novembro 2007 Archives

Clássicos

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Casablanca (Casablanca, 1942 - EUA)

Este clássico é um primor, seja pelo roteiro, seja pela construção marcante de um homem amargurado de Humphrey Bogart, seja por As Time Goes By que a cada vez que é tocada encanta. Michael Curtiz é o condutor das partes, dirige com elegância e distinção essa história que irá além de um caso de amor inesquecível, transportando-nos para o Marrocos e a força Nazista que se alastra pela Europa, pelo Governo Vichy, pela resistência nacionalista, pelo amargor, pela dor da perda e de ter tido seu amor renegado. E o final então, algo sublime, que só um homem como Rick Blaine no alto de seu cinismo permitiria a sensatez em sua mais completa vazão.



O Sétimo Selo (The Seventh Seal, 1957 - SUE)
Os quatro cavaleiros do apocalise: guerra, peste, fome e morte; vivenciamos o feudalismo, ou mais precisamente, sua deteriorização. À época os comandos na Europa estavam nas mãos dos senhores feudais e da igreja católica. A situação caótica da Suécia feudal (e obviamente de toda a Europa) no século XIII é uma metáfora direta aos anseios de Ingmar Bergman em discutir o fundamentalismo religioso. Voltando das Cruzadas, Antonius Block (Max Von Sydow) encontra a peste devastando os povoados, durante o caminho trava um duelo de xadrez com a morte que irá lhe perseguir durante sua jornada. Pelo caminho faz amigos: uma família, um ateu; e o jogo de xadrez prossegue enquanto Block tenta desvendar questões cervicais como o mistério da fé, o sentido da vida, e o apego à religião e principalmente a Deus nos momentos mais tenebrosos.

A Noiva Perfeita

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(Prete-moi ta Main, 2007 - FRA)

Não fica devendo nada para as comédias românticas norte-americanas mais comerciais, a única diferença é Paris e alguns costumes franceses. No mais a mesma estrutura, os mesmos clichês, as mesmas cenas românticas, mas quando é bem feito, o clichê também serve. E nesse ponto Eric Lartigau manda bem na história de um quarentão solteiro com cinco irmãs e uma mãe que arquitetam um plano para casá-lo de qualquer jeito e afim de escapar dessa tramóia familiar ele contrata uma mulher para se fazer de sua namorada e o deixar no altar, a fim de criar um possível trauma pessoal contra casamentos. Já dá para imaginar a confusão que tudo isso irá causar, e a magia dos atores (principalmente a sempre estoteante com beleza comum, Charlotte Gainsbourg). Depois de boas gargalhadas, o final vem do jeito que gostaríamos, e depois é só sair do cinema com um sorriso de orelha a orelha.

Lady Chatterley

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(Lady Chatterley, 2006 - FRA/BEL/RU)

São tantas cenas pelos bosques e Pascale Ferran soube tão bem aproveitar muito mais do que a paisagem e trazer a atmosfera desse ambiente, que as sensações de aroma, de tato, de tocar na terra úmido, podem ser transportados para além de nossos olhos. Na história aquela coisa clássica de sempre, um magnata preso a uma cadeira de rodas e sua mulher se apaixonando por um dos empregados. A Constance de Marina Hands é uma mulher doce, e de uma beleza diferente, além de uma falsa ingenuidade (que está presente em sua sexualidade, e não na personalidade). Já Parkin (Jean-Louis Coullo’ch) é rústico, mas não bronco, guarda dentro de si certo refinamento, uma leveza no toque, um carinho não esperado para alguém com seu modo de vida. É dessa leveza da direção e dos personagens que Lady Chatterley melhor se aproveita para escapar de um marasmo que poderia acometê-lo em sua longa duração.

Piaf - Um Hino ao Amor

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(La Môme, 2007 - FRA)

Olivier Dahan fez uma confusão cronológica tão grande que chega um momento em que tentar estabelecer uma linha do tempo é tarefa desnecessária, a vida de Edith Piaf é de um sofrimento só, fiquemos com sua dor e sua voz, o conjunto de acontecimentos que marcaram sua vida estão ali para justificar suas atitudes, lágrimas, e problemas de saúde. Desde criança morando num prestíbulo, mendigando na rua (até começar a cantar por ali mesmo), até claro chegar ao estrelato. E mesmo nessa fase Piaf em nenhum momento viveu outra coisa que não dor. Sob a tutela de grande produção e uma atriz extraordinária na cópia de trejeitos físicos, o filme não reservará grandes momentos e assim a sensação de desperdício de uma boa história, ainda assim a pequena Piaf cantando A Marselhesa, ou a apresentação de La Vie en Rose e Non Je Ne Regrette Rien ficarão grudados na memória.

A Casa de Alice

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(2007)

A mulher manicure, o marido taxista, o mais velho serve o exército, há ainda naquela casa dois filhos adolescentes e a mãe de Alice que tratada basicamente como doméstica lava, passa, cozinha e cuida dos afazeres domésticos da família sozinha. Uma panela de pressão demonstrando sinais de que está prestes a explodir, excetuando a velha ninguém é inocente nessa casa (mesmo o caçula que pelo excesso de ingenuidade carrega sua culpa). Dentro da realidade buscada por Chico Teixeira há além do sofrimento, brigas, infidelidades, desonestidade e mentiras, surge alguma beleza como se aquelas almas tivessem uma visão de princípios deturpada, porém a eles aceitável em alguns pontos. O filme é de Alice, ou melhor de Carla Ribas, mas é Berta Zemel quem rouba a cena e enquanto lava louça ou estende a roupa no varal nos oferece alguns momentos de rara delicadeza, numa mulher que já tanto viveu e os fins dos dias estão marcados por aquela lama que contamina a todos, humanos inescrupulosos acreditando aproveitaram-se da roda-vida da sociedade quando na verdade mais afundam nela. As vezes até parece um exagero de situações-limite, mas pense bem, há tanta sujeira jogada para baixo do tapete nas famílias que no fundo só está se explicitando o que o subúrbio paulistano (brasileiro, mundial, e não só o subúrbio) está colhendo
O Diário de Bridget Jones (Bridget Jones's Diary, 2001 - EUA)

Colocar uma solteirona na casa dos trinta anos que seja atrapalhada não é das tarefas mais difíceis, é só colocar umas trapalhadas na cozinha, uns tropeços e uma palavras colocadas em ordem imprópria. Esperava do filme uma disputa mais intensa pelo coração de nossa heroína solitária e carente, entre o canalha conquistador e o bom moço com ar introvertido e formal. Está muito mais para a comédia do que a relação com o amor, mas há Colin Firth, ou melhor há a maneira como seu personagem olha para Bridget em todas as cenas do filme (sem exceção), e é uma forma de olhar tão doce, tão apaixonada (remetendo a um amor da juventude), um olhar tão edificante e que fala por si só, que carrega o filme para uma outra dimensão e faz com que alguns momentos sejam especiais, e com a trilha pop, batida e empolgante, fica ainda mais fácil se encantar pelo jeito carinhoso e por aqueles olhos azuis iluminados de Renée Zellweger.



Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany's, 1961 - EUA)
Tentei, sinceramente me esforcei. Tentei me encantar com a história, tentei me encantar com o casal, tentei me encantar com a beleza singela e espivetada de Audrey Hepburn. Mas não deu, por mais bela que Hepburn fosse não houve nada a me prender. E por quê? Porque os personagens são ralos, as situações absurdamente tolas e a futilidade tratada como opção e não conseqüência. No fundo Holly não passa de uma interesseira em busca de um marido rico. Nem sua paixão pela Tiffany's foi algo que Blake Edwards conseguisse resgatar além de um par de cenas bobinhas e uma constelação de situações desperdiçadas que nem ao humor físico chegam a apelar com decência.

Um Homem, Uma Mulher

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Um Homem, Uma Mulher (Un Homme et une Femme, FRA, 1966)

Filme de frescor, de leveza, porque uma história de amor não precisa ter um script com começo, meio e fim, paixão, ruptura, separação, e reconciliação. Uma história de amor precisa de sentimento, de emoção, precisa ser intensa (a seu modo) e Claude Lelouch nos agracia com esse belo exemplar de um romance sem compromisso coma obviedade. O encontro na praia, faróis acesos, corrida para o abraço mais aguardado, que cena, que momento, ou o reencontro no trem, são desses momentos de magia que precisamos nos espelhar. Temos uma roteirista, temos um piloto de automobilismo, encontro ocasional, viúvos com filhos pequenos, surge a paixão, mas será que ambos se desapegaram dos relacionamentos anteriores? Seus fantasmas já se foram?


Um Homem, Uma Mulher – 20 Anos Depois (Un Homme et une Femme 20 Ans Déjà, FRA, 1986)
Esse aqui é pura forçação de barra, caça-niquel pesado, o reencontro depois de duas décadas, a agora produtora de cinema deseja filmar a história do casal, e o que Claude Lelouch nos oferece são flashbacks do filme anterior ou regravações de grandes momentos (sem o mesmo brilho). A história desse reencontro casal tem seu charme, estamos anestesiados pelas lembranças daquela paixão e rever os personagens e os rumos de sua vida é mais que interessante, só que tudo o que está a volta dos dois é prejudicial, é pobre, é artificial, é danoso às nossas lembranças.
Pelo segundo ano consecutivo divulgo aqui meus escolhidos, sempre tentando não repetir filmes e assim "premiando" o máximo de filmes possíveis (alguns ainda mereceriam estar listados, mas a lista é pequena). No ano passado o Melhor Filme ficou com o brasileiro O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, e vale ressaltar que nas duas edições Abel Ferrara marca presença.


Momento Inesquecível: cenal final em Estação Seca (de Mahamat Saleh Haroun)


Momento Inesquecível: monólogo final em Go Go Tales (de Abel Ferrara)



Grata Surpresa: Persepolis (de Marjane Satrapi e Vicent Parounnad)


Atriz: Cate Blanchett - I'm Not There (de Todd Haynes)


Ator: Mark Webber - Um Amor Jovem (de Ethan Hawke)


Menção Honrosa: A Retirada (de Amos Gitai)


Direção: A Era da Inocência (de Denys Arcand)

Direção: Into the Wild (de Sean Penn)

Grande Prêmio: A Questão Humana (de Nicolas Klotz)

Melhor Filme: El Orfanato (de Juan Antonio Bayona)




Mostra SP - última lista

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No feriado divulgo seus preferidos, abaixo os filmes que faltavam...


La Crème (La Creme, 2007 - FRA)

Praticamente um filme caseiro de Reynald Bertrand, sabe que a temática parecia tão interessante, mas o desenrolar vai tomando uma dimensão tão despropositada que toda a boa-vontade desce ladeira à baixo. Um homem ganha um creme “mágico” que faz com que as pessoas confundam aquele que usa com alguém famoso. Bertrand está discutindo a influência da fama, o poder que a mesma pode oferecer e a luta desenfreada que alguns lançam-se para consegui-la e mantê-la. Pena que corra tudo para o rocambolesco.


Atrizes (Actrices, 2007 - FRA)

Uma atriz ensaiando uma nova peça, uma relação conturbada com o diretor da mesma. Para piorar ela enfrenta a crise dos quarenta, e seu sonho de ter filhos anda com os dias contados. A magnífica atriz Valeria Bruni Tedeschi dirige e atua, mas a lembrança Cassavestes e seu Noite de Estréia é automática e ingrata. A cabeça perdida dessa atriz vivendo tantas crises (há situações familiares, saudades do pai) nos remete a uma série de situações que tornam os rumos dessa história um leve filme felliniano (sem o seu charme), mais parece que Tedeschi está enfrentando alguns de seus próprios medos e receios (isso só ela poderia afirmar).

Antes que Eu Esqueça (Before I Forget, 2007 - FRA)
Um escritor de meia-idade em crise de inspiração, angustiado, solitário. O filme dirigido e protagonizado por Jacques Nolot não passa de um muro de lamentações de homossexuais burgueses refletindo as dores da solidão, buscando subterfúgios nos braços de jovens gigolôs. São homens fracos emocionalmente, endinheirados, entediados, prontos para amenizar suas mazelas numa sessão de sexo. É o poder econômico moldando as relações humanas, e Nolot nos oferece um filme patinando em sua própria existência, sofrendo do tédio de seus personagens.


Em Paris (Dans Paris, 2006 - FRA)
A questão central é a relação dos dois irmãos e do pai, o mais velho sofre pela recente ruptura do seu relacionamento com a esposa voltando para a casa do pai. Já o mais jovem trata-se de um conquistador nato, capaz de flertar num único dia com três mulheres, mesmo que conheça uma pela rua, outra o espera horas em sua casa e assim vai. As diferenças entre irmãos são gritantes, um totalmente desprendido, o outro equilibrado e depressivo, e no meio o pai zeloso, preocupado em diversos graus com ambos. Christophe Honoré tem estilo próprio, tenta aproximar-se de Truffaut, só que trata suas questões de maneira tacitamente obtusa, seu filme não planeja ser verossímil nas ações, porém dialoga com uma incomunicabilidade que poucas vezes lhe é útil.
A Via Láctea (2007)

Se você conhece a cidade de São Paulo e consegue assistir ao filme se livrando de todos seus conhecimentos de geografia, então tudo bem. Porque o carro irá passar horas e horas no transito caótico (mas nenhuma distância é tão longe quanto a que o filme tenta provar, e as horas passam e o carro sempre volta a estar na Paulista, será que ninguém vê isso?). Eliminado esse grande absurdo, há um interessante jogo de poesia, música clássica, amor, ruptura, paranóia, medo da perda. Um telefonema, um casal em discussão, o transito que não ajuda, um mar de possibilidades e Lina Chamie brinca com diversas delas. Ciúmes, desespero, morte, apenas exagero, qual será o destino dessa relação? Alice Braga mais linda e encantadora do que nunca, já o filme nem tanto.

El Outro (El Outro , 2007 - ARG)

Uma notícia inesperada surpreende Juan que parte transtornado a uma viagem de negócios. Com medo, cheio de receios, ele descobre uma forma de escapar momentaneamente do que o destino lhe propõe (trocando sua identidade). Sendo outra pessoa ele passa a ter outros comportamentos e para o cineasta Ariel Rotter essa pequena mudança é praticamente um bálsamo porque diversas fascinante aventuras passam a persegui-lo. Bom, esse é o espírito que Rotter almejava, porque o filme não passa de um conjunto de cenas onde Juan atravessa a rua, ou veste uma camisa, ou então pára sentado na cama, um desperdício de filme, e do nosso tempo, para então ele voltar pronto para enfrentar sua vida tal como ela é.


En La Ciudad de Sylvia (En La Ciudad de Sylvia, 2007 – ESP/FRA)

Praticamente um trabalho de arquiteto, José Luis Guerín realiza um dos trabalhos mais meticulosos, com planos devidamente pensados e um jogo minimalista de imagens. Um jovem sentado num café, ele apenas observa, as mesas ao seu redor ocupadas das mais diversas pessoas (casais, grupos de amigos). O termo voyeur jamais fora tão bem empregado. Num caderno o rapaz rascunha alguns desenhos, algumas imagens que sua íris focava. Ele está a procura de um rosto feminino, uma lembrança, um amor, parece tê-la encontrado e começa uma tímida perseguição até a coragem de interceptá-la. Até aí corria muito bem, por mais que o conjunto de situações observadas no café beirassem ao pedante (aquele casal em silêncio que muito depois o homem solta um “não” e o repete, duas, três vezes, é das coisas mais “artísticas” evazivas e desperdiçadas que se tem notícia). Guerín fazia um trabalho intrigante, um jogo de imagens hipnótico, mas quando seu roteiro chega no ápice, ele decide recolher suas coisas e desistir, então o filme passa a se desconstruir e andar para trás (como aquele garoto que leva a bola embora no melhor momento do jogo porque sua mãe lhe chamou para a lição de casa). Incontestável aos que procuram certo tipo de cinema que o filme de Guerín é daqueles a apresentar todas as virtudes possíveis, mas não passa de um belo jogo de imagens quase em formato matemático, sem um conteúdo receptivo.


Hana (Hana Yori mo Naho, 2006 – JAP)
Um samurai que precisa honrar a morte do pai, tem em si a obrigação da vingança contra o homem que assassinou seu pai. Mas a vocação da espada não lhe pertence, aliás nem essa sede de vingança. Vivendo num pequeno vilarejo ele passa o tempo entre cortejar (timidamente) uma viúva, e dar aulas de matemática, redação e etc para as crianças da região. A sua volta uma comunidade de perdedores, pessoas vivendo do lixo ou ganhando ninharias pelas fezes que defecam. Fico pensando onde estava a cabeça de Hirokazu Kore-eda para levar às telas essa comédia sem eira nem beira, cheia de personagens tão tolos que fica impossível imaginar todos juntos, e o filme segue manco até seu final, não se decidindo por nada, não nos levando a nada. Tudo bem que a sacada final é genial, e a sátira aos samurais terminar por soar bem empregada (mas nada que redima seu fraco desenvolvimento).
A França (La France, 2007 - FRA)

Durante a primeira guerra mundial uma mulher resolve vestir-se de homem e partir pelos campos em busca de seu marido, que após inúmeras cartas amorosas envia-lhe uma terminando com o relacionamento. Em sua peregrinação a jovem é incorporada a um batalhão e começa a descobrir a verdade sobre a França. Calma, o filme de Serge Bozon não é tão definitivo e aterrorizante quanto sua sinopse e seu desejo, mas há ali uma crítica dura, um bando de militares desertores, e uma quebra acentuada de ritmo com estranhas e descabidas inserções musicais. O filme caminha praticamente de nada a lugar nenhum, e nesse marasmo acompanhamos esse batalhão cruzando o país rumo à fronteira, até chegarmos ao final blasé.


Kimera - Estranha Sedução (The Inner Life of Martin Frost, 2007 - POR/FRA/ESP)
Um escritor viaja à casa de campo de amigos a fim de escrever um novo livro, lá é surpreendido por uma outra hóspede, parente dos donos da casa. Num primeiro momento a revolta por desejar paz e tranqüilidade, num segundo momento a paixão, o desejo, a felicidade. Mas o filme de Paul Auster se envereda por outros caminhos, a estranha mulher prova ser fã incondicional do escritor, mas quem será essa mulher? Caímos num roteiro de pura babaquice, e uma constelação de personagens tolos, e dispensáveis.


Garçom (Ober, 2006 - HOL)

Nesses filmes em que o roteiro almeja genialidade com uma salada de situações e um entra-e-sai de personagens, me dão certo medo. Alex van Warmerdam dirigiu essa idéia “brilhante” de um escritor trancafiado num quarto entre sua namorado intrometida e seu computador, quando os personagens do livro passam a interagir com eles invadindo aquele quarto e fazendo sugestões e reclamações. De um pacato garçom que busca um pouco de diversão e algum romance, a trama chega a se enveredar por mafiosos, assassinos de aluguel, traições, e tanta relações de infidelidade que o melhor a fazer é desistir e torcer para acabar logo.


Réquiem (Requiem, 2006 – ALE)
Hans-Christian Schmid planejou um filme sério e dramático sobre a história real de uma garota problemática com altas mudanças de comportamento, epilepsia, pais rigorosos e conservadores, exorcismos e toda aquela história de espíritos do mal. Infelizmente o filme é por demais linear, conservador, a câmera está ali apenas para registrar a história, assim não se tem um filme empolgante e nem ruim. Apenas a triste constatação da vida daquela garota incapaz de lidar com as paranóias familiares a tal ponto que sua vida termina comprometida a um caminho sem volta.

A Mostra e Eu

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Muitos não entendem minha ligação com a Mostra SP, e talvez o motivo dessa adoração ao evento seja de que ele vai além dos filmes e de alguma forma transforme minha vida, alterando profundamente meu destino sob diversas formas. Como já escrevi aqui comecei minha cinefilia em 2002 quando escrevi um primeiro texto sobre Uma Mente Brilhante (para publicar nos comments do E-Pipoca, durante essa Mostra ultrapassei 1000 filmes desde então) e pouco a pouco fui descobrindo e encontrando minhas paixões dentro da sétima arte. Hoje sou um cinéfilo convicto de gostos e preferências, ainda preparado para um mundo de descobertas, mas já com bagagem o bastante para descartar muita coisa que já me foi (ou que nunca será) importante. Minha primeira vez no festival foi em 2003 (6 filmes vistos), com minha namorada à época assistimos Elefante que me fascinou (diferente de Paranoid Park que me ofereceu tédio), saí admirado com as conversas que tive em filas, com a empolgação de parte do público e aquela sensação de que o cinema corria nas veias dos que transitavam pela região da Paulista naqueles dias. Ver gente sentada no chão ou em pé para ver o turco Distante era uma novidade sem tamanho (por mais que ao final a sessão estivesse com metade do público, sendo que boa parte roncava e os acordados aplaudiam), por outro lado conheci a obra-prima Um Filme Falado, finquei minha adoração em Sokurov com Pai e Filho, resumindo, minha primeira edição foi a confirmação de que eu embarcava nesse mundo e era um caminho sem volta, o vício jamais me permitirá abstinência.

Em 2004, foram 15 filmes, Oldboy me deixou sem fala, alucinado, apaixonado por aquela história de suspense, vingança, amor (sim, com toda violência o filme também é um romance), aguardei o ano inteiro para assistir Before Sunset, mas como ele estreava no dia seguinte ao término da Mostra (durante a repescagem), acabei esperando o dia de estréia, e não me decepcionei. Assistia ao filme admirado, completamente apaixonado pelos personagens e suas emoções, por Paris, pelos diálogos, pela arquitetura, do meu lado minha namorada de tantos anos, dentro de mim o desejo de viver algo parecido, a explosão de emoções. Ao final da sessão me viro e pergunto se ela havia gostado, “não gostei muito não” num tom indiferente. Um banho de água fria, primeiro por sua insensibilidade em perceber minha emoção, em notar o quanto estava tocado por tudo que tinha assistido, a vontade de deixar aquele avião partir. E a seguir a certeza de que não era ela, aquele relacionamento estava fadado ao fracasso e Before Sunset foi o clique. Meses depois encerrei o namoro, aliás efetivei o término porque ele havia sido encerrado naquela sessão, 5 anos e meio, apartamento comprado e começando a ser mobiliado, não vim ao mundo para uma vidinha normal, não sou uma pessoa que se enquadra nos padrões de comportamento da maioria, quero emoções, quero aventura, quero um Before Sunset na minha vida.

Caché em 2005 foi o filme a me deixar atordoado, outra obra-prima (na minha visão), nessa edição foram 26 filmes. Cada vez mais conhecia amigos que fiz via blogosfera, ou sei lá de onde, a verdade é que começava a ter uma rede de amizades durante o festival. Perdi o primeiro final de semana porque estava passando uma semana em Fortaleza (com outra namorada, meu último namoro, e infelizmente o namoro terminou quando voltamos de viagem). Entrei no festival muito triste, não queria me separar e foram os filmes que me ajudaram a superar a fase mais recente do fim da relação (depois da Mostra cai na real e perdi 5kg, mas isso não vem ao caso). Só que o festival guardava algo muito mais representativo, de alguma forma foi ali plantada a semente do que hoje chamamos Oz. Na sessão de A Passagem restavam quatro poltronas exatamente na minha frente e eis que se senta ali Andy com alguns amigos (havíamos nos falado por MSN naquele dia e ficado de combinar algo na Mostra), um desses amigos era Stelinha. Aquele encontro primeiramente mudou os rumos daquela Mostra, formamos um trio inseparável ao ponto de sentarmos na segunda semana e reformularmos as programações para estarmos juntos no máximo de sessões juntos.

Para 2006 o trio já estava afinado, eis que me surge na sessão de Climates uma japonesa espivetada com uma pipoca barulhenta, nascia Mikie na minha vida, e não foram poucas as sessões em que esse quarteto estava junto (e agora regávamos aquela semente que havia sido plantada, Oz começava a nascer). Mas aquele ano guardava mais emoções, depois de meses de amizade virtual, foi na sessão de Edmond que conheci Alê. Engraçado que conversamos rapidamente, mas depois de meses de espera nos encontramos naquele dia em pelo menos três filas no Espaço Unibanco, e seria só começo já que agora não passa um dia sem um “oi” ao menos, jamais sonhei encontrar alguém com quem teria tanta sintonia, não conheço palavras para expressar. Demoraria um pouco mais para ela ser integrada a Oz, mas quando entrasse, fecharia o grupo (junto com nosso surtado Beto que vai à Mostra esporadicamente e Van que nos acompanha de longe por morar no interior). Foram 45 sessões e 44 filmes, O Ano que Meus Pais Saíram de Férias foi visto no dia seguinte e me deixou mais emocionado do que todos os outros filmes, mas não posso esquecer do meu amor por Paris, Te Amo (que acabei revendo na repescagem).

Bom, se o ano anterior mudou meu ritmo de vida completamente porque pela primeira vez comecei a fazer parte de um grupo de amigos inseparáveis, daqueles que a gente acorda no sábado e começa a pensar o que vai planejar juntos (porque não importa a escolha, a gente vai se encontrar), o ano de 2007 foi a maior overdose cinéfila da vida, 68 sessões e 67 filmes (revi de tanto que adorei Um amor Jovem), e para minha surpresa foi um filme de horror/suspense que me deixou mais atônito, El Orfanato saiu como meu escolhido dessa edição. Ainda não sei qual foi ou será o evento dessa Mostra que irá marcá-la e mudar algo na minha vida. De tantos filmes fui obrigado a deixar os relatos diários, então não disse quais amigos encontrei, alguns famosos, coisas divertidas e/ou engraçadas que ocorreram, mas posso dizer que grandes amigos que conheci nas Mostras anteriores foram reencontrados aqui e muitos são imprescindíveis atualmente, assim estive com Chico Fireman, Marcelo Carrard, Bruno Reame, David, Matheus Trunk, Alberto, vi de relance meu parceiro Eduardo Aguilar, e conheci finalmente Sergio Alpendre e Tobey. Além de estar sempre com Angélica Bito, conhecer o Rafa, e o casal Renato Thibes e Dani (né vizinha), a Lelê, o Lula, xi tanta gente que temo esquecer alguém. Pena que Renato Doho não veio, e acabei não encontrando Ana Paul e Marcelo V (felizmente com esses três tenho intimidade o bastante para combinar algo fora da Mostra), e o Ailton que só agitou e não veio. Veremos nas próximas semanas o que de concreto essa Mostra trouxe, porque por enquanto me pareceu muito mais ligada aos amigos e menos excitante do que as anteriores, fora isso Into the Wild mexeu comigo profundamente, ouço a trilha e as vezes me emociono sozinho, lembro do filme e fico pensando na minha vida, nos meus caminhos, sei lá, nos meus medos e covardias, no quanto transformo pequenos muros em montanhas intransponíveis (sou PhD no assunto). Estou confuso porque não sei exatamente o que pensar, qual direção tomar, e daí fica tudo muito mais confuso. Boa dose de culpa para o trio Alex Supertramp, Sean Penn e Eddie Vedder, mas o verdadeiro culpado é o Leão aqui. Talvez uma coisa tenha ficado claro agora, diferente do que eu pensava, minha próxima garota tem que gostar de cinema (não com a mesma intensidade que eu), mas precisa ter o mínino de boa vontade, caso contrário fica impossível. Nos próximos posts encerro os filmes que faltam, mas a pergunta que não quer calar: Falta muito para edição nº 32?
Ainda vão faltar uns 12 filmes para postar aqui, todos eles não me animaram muito, ou foram decepções, ou então bombas terríveis. Nos próximos dias finalizo isso e divulgo meus escolhidos como no ano passado (as categorias serão as mesmas: Filme, Direção, Ator, Atriz, Grande Prêmio, Menção Honrosa, Grata Surpresa e Momento Inesquecível), sempre tentando não repetir filmes nos prêmios para destacar o máximo possível dos filmes que mais me agradaram. Enquanto isso encerrei como comecei, minha parceira de Mostra do lado e bons filmes na tela (dessa vez comecei a conhecer Lelouch e adorei, já encontrei 3 filmes do diretor na locadora perto de casa que serão alugados nos próximos dias).



Crimes de Autor (Roman de Gare, 2007 – FRA)

Uma escritora de sucesso divulgando seu novo best-seller, o roteiro brinca com nossa imaginação ao trafegarmos entre a vida real e a trama do livro, as duas se confundem e não sabemos se o personagem central é um professor com casamento desgastado, um ghost-writer, ou um serial-killer. Se o roteiro é quase um primor ao encobrir as arestas e nos ludibriar com a realidade dos fatos, a direção de Claude Lelouch repleto de suas características marcantes e a constante presença musical, resultam num filme saboroso, de suspense enxuto, humor refinado e um toque de requinte preciso nas atuações.


A Coragem de Amar (Le Courage d’Aimer, 2005 – FRA)
Descobriremos que o título se refere à música que será crucial à trama, mas também está contido na coragem que esse sentimento pode despertar. Repleto de músicas melo-românticas, vários personagens desfilam por duas histórias que tem como intersecção duas gêmeas idênticas. Por um lado um milionário do mundo da pizza vivendo um amor equilibrado com uma atriz de teatro, de outro um casal de cantores de rua que se separa devido ao sucesso. As duas tramas cheias de meandros caminham sob o requinte da direção de Claude Lelouch e nos pequenos momentos é que temos a grandiosidade dos sentimentos que encontramos em nós mesmos. Assim é tocante o gesto da cantora em escrever um livro que representa uma carta de amor, o cantor convicto em seu caráter que resguarda em si um amor sem que se deixe levar por ele, ou o espírito humano e equilibrado com que o dono do castelo costura suas emoções românticas.
Por iniciativa do meu amigo Chico Fireman, um grupo de amigos (eu incluído) elegeu os melhores da Mostra oferecendo o Troféu Pedro de Lara, confiram em http://www.interney.net/blogs/filmesdochico/

Fantasmas (Fantômes, 2000 - FRA)

As pessoas estão desaparecendo misteriosamente em Paris, mas seus fantasmas voltam e oferecem momentos de amor e paixão aos que deixaram para trás. Uma garota sofre com a morte do namorado, um rapaz chega à cidade em busca de uma nova vida (deixando seu primeiro amor para trás). Os dois se inscrevem no mesmo curso de teatro. Um sub-Godard da época mais chata e pretensiosa do diretor, o filme de Jean Paul Civeyrac é terrivelmente pedante em seu formato, em sua proposta e na arrogância artística com que é conduzido, um completo equívoco.

Nem de Eva, Nem de Adão (Ni D'ève Ni D'Adam, 1996 - FRA)

Dessa vez é um sub-Truffaut, o filme copiado: Os Incompreendidos. Jean Paul Civeyrac traz a tona a vida de um garoto desajustado, marginalizado, que rouba o dinheiro da namoradinha, agride o professor, é expulso de casa e passa a viver na rua. Não nos sensibilizamos com o garoto, mas uma garota apaixonada sim, e lhe dá abrigo (motivo para mais confusões e uma fuga onde descobrirão o amor). Em seu filme de estréia, a direção parece como mais interessante, Civeyrac nos prende pelas imagens, mas nos perde pelo roteiro.


A Amada (L’Aimée, 2007 - FRA)

Um documentário estritamente familiar de Arnaud Desplechin, sob os relatos de seu pai, os dois admiram fotos, falam sobre a casa da família (que acaba de ser vendida) e comentam sobre as avós (principalmente a mãe de seu pai). Para qualquer pessoa que não esteja intimamente ligada à família, o filme se torna um teste de paciência com altas doses de tédio e falta de interesse. É evidente que Desplechin sabe filmar, e só por esse motivo que muitos (como eu) não desistem completamente desse documentário que não deveria ter saído das festas e encontros da família Desplechin.


Caixas (Boxes, 2007 - FRA)
Anna está abrindo caixas e mais caixas de mudanças, ela enfrenta a crise de meia-idade e o filme parece extremamente biográfico (Jane Birkin dirige e atua). De dentro das caixas surgem lembranças, os amores que viveu, os momentos que passou, a saudade, as desavenças, a relação com as filhas. Começa um desfile de personagens que acompanham Anna enquanto ela abre cada uma dessas caixas repletas de emoções. A proposta não é ruim, mas o abstrato do roteiro e a personalidade sem graça e ausente de carisma de Anna não nos permitem nada além de uma carga de sono e uma terrível mania de consultar o relógio a cada dois minutos. Os diálogos que pretensamente almejavam o doce e romântico, não passam de melosos e com espírito de fábula encantada.
Brand Upon the Brain (Brand Upon the Brain, 2007 – CAN)

Bizarro por todos os ângulos, a trama é para lá de confusa. Numa ilha vive o jovem Guy e sua família (a mãe autoritária, o pai cientista), há também no lugar um orfanato. Misteriosas marcas aparecem na cabeça das crianças, enquanto isso Guy e seus irmãos vivem sob a tutela regulatória da mãe, só que inúmeros segredos serão pouco-a-pouco desvendados, principalmente na forma como Guy e sua irmã tenta viver relacionamentos amorosos às escondidas da mãe. Misturando essa bizarrice com humor escachado, o filme guarda no mínimo algumas falas simplesmente inesquecíveis como “chega de suicídio”, ou “não existe suicídio sem casamento”, ou aquela em que ele sugere que trabalho faz bem ao patrão. Agora indo além do filme, a apresentação com acompanhamento musical e de sonoplastas no palco e narração de Marília Gabriela, transformam todo o espetáculo num acontecimento imperdível e inesquecível, e Gabi simulando um orgasmo na frente da platéia foi um momento inacreditável que mereceu aplausos calorosos.

Longe Dela (Away from Her, 2006 – CAN)

Filme feito para emocionar, e Sarah Polley dosou muito bem todos os elementos para ir além de um simpático filme. A história de uma mulher com Alzheimer e seu marido dedicado não é novidade nenhuma, portanto todas as dificuldades enfrentadas com a mudança de personalidade já eram de se esperar, talvez o que mais atraia além da condução humana e delicada dos atores e da diretora seja a figura masculina central e a forma como ele encara a nova fase da esposa internada se apaixonando por outro homem. Sem grandes pretensões, temos aqui um filme para nos emocionar e provar que ainda podemos acreditar no amor.

Os Fragmentos de Tracey (The Tracey Fragments, 2007 – CAN)
Há todo um desejo de Bruce Mcdonald em inovar no ritmo narrativo, para isso ele faz uma confusão na estrutura, divide a imagem em quatro, cinco, seis cenas (ou câmeras) simultâneas, num ritmo fragmentado, quebradiço. Muito disso representa piamente a vida dessa adolescente, com um lar destroçado, pais desequilibrados e um irmão que pensa ser um cachorro após uma sessão de hipnose da irmã. Durante parte do filme Tracey está a procura do irmão desaparecido, e o vai-e-vem cronológico não nos permite entender todas as razões antes do desfecho do filme. Por fim, a inovação é apenas estrutural, vida de adolescentes problemáticas estão mais que saturadas, e aqui o roteiro pega pesado e exagera na dose em todos os segmentos no intuito de parecer contundente, o resultado é uma grande e sonora perda de tempo.
Paranoid Park (Paranoid Park, 2007 - EUA)

Um garoto de 16 anos não quer transar com a linda namorada, algo está errado no filme de Gus Van Sant. Por uma carta surge a narrativa fragmentada de Alex, seus relatos são sua pura consciência, um skatista e seu amigo descobrindo um parque hipnótico onde o som das rodinhas no cimento é a sinfonia da juventude. De certa forma são os mesmos temas de Elefante, tratados de maneira menos contundente e artificialmente inspirada. Dessa vez Van Sant se esforça, mas está mesmo ele enxergando a juventude e seus conflitos mais internos, ou estaria ele buscando no abstrato uma forma de parecer artístico, abusando de um universo que ele já retratou tão bem?


Savage Grace (Savage Grace, 2007 - EUA)

O desprezo da relação pai e filho deveria ser muito mais contundente, mas Tom Kalin só conseguiu expressar esse conflito forçosamente, nos diálogos e imagens, jamais sintetizado nas emoções. Assim, soa compelida a problemática dessa relação. Já a relação estritamente siamesa entre mãe e filho está mais bem colocada, ainda assim pouco perto do que os fatos demonstrarão ser. O ato falho de Kalin está na sua incapacidade de trabalhar essas duas relações primordiais aos propósitos de seu filme, o máximo conseguido foi a personificação de um pequeno burguês mimado, sem limites, vivendo de descobertas (normalmente influenciadas pelo padrão comportamental pouco habitual da mãe). No meio disso tudo há Julianne Moore (que muda o cabelo e já sabemos que estamos em outra época), sua personagem almeja desfilar pela sociedade, obriga seu filho quando criança a agir como um robô para adultos, mas sua impávida personalidade é capaz de sair do limbo à obstinação da hipocrisia social, nesse filme tão torto.


No Vale das Sombras (In the Valley of Elah, 2007 - EUA)

Ao telefone o marido informa à esposa o já anunciado, óbvio que antes do desespero virá a ofensiva, a necessidade de acusar, redimir-se de uma culpa na verdade inexistente, assim é a alma humana. E nessa altura do campeonato a mulher desabafa “porque você não me deixou pelo menos um”. Duvido que o mais insensível dos insensíveis não irá se emocionar com o drama daquela mulher. E olha que Paul Haggis faz de tudo para estragar, com o nacionalismo ligado no último, a trilha enjoando qualquer marinheiro experiente e um desperdiço de trama que quando parece começar a ficar interessante é lançada no limbo do banal apenas para exemplificar o desgaste e a loucura que os combatentes vivem no retorno de uma guerra. Tudo bem que Haggis tenta apontar o absurdo dessa guerra e principalmente os absurdos cometidos pelos jovens militares que agem como Deus com uma arma na mão, mas sua condução é melodramática e beirando a prepotência de se tornar colossal.
Into the Wild (Into the Wild, 2007 – EUA)

Simultaneamente fuga e busca, uma viagem dentro de si, uma forma rebelde de lutar pela liberdade. Não a liberdade comum, porque até que ponto somos realmente livres? A liberdade buscado pelo personagem é a de fugir aos padrões da sociedade, às convenções, aquela liberdade de comer quando se tem fome, dormir quando se tem sono, e fazer o que quiser dentro do tempo livre, uma vida praticamente selvagem de subsistência. O largar tudo (carreira, dinheiro, canudo, cantados por Cazuza) demonstra-se mais que a busca por essa essência natural e desprovida da vida mercantilista, para ser também uma fuga dos problemas, dos tabus familiares, e toda a dor que essas lembranças (de passado e presente) lhe causam. Só que o filme é metafórico (e eis o grande segredo da direção livre e intrínseca de Sean Penn e da trilha sonora paradisíaca de Eddie Veder), ao acompanharmos a saga desse jovem pelos rincões dos EUA até sua chegada no Alasca, estamos lutando contra nossos próprios conflitos, nossos medos, nossa falta de coragem para mudar de caminhos, para decidir por algo mais arriscado, para desabafar o que sentimos a quem gostaríamos. A libertação está dentro de nossa rotina e paradigmas, temos que buscar liberdade dentro de nós mesmos, foi assim que relutantemente Chris percebeu que “felicidade é maior quando compartilhada”.


Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto (Before the Devil Knows You're Dead, 2007 – EUA)

Engenhoca narrativa de Sidney Lumet brilhantemente conduzida. Há um crime servindo de espinha dorsal, a partir dele teremos a visão de cada um dos envolvidos no ocorrido, assim veremos mais de uma vez a mesma cena só que de perspectivas diferentes. Até que todas as visões tenham sido esclarecidas temos um filme fantástico, intrigante, um pequeno jogo de quebra-cabeças com peças oferecidas milimetricamente ao público. Numa segunda fase caímos na crise familiar (e o filme cai, exagera na dose, mesmo que continue bem), em discussão a sociedade norte-americana, ou melhor, seu pilar. Traições, rancor, desentendimentos, problemas financeiros, nada que toda e qualquer família não sofra diariamente, mas Lumet eleva toda essa intensidade à enésima potência (não na força dramática, mas nos acontecimentos em si) e temos um retrato torto de uma classe média corrompida à ganância e suas próprias necessidades egocêntricas.

I’m Not There (I’m Not There, 2007 – EUA)

Obviamente a idéia de Todd Haynes é pra lá de pretensiosa, e porque não inventiva. Não diria que o diretor está reinventando a cinebiografia porque poucas figuras são tão ímpares e enigmáticas como Bob Dylan e portanto poderiam ser apresentadas dessa forma tão inesperada. Sete personagens interpretando fases da vida do cantor, temos desde a espetacular Cate Blanchett até um garoto negro de violão em punho em plena década de trinta. Os personagens fictícios possuem a áurea e o espírito do cantor, e nesse ponto está talvez o maior acerto de Haynes, as cinebiografias normalmente usam a imagem e os fatos para narrar uma história, sem dar vida, sem demonstrar um pouco da inventidade, da sensibilidade, dos fatores que permeam a criatividade dos artistas. Nesse é diferente, o filme bebe nessa fonte (sem deixar de ser pretensioso) e entre erros e acertos mostra um pouco dessa figura emblemática e pitoresca.

Across the Universe (Across the Universe, 2007 – EUA)
Um musical só com canções dos Beatles. Bom, improvável que o resultado final seja ruim, porque são tantas as músicas espalhadas pelo filme que estaremos inebriados dessa maravilha vinda de Liverpool. Julie Taymor vai além ao basear todo seu roteiro nas próprias canções da banda, por isso ambienta uma história de amor na década de sessenta, jogando os amantes em toda a efervescência da época (movimentos anti-guerra, influências culturais, mudança de costumes) e o caminho dos personagens se dará pelas famigeradas letras. Com atores fracos e apresentações musicais pouco inspiradas, são realmente as canções as únicas capazes de fortalecer a trama, ainda assim o momento de All We Need is Love (por mais brega) é apropriadamente empolgante.

Mostra - último dia

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Calma que ainda vai ter repescagem!!!

Os Quatro Elementos em Si ou o Guru Selvagem

“A vida é uma xícara.” Alguém pergunta por que. Ele repete que “A vida é uma xícara.” Novamente questionado ele retruca, “Tudo bem, então a vida não é uma xícara.”. Complexo, não? O documentário de André Martinez acompanha as baboseiras que o cantor e compositor Jorge Mautner acha que tem a dizer, coisas como “neurônios saltitantes” e um mar de citações à mitologias, filosofias, assuntos indígenas, tecnologia. Enquanto isso acompanhamos esse senhor fazendo exercícios ou na piscina com sua sunguinha azul. Terrível do começo ao fim, nada se salva.


Canções de Amor

O musical de Christophe Honoré talvez seja a perpetuação dos enlaces amorosos contemporâneos. Relações a três, envolvimentos heteros, homos, o mundo cada vez mais anda livre, anda bissexual. Por outro lado está longe de ter aquela carga positiva presente nos filmes desse gênero, trata-se de um musical com muitos momentos melancólicos, inserções musicais surgindo naturalmente sempre num mesmo tom pop e normalmente rebatidas em diálogos. Honoré não pretende que seus atores possuam vozes poderosas, são pessoas comuns cantando num tom que lhes permite soar agradável, pessoas de carne e osso que sofrem, quem amam, que deixam seus amantes, que explodem de paixão ou pela falta dela. A todo o momento o diretor tira o personagem central (Ismael) de cena para trazer novas vibrações, outros sentimentos. Louis Garrel começa a se repetir em seus personagens. Entre o amor e a tragédia, a dor e a comédia, Canções de Amor insere-se como parte de nosso próprio dia-a-dia.


Beaufort
Em 1982, Israel tomou o forte Beaufort no Líbano. Durante dezoito anos mantiveram ali uma base militar, o filme conta a história dos últimos dias de ocupação do local. Mesmo durante a retirada das tropas, o confronto com o Hezbollah tirava vidas de soldados que não conseguiam compreender o que ainda faziam naquele lugar. Sob o ponto de vista do militar Liraz Liberti e de seus comandados enfrentando o medo e o terror dos derradeiros dias daquela ocupação. Pena que o filme de Joseph Cedar patine no fiapo de história que tem a contar, mesmo assim há bonitos momentos principalmente no quesito patriotismo ou na cena em que o último sentinela chora por não conseguir mais ficar na posição que pouco antes fora atacada pelos inimigos, a humanidade também está presente na guerra.

Mostra (penúltimo dia)

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Eu sempre me admiro com o fervor e paixão dos cinéfilos. Um documentário chinês em plena quarta-feira 19h e pelo menos trinta pessoas sentadas no chão (coisas de Mostra). Três filmes vistos ontem, no último dia mais 2 ou 3 (fora a repescagem que começa amanha), entre as atualizações vou completando os atrasados.

Inútil

A câmera não pára um segundo, o tempo todo o mesmo ritmo compassado de um vagaroso travelling lateral. Quase um documentário sem falas, sua força está nas imagens e dessa forma Jia Zhang-Ke aproxima-se totalmente de seus filmes de ficção. A estrutura é dividida em três partes, na primeira acompanhamos uma fábrica de tecidos e principalmente a relação humana de seus funcionários. São pessoas fadigadas, doentes, exaustas. Na segunda parte o cineasta acompanha um estilista, seu processo de criação, suas idéias, e exposições na Europa. Para encerrar, numa região rural, uma fabriqueta industrial produz as roupas usadas pela população local, de forma arcaica, pobre. Jia Zhang-Ke bate na mesma tecla, não que isso seja problema, mas dessa vez parece-me exageradamente óbvio, os depoimentos, a forma de condução de Zhang-Ke, ao saber da sinopse já estão telegrafados os caminhos que serão percorridos. E o cinema desse diretor continua chato, muito chato, dele eu desisto.


Persepolis

Animação simplesmente espetacular, acompanhando a saga de uma garota iraniana enquanto acontecem todas as transformações político-religiosa-sociais em seu país. O filme é direto, carregado de opinião própria, aponta o dedo em histe em cada ponto que considera absurdo na cultura iraniana. Desde a queda do Xá, e principalmente as transformações na vida da população feminina, passando pela guerra Irã-Iraque, a influência dos EUA, a perseguição aos contrários ao governo. Enquanto isso a pequena Marjane descobre o amor, a música, a política, e vive esse eterno conflito entre sua pátria, suas crenças e as injustiças. Persepolis trafega entre o bem-humorado e o contundente e faz um retrato honesto e completo da história recente do Oriente Médio, do petróleo, do Islamismo, e muito mais.


Go Go Tales

É com maestria que Abel Ferrara conduz cada cena, cada plano, cada detalhe. A câmera trafega lentamente, desliza pelos ambientes daquela boate, os corpos surgem e desaparecem, estamos desfilando pelas situações que marcarão aquela noite especial. Mulheres nuas, prostituição, um bilhete de loteria perdido, reivindicação de strippers para receberem seus pagamentos atrasados, dificuldades financeiras, o show tem que continuar, uma panela de pressão prestes a explodir. Ferrara insere personagens bem-humorados (ou melhor completamente malucos), e o visionário chefão da boate (Willem Dafoe) é o maestro com sua paixão pelo empreendimento falido que ele administra. O monólogo final é a perfeita demonstração de sua visão sonhadora, apaixonada, flamejante, e o desfecho algo meramente sensacional.


Londres Proibida

Filme competente de Paul Andrew Williams, drogas, prostituição, pedofilia, estamos no submundo londrino. Um homem sangra até a morte, seu filho pressiona o cafetão que contratou a prostituta e a garota, tem início uma perseguição atrás das fugitivas. O final reserva o melhor, a serenidade do poderoso filho da vítima demonstrava que o final não seria convencional (e mesmo que pudéssemos adivinhá-lo o tempo todo, ele é tão coerente e justo, que nem se pode lamentar de tê-lo adivinhado). Voltamos à competência do cineasta que costura tudo isso num ritmo nem compassado, nem frenético, apenas saboroso, e ainda nos permite discussões após o filme sobre justiça e a conduta de cada um dos personagens.

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Michel Simões