charlie Wilson (Tom Hanks) não seja uma figura satírica saída da mente de algum roteirista, pois sob uma rápida olhada esse congressista norte-americano dos anos oitenta poderia ter saído de qualquer comédia rasgada. Não pelo seu estilo de vida bon-vivant, sempre em festas banhadas por champagne com lindas mulheres e drogas, porque isso é famigerado e extremamente comum. Mas um escritório na Casa Branca onde trabalham apenas mulheres que fazem o tipo loira-burra-desajeitada, um constante abrir e fechar de portas, um entra e sai em grupo, parece que aquela manada de mulheres está escorregando pelos pisos encerados, se esforçado para agir de forma inteligente. E a coisa engrossa quando aparece o ímpar agente da CIA (atuação novamente elogiável de Phillip Seymour Hoffman) especialista em Afeganistão, apto para coordenar toda essa política belicista.
A máquina familiar caminha ajustada, entre o temperamento ora explosivo e ora carinhoso o pai cumpre as funções da mãe ausente e tenta oferecer a melhor educação aos filhos. Tudo parece prosperar, um aperto nas contas para uma carreira profissional independente. Sob a visão do tímido filho caçula de onze anos é que teremos a visão desse núcleo familiar. Quando a mãe retorna ao seio do lar, esperasse que haja um equilíbrio, passados perdoados, erros esquecidos, mas estamos apenas reiniciando os problemas, e os reincidentes não conseguem manter-se na linha. Engraçado como a retirada de uma peça que até então não fazia muita falta pode desestabilizar totalmente, não se trata de uma relação matemática e o que era bom antes não o é mais depois. Pena que estreando na direção Kim Rossi Stuart demora-se por demais nas apresentações dos personagens, mira no núcleo familiar para depois retrair-se apenas na inconsistência das dúvidas do adolescente, e sua maneira de encarar os temores da idade e ainda enfrentar a crise familiar. Tudo está ruindo, e o cineasta busca no Neo-Realismo sua maneira de contar essa história que parece muito mais cinematográfica do crível (por mais que quando se trata de relacionamentos não há regras, não há condutas e atitudes das mais impensadas são perfeitamente possíveis).
Também não é quando você percebe que os encontros acontecem praticamente sete dias por semana, que vocês passam mais noites juntos do que separados de que desde sexta à noite até domingo de madrugada já é certo que estarão o tempo todo juntos.
Ou quando você percebe que os dois já estão traçando planos juntos para o futuro, planejando viagens e falam tanto disso que esses planos começam a ficar robustos e ganhar forma, prestes a serem dados os primeiros passos.
Realmente a principal maneira de mensurar a importância desse relacionamento não está contida nas perguntas de qualquer um querendo saber de você quando já está implícita a resposta sobre ela também, como se fosse impossível dissociar um do outro.
Outra possibilidade que não consegue apontar a verdadeira importância é quando você chega em casa e a mulher que limpa sua casa já deixa duas toalhas no banheiro, e outros sintomas que apontam para dois habitantes daquela casa, quando os porteiros não mais questionam e apenas cumprem sua função de abrir e fechar a porta ao morador.
Ontem pela manha eu percebi claramente, e a gota d’água foi quando tive a idéia de combinar com meu pai (com quem me encontro duas-três vezes ao ano) de passar um sábado com ele em seu apartamento no interior (lugar que nunca visitei e lá se vão uns seis-sete anos), para comemorarmos seu aniversário e para que ele conheça a culpada por eu ter tido essa idéia.
Não me assusto em perceber que esse relacionamento já atingiu um grau de importância imensurável, trata-se de apenas uma constatação de que realmente está cada dia mais difícil dissociar ela de mim, pensei que nunca faria essa visita que fará meu pai tão feliz, isso dá uma idéia da importância disso tudo (e a idéia foi inteiramente minha).