Essa cara de garoto esconde de muitos que no meu próximo aniversário estarei comemorando minha terceira década, na verdade informação irrelevante. Minha lembrança mais remota de aniversários me leva àquela que deve ter sido a única vez em que meus pais alugaram um salão de festas para a comemorar. Algo entre quatro e seis anos, e naturalmente pequenos relances de lembranças são o que restaram. Lembro bem de brincar pelo salão, fingindo ser um trem, e arrastando os pés, e assim dava a volta entre o salão e os convidados, e a cada vez que passava pela mesa do bolo, assaltava mais um brigadeiro. Havia um mágico, e por meio de um foto ainda trago lembranças de uma de suas estripulias, a cena é bem forte na cabeça, meu primo segurando meu braço como se fosse uma alavanca, meu outro braço esticado e abaixo dele um jarro de onde caíam as moedas que supostamente saíam do meu dedo a cada vez que meu primo movia a alavanca (eu e todas as crianças nos divertíamos).
A diferença de idade entre eu e meu irmão é de quatro anos, porém a diferença entre nossas datas de aniversário são apenas oito dias, e por isso mesmo comemorava-se os dois de uma vez só (relação custo-benefício). Nunca me importei com festas, aniversário nas férias, amigos viajando, quando começava as aulas eu já estava mais velho. Quantas e quantas vezes minha mãe fez um delicioso bolo de cenoura e da varanda do apartamento chamava eu e os amigos que brincavam comigo para o parabéns. Numa das vezes estávamos em Caraguatatuba (quando minha avó morava por lá) e me lembro da casa estar enfeitada com decoração do He-Man (isso deve fazer uns vinte anos). E até o ano retrasado minhas comemorações foram assim, um bolo em casa e alguma coisa para comer enquanto parentes e alguns poucos amigos apareciam para as felicitações.
Até os oito meses eu não era um bebê tão magrinho, a partir dessa idade passei a ser o magricelo que sou até hoje, mas durante muitos anos da infância eu era magro demais, não ganhava peso, não comia, foram dois anos de leite materno e depois alimentado apenas por danoninho (santo danoninho, já que punha para fora qualquer outra coisa que me oferecessem), minhas febres eram altas e constantes. Os relatos de meus familiares apontam para uma descrença com relação ao meu futuro, no começo achavam que minha mãe não sabia cozinhar e por isso todos iam para cozinha inventar alguma gororoba (sempre rejeitada por mim). Os médicos não encontravam maiores explicações para a febre, o tempo passava e eu estacionado no peso. Aos seis anos, numa crise de febre altíssima, minha mãe me pegou de um lado, meu irmão com dois anos no colo, e saiu pela avenida (do bairro que acabáramos de nos mudar) a procura de um médico, um táxi, de qualquer coisa, encontrou uma clínica de paredes e portão branco e letreiros meio apagados com o nome do Dr. Artur. Lembro bem da sua cara sorridente, dos seus movimentos lentos, da sua cabeça grande e da testa saliente ajudada por um cabelo ralo. Também tenho lembranças do seu consultório (que ficava num sobrado) e hoje é um comércio qualquer. Havia uma escada em curva na garagem que dava para a recepção com cadeiras ocupando quase todas as paredes do salão, além da mesa da recepcionista que ficava ao lado do corredor que levara para a cozinha. Subindo as escadas, o consultório do médico ficavam em um dos quartos, e não guardava nada de especial de qualquer outro consultório, apenas uma mesa no canto perto da janela repleta de bonecos dos mais diversos personagens e tamanhos era o que a diferenciava. Depois de alguns minutos de conversa, e de minha mãe contar todo o histórico de mais de quarenta pediatras visitados, o médico quis fazer-lhe uma pergunta que não era muito comum: “vocês já verificaram se ele tem reumatismo?”. Peraí, reumatismo não é doença de velho? Sinceramente eu não entendo nada disso até hoje, mas depois de mais uma batelada de exames o resultado apontou para reumatismo sim. Dali em diante foram dois anos tomando benzetacil periodicamente (o farmacêutico vinha em casa, eu o via pela janela e a bunda já doía, a perna enrijecia, chorava, só de pensar em agulha até hoje eu desmaio). Até chegar o dia em que numa intervenção cirúrgica minhas amídalas foram retiradas e com elas uma vacina me foi aplicada em dez doses. A cirurgia foi feita três dias após meu aniversário de oito anos, sem dúvida o maior presente de aniversário que já ganhei (lembro da internação, do momento em que fui levado para a sala de cirurgia, lembro até da espátula próxima da minha boca, até o momento em que apaguei). Pode até ser que não seja muita coisa, mas para mim foi, porque desde aquele momento comecei a ter realmente uma vida normal, ganhar peso, parar de tomar remédio o tempo todo e o fim das injeções.
No ano retrasado fiz minha primeira balada de aniversário, era a primeira comemoração sozinho (após longos anos de namoro), lembro que estávamos em dez no lugar. No ano seguinte eu já estava com minha vida completamente reformulada, com alguns grupos de amigos bem próximos. Como um de meus melhores amigos faz aniversário no mesmo dia, fizemos a comemoração juntos, e o resultado foram vinte e dois convidados numa balada inesquecível. Há alguns dias completei outro aniversário, e com meu amigo reeditamos a festa do ano anterior, e sem dúvida foi uma das noites mais inesquecíveis que já tivemos. Foram trinta e nove convidados, dos grandes amigos apenas uma ausência, amigos das antigas, pessoal do trabalho, amizades que fizemos no mercado em que atuamos, tanta gente, (nem preciso dizer que Oz estava lá), e dessa vez estava com minha namorada do lado, essa pessoa que veio de longe para remodelar todo meu mundo e oferecer significados que em alguns casos eu até desconhecia. E com ela e os amigos, me diverti tanto, mas tanto, mas tanto (com as risadas, as músicas, as danças, os agitos), noite inexplicável de situações ímpares. E se aquela cirurgia tinha sido o maior presente de aniversário que ganhei na infância, um dia antes dessa noite incrível, dessa vez era ela quem me dava o melhor presente de aniversário da fase adulta quando afirmou que estava desistindo de voltar ao Japão para ficar aqui. Eu sabia que a única razão para essa decisão era a nossa relação e por isso eu deveria estar preocupado, me sentindo com uma grande responsabilidade nas costas. Deveria, mas devo ter faltado nessa aula, eu só conseguia ficar feliz, muito feliz. Sem dúvida eu passo pela melhor fase da minha vida, depois do grande susto familiar do ano passado, depois de momentos estranhos no lado profissional, depois de tempos de solidão, tudo foi se arranjando. Primeiro amigos presentes e incríveis, depois a recuperação surpreendente que minha mãe teve, a seguir a solidez da minha fase profissional (fincando finalmente meu espaço) e agora a pessoa que transforma cada segundo, num segundo incomum, seja por um sorriso, por uma fala, por um gesto, seja por estar ali presente. Pouco mais de um mês juntos (e não sou um garotinho para acreditar que essa paz sobreviverá eternamente sem dificuldades, algumas discussões e tudo mais que uma relação possui), só que há algo de muito especial em nós, pode ser sentido no ar, mesmo as diferenças mostram-se mais riquezas do que empecilhos.
Só que nem tudo são flores no reino da Dinamarca, e o Japão com tudo que pode oferecer continua sendo uma sombra, ainda mais por ela estar sem trabalho e tudo mais. E nesse mar de incertezas a gente vai vivendo os dias numa intensidade latente, e mesmo com futuro incerto nada tem nos contaminado, nada tem nos atrapalhado. Só que certo, mas certo mesmo é que “...é exagero, pode até não ser, o que você consegue, ninguém sabe fazer.”.