setembro 2007 Archives

2x Susanne Bier -parte II

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Corações Livres (Elsker Dig for Evigt / Open Hearts, 2002 - DIN)


O Dogma está escancarado desde o primeiro segundo, um casal num restaurante, um pedido de casamento. A cena é singela, a seguinte tal qual, o mesmo casal se apronta em casa, ele vai viajar e lhe compra uma lingerie, brincadeiras daqueles momentos de lua-de-mel que todo relacionamento possui. Pronto, acabou o lado doce da história, mergulharemos a seguir no estado desolador criado por Susanne Bier para estes personagens. A terceira seqüência é de arrasar, a cineasta que nos preparava para esse clima romântico repentinamente nos pega desprevenidos, mãos ao rosto, público atônito, lágrimas, resmungos, todo mundo traumatizado na sessão. Começa o drama de um jovem acidentado, rejeição à namorada, aproximação desta com o patriarca da família que participou do acidente. Duas famílias desintegradas, do horror nasce o amor, um misto de sentimentos confusos, choros para todos os lados, raciocinar logicamente é pedir demais para humanos tão imersos em seus problemas e desse quadro todas as perspectivas são possíveis, prognosticar como terminará esta história é missão para adivinhadores de plantão, os pobres mortais estarão muito mais interessados na delicada recuperação da dignidade destes personagens (se é que é possível). A beleza desigual de Sonja Richter, principalmente do seu rosto doce e arrebatador, é algo assim indescritível.

Cæcilie (Sonja Richter) Niels (Madds Mikkelsen) Marie (Paprika Steen) Joachim (Nikolaj Lie Kaas)

2x Susanne Bier

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Depois do Casamento (Efter Brylluppet, 2006 - DIN/SUE)


Primeiro de tudo um parênteses, depois de alguns filmes estou amedontrado com os casamentos dinamarqueses. Agora ao filme, uma oferta de doação para causas assistenciais transforma a vida de um homem que dedicava completamente seu dia-a-dia a ajudar ao próximo, além de trazê-lo num retorno desgastante ao seu passado, e a dilemas inimagináveis. Susanne Bier comanda um mergulha ao berço de uma família em frangalhos que escondia seus dramas varrendo-os para debaixo do tapete. A cena de desespero de Jorgen, quase no final do filme, é um momento dilacerante, desesperador, edificante, depois daquele momento indigesto ainda não completamente digerido, a lembrança do filme só resgasta um gosto amargo e aterrorizante. E a idéia de como o poder faz crer que é possível controlar tudo e todos, e escolher pelos destinos de terceiros

Jacob (Mads Mikkelsen) Helene (Sidse Babett Knudsen) Jorgen (Rolf Lassgard) Anna (Stine Fischer Christensen)

O Pequeno Italiano

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(Italianetz, 2005 - RUS)

Em alguns momentos o pequeno Vanya mais parece um prodígio saído do mundo dos HQ's, tal qual sua capacidade de tão pequenino e desvencilhar-se de tantos que tenta capturá-lo. Ainda assim isto é irrelevante quando nos concentramos no grande tema do filme: obstinação. Ela move este garoto por uma Rússia que a cada dia fica mais cinza, suja e alheia à perspectivas pelas lentes de seus cineastas. Andrei Kravchuk aponta uma das verdades que assolam o país, uma nação em crise financeira e os mais fracos sofrendo dessas mazelas na pele, jovens e crianças contando uns com os outros para crescem, amadurecer. O pequeno e encantador Kolya Spiridonov é quase um golpe baixo para que nos aproximemos da história, só que por mais obviedade que muito do filme possua está na obstinação dessa criança aflita por conhecer sua mãe biológica, no exato instante em que as portas do futuro se abrem, a capacidade de nos comover e torcer como loucos para o final feliz nestas vidas (desde a do pequeno Vanya, até dos adolescentes que se prostituem, praticam pequenos golpes, e cuidam uns dos outros ao seu modo).

Ligeiramente Grávidos

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(Knocked Up, 2006 – EUA)

Piadas de mau-gosto, exagero na caracterização de alguns personagens, diálogos toscos, mais piadas de mau-gosto, e um mar de clichês onde Judd Apatow parece navegar tranquilamente. Só que somos humanos, sensíveis, e acima de tudo bobos, então o somatório de tudo oferece um filme prazeroso, alguns momentos divertidos, outros românticos e algumas constatações na tela do que vivenciamos na vida real. Mulheres apaixonam-se e querem mudar seus comportamentos, esquecendo-se que elas se apaixonaram por aqueles homens e não a versão atualizada e insatisfeita. Homens, por sua vez, incapazes de compreender as necessidades femininas, concentrando-se em seu egocentrismo, no mundo que deveria girar em torno de seus umbigos.
Assim pincelamos uma bela história secundária no casal com duas filhas, o marido que só sente-se confortável distante da esposa; tocante a discussão em que ela diz não adiantar eles irem pois o importante é ele querer convidá-la a ir. De outro lado a história central é a típica comédia romântica, casal se conhece, se apaixona, briga e depois faz as pazes, mas há a cena do parto, e o momento mais clichê se torna o mais bonito; É um filme irregular por demais, longo que passa voando, e você se enxerga nele, então não há como negar que trata-se de um bom filme repleta das mesmas coisas de sempre.

As Leis de Família

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(Derecho de Familia, 2006 - ARG)


Daniel Burman novamente numa crônica familiar, e novamente retratando uma família judaica. Dessa vez Ariel é um homem metódico e acomodado, buscou a mulher com quem almejou casar-se, buscou o emprego que lhe daria conforto, buscou a mais cômoda proximidade com o pai que lhe fosse possível (proximidade bastante distante inclusive). Até frisa numa passagem do filme pagar uma escola cara para não ter que participar de tudo aquilo que a escola deseja que os pais participem.

De forma contida, amistosa e bem-humorada, o filme traça uma visão extremamente masculina de se encarar casamento e relacionamento familiar, a forma ideal para um homem comum viver nessa bolha de laços e relações. O não se envolver bastante, o não participar dos problemas do dia-a-dia, o não se preocupar. Mas Ariel é um cara especial, (acomodado, mas especial), e quanto sente-se pressionado busca em seu estilo desengonçado as armas necessárias para enfrentar seus desafios, sejam eles aproximar-se do filho, seja demonstrar ciúmes da esposa. E assim Ariel, entre acomodações e atitudes, ama sua família, do seu jeito, e nos oferece um filme rico nesse ambiente familiar, nesse relacionamento eternamente problemático (e ainda assim delicioso), e prova que essa redoma criada por Ariel para brindar os incômodos acaba se mostrando um escudo contra as coisas que lhe farão o verdadeiro bem.

Ariel Perelman (Daniel Hendler) Sandra (Julieta Díaz)

Um Lugar na Platéia

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(Fauteuils d’orchestre, 2006 – FRA)

Uma noite de estréia no teatro, um leilão de antiguidades e obras de arte, uma apresentação de um pianista, um café aconchegante, uma mesma rua. Danièle Thompson remete a esse pequeno e singelo microcosmos um mundo de personagens encantadores e instigantes. As maiores atenções podem estar concentradas na garçonete simpática, meiga e falante, mas o pianista cansado da requintada pompa do mundo da música clássica é o personagem capaz de oferecer reflexão em sua audaz indecisão sobre seus caminhos futuros. Trata-se de um filme simples e profundamente encantador, brigas familiares, disputas artístico-profissionais, Thompson faz do corriqueiro o belo e filmas as ruas de Paris com um carinho que só seus personagens poderiam desfilar.

PS: A Liga dos Blogues Cinematográficos divulgou nossa lista com o ranking dos melhores filmes da década de 50, os vinte primeiros ganharam pequenos textos (inclusive um meu para o maravilhoso Os Incompreendidos), vale a pena uma visita. Aproveitando, a Liga está em novo endereço.

Shrek Terceiro

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(Shrek the Third, 2007 – EUA)

A nova aventura do ogro verde e sua trupe de amigos desce ladeira abaixo no quesito humor, principalmente porque a criatividade se foi e as paródias dos contos de fadas já estão gastas ou mal utilizadas. Já passou da fase do caça-níquel para agonizar nas telas do cinema (no quesito qualidade), é triste ver uma idéia tão genial quanto a do primeiro filme da série chegar nesse ponto tão desanimador. Claro que num mar de passatempo mal-ajambrado sempre há alguma boa piada para tentar salvar o todo, e o momento principal é o discurso enrolador do Pinóquio tentando não entregar informações preciosas (parecia político em época de campanha, ou explicando-se para algum jornalista sobre caso de corrupção "tecnicamente não posso dizer onde ele não está"). Até a questão moral está longe de ser trabalhada e passa longe de ser entusiasmante. Tomara que termine por aqui, mas temo que não.

Transformers

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(Transformers, 2007 - EUA)
Michael Bay quase transformou-o em dois filmes, na primeira metade trata-se de uma típica comédia adolescente estilo anos oitenta, um jovem atrapalhado querendo conquistar a garota mais linda e desejada da escola, e o que posso dizer é: "eu quero aquele Camaro amarelo". A segunda etapa vem com a invasão dos Transformers e a guerra entre as duas facções pelo cubo, nesse instante é porrada para tudo quanto é lado e um espetáculo visual de encher os olhos (a cada filme os efeitos conseguem ficar melhores ainda). E o filme vai acabando e lembrança boa, boa mesmo, fica daquele carro amarelo fantástico que sabe preparar o clima romântico, o lugar correto e ainda tocar a música certa perfeita no instante preciso, "eu quero aquele Camaro amarelo".

Encontros ao Acaso

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(Come Early Morning, 2006 - EUA)
Há um cinema bem típico nos EUA, abordando o lado mais interiorano do país, de cidades pacatas, de música country, de cheiro caipira, de camionetes barulhentas. É um país sem brilho, de cerveja na mão, roupas esgarçadas e uma angústia mal-resolvida que não está ligada a situação financeira (normalmente estável) e nem a falta de distração. Nesses filmes há sempre uma mulher solitária, um balcão de bar, um motel à beira de estrada. Joey Lauren Adams não tem uma visão idealizada desse mundinho, dentro desse panorama ele consegue extrair sensações e sentimentos inerentes não só a essa realidade. Faxina é a palavra de ordem, uma faxina pessoal, social, a iniciativa é a única arma contra a monótona e desanimadora estabilidade. Relacionamentos surgem, nem sempre as duas pessoas estão na mesma velocidade, na mesma sintonia, e depois nem tudo pode ser reparado, nem sempre é possível recomeçar tudo do zero. Às vezes a faxina não poderá encobrir toda as manchas.
(2007)


Jorge Furtado armou uma poderosa sátira desde o título até os segundos finais do filme. A brincadeira com a burocracia governamental brasileira é certeira e presa fácil, para ao transcorrê-la o diretor optou pelo tosco e por abusar de personagens hilariantes, porém exageradamente bobos e ignorantes. Vence o humor, perde a inteligência. Mas o entretenimento é fácil e não desgrudamos os olhos das peripécias de Fernanda Torres, Wagner Moura e sua turma, com especial atenção para Paulo José (sempre ele). E então Furtado coloca genialidade primária no final do filme, mata a pau e mostra a maior realidade brasileira, fez da ficção um bruto cinema-verdade.

Brasileirinho

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(2007)


Eu tinha medo de um documentário sobre música brasileira filmado por um finlandês e Mika Kaurismaki peca na necessidade de mostrar o Rio de Janeiro, apontar a pobreza lado a lado com a música, fazer um documentário com o rótulo made in exportação. Tirando isso, é uma delícia descobrir e aprender sobre a cena de chorinho carioca, os nomes da atualidade, as referências. No fundo o documentário retrata um show e diversos músicos convidados, e intercalado ao show assistimos entrevistas com os participantes buscando-se traçar um perfil do estilo musical. Elza Soares cantando Formosa e Yamandú Costa tocando Carinhoso são alguns dos momentos de deleite e quando você percebe já está aplaudindo.

Cidade dos Homens

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(2007)
O tema fundamental é a paternidade, Acerola e Laranjinha andam às turras com o assunto. Um sofre por se tornar pai tão jovem e o outro continua na busca para conhecer o seu. O mais interessante do filme de Paulo Morelli é a demonstração de quanto as vidas dos moradores das favelas estão sujeitas à alteração imediata de rumo devido ao movimento do tráfico. Pessoas próximas, porém não envolvidas, de repente precisam sair de suas casas, mudar de vida, fugir, e o momento máximo é a cena em que a senhora senta-se numa sarjeta pela madrugada, expulsa do seu barraco que ardia em chamas. Há momentos de impacto exagerado, há cenas piegas e forçadas (como a de Laranjinha olhando uma coxinha numa lanchonete), mas as seqüências de tiroteio e as pequenas demonstrações das relações sociais são a tábua contendo a riqueza do filme. Douglas Silva tem um olhar de fúria aterrorizante.

Possuídos

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(Bug, 2006 - EUA)


Rústico é aé o nome do motel, aquele cheiro de tudo caindo aos pedaços, inclusive a vida daqueles personagens. Bebida, sexo, roupas e móveis gastos, carros ultrapassados, relacionamentos desgastados. Naquela vida à beira de estrada William Friedkin causa tensão, a paranóia está em nossos olhos, a câmera por vezes focaliza o fim da cabeça dos atores e nos causa certa claustrofobia. Mesmo com o talento para criar esse clima, o filme é terrível, os diálogos arrastados, sufocados por um desejo de serem maiores e melhores do que propriamente conseguem ser, há aquele ar de que algo está prestes a acontecer (muito mais pela sinopse do que pelo que se está assistindo) e quando após a cena de sexo o filme parte para sua verdadeira faceta, só conseguia ver uma grande bobabem verbalizada por aquele casal trancafiado no quarto daquele motel barato, rústico, infestado. Toda a baboseira pode fazer muito sentido a que foi proposto, porém continua sendo baboseira.

Ratatouille

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(Ratatouille, 2007 – EUA)



A história do ratinho apaixonado por culinária e que sonha em ser chef não podia ser mais cativante e graciosa. Se Brad Bird nos mantém com sorriso no rosto praticamente o tempo todo ao ver as estripulias desse roedor amante da cozinha, no final ele nos reservaria um momento mágico de transformação, uma cena lírica e única que remete a infância, que causa um retorno às raízes e uma nova perspectiva de encarar a vida. Saímos do filme famintos, e principalmente cobertos de lembranças da infância que serão dos momentos mais marcantes nas horas seguintes.

A Ponte

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(The Bridge, 2006 - EUA)
Uma equipe filmando a ponte Golden Gate em São Francisco durante um ano. Nos primeiros segundos, e porque não assumir que o tempo todo, a ponte nos remete a certo fascínio. Linda, pomposa, vermelha, chama a atenção por sua beleza, mas as imagens trazem um outro aspecto, uma carga negativa, trata-se de um famigerado local suicida. Essa é a busca de Eric Steel e sua equipe, imagens derradeiras de suicidas, que simplesmente escolhem um ponto da ponte e pulam, ou que ficam horas rodopiando até lançarem seus corpos ao rio dezenas de metros abaixo. Há aqueles sem tanta certeza, que vacilam e terminam salvos por algum pedestre ou pela polícia, ou seja lá quem for. Da ponte temos apenas as imagens à distância, mas o documentário pesquisa e faz entrevistas com amigos e familiares de alguns dos suicidas a que estamos assistindo seus últimos momentos. É mais que um filme mórbido, ele é orgulhosamente desolador. A constatação de que a maioria das pessoas são perturbadas, esquizofrênicas e já enfrentavam tratamentos psiquiátricos é direta, mas ao embarcar em cada um dos dramas pessoais, sofremos juntos com os que ficaram e inevitável é colocar-se na pele dessas pessoas tão covardes e tão corajosas. Se as imagens do último suicida do filme são de arrepiar, quando a câmera flagra bem de longe toda a grandiosidade da ponte e de repente naquela silenciosa e praticamente congelada imagem surge um pequeno movimento na água como se caísse uma pedra, e nos damos conta que ali jazia mais um corpo, a quebra da visão paradisíaca é aterrorizante. Aquela ponte guarda mais que histórias, tornou-se um símbolo, uma fuga final.

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Michel Simões