outubro 2007 Archives

O Banheiro do Papa

Inocência, ingenuidade, sonhos (ou até delírios). O papa irá visitar uma pequena cidade no interior do Uruguai, parte da sobrevivência da região vem dos muambeiros que atravessam a fronteira com o Brasil para trazer mercadorias com preço mais em conta (muitos fazem o trajeto de dezenas de quilômetros de bicicleta). São vidas humildes, famílias pobres morando em minúsculas casas rústicas. A diversão masculina são os encontros no boteco e a visita da santidade movimenta os sonhos dessa gente pobre em fazer fortuna. Cada um tem uma idéia brilhante para ficar rico com as dezenas de fiéis que passarão um dia pela cidade. A dupla César Charlone e Enrique Fernandez filma a ferida exposta, com humor leve e um retrato concreto da dureza daquela gente, o filme atinge em cheio os sonhos ingênuos, a realidade estéril, e algumas das cenas finais são realmente de cortar o coração. Tudo tratado com delicadeza ingrata pela dupla de cineastas.


Você, os Vivos

Na visão de Roy Andersson o mundo é mórbido, cruel, monótono, desesperançoso e mordaz. Os tons variam sempre entre o cinza, o verde musgo, o azul marinho, mundo sem alegria, irônico, blasé. O filme é formado de pequenas esquetes, sempre com planos fixos e bem abertos, criando algumas vezes amplos enquadramentos e humor ácido, negro, jocoso. Algumas esquetes voltam mais tarde, mas em todas elas além de um agonizante desanimo e da famigerada crítica à questão humana, há muito da intolerância, do egoísmo e uma constante desalegria em estar vivo.

Planeta Terror

O filme de Robert Rodriguez é uma grande brincadeira, mistura de sátira aos filmes de zumbi de Romero e a Um Drink no Inferno (do próprio diretor), é um cineasta bebendo em seu próprio cinema, buscando afirmar uma identidade que ele nem mesmo possui. Por outro lado é um deleite sanguinário, humor escachado, deboche. Não iremos além de um competente filme de ação, sem nenhum desejo de parecer verossímil, e neste ponto está seu grande trunfo.


Truques
Enquanto cruzamos com uma realidade social polonesa, estamos a acompanhar as estripulias desse garoto sonhando em encontrar seu pai, acreditando que seus pequenos “truques” podem trazer a sorte que ele precisa para esse encontro. É quase uma fábula verossímil, talvez o mais próximo da visão infantil do mundo adulto que o cinema até então conseguiu. O roteiro não pretensioso, que em sua inventividade não deseja ir muito além do que propriamente é, consegue mais que divertir, chegamos ao ponto em que a torcida para que os tais truques funcionem já está enraizada dentro de nós.
Esse ano não teve jeito, até aqui 52 filmes, e se mal consegui tempo para comer e dormir, atualizar o blog é que não teve espaço mesmo. Pelo menos tenho visto muita coisa boa e agora tendo voltado ao trabalho vou atualizando aos poucos. Por enquanto estou colocando os que gostei, as decepções a gente passa depois.

A Retirada

A sensação é de que Amos Gitai coloca a mão dentro do nosso peito e arranca o coração fora. A cena daquelas pessoas sendo retiradas de seus territórios, com um mínimo de violência, mas um terror de ver a terra onde viveram anos e construiram suas vidas sendo assim retirada de seus pés devido a acordos políticos, disputas religiosas e etc. Ao ler os noticiários não nos damos conta da complexidade dos acontecimentos, o que a desocupação da Faixa de Gaza representaria para a população que ali estava, e a forma como essa desocupação ocorreria. Gitai novamente nos dá nova perspectiva sobre fatos, com imparcialidade, com respeito a todos os envolvidos, seu filme já começa de forma fantástica no trem, uma palestina e um judeu conversando, uma discussão com um policial e a questão do que é realmente nacionalidade? Apenas um pedaço de chão? Gitai é obrigatório.

À Prova de Morte

O frescor do cinema de Tarantino não tem mais nada a provar a ninguém, por mais que sua necessidade extrema de ser cool e cult chegue a nos estafar em alguns momentos, ainda assim ele é mestre no tipo de cinema decidiu seguir. E este filme é um deleite, com direito a uma das cenas de perseguição de carro mais emocionantes do cinema, um vilão marcante, diálogos marcados por sedução e suspense (no tempo certo, sem pressa nenhuma). Tarantino nos delicia com altas doses de emoção, com gargalhadas constantes e com uma história de nos deixar estupefatos. Delírio total.

Padre Nuestro
Histórias de mexicanos imigrando e sofrendo muito nos EUA nós já estamos cansados de ver. Mas Christopher Zalla conseguiu a proeza de oferecer algo mais em seu filme, além de uma edição eficiente, uma fotografia cinza perfeita à atmosfera e uma narrativa contagiante. Além das aguras de sempre, fome, violência, pessoas transportadas em containers, há ainda a inocência, o sonho americano e o risco de confiar em desconhecidos. Daí surge uma trama dramática, um homem lutando contra si para reconhecer seu filho, um mar de variáveis e acontecimentos que culminaram num final de filme sufocante.

Mostra SP - dia # 6, 7 e 8

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Esse ano não deu, primeira semana e 32 filmes vistos, o blog ficou p/ milésima prioridade, já nem sei mais quem encontrei, quando encontrei, só posso dizer que dos amigos Alberto e David ainda faltavam, agora restam poucos. Aliás, nesse ano poucas emoções, um longo papo com uma venezuelana simpática, algumas corridas debaixo de chuva, e sempre ótimas companhias dos amigos. O filme-evento foi um espetáculo a parte, Marilia Gabriela simulando um orgasmo foi algo incrível, indescritível. E vamos aos filmes que são o que interessa, e Renato pára de matar os velhinhos da Mostra pq eles estão todos perambulando por aí rs. Ah, ordem cronologicamente de filmes Tb foi p/ espaço, vou escrever aleatório de alguns, e depois completo (nessa levada os preferidos dos últimos dias).

El Orfanato
Obra-prima! Não há uma vírgula a ser acrescentada nesse verdadeiro espetáculo cinematográfico. A história envolvente, surpreendente e emocionante, um show de direção de arte e fotografia, a câmera alternando-se entre planos abertos e fechados, leves travellings, rotações em 360º, seqüências emocionantes sem cortes, e sustos, muitos sustos. Sob meu ponto de vista temos aqui um filme perfeito, irretocável, uma fantástica viagem de horror, fantasia, drama e suspense.

A Questão Humana
Nicolas Klotz oferece um dos filmes mais esquemáticos e intrigantes dos últimos tempos, nada está claro nessa trama que faz ensejo de se tornar uma conspiração empresarial para adiante demonstrar-se um estudo da questão humana, dos princípios de humanidade; criando uma analogia fascinante entre administração corporativa e o massacre nazista. Se toda a estrutura não-clara das questões transforma-se num deleite a cada nova seqüência, a mise-en-scene de Klotz e sua habilidade em nos oferecer cenas curtidas, com cortes precisos, nos permitindo o tempo ideal , faz com que o resultado final torne-se um diamante polido, estritamente bem cuidado, e bem capaz de nos deixar atônitos ao final de suas prospecções.

A Desconhecida
Tornatore cria aqui um thriller mais que competente, uma estrangeira começa a rondar um prédio na Itália até conseguir emprego por um módico salário. Lentamente vamos descobrindo seu verdadeiro alvo e pequenas pistas nos apontam quais são seus reais interesses, enquanto isso cenas intercalam-se com abusos sexuais em mulheres e estranhas orgias. Quando tudo se encaixar no roteiro já estamos vivendo um misto de amor e ódio e envolvidos demais para discernir entre certo e errado.

Estação Seca
A vida humilde entre as regiões áridas africanas, fome, violência, desrespeito. Um jovem rabugento, nervosinho, em busca do assassino do seu pai, no seu caminho uma padaria precária e uma relação de frieza e carinho com o homem que praticamente o toma como filho. Um final surpreendente e mais que digno desse belo filme sobre relações humanas, sobre sentimentos e principalmente sobre a capacidade de perdoar.

A Praça do Salvador
Esse filme joga sujo porque não impõe limites a dor de uma família. O princípio de desmoronamento se dá com a quebra da construtora onde dezenas de famílias investiam seu dinheiro na casa própria. Morar com a sogra, os problemas financeiros, brigas, acusações, desespero, violência, traição, a cada novo dia o âmbito familiar é destroçado de uma forma irrecuperável, quando tudo parece terrível pode ficar pior (há quem chegue no fim do poço e ainda comece a cavar para ele ficar ainda mais fundo).

4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias
Se pensarmos que mais da metade do filme acontece dentro de um quarto de hotel com apenas três personagens, então podemos dizer que o dinamismo e maestria do diretor são algo louvável. O tema é tabu, o filme é duro, não tem vergonha em nos expor aos detalhes mais doloridos, a atingir ao desespero dos personagens e depois ainda consegue resgatar um tapa de pelica na sociedade romena do fim da Guerra Fria. Não é arrebatador como era de se esperar, mas que tem muita coisa boa e muitas lições a serem tiradas, isso é inegável.

Mutum
Outro filme duro com os personagens, o garoto que assume o personagem central é uma graça, sorriso lindo, olhar cheio de graça. Dele são retirados, pouco-a-pouco, tudo que sua vida miserável tinha, familiares que amava, bichos de estimação, a família, cada novo golpe o garoto se cala, retraído pela insensatez paterna, preso à suas deficiência, vive apenas ali na aridez de seu mundo, sobrevivendo ao que ainda lhe resta.

Mostra SP - dia # 5

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Cinco filmes num dia, companhias diferentes, e o melhor é estar sempre com algum amigo do lado. Na Central da Mostra me encontrei com o Chico e corremos para o Reserva onde encontramos Stelinha, antes disso a Mabel me contando altos babados da festa de inauguração na quinta, simplesmente hilário. Depois da sessão nós três caminhando pela Paulista, eu e Chico indo para o Unibanco onde encontramos Bruno e finalmente conheci pessoalmente o Tobey (tava difícil essa hein). O filme começa, as imagens de uma tribo indígena, tom de documentário, ao fundo dois sons, num deles a voz de Ricardo Trepa. Tem algo errado aí. Dez minutos até que uma alma caridosa se levanta e vai avisar que era o filme errado, tudo bem começamos tudo de novo. Depois ali fico para mais duas sessões, na primeira Stelinha do meu lado, na seguinte já é a Alê. Dalí nova caminhada, leve garoa, e a última sessão do dia juntos com a Mikie. Ao final, celulares tocando, hora do encontro da turma no nosso café habitué. Hora de colocar o papo em dia e reunir todo o grupo que andava bastante dispersado. Duas da manha, hora de partir que ninguém é de ferro e amanha (hoje) tem Nicolas Klotz para começar.

Um Amor Jovem
Não vou dizer muita coisa, simplesmente mudei minha programação, cortei dois filmes, só para assistir novamente. Deu para entender se gostei ou não? O amor com todas as suas imperfeições, explosões de emoção e fúria, com toda sua paixão, os picos de alegria, e a dor, a frustração, os acessos ensandecidos de loucura. Ethan Hawke filma de forma leve, cheio de posicionamentos descolados, um desejo de ser cool, que a mim agrada muito, e principalmente saber lidar com o amor, sem pompa, sem exageros. “Quem renega o amor, não merece ser amada”,

Cristovão Colombo
Decepção total. Porque o filme é mal atuado, é pobre em seus diálogos, trata muitas vezes os portugueses como tolos, e principalmente é carregado de um didatismo cansativo, o falar pausado, me sentia assistindo a um teatrinho pré-escolar. A peregrinação sobre a verdadeira nacionalidade do descobridor das Américas, acaba se tornando uma ótima oportunidade para a esposa de Manoel de Oliveira mostrar que um filme só com suas tiradas valeria muito mais apena do que todo o resto que estamos acompanhando.

Nadine
Uma mulher na faixa de quarenta anos, frustrada por não ter conseguido engravidar, encontra o ex-namorado com seu filho recém-nascido num supermercado. Num momento de deslize ela seqüestra o bebe, um ato ensandecido. A partir dali três fases da mesma personagem, praticamente um raio-x das vidas amorosas dela, são três atrizes para interpretar cada uma dessas fases (uma delas nem se parece com as outras) e o filme caminha entre o tempo presente e os flashback’s na ânsia de justificar a maluquice dessa respeitável decoradora. Infelizmente não vai a lugar algum, mesmo que o diretor saiba fazer seu filme fluir.

Atrás das Nuvens
Se a Disney ficasse em Portugal, esse seria seu lançamento do ano. Uma fábula sobre um garoto louco para conhecer o avô que foi afastado da família após um grande segredo do passado. Ele mente à mãe e para a fazenda do avô, onde o mesmo tem um carro mágico que voa pelas nuvens e permite reviver o passado. Filme tolo, especialmente para crianças, porque para adultos é difícil de engolir.

Sombras
Prometia muito, após um grave acidente de carro, a vida de um médico passa a ficar cercada por estranhas pessoas. Uma senhora dizendo estranhos dialetos, um homem sangrando com pregos nos pés e um bebê nas mãos, uma linda e insinuante garota com ferimentos que vem e vão inexplicavelmente. O ritmo da narrativa é interessante, o roteiro terrível, com isso o clima e fotografia são agradáveis, porém o que vemos diante dos nossos olhos não nos prende. E pior ainda, após um pandemônio de eventos que desejam ser excepcionais, terminamos em clichês mais que pré-estabelecidos.

Mostra SP - dia # 4

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Dia tranqüilo, bons intervalos entre os filmes para dar uma boa descansada nesse princípio de maratona. Deu até p/ almoçar rapidinho com a Mikie antes da primeira sessão, depois a gente se despede e comigo fica a Alê, depois encontramos Oz no Pedaço da Pizza, então nos dividimos para as últimas do dia. Na fila de control encontramos Dani Varanda e Renato, Tb na fila Marina Person e no saguão Paulo Betti e um outro ator de comédias gordinho que não sei o nome. Fim de domingo, hora de começar a curtir realmente minhas férias, ufa!

Irina Palm
Filme sereno de Sam Garbarski, criança sofrendo de uma doença rara, família sem dinheiro, tratamento caro em outro país, desespero. Como arrumar o dinheiro? O que fazer? Fazemos o possível e o impossível por nossa prole? Esse é o caso de Maggie(uma Marianne Faithfull em estado de graça, sutil, doce e principalmente obstinada), permitindo que escorresse pelo ralo alguns de seus princípios morais sem que isso pudesse afetar diretamente a alguma pessoa que não ela própria. Essa senhora encantadora transforma-se em sucesso no submundo e encontra caminho para uma nova guinada em sua vida em meio a um mundo tão inescrupuloso. Garbarski é delicado e jamais melodramático, a cena final é de uma leveza e bom gosto sem precedentes e quando a avó fala ao neto que tem um segredo que não pode lhe contar, todo o contexto da cena é de cortar o coração.

Na Mira do Inimigo
Filmes de guerra como esse já assistimos inúmeros, mesmo sobre o tema Guerra da Argélia ele cai na bacia do mais um. Florent-Emilio Siri não poupa a França de toda sua culpa, deixa muito claro o horror causado na sua ex-colônia, discute porque Marrocos e Tunísia tiveram sua independência aceita enquanto a Argélia não (motivos econômicos? Não, imagina), e também mostra o dramas dos combatentes, a loucura causada pela guerra, o desacordo com as decisões superiores e principalmente o questionamento de porquê estarem ali. Então o filme segue morno, mas na frase “... como encontramos um homem baleado e uma arma...”, a frase não foi encerrada e nem precisava, o massacre é assustador, uma aldeia inteira dizimada, aterrorizante.

Screamers
Um documentário sobre a banda System of a Down e seu engajamento para que o genocídio dos turcos contra os armenios seja reconhecido (anterior ao dos judeus, foram mais de um milhão e meio de pessoas no início do século passado). Carla Garapedian roda em seu próprio eixo, fica patinando nos mesmos assuntos e depois insere uma ou outra apresentação musical da banda para afirmar seu raciocínio. Claro que é interessantíssimo o tema e todo o jogo de interesses políticos que não permite que grandes potências reconheçam o massacre como genocídio.

Control

Anton Corbijn transformou seu filme em chapa branca, extremamente careta. De sua visão temos um Ian Curtis depressivo, calado e atormentando, mas também um tanto amistoso, boa gente e racionalmente controlado. Sem excessos, sem loucuras e grandes consumos de drogas, álcool, ou seja lá o que for. A verdade é que Sam Riley é fantástico aos nossos olhos, mas o personagem oferecido a ele parece fake, arranjado, e incapaz de transmitir um milésimo da complexidade de sua alma e mente, temos a genialidade sem demonstração da mesma. Não chega a ser um filme vago, porém vazio, em falar da banda (que aliás os integrantes são praticamente figurativos), em falar das composições e algo do que elas representavam. Enfim, como filme é muito bem feito, envolvente, realmente bem filmado, como cinebiografia é careta e falsa.

Mostra Sp - dia # 3

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Transito infernal em pleno sábado à tarde, o resultado foi uma corrida no melhor estilo São Silvestre para chegar a tempo da sessão no Espaço Unibanco, sorte que era sessão dupla na mesma sala. Se no primeiro filme cheguei em cima da hora e não conseguindo lugar ao lado da Alê e da Gé, fiquei com os amigos Bruno e Carrard. Na sessão seguinte todos partiram, ficando apenas minha parceira de sempre, e quem se juntou foi a Mikie com um amigo. Os acontecimentos mais diferentes do dia ocorreram nas três sessões seguintes que assisti na Cinemateca. Primeiramente conheci a melhor sala de cinema de São Paulo, a recém-inaugurada sala é um show, charmosa, aconchegante, com uns janelões que são super-bem utilizados entre uma sessão e outra com aquela luz natural fantástica. Cadeiras confortáveis, projeção excelente, tudo extraordinário, e fica na Cinemateca, aquele lugar encantado. E quando a sessão vai começar desse uma espécie de tela preta para cobrir as janelas, o público parecia torcida de futebol vibrando e achando o máximo. Foi ali que vi os aplausos para o filme do Akin (das quais não compartilhei). Na sala antiga foram as últimas sessões, o filme do Arcand (meu preferido dentre os nove já vistos) teve até coro do público puxado por uma senhora “tá friiiiio”, clamando para desligarem o ar condicionado.

Não Toque no Meu Machado
O filme de Jacques Rivette é chato, filme de época precisa de uma condução toda especial e esse aqui não tem nada de especial, é o mais convencional que se possa imaginar. Então um filme desses deveria ter um romance ou personagens que nos encanta, e o carrancudo e a volúvel não conquistam ninguém. Por fim nos resta o jogo de sedução cansativo, exagerado, aquele ar de poesia no ar que não leva a nada, definitivamente Rivette não acertou no filme e quanto mais a história se envereda por caminhos suntuosos, mais desgosto pelo filme adquirimos. Quanto o romance não convence, fica difícil engolir as feições blasés.

Perdido em Pequim
Eis um filme complexo, mas não daqueles incompreensíveis, apenas a rede de acontecimentos vai tornar a história cada vez mais complexa. Li Yu lentamente vai mostrando a verdadeira faceta de cada personagem, e aquele que poderia ser o carrasco (já que comete um estupro), prova mais tarde estar longe de ser o mais mal-carater da história. Cenas de sexo significativas e um jogo de interesses envolvendo paternidade, dinheiro, sentimentos sendo renegados a segundo ou terceiro plano. Tudo é questão de aparência e interesse mútuo, e nesse mar de desolação, Ping Guo é uma vítima do sistema, da sociedade, e principalmente de todos com quem se relacionava. Em dado momento já imaginamos os desdobramentos que essa história irá ter, e se ela não inova, fecha brilhantemente com uma palavra que não é comumente usada: justiça.

Do Outro Lado
Duas histórias inter-cortadas por um exagero de coincidências (aquelas artimanhas de roteirista), o título se refere a uma constante ida e vinda dos personagens entre Alemanha e Turquia, relações familiares e toda uma abordagem política sobre situação sócio-econômica são temas também bastante presentes. Em meio a isso Fatih Akin progride num caminho lento, por vezes contemplativo, só que levemente artificial. Perdemos tempo demais em acontecimentos envolvendo tribunais, posicionamentos políticos e temas recorrentes a esses, enquanto a carga dramática mais rica que seria essa relação pais-filhos entre os três núcleos familiares apresentados ganha apenas as cenas em que o cineasta sonha ser definitivo e genial.

Este Filme Ainda Não Tem Censura
Divertido documentário sobre censura a filmes nos EUA, traçando um perfil da MPAA desde deus primórdios e discutindo os critérios de cada decisão, o filme de Kirby Dick além de bem-humorado vai a fundo no mistério desse clube fechado em que ninguém sabe quem são os censuradores. Nomes escondidos à sete chaves, mas Dick contrata uma agencia detetives particulares e enquanto cineastas e demais envolvidos narram alguns exemplos da parcialidade da entidade, vamos descobrindo pouco-a-pouco quem são as pessoas a decidir o que o público poderá assistir.

A Era da Inocência
Dessa vez Denys Arcand não se ateve a um órgão específico do governo, por mais que o personagem central seja funcionário público. É um massacre contra as medidas mais descabidas do governo, uma comédia afiada, inteligente, direta. E Arcand fez um filme tão complexo e rico que não se contém preso apenas à crítica governamental, ele atinge o estilo de vida da classe média, critica o âmbito familiar, os matrimônios como estão colocados, essa vida desenfreada e egoísta que vivemos. Resumindo, ele empiricamente ele prova que está tudo errado, que estamos nos afogando nesse mundo globalizado, tecnológico e egocêntrico que nós mesmos criamos, e aqueles que conseguem parar por um segundo, dar um passo para trás e enxergar a situação como um todo, podem encontrar um caminho melhor, ou então sonhar que pelo menos no seu caso as coisas poderiam ser bem diferentes (e como sempre a gente sempre opta por esse caminho mais fácil).

Mostra SP - dia # 2

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Estava com o texto quase pronto sobre o dia de ontem, mas encostei o pé no fio e perdi quase tudo, nem vou tentar reescrever. Mas posso dizer que encontrei com o Bruno, Thiago, corri q nem criança pela Frei Caneca, todo o elenco de O Passado estava prestigiando Gael na apresentação de Deficit (q ele afirmou era uma brincadeira, e nunca deveria ter deixado de sê-la rs). Todas as sessões da noite com minha eterna parceira Alê e pouco a pouco a Equipe Mostra foi se unindo até estar completa na última do dia que só acabou 2h da manha. Ainda trombei com os amigos Castilho, Lula, quase dou um encontrão na Leandra Leal (q é super comum pelas ruas). E p/ acabar a brincadeira, para estratégica na Bela Paulista pq saco vazio não pára em pé. Resultado: chegar em casa 4h15 da manha, p/ quem tinha feito tudo aquilo no dia anterior, sonho era algo que eu nem sabia mais o que era.

Las Vidas Posibles (Las Vidas Posibles,2006 – ARG)
Muitos planos fechados, constratando com longos e silenciosos planos abertos da paisagem da Patagônia. No rosto da ótima atriz Ana Celentano toda uma angústia dilacerante, na vista aquela imagem azul e branca, sensação de imensidão, de vazio, de perda. Num filme de cenas delicadas (há uma em especial, um leve travelling com Carla de pé, em frente a carro, só suas feições e de longe a montanha coberta de branco, a trilha suave) a diretora Sandra Gugliotta narra a misteriosa história de uma mulher em busca de seu marido que desapareceu sem vestígios (morreu? a deixou?). Em sua empreitada melancólica Carla não quer acreditar na verossimilhança dos fatos e inaugura uma realidade própria, e até consegue fazer com que essas duas realidades diluam-se num mesmo ponto comum. A delicadeza na condução de Gugliotta, os diálogos não são saborosos, mas o silencio dos corpos diz tudo o que precisaríamos saber.

Déficit (Deficit, 2007 – MEX)
Uma grande bobagem, Gael García Bernal dirige e protagoniza esse filme sobre um jovem arrogante, desprezível, fútil, um burguês invejoso que quer apenas divertir-se, ter todas as mulheres (aliás aqui a história é de uma fragilidade dolorida), tornar-se o centro das atenções e no fim o roteiro tenta dramatizar e colocar os possíveis “problemas” que esse pobre coitado sofre com as pressões familiares, os excessos e tudo mais. Gael até que conduzia bem quando o filme focava-se na diversão juvenil pela piscina ou jogando bola, mas quando quer se tornar um pouco mais sério é de um fracasso completo.

Cada um Com Seu Cinema (Chacun Son Cinéma, 2007 – FRA)
Podem dizer que alguns curtas são extremamente cansativos e descartáveis, mas para mim esses filmes coletivos são sempre válidos (ainda mais quando guardam humor inteligente), a idéia era fazer uma homenagem a 60ª edição do Festival de Cannes e ao cinema. Do Brasil, Walter Salles não faz grande coisa mas a dupla de repentistas (Castanha e Cajuzinho) é bem engraçada. Os irmãos Cohen mandam muito bem com um texano assistindo ao filme Climates, Manoel de Oliveira e seu humor fino, Polanski traz um curta hilário, Lars Von Trier mostra a irritação de nós cinéfilos com alguém que não para de falar na sessão. Realmente há alguns muito bons, mas Iñarritu foi quem dessa vez conseguiu proeza, uma mulher em prantos no cinema (ao fundo o som de um diálogo de O Desprezo de Godard), ao seu lado um homem narra o que acontece na tela e a cega não se controla e precisa sair da sala de tanta emoção. Foram vários curtas sobre cegos no cinema, mas esse no travelling em 360º que marca seu final alcança um momento sutil e emocionante.

Mostra SP - dia # 1

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Começou. Não, não estou louco, a Mostra começa oficialmente hoje, mas a minha começou um dia antes dessa vez, já que estive presente na abertura oficial no Auditório Ibirapuera. E foi sem dúvida o momento “celebridades” máximo da minha vida, eu que prefiro fugir dos holofotes, dessa vez estava ali ao lado de tantos famosos sob cliques de fotógrafos e jornalistas. Paulo Markum, Marília Gabriela, Vera Zimmerman, Glorinha Kalil, Ricceli e Lombardi, nem vou citar todos os nomes que passaram por ali porque nem consigo recordar todos (aliás tem muitos que eu nem conhecia). O melhor foi estar com os amigos inseparáveis, éramos quatro do quinteto de Oz que estará na Mostra (você fez muita falta viu minha menina!). Legal também ter reencontrado o Luiz que trabalhava na Cinemateca e há muito não o via e também começar a ver caras conhecidas que só na Mostra a gente encontra.

Antes do filme mil discursos, Serginho Groisman como mestre de cerimônia, o prefeito Kassab e o governador Serra bem humorados nos seus e colocando o ego do festival lá em cima, prometendo colocar no caledário oficial da cidade a Mostra SP, depois Babenco super-bem humorado falando do filme e apresentando os quatro atores principais, entre eles Gael Garcia Bernal. E belas lembranças e homenagens a Paulo Autran (que inclusive faz sua última incursão no cinema neste filme). E também tivemos Claude Lelouch apresentando um curta seu (muito antigo) aliás eu achei uma leve bobagem parecia que estávamos jogando videogame (num daqueles simuladores de moto).

Depois da projeção era correr para a Casa da Caldeira, e esbarrar em tantos globais, tantos globais, mas tantos globais que eu já nem sabia quem era quem. O DJ era aquele do programa da Galisteu (será que ela ainda está na TV?), e para falar a verdade se deparar com Vanessa da Matta do seu lado na fila de entrada dá um gostinho de... sei lá o que, mas um gostinho bom. Chegar em casa 5 da manhã e lembrar que tinha que chegar no trabalho antes das 7 não foi muito agradável, ainda mais que é o último dia antes das curtíssimas férias de oito dias, e pior é que vou sair correndo daqui direto para mergulhar na Mostra e nos 4 filmes programados para hoje (que sejam bons filmes porque vai ter projeção até 2 da manha).


O Passado (El Pasado, 2007 - ARG/BRA) – Merecia um texto escrito com um pouco mais de calma porque tem coisas muito interessantes ali, um filme bem sensível. Babenco acerta dessa vez narrando a história das mulheres que passaram pela vida desse tradutor e interprete, impressionante a capacidade desse sujeito em atrair mulheres completamente desequilibradas. Filme de ritmo sereno e tenaz em afirmar a máxima de que a mãe é a mulher mais amada por um homem em sua vida, e o roteiro afirma isso numa cena tão pequena, e que estava cifrada durante quase todo filme, um pequeno momento especial, delicado, e que pode muito bem passar completamente despercebido. Deixar assuntos do passado mal resolvido, escondendo para debaixo do tapete toda a sujeira, não é decisão correta, porque coisas mal-resolvidas retornam em algum momento de sua vida.

Propriedade Privada

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(Nue Propriété, 2006 - BEL/FRA/LUX)

Créditos iniciais em silêncio absoluto, aliás a única música presente em todo o filme marcará o início das derradeiras cenas, exatamente no momento mais doloroso e expressivo de todo desenrolar (a cena dos cacos de vidro). A direção de Joachim Lafosse é milimétrica, longos planos fixos normalmente representam filmes muito lentos, mas os diálogos efervescentes quebram essa costumeira rotina, além de nos aproximar muito da rotina trivial daquela família (estamos diante de almoços e momentos no sofá em frente a tv, discussões , brincadeiras, estamos dentro daquela família como se fosse a nossa). Pouco importa o desfecho, chega certo ponto do filme em que a família está tão destroçada que o destino de cada um deles não é significativo, o que ficou pelo caminho jamais será apagado. Por essa lógica apenas deflagramos o comportamento de cada um, o filho mais carinhoso, o outro exageradamente revoltoso, a mãe volúvel, o pai acreditando que educar é não deixar faltar dinheiro à família. Comportamentos e raciocínios tão comuns ultimamente que por mais doloroso e seco que o filme seja, a sensação é de conhecer tantas famílias como aquela.

A Nova Saga do Clã Taira

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(Shin Heike Monogatari, 1955 - JAP)


Kenji Mizoguchi retratando a disputa por poder, de um lado os clã's controlavam pequenas regiões no Japão medieval, de outro uma disputa ainda mais atenuante pelo controle do país, ocasionando em dois governos, um racha completo e a incerteza de quais ordens serem seguidas. Nesse momento caótico o patriarca da família Taira retorna à casa e encontra o desconforto dos burgueses. Hoje não há grande relevância no filme, além de seu quadro histórico, Mizoguchi filma com primazia, é verdade, mas o roteiro está fadado a ser visto como peça de museu. Muito mais interessante é o romance de Kiyomori e sua relação com o passado da mãe, nessas cenas de drama familiar, ou romantismo delicado é que Mizoguchi deixa seu filme muito mais vivo na memória, por mais que não soe como novidade, as pequenas singularidades fazem notar-se dessas relações alguns momentos especiais.




MOSTRA: Reunindo-se no Central Perk, um-a-um os integrantes de Oz chegavam com suas listinhas e anotações e a mesma frase “não vou abrir mão da minha programação”. Depois de três horas de debate, discussões e de ter deixado garçons e outros clientes tendo certeza que ali estavam um bando de loucos desvairados, o que conseguimos foi finalizar quatro, talvez os cinco primeiros dias. Claro que ninguém conseguiu emplacar todos os filmes que preferia, é claro que a Equipe Mostra vai se subdividir em pequenos grupos em algumas ocasiões, mas o resultado da discussão foi bom, garantindo muita gente junta em quase todos os filmes. Fechar a programação vai causar ainda muita discórdia, e a loucura de começar a sexta com quatro sessões sendo a primeira às 19:20 vai ser algo inacreditável. Mas é isso, foi dada a largada para a maratona!

Bobby

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(Bobby, 2006 - EUA)


Emilio Estevez adora Robert Kennedy, isso é fato. Seu filme soa como propaganda política eleitoral repleta de naftalismo, isso também é fato. Os discursos de Bobby surgem por todas as partes com imagens de arquivo, e o diretor vai muito bem ao mesclar esses discursos com a eficaz apresentação dos personagens. Pouco a pouco estamos intrigados com suas vidas privadas (pelo menos em alguns casos), desde o empolgante mexicano que sonha assistir a um especial jogo de baseball, até o gerente do hotel, ou uma famosa cantora decadente em crise de meia-idade. Serão mais de vinte no total, e a paixonite de Estevez quebra a delicadeza de alguns desses. Depois surgem momentos melodramáticos, o péssimo emprego da trilha sonora, e um excelente e empolgante manejo de câmera repleto de planos-seqüência, travellings e câmera na mão.
A direção carrega na mão para tentar posicionar a situação racial dos EUA em 68, e elencar as qualidades de Bobby, colocando-o como um homem focado nessa luta igualitária. Chegamos então na seqüência do assassinato e por mais que saibamos o desfecho, serão momentos eletrizantes, altas doses de angústia. Porém há outras cenas menores e ainda mais significativas, como alguns dos momentos envolvendo Elijah Wood e Lindsay Loohan, e principalmente Sharon Stone cortando o cabelo de William H. Macy enquanto ironicamente o humilha (cena espetacular daquelas que valem o ingresso todo). O triste é saber que são todos fictícios e parte da graça esvai-se, uma leve sensação de ter sido enganado, mas num filme sobre um político, não poderia soar verdadeiro realmente.



MOSTRA SP
Nem deu tempo de falar, mas a Integral já está na mão, as férias a marcada, a reunião hoje com Oz para montar a programação única (haha que isso é possível) está marcada, agora é só esperar começar e como todo ano aqui vão rolar os tolos e dispensáveis relatos diários sobre o nada que cerca a minah presença na Mostra.

Querô

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(2007)

Histórias de garotos delinqüentes e marginais já estamos fartos, só que o texto é de Plínio Marcos e atuação de Maxwell Nascimento simplesmente arrebatadora já tornariam o filme mais que interessante. Mas pensando bem o garoto vai além do arrebatador, aquele olhar e o bico nos lábios transgridem qualquer elogio que se poderia fazer. E tendo um ator num momento tão especial fica fácil para Carlos Cortez caprichar em duas ou três cenas e fazer desse um ótimo filme, pungente, vibrante; e nessas destaco toda a discussão entre Querô e alguns garotos na Febem (com a câmera se afastando da foco principal da ação é algo inovador) e a eletrizante discussão na sala de refeições com os olhares furiosos dos internos, Querô é uma das gratas surpresas do ano.

Rock'n Roll High School

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(Rock n'Roll High School, 1979 - EUA)

Tudo de trash que uma típica comédia dos anos oitenta possuía, humor escachado, momentos apelativos e garantia de boas doses de risada descompromissada. Mas no meio disso tudo surge Ramones e sua música, e vê-los invadindo aquela escola ao som de sua música soa como a maior representação de liberdade adolescente. Não passa de uma grande brincadeira, mas é tão divertido, e o momento máximo é a cena do rapaz que se assusta com a porta sendo aberta abruptamente e deixa cair no chão todo o pó que estava prestes a cheirar. Direção de Allan Arkush.

Exuberante Deserto

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(Adama Meshuga'at, 2006 - ISR/ALE/JAP)


O filme de Dror Shaul denuncia uma sociedade ditatorial, pretendendo afirmar que nos kibutz as vidas das pessoas são totalmente controladas pelos líderes locais, provando que no fundo não há democracia efetiva. Nesse contexto Miri é uma mulher fragilizada, perturbada, visivelmente doente, toda a perspectiva do filme virá pelos olhos do seu filho caçula, Dvir. Focar no olhar de uma criança é um formato usado largamente no cinema, provando eficiência e identificação com o público. Só que é a personagem da mãe quem impulsiona a história que margeia entre a dureza dramática do que se pretendia expor e a visão imatura (porém segura) do jovem. Falta alguma coisa, um acerto melhor no tom, alguma característica que nos pegue profundamente, com isso as cenas terminam pouco valorizadas, e o discurso de repressão que causaria todo o desequilíbrio está muito mais inserido nas palavras do que em sua representatividade. Ainda assim a cena dos casais dançando e principalmente o primeiro beijo de Dvir serão momentos a ficar marcados, de uma forma ou de outro sempre teremos os líderes e os liderados e o jogo de interesses para manter essas relações sob todas as esferas.

Dvir (Tomer Steinhof) Miri (Ronit Yudkevitz)

Tropa de Elite

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(2007)

Deixo de lado a discussão sob pirataria, falemos do filme. Quando terminou a projeção sentia adrenalina pelo corpo, um desejo de correr, praticar algum esporte, gritar, sei lá, parecia uma necessidade de extravasar aquele sangue que corria fervendo pelas veias. Antes de qualquer coisa é um filme eletrizante, seu discurso é literal e mastigado ao extremo, isso não esvazia seu ritmo alucinante, deixe seu pulmão de fora da sessão porque não haverá tempo para respirar. É um filme sobre o BOPE, visto sob a perspectiva de um de seus integrantes, Nascimento nos aponta mais que o dia-a-dia (seja combatendo em invasões à favela, ou na sufocante relação familiar) ou o treinamento de guerra para eleger futuros integrantes. Ele afirma, com todas as letras, o que já conhecemos tão bem: o modo-operantis do sistema. Obviamente está carregado de um discurso com visão unilateral, pouco importa, o sistema está aí e só não enxerga quem não quer ver, a corrupção está espalhada por cada esquina e tudo está tão deflagrado e implícito que nada nos surpreende e apenas aceitamos calados enquanto não nos atinge.
Por isso Tropa de Elite não passa de um filme de constatações, só que um filme excepcional, seria um grande espelho de uma sociedade esburacada, corrompida, cruel. Não perdoa ninguém, de forma anárquica afirma sem papas nas línguas que ninguém presta (exceto o BOPE). Assim polícia, política, burguesia, os playboys usuários (talvez a principal vertente do filme, o discurso duro e direto contra os que movimentam todo o tráfico, tornaram-se a razão de existir dessa guerra desenfreada, sem consumo teríamos sim violência, mas não essa estrutura toda, no fundo tudo é financeiro, mais um negócio), ONG’s, e quem mais você imaginar. E esse discurso pode ferir você, você que de alguma forma que também é responsável, assim como eu, e portanto você até não gostar do que vai ver. Só que como cinema trata-se de entretenimento na forma mais pura, com direção inspirada de José Padilha e um trabalho de atores primoroso, mais que concentração e fúria, dá para sentir o sangue truculento e a determinação inspirada na raiva pelos olhos de Caio Junqueira, André Ramiro e Wagner Moura (esse então oferece momentos que você nem vai acreditar). Depois é só voltar a sua vidinha normal como se nada estivesse acontecendo, Padilha esfregou na sua cara não só a violência, vai fingir que não está lambuzado dela?

Cap Nascimento (Wagner Moura) Matias (André Ramiro) Neto (Caio Junqueira)

Paris Vista Por

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(Paris Vu Par, 1965 - FRA)


Seis pequenas histórias ambientadas em Paris, nos tempos áureos da Nouvelle Vague. Sem dúvida um prato cheio para alguns paladares, inclusive o meu. Todas as histórias, mesmo as mais trágicas, dialogam pela leveza, pelo o tom de humor sutil, pelo movimento do cinema francês que está impregnado em cada fotograma. Claude Chabrol é dono do segmento menos interessante falando de um garoto que cansado da mãe tampa seus ouvidos e termina não ouvindo-a pedir socorro. O de Jean Douchet é bárbaro, uma estudante norte-americana que termina seu breve relacionamento e ao conhecer outro rapaz, é levada ao mesmo apartamento em que freqüentava com seu antigo caso, e nessa coincidência começa a descobrir algumas verdades escondidas sobre a identidade de cada um dos rapazes. Jean-Luc Godard então nos oferece o melhor de todos, com a garota temendo ter trocado as cartas que escrevia para seus dois namorados, e metendo os pés pelas mãos para tentar consertar o estrago.
O estranho e divertido encontro de uma prostituta e um jovem tímido num quarto de hotel nos foi oferecido por Jean-Daniel Pollet, e há alguns trechos de diálogos realmente hilários. Eric Rohmer veio com a história de um vendedor de roupa social que muda o trajeto do metro para seu trabalho por temer ter matado um homem que o atacou na rua. E Jean Rouch trouxe uma construção especial, bem-realizada em dois longos planos-seqüências, e capaz de um eficiente desenvolvimento de seus personagens. Primeiramente ele enquadra um típico casal francês, a mulher está cansada da vida pacata e sem emoções que o marido lhe oferece, eles discutem em pleno café da manha e ela sai do apartamento irritada. Na rua quase é atropelada e o playboy deixa o carro para aplicar-lhe diversas cantadas dizendo tudo que ela gostaria de ouvir do marido. Em sua cabeça um conjunto de explosões o desejo de ter em um homem um pouco de cada um deles, e o final surpreendente, um golpe rápido e inesperado.

Bem-Vindo a São Paulo

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(2007)

Leon Cakoff agrupou vários cineastas e os colocou numa fria, entregou-lhes uma câmera em meio a uma edição da Mostra SP pedindo-lhes uma breve visão sobre São Paulo. O resultado final é terrível, vergonhoso, descartável, um conjunto de curtas irritantes, vazios, com enorme arrogância subjetiva. A seqüência extenuante deixa você sem esperança até surgir Tsai Ming-Liang filmando o treme-treme, Amos Gitai falando do hotel Holiday Inn (que ficou anos inacabado na Marginal Tietê), o próprio Cakoff acerta a mão ao retratar um mendigo na região da Paulista que Abbas Kiarostami teria observado há alguns anos, e o curta decorre no estilo Abbas (carro em movimento, motorista falante). E quando no final surge Wolfgang Becker com uma visão de satélite que vai fechando o cerco até finalmente chegar à nossa cidade, a famigerada música da Jovem Pan AM, jornalistas de rádio falando do trânsito via helicóptero, completamente mergulhados no ritmo caótico da capital para a seguir ter início uma meteórica procura numa loja de LP's que vai desembocar em Sampa cantada por Caetano. Depois desse e dos créditos com uma antiga e deliciosa gravação de Adoniram Barbosa em Trem das Onze, fica ainda mais nítido que os anteriores eram ainda piores do que pareciam, e nem vou perder tempo em citá-los porque não valem ser rememorados.

Anjos Exterminadores

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(Les Anges Exterminateurs, 2006 - FRA)


Talvez tenha sido involuntário, mas da idéia central de fazer um filme retratando o verídico processo judicial que Jean-Claude Brisseau enfrentou ao ser acusado de assédio por duas de suas atrizes do filme anterior (o muito bom Coisas Secretas), o cineasta acabou por fazer um filme sobre si, e a subjetividade inexplicável da narração em off, os aparecimentos da avó e outras características soam como arrogância artística, mas talvez sejam tão representativas ao próprio que ele nem tenha percebido que da forma como está apresentando, pouco representará ao público.
O interesse inicial remete a fama do filme de possuir tórridas cenas de sexo entre mulheres, e realmente são inúmeras, e longas, especiais momentos no restaurante (sob o olhar marcante da garçonete) e na porta do quarto de hotel (com a mesma aberta). A idéia do cineasta, que pretender fazer um filme sobre o desejo feminino, é de deixar seu roteiro fluir durante os testes para escolher suas atrizes, dessa forma as atrizes tornam-se "co-roteiristas" de uma forma peculiar, não acham? Interessante como o voyeurismo desperta paixão nas moças, outro ponto intrigante e até esperado é a relação com a esposa (principalmente o desejo sexual ardente após um dos testes mais "quentes"). Brisseau gostaria de compreender esse desejo feminino, só que se debruçou sobre suas próprias angústias e deixou muita gente contorcendo-se pelas poltronas.

Nação Fast Food

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(Fast Food Nation, 2006 - EUA)

Pensando bem seria um filme difícil de todos os modos, assunto desagradável, necessidade explícita de utilizar cenas que obviamente todos já previamente imaginamos ao ler a sinopse, e dentro desse quadro o eclético e talentoso Richard Linklater não foi capaz de ir além de um deformado filme-denúncia que metralha por várias frentes, por vezes esquecendo-se de seus personagens. E sem opções culmina nas esperadas cenas de violência horripilante com os animais no abate. Talvez o único personagem bem desenvolvido seja o de Ethan Hawke e seu realismo revolucionário. A negligência na qualidade da carne dos hambúrgueres norte-americanos perde espaço para a deprimente situação dos imigrantes mexicanos. Dificuldades para eles já esperávamos, o que surpreenda talvez seja a forma cruel e exploratória com que algumas empresas os contratam, já que decisões escusas dos executivos de grandes empresas não surpreende mais ninguém, tudo pelo lucro e produtividade.
(I Could Never Be Your Woman, 2007 - EUA)

Obviamente o filme diverte, o casal é lindo, e o tempo não passa para Michelle Pfeiffer, além do que Paul Rudd é literalmente engraçado e carismático. Pena que para cativar um público maior Amy Heckerling sujeite-se a espalhar humor barato e pobre, deixando temas como a relação mãe-filha-adolescente, relacionamentos com grande diferença de idade, além do amor acima dos quarenta, renegados a um tratamento raso quando fica nítido que a cineasta poderia ir muito além com seu estilo simples, leve e divertido. Vale como passatempo, mas poderia ir além.

Algo Como a Felicidade

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(Stestí / Something Like Happiness, 2005 - República Tcheca)

Grata surpresa, não esperava muito do filme de Bohdan Sláma. E realmente ele corria meio morno, tal qual a vida daqueles personagens com pouca perspectiva, apenas vivendo suas vidas. Eis que surgem aqueles quinze minutos finais, sempre eles, para oferecem vazão a tudo o que tínhamos visto, para condensar o que o filme pretendia representar. E quando surge a última cena e logo a seguir os créditos finais ao som de I'm On The Corner Of Your Mind, eu (e todos que estavam comigo) só conseguia pensar no que estava vendo, na minha própria vida, nas minhas escolhas mais recentes, e ali estático ouvindo aquele violão e a voz grossa de Leonid Soybelman, numa harmônica suavidade. Cada um tem sua forma de viver a felicidade e a deles foi aquela, construindo uma família torta, precária, e tão feliz, mas tão feliz q eles nem conseguiram perceber o que aquilo representava enquanto viviam, só que todo estado provisório tem sempre prazo para terminar. A situação econômica do país, o eterno sonho de sucesso no estrangeiro, tudo fica a segundo plano quando a sensibilidade do filme aponta para as pequenas coisas que fazem o grande diferencial de nossos rumos.

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Michel Simões