Muitos não entendem minha ligação com a Mostra SP, e talvez o motivo dessa adoração ao evento seja de que ele vai além dos filmes e de alguma forma transforme minha vida, alterando profundamente meu destino sob diversas formas. Como já escrevi aqui comecei minha cinefilia em 2002 quando escrevi um primeiro texto sobre Uma Mente Brilhante (para publicar nos comments do E-Pipoca, durante essa Mostra ultrapassei 1000 filmes desde então) e pouco a pouco fui descobrindo e encontrando minhas paixões dentro da sétima arte. Hoje sou um cinéfilo convicto de gostos e preferências, ainda preparado para um mundo de descobertas, mas já com bagagem o bastante para descartar muita coisa que já me foi (ou que nunca será) importante. Minha primeira vez no festival foi em 2003 (6 filmes vistos), com minha namorada à época assistimos Elefante que me fascinou (diferente de Paranoid Park que me ofereceu tédio), saí admirado com as conversas que tive em filas, com a empolgação de parte do público e aquela sensação de que o cinema corria nas veias dos que transitavam pela região da Paulista naqueles dias. Ver gente sentada no chão ou em pé para ver o turco Distante era uma novidade sem tamanho (por mais que ao final a sessão estivesse com metade do público, sendo que boa parte roncava e os acordados aplaudiam), por outro lado conheci a obra-prima Um Filme Falado, finquei minha adoração em Sokurov com Pai e Filho, resumindo, minha primeira edição foi a confirmação de que eu embarcava nesse mundo e era um caminho sem volta, o vício jamais me permitirá abstinência.
Em 2004, foram 15 filmes, Oldboy me deixou sem fala, alucinado, apaixonado por aquela história de suspense, vingança, amor (sim, com toda violência o filme também é um romance), aguardei o ano inteiro para assistir Before Sunset, mas como ele estreava no dia seguinte ao término da Mostra (durante a repescagem), acabei esperando o dia de estréia, e não me decepcionei. Assistia ao filme admirado, completamente apaixonado pelos personagens e suas emoções, por Paris, pelos diálogos, pela arquitetura, do meu lado minha namorada de tantos anos, dentro de mim o desejo de viver algo parecido, a explosão de emoções. Ao final da sessão me viro e pergunto se ela havia gostado, “não gostei muito não” num tom indiferente. Um banho de água fria, primeiro por sua insensibilidade em perceber minha emoção, em notar o quanto estava tocado por tudo que tinha assistido, a vontade de deixar aquele avião partir. E a seguir a certeza de que não era ela, aquele relacionamento estava fadado ao fracasso e Before Sunset foi o clique. Meses depois encerrei o namoro, aliás efetivei o término porque ele havia sido encerrado naquela sessão, 5 anos e meio, apartamento comprado e começando a ser mobiliado, não vim ao mundo para uma vidinha normal, não sou uma pessoa que se enquadra nos padrões de comportamento da maioria, quero emoções, quero aventura, quero um Before Sunset na minha vida.
Caché em 2005 foi o filme a me deixar atordoado, outra obra-prima (na minha visão), nessa edição foram 26 filmes. Cada vez mais conhecia amigos que fiz via blogosfera, ou sei lá de onde, a verdade é que começava a ter uma rede de amizades durante o festival. Perdi o primeiro final de semana porque estava passando uma semana em Fortaleza (com outra namorada, meu último namoro, e infelizmente o namoro terminou quando voltamos de viagem). Entrei no festival muito triste, não queria me separar e foram os filmes que me ajudaram a superar a fase mais recente do fim da relação (depois da Mostra cai na real e perdi 5kg, mas isso não vem ao caso). Só que o festival guardava algo muito mais representativo, de alguma forma foi ali plantada a semente do que hoje chamamos Oz. Na sessão de A Passagem restavam quatro poltronas exatamente na minha frente e eis que se senta ali Andy com alguns amigos (havíamos nos falado por MSN naquele dia e ficado de combinar algo na Mostra), um desses amigos era Stelinha. Aquele encontro primeiramente mudou os rumos daquela Mostra, formamos um trio inseparável ao ponto de sentarmos na segunda semana e reformularmos as programações para estarmos juntos no máximo de sessões juntos.
Para 2006 o trio já estava afinado, eis que me surge na sessão de Climates uma japonesa espivetada com uma pipoca barulhenta, nascia Mikie na minha vida, e não foram poucas as sessões em que esse quarteto estava junto (e agora regávamos aquela semente que havia sido plantada, Oz começava a nascer). Mas aquele ano guardava mais emoções, depois de meses de amizade virtual, foi na sessão de Edmond que conheci Alê. Engraçado que conversamos rapidamente, mas depois de meses de espera nos encontramos naquele dia em pelo menos três filas no Espaço Unibanco, e seria só começo já que agora não passa um dia sem um “oi” ao menos, jamais sonhei encontrar alguém com quem teria tanta sintonia, não conheço palavras para expressar. Demoraria um pouco mais para ela ser integrada a Oz, mas quando entrasse, fecharia o grupo (junto com nosso surtado Beto que vai à Mostra esporadicamente e Van que nos acompanha de longe por morar no interior). Foram 45 sessões e 44 filmes, O Ano que Meus Pais Saíram de Férias foi visto no dia seguinte e me deixou mais emocionado do que todos os outros filmes, mas não posso esquecer do meu amor por Paris, Te Amo (que acabei revendo na repescagem).
Bom, se o ano anterior mudou meu ritmo de vida completamente porque pela primeira vez comecei a fazer parte de um grupo de amigos inseparáveis, daqueles que a gente acorda no sábado e começa a pensar o que vai planejar juntos (porque não importa a escolha, a gente vai se encontrar), o ano de 2007 foi a maior overdose cinéfila da vida, 68 sessões e 67 filmes (revi de tanto que adorei Um amor Jovem), e para minha surpresa foi um filme de horror/suspense que me deixou mais atônito, El Orfanato saiu como meu escolhido dessa edição. Ainda não sei qual foi ou será o evento dessa Mostra que irá marcá-la e mudar algo na minha vida. De tantos filmes fui obrigado a deixar os relatos diários, então não disse quais amigos encontrei, alguns famosos, coisas divertidas e/ou engraçadas que ocorreram, mas posso dizer que grandes amigos que conheci nas Mostras anteriores foram reencontrados aqui e muitos são imprescindíveis atualmente, assim estive com Chico Fireman, Marcelo Carrard, Bruno Reame, David, Matheus Trunk, Alberto, vi de relance meu parceiro Eduardo Aguilar, e conheci finalmente Sergio Alpendre e Tobey. Além de estar sempre com Angélica Bito, conhecer o Rafa, e o casal Renato Thibes e Dani (né vizinha), a Lelê, o Lula, xi tanta gente que temo esquecer alguém. Pena que Renato Doho não veio, e acabei não encontrando Ana Paul e Marcelo V (felizmente com esses três tenho intimidade o bastante para combinar algo fora da Mostra), e o Ailton que só agitou e não veio. Veremos nas próximas semanas o que de concreto essa Mostra trouxe, porque por enquanto me pareceu muito mais ligada aos amigos e menos excitante do que as anteriores, fora isso Into the Wild mexeu comigo profundamente, ouço a trilha e as vezes me emociono sozinho, lembro do filme e fico pensando na minha vida, nos meus caminhos, sei lá, nos meus medos e covardias, no quanto transformo pequenos muros em montanhas intransponíveis (sou PhD no assunto). Estou confuso porque não sei exatamente o que pensar, qual direção tomar, e daí fica tudo muito mais confuso. Boa dose de culpa para o trio Alex Supertramp, Sean Penn e Eddie Vedder, mas o verdadeiro culpado é o Leão aqui. Talvez uma coisa tenha ficado claro agora, diferente do que eu pensava, minha próxima garota tem que gostar de cinema (não com a mesma intensidade que eu), mas precisa ter o mínino de boa vontade, caso contrário fica impossível. Nos próximos posts encerro os filmes que faltam, mas a pergunta que não quer calar: Falta muito para edição nº 32?