fevereiro 2008 Archives

Filhos da Esperança

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(Children of Men, 2006 - ING/EUA)

Baseando-se no romance de P. D. James, Alfonso Cuarón envereda-se pelo mundo da ficção científica. Em 2027 o mundo sofre de infertilidade, há mais de dezoito anos não nasce uma criança no planeta. Em Londres os imigrantes são caçados, há grupos revoltosos lutando contra o sistema e a violência atingiu níveis catastróficos (e o pior é a perspectiva de fim da humanidade). Nesse cenário caótico um antigo ativista resgata suas raízes e aceita ajudar a transportar uma mulher inexplicavelmente grávida até um local seguro que poderia cuidar dessa criança e não transformá-la num objeto de jogo político. Com todo o jeitão de thriller, são os fantásticos planos-sequencias que se destacam dentro de um roteiro baseado numa idéia original e caindo por clichês do gênero. Cuarón se diferencia por tais cenas, que nos causam sensação precisa de atravessar aqueles escombros e tiroteios em momentos empolgantes.

Senhores do Crime

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(Eastern Promises, 2007 - ING/EUA/CAN)
Nas mãos de outro diretor este filme corria o risco de cair pelo melodrama óbvio e cenas repetitivas de perseguição a uma jovem indefesa. David Cronenberg guia para outro lado, um suspense lento e cru, áspero pela envergadura de seus personagens, pela fotografia fria, pelo clima londrino que anda impregnado em cada fotograma. Denuncia-se a imigração russa, mulheres prostituídas, homens mafiosos vivendo acima da lei. A chama desse incêndio é a benevolência de uma enfermeira de origem russa que tenta encontrar a família de um recém-nascido cuja mãe morreu no parto (sua única pista é um diário escrito em russo). O aspecto mais interessante é o resgate dos costumes e métodos de conduta dessa máfia de São Petersburgo e adjacentes, o significado das tatuagens, a disposição hierárquica. Por outro lado, trata-se de um filme tão centrado que se torna incapaz de causar suspiros, é verdade que a luta sangrenta na sauna causa frisson (Viggo Mortensen tem aqui um trabalho excepcional, sotaque carregado, expressões contidas), ainda assim Cronenberg vai gradativamente perdeu parte do seu brilho e cinema particular para aproximar-se perigosamente de um cinema comercial, com singelos traços autorais.

Sangue Negro

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(There Will Be Blood, 2007 - EUA)


A ambição como objetivo de vida, como único intuito de viver. Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis espetacular, aliás sempre) é um prospector, e trabalha arduamente n seu ofício de fazer jorrar petróleo EUA a fora. Ele quer fazer fortuna, para que? Para depois fazer mais fortuna, e então ficar mais rico. Segundo suas próprias palavras, ele odeia pessoas, não mantém vínculos, não sabe o que é amar, não há mulheres em sua vida. Uma vida de ambição. De outro lado há o jovem pastor que num primeiro momento pode parecer justo e correto, para adiante mostrar que sua ambição é tal qual a de Plainview (só é mais amistoso com as pessoas), no frigir dos ovos os dois passam como tratores sob todos aqueles que se opõe (ou de alguma forma atrapalham suas ambições).

Não há falas nos primeiros quinze, vinte minutos (apenas um grito de "não"), e Paul Thomas Anderson desde este início demonstra todo o virtuosismo de sua direção, seja pela magnífica forma de nos mergulhar nos primórdios da extração do petróleo (e todo o seu processo manual, asqueroso, pegajoso), seja pela habilidade em unir todos os elementos técnicos num resultado deslumbrante (principalmente a fotografia e a trilha sonora do baterista do Radiohead que funciona perfeitamente com a aridez da paisagem, com as torres de petróleo em chamas, com a frieza do protagonista). Se nos envolvemos com a história épica do desenvolvimento da extração do ouro negro, a grande motivação de Sangue Negro é Daniel Plainview e sua ânsia incessante, sua loucura desenfreada, sua visão capitalista ultrapassando os limites do lado profissional. É como se Plainview não tivesse uma vida profissional e pessoal que pudessem ser separadas, ele fez uma opção e como toda escolha radical o obriga a viver as conseqüências. E estas vão além do distanciamento da sociedade, para uma tênue relação entre o sangue e o petróleo.

Juno

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(Juno, 2007 - EUA)

Como seria fácil se uma gravidez na adolescência transcorresse como no filme de Jason Reitman. Fofinho e engraçadinho, o filme se foca no jeito e estilo de ser da garota, privilegiando risadas e fingindo não haver dificuldades, conflitos, remorsos, dores e tudo mais. Nessa atmosfera fantasiosa temos também o casal de pais adotivos que irão ficar com a criança, e o boboca do namorado incapaz de reagir a nada. Sinceramente o filme me incomoda por tamanha falsidade no tema (camuflando o que não interessa), por outro lado seu ritmo é agradável, e um conjunto de cenas graciosas acaba pesando para que nos encantemos em alguns momentos com os personagens.

Falando de Sexo

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(Speaking of Sex, 2004- CAN/EUA)


Histeria e exagero é uma combinação que desmotiva, e o filme de John McNaughton não se permite um sequer sem um destes dois elementos em cena. A história do casal com problemas sexuais que busca ajuda na psicanálise e vê sua vida exposta em tribunais devido o ciúmes e a interesses financeiros, não passa de mote para piadinhas tolas e longos relatos de experiências sexuais sem que haja algo a encorajar sorrisos. Personagens histéricos, situações histéricas, cenas ainda mais histéricas, tudo soa cansativo e enfadonho, e o ápice é o desfecho que sonha parodiar os clichês quando na verdade torna-se muito mais chato do que eles. O elenco estelar só serve para nos deixar ainda mais incomodados e pensar que muitos daqueles atores já repetiram atuações parecidíssimas com outros cineastas, só que o resultado obtido...

A Casa do Lago

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(The Lake House, 2006 - EUA)

Não vou esconder que algumas coincidências me incomodam como o acidente, mas se você buscar verossimilhança nessa história perderá sua riqueza, concentrando-se no prático e tolo da vida. Ainda assim deixar solto o que aconteceu na festa é muita malandragem de roteirista pedindo para o público aceitar tudo facilmente, principalmente por ser esse um momento emblemático e conter cenas lindas (como ápice o diálogo na varanda, a dança co o lento movimento de câmera desde grama até o rosto do casal).
Um ilme ricos nos sentimentos, capaz de emocionar a todos e ainda repleto de grandes momentos, cenas bem filmadas (fugindo do óbvio sem tentar inventar a roda). O travelling de Katie (Sandra Bullock) chegando ao bar ao som de It's Too Late, desde seu caminhar pela rua noturna e depois sentar sentando-se no balcão (sem cortes), a leve aproximação, momento sensacional. Isso sem falar naquela paisagem, a casa e a natureza a sua volta, a solidão dos apaixonados separados por um mero detalhe.A Casa do Lago é realmente lindo, Alejandro Agresti deixou tudo ainda mais rico e interessante, transformou em romantismo o que poderia virar melodramático (o desespero em frente à caixa do correio é prova disso num momento de arrepiar), e foi capaz de atingir todas as faixas de público, provando que no fundo buscamos na vida e no cinema coisas parecidas. Me encantei com a história, que ficou mais linda filmada tal qual como foi.

E o Oscar vai para...

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Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country for Old Men, 2007 – EUA)
Anos 80, no meio daquela aridez texana um homem encontra uma maleta com dinheiro e o cenário de uma negociação de drogas mal resolvida. Ele é astuto e ingênuo, sabe que será caçado, mesmo assim acredita que pode proteger-se e ficar com o dinheiro. Eis que surge a figura enigmática, asquerosa, e horripilante de Anton Chigurh (o vilão de Javier Bardem desde já entrará para a história do cinema, um tipo inesquecível), um assassino implacável, cruel e com código de ética próprio. A referência do título original é toda carregada sobre o xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones), a voz dos cineastas dentro do filme, com seu jeito pacato e sua narração em off faz completa referência as discrepâncias de épocas (no que se refere a violência desproporcional, incontrolável). Enquanto o filme caminha pelo cinismo famigerado de Joel e Ethan Coen e num incrível virtuosismo cinematográfico impetrado pelos irmãos-diretores, esse desejo de opinar carrega a fragilidade do filme, por duas vias seguimos entre a discussão da violência e seu crescimento e as seqüências descoladas, arquitetônicas e precisas com que acontecem as perseguições implacáveis pela maleta, tudo num ritmo cadenciado e capaz de nos fazer delirar entre o humor negro e a postura cool sanguinária.

Presentes de Aniversário

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Essa cara de garoto esconde de muitos que no meu próximo aniversário estarei comemorando minha terceira década, na verdade informação irrelevante. Minha lembrança mais remota de aniversários me leva àquela que deve ter sido a única vez em que meus pais alugaram um salão de festas para a comemorar. Algo entre quatro e seis anos, e naturalmente pequenos relances de lembranças são o que restaram. Lembro bem de brincar pelo salão, fingindo ser um trem, e arrastando os pés, e assim dava a volta entre o salão e os convidados, e a cada vez que passava pela mesa do bolo, assaltava mais um brigadeiro. Havia um mágico, e por meio de um foto ainda trago lembranças de uma de suas estripulias, a cena é bem forte na cabeça, meu primo segurando meu braço como se fosse uma alavanca, meu outro braço esticado e abaixo dele um jarro de onde caíam as moedas que supostamente saíam do meu dedo a cada vez que meu primo movia a alavanca (eu e todas as crianças nos divertíamos).

A diferença de idade entre eu e meu irmão é de quatro anos, porém a diferença entre nossas datas de aniversário são apenas oito dias, e por isso mesmo comemorava-se os dois de uma vez só (relação custo-benefício). Nunca me importei com festas, aniversário nas férias, amigos viajando, quando começava as aulas eu já estava mais velho. Quantas e quantas vezes minha mãe fez um delicioso bolo de cenoura e da varanda do apartamento chamava eu e os amigos que brincavam comigo para o parabéns. Numa das vezes estávamos em Caraguatatuba (quando minha avó morava por lá) e me lembro da casa estar enfeitada com decoração do He-Man (isso deve fazer uns vinte anos). E até o ano retrasado minhas comemorações foram assim, um bolo em casa e alguma coisa para comer enquanto parentes e alguns poucos amigos apareciam para as felicitações.

Até os oito meses eu não era um bebê tão magrinho, a partir dessa idade passei a ser o magricelo que sou até hoje, mas durante muitos anos da infância eu era magro demais, não ganhava peso, não comia, foram dois anos de leite materno e depois alimentado apenas por danoninho (santo danoninho, já que punha para fora qualquer outra coisa que me oferecessem), minhas febres eram altas e constantes. Os relatos de meus familiares apontam para uma descrença com relação ao meu futuro, no começo achavam que minha mãe não sabia cozinhar e por isso todos iam para cozinha inventar alguma gororoba (sempre rejeitada por mim). Os médicos não encontravam maiores explicações para a febre, o tempo passava e eu estacionado no peso. Aos seis anos, numa crise de febre altíssima, minha mãe me pegou de um lado, meu irmão com dois anos no colo, e saiu pela avenida (do bairro que acabáramos de nos mudar) a procura de um médico, um táxi, de qualquer coisa, encontrou uma clínica de paredes e portão branco e letreiros meio apagados com o nome do Dr. Artur. Lembro bem da sua cara sorridente, dos seus movimentos lentos, da sua cabeça grande e da testa saliente ajudada por um cabelo ralo. Também tenho lembranças do seu consultório (que ficava num sobrado) e hoje é um comércio qualquer. Havia uma escada em curva na garagem que dava para a recepção com cadeiras ocupando quase todas as paredes do salão, além da mesa da recepcionista que ficava ao lado do corredor que levara para a cozinha. Subindo as escadas, o consultório do médico ficavam em um dos quartos, e não guardava nada de especial de qualquer outro consultório, apenas uma mesa no canto perto da janela repleta de bonecos dos mais diversos personagens e tamanhos era o que a diferenciava. Depois de alguns minutos de conversa, e de minha mãe contar todo o histórico de mais de quarenta pediatras visitados, o médico quis fazer-lhe uma pergunta que não era muito comum: “vocês já verificaram se ele tem reumatismo?”. Peraí, reumatismo não é doença de velho? Sinceramente eu não entendo nada disso até hoje, mas depois de mais uma batelada de exames o resultado apontou para reumatismo sim. Dali em diante foram dois anos tomando benzetacil periodicamente (o farmacêutico vinha em casa, eu o via pela janela e a bunda já doía, a perna enrijecia, chorava, só de pensar em agulha até hoje eu desmaio). Até chegar o dia em que numa intervenção cirúrgica minhas amídalas foram retiradas e com elas uma vacina me foi aplicada em dez doses. A cirurgia foi feita três dias após meu aniversário de oito anos, sem dúvida o maior presente de aniversário que já ganhei (lembro da internação, do momento em que fui levado para a sala de cirurgia, lembro até da espátula próxima da minha boca, até o momento em que apaguei). Pode até ser que não seja muita coisa, mas para mim foi, porque desde aquele momento comecei a ter realmente uma vida normal, ganhar peso, parar de tomar remédio o tempo todo e o fim das injeções.

No ano retrasado fiz minha primeira balada de aniversário, era a primeira comemoração sozinho (após longos anos de namoro), lembro que estávamos em dez no lugar. No ano seguinte eu já estava com minha vida completamente reformulada, com alguns grupos de amigos bem próximos. Como um de meus melhores amigos faz aniversário no mesmo dia, fizemos a comemoração juntos, e o resultado foram vinte e dois convidados numa balada inesquecível. Há alguns dias completei outro aniversário, e com meu amigo reeditamos a festa do ano anterior, e sem dúvida foi uma das noites mais inesquecíveis que já tivemos. Foram trinta e nove convidados, dos grandes amigos apenas uma ausência, amigos das antigas, pessoal do trabalho, amizades que fizemos no mercado em que atuamos, tanta gente, (nem preciso dizer que Oz estava lá), e dessa vez estava com minha namorada do lado, essa pessoa que veio de longe para remodelar todo meu mundo e oferecer significados que em alguns casos eu até desconhecia. E com ela e os amigos, me diverti tanto, mas tanto, mas tanto (com as risadas, as músicas, as danças, os agitos), noite inexplicável de situações ímpares. E se aquela cirurgia tinha sido o maior presente de aniversário que ganhei na infância, um dia antes dessa noite incrível, dessa vez era ela quem me dava o melhor presente de aniversário da fase adulta quando afirmou que estava desistindo de voltar ao Japão para ficar aqui. Eu sabia que a única razão para essa decisão era a nossa relação e por isso eu deveria estar preocupado, me sentindo com uma grande responsabilidade nas costas. Deveria, mas devo ter faltado nessa aula, eu só conseguia ficar feliz, muito feliz. Sem dúvida eu passo pela melhor fase da minha vida, depois do grande susto familiar do ano passado, depois de momentos estranhos no lado profissional, depois de tempos de solidão, tudo foi se arranjando. Primeiro amigos presentes e incríveis, depois a recuperação surpreendente que minha mãe teve, a seguir a solidez da minha fase profissional (fincando finalmente meu espaço) e agora a pessoa que transforma cada segundo, num segundo incomum, seja por um sorriso, por uma fala, por um gesto, seja por estar ali presente. Pouco mais de um mês juntos (e não sou um garotinho para acreditar que essa paz sobreviverá eternamente sem dificuldades, algumas discussões e tudo mais que uma relação possui), só que há algo de muito especial em nós, pode ser sentido no ar, mesmo as diferenças mostram-se mais riquezas do que empecilhos.

Só que nem tudo são flores no reino da Dinamarca, e o Japão com tudo que pode oferecer continua sendo uma sombra, ainda mais por ela estar sem trabalho e tudo mais. E nesse mar de incertezas a gente vai vivendo os dias numa intensidade latente, e mesmo com futuro incerto nada tem nos contaminado, nada tem nos atrapalhado. Só que certo, mas certo mesmo é que “...é exagero, pode até não ser, o que você consegue, ninguém sabe fazer.”.

Gata em Teto de Zinco Quente

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(Cat on a Hot Tin Roof, 1958 - EUA)


Denso do início ao fim, Richard Brooks não nos dá um segundo de um respiro tranqüilo. A crise familiar está em todas as esferas, no casamento de Brick e Maggie, na relação com os pais, com o irmão, na possível doença terminal do patriarca, na ânsia pela herança e pelo controle da família. Mágoas, angústia, desprezo, amor, desejo, traição, tudo verbalizado, exposto sem medo de represálias, sem preocupações com quem ouve. O que deveria ser uma festa de aniversário transforma-se numa imensa máquina de lavar, e haja sabão em pó para dar conta de tantos segredos, mágoas e diferenças. Ao final disso tudo, aquela família construída como um queijo suíço perderá suas máscaras e poderá assim buscar algum tipo de harmonia? A palavra de ordem do filme é falsidade, essa que nos acompanha dia-a-dia, que rege as relações sociais e está tão impregnada que já é aceita como comportamento normal.

Alice Não Mora Mais Aqui

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(Alice Doesn't Live Here Anymore, 1974 - EUA)
Quando se está perdido, um caminho seguro é voltar às raízes. Alice perde o marido num acidente (motorista de caminhão da Coca-Cola que não tira o uniforme com logo nem quando está em casa), a singela dona-de-casa se vê com um filho de doze anos e nenhuma perspectiva. Vende todos seus objetos e parte em busca de sua cidade-natal, de sua antiga profissão de cantora. Neste Road movie feminino Scorsese e seus travellings característicos apontam para dois campos, num deles o grande momento do feminismo entra em choque com o típico estilo de vida interiorano norte-americano de brutamontes durões vestindo bota e chapéu de cowboy. Assim Alice vive seu primeiro relacionamento após a morte do marido, as semanas vão correndo e o sonho cada dia um pouco mais distante porque entra o segundo ponto, o quanto o inesperado nos tira de nossos planos, nos joga num mundo de escolhas e situações que jamais estavam previstas no planejamento inicial. E por essas ela conhece um homem separado, que se esforça para compreendê-la, ao seu modo. Tudo isso nas mãos de um Scorsese com sua câmera na mão pulsante, e uma capacidade de retratar de forma visceral a década de setenta. Desde a música o filme transpira aqueles anos ricos, transformadores, e a jovialidade do cineasta aliada a dois ou três atores inspirados (destaque óbvio e merecido para Ellen Burstyn) perfazem um filme que tal qual sua personagem caminha margeando um sonho que nem ele sabe muito bem qual é.

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Michel Simões