agosto 2007 Archives

Santiago

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(2007)
Trata-se de um documentário com vida própria, com estilo único, João Moreira Salles gravou cinco dias de entrevistas com seu mordomo (Santiago) em 1992, mas o filme não foi para frente, dessa vez sim. O próprio diretor notava que aquele material não era o esperado, faltava algo ali. Santiago seria sobre a incapacidade do cineasta em finalizar aquele filme, mas quase no final o próprio diretor mata a charada, ou melhor, tem a sensibilidade de perceber que o problema daquele material é que o tempo todo Santiago se colocou e foi tratado como o mordomo do pai do diretor. E é nesse instante que o documentário passa de um interessante relato sobre um homem extremamente culto e sensível que por capricho do destino viveu sua vida como mordomo dessa tradicionalíssima família paulistana. Viveu para servir e resguardou toda sua excentricidade para os inúmeros textos que escreveu. Neles realizou todos os seus sonhos, fez com que seus personagens vivessem o que ele não teve capacidade/possibilidade de viver, as aventuras e os amores, as dores e tudo mais. E foi assim que ele foi encontrado de trajes de gala tocando Beethoven numa madrugada, João Moreira Salles conseguiu realizar seu filme quando percebeu que todos ouviam suas histórias quando a câmera estava ligada e só quando ela estava ligada é que se importavam com ele, no fundo não passava do antigo mordomo.

O Grande Chefe

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(Direktøren for Det Hele, 2006 - DIN)
A premissa é genial, um chefe carrasco e egoísta que para não ser mal-visto pelos empregados diz ser apenas um gerente e quem seria efetivamente o "grande chefe" nunca aparece na empresa. Mas chega um momento em que a presença do "verdadeiro" chefe é requisitada e ele contrata um ator para as formalidades. Lars Von Trier, recheado de humor negro, disseca as relações inter-pessoais num escritório, é sórdido, é ranzinza, mostra o lado mais bruto e ignorante do ser humano. Só que antes da sessão começar já temos uma idéia geral do que virá pela frente, e o cineasta não consegue escapar do próprio estereotipo que construiu. Obviamente o humor impágavel nos conquista a cada nova situação esdrúxula e infelizmente tão real, só que o gostinho de tudo-como-esperado não sai da boca, e o filme não decola tanto quanto deveria, principalmente por Von Trier estar engessado em seu estilo e ser tão pragmático com ele.

Kristoffer (Jens Albinus) Ravn (Peter Gantzler)

O Ultimato Bourne

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O Ultimato Bourne (The Bourne Ultimatum, 2007 - EUA)

Paul Greengrass pegou um pitaco de história aqui, outro ali, mais um acolá e nos apresentou um filme que já assistimos umas trezentas vezes na vida (só mudando o ator e o nome do personagem), no mais é a mesmicima história do herói-matador-de-aluguel da CIA que se rebela contra o sistema (uma miscelânea de Nikita, McLane, Inimigo do Estado e etc). Absolutamente nada a acrescentar, a câmera na mão e alguns close-ups até mostram que Greengrass quer fugir do óbvio, para logo a seguir voltar a ele com todo o afinco possível. E assim ficamos vendo explosões, batidas alucinantes de carro, e a fantástica capacidade do magricelo Matt Damon espancar, dois, três, quatro, sei lá quantos homens treinados para matar, mas ele é Jason Bourne e eu apenas um cinéfilo com tédio numa sessão. Mas a Julia Stiles é linda, e nos únicos dois segundos em que Greengrass permite, ela mostra que sabe atuar, tanto na cena em que molha os lábios, quanto na despedida na frente do ônibus. Ah, o filme aproveita e conta os segredos da trilogia (irrelevantes, por sinal).


Jason Bourne (Matt Damon) Nicky Parsons (Julia Stiles) Nicky Parsons Noah Vosen (David Strathairn)

Apelo: Oz, favor nunca mais insistirem tanto a ponto deu acabar aceitando assistir mais uma tranqueira como essa rsrs.

Não Por Acaso

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(2007)

É proprietário de tantos significados que as fichas da sua própria vida vão caindo lentamente, após a projeção. A força de Philippe Barcinski não está no que vemos, mas no que sentimos e carregamos conosco. Há duas histórias com um ponto de intersecção, ponto crucial na vida de Pedro que leva seu ritmo pacatamente na oficina em que constrói mesas de sinuca, e na relação mais que bem arranjada com sua noiva. Só deixa de lado sua rotina ao ser pressionado. Ênio trabalhando no CET controla os semáforos da cidade auxiliando o transito da cidade, sua vida é ainda mais regrada, sem emoções nem aventuras, até que a surpresa toma-lhe de arrombo.

A vida pode mudar em dois segundos, e cada um ao seu modo foi capaz de transformações tremendas para enfrentar seus novos destinos. Um filme de momentos marcantes, algumas cenas inesquecíveis e que podem mexer profundamente com aqueles que compreenderam que a felicidade requer esforços distantes do conformismo. Rodrigo Santoro chorando na chuva, ou numa cena hiper delicada e lírica com Cássia Kiss são alguns destes momentos que estarão sempre guardados na memória. Mas nada, nada, absolutamente nada se compara a cena da garrafa térmica de café, essa sim estará presente eternamente na memória como uma das coisas mais linda que já pude conferir. E Não por Acaso vai permanecer, para ser revisitado em alguns momentos chaves da vida.

Pedro (Rodrigo Santoro) Ênio (Leonardo Medeiros Lúcia (Letícia Sabatella) Teresa (Branca Messina) Bia (Rita Batata)
(Coeurs, 2006- FRA/ITA)
São mais que seis personagens, são seis corações, e Alain Resnais trata dos medos e anseios resguardados dentro de cada um deles. E faz isso com delicadeza, cruzando as histórias com leveza, embarcando lentamente nos medos próprios camuflados em ambientes sociais. Desde o barman e seus problemas com o pai rabugento e doente, passando pelo corretor de imóveis solitário, necessitado de afetividade, há sua irmã trintona e buscando um amor. Outros estão se desfazendo do amor, buscando um novo apartamento, há quem não aprenda a lidar com a nova sociedade que lhe é apresentada, patina no amor, não tem coragem de buscar nova fonte de renda (e assim uma nova rotina), estagnado em todas as esferas. E a mais enigmática de todas, uma espécie de secretária atenciosa, capaz de ajudar um velhinho enfermo e irritante e guardando em si fetiches, aflorando sua sexualidade de uma forma própria, ímpar. Renais carrega de sutileza cada tomada, como na câmera posicionada no teto nos oferecendo dimensão perfeita de espaço de um apartamento, e principalmente na cena mágica e mais inesquecível do filme, um toque de mão, uma confissão, a neve que cercou cada uma das histórias e corações (durante todo o filme), invade por alguns segundos aquela casa e atinge os dois que conversavam naquela mesa, o calor humano e o frio dos medos privados finalmente confrontam-se.

O Sol

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O Sol (Solnze / The Sun, 2005 – RUS/FRA/ITA/SUI)


O Japão vive os momentos finais da Segunda Guerra Mundial, o Imperador Hiroito é tido como um mito pela população, um semi-Deus. Atônitos ouvem pela primeira vez sua voz, quando o mesmo discursa no rádio solicitando que o país cesse com os combates. Alexander Sokurov nos oferece novamente um filme poderosíssimo, metafórico, contundente. A desconstrução da figura de mais um ditador, de mais um mito. Alguns dizem que essa tetralogia busca humanizar essas figuras tão enigmáticas e endeusadas, quando o cineasta apenas desmistifica, retira-os do pedestal para colocá-los no mesmo nível de seus pares (o que não deixa de ser uma forma de humanizá-los).

Hiroito não é tratado como um ser perverso, megalomaníaco, ao contrário, está muito mais para o indiferente, ao fútil. Enquanto entrega o poder às mãos dos norte-americanos, o Imperador demonstra preocupação com a biologia (sua verdadeira paixão), o país sangrando pela derrota e seu líder buscando consolo em suas plantas, seu casulo para enfrentar situação tão vexaminosa.

Um homem culto e inegavelmente aristocrata, o Imperador encanta-se com as descobertas das novidades vindas do Ocidente, a conversa com o general McArthur é prova cabal de toda sua excelência de etiqueta e verdadeiro desapego aos assuntos de guerra. Fraco, visivelmente derrotado, Hiroito sabe muito bem o que significa aquela derrota, a invasão dos costumes ocidentais numa nação tradicionalista, enclausurada em sua ilha. Hiroito ainda assim não perde a pose, a cena em que empregados fecham as dezenas de botões da roupa do Imperador demonstra a manutenção dos costumes, um mar de futilidades e serenidade num momento de perda, de grande humilhação nacional.

As cenas são curtidas a seu tempo, é um típico filme de Sokurov, a fotografia bela, amarelada, quase sem tom, como se um espelho demonstra-se a alma de Hiroito e do próprio Japão. Issey Ogata é um caso a parte dentro do filme, um ator em momento de esplendor, um fenômeno de recriação, a cada segundo podemos notar a aristocracia, o momento sem-jeito, a alma partida pela derrota, porém a verdadeira personalidade do Imperador exposta com seus anseios e costumes. Sokurov com seu jeito vagaroso, bate forte, Hiroito sem máscaras, descolando aquela figura forte e nacionalista que criamos para todos os líderes vencidos, quem disse que todos agem (agiram) assim?

Hiroito (Issey Ogata) Gal MacArthur (Robert Dawson)

Duro de Matar 4.0

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(Die Hard 4.0, 2007 - EUA)

Menos humor e mais cara de mal, essa é a nova roupagem oferecida a John McLane. As seqüências de ação são alucinantes, empolgantes e lamentavelmente absurdas em muitos momentos. Não importa, estamos falando de McLane e ele é um desses raros casos no cinema, a gente sabe que ele vai sair sangrando e mancando, e aliás pouco importa de como ele se livrará dos apuros, é o humor sarcástico nos momentos mais delicados que transformaram seu personagem num mito dos filmes de ação. Praticamente morto e ainda capaz de fazer rir seus opositores, esse é o nosso John McLane. O filme ficou inferior aos antecessores porque o humor perdeu espaço para a cara carrancuda e principalmente ao exagero de absurdos (caça perseguindo caminhão, helicópteros sendo derrubados por carros e hidrantes e assim por diante, mas a galera vibra mesmo assim). Duro de Matar se tornou ícone, e o novo filme veio apenas para frisar essa máxima.

Serras da Desordem

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(2006)

A beleza destacada do filme está atrás da câmera, na forma caridosa, respeitosa e principalmente na completa entrega com que o diretor Andréa Tonacci abraçou a causa indígena. Mais que as décadas de trabalho voltado ao tema, o que se faz notar em cada plano foi um amor cervical pelo tema, pelo povo, pelos costumes e pela memória. Exemplo maior são os primeiros minutos revivendo um pequeno habitat, crianças brincando enquanto os adultos executam pacatamente micro-tarefas.

A história de Carapiru ganhou fama no Brasil na década de oitenta, e Tonacci recria essa fase utilizando o próprio índio para ser personagem de sua história. Encontrado milhares de quilômetros de distancia de sua tribo, vivendo com pequenos colonos que o acolheram carinhosamente sem que falassem sua língua. E mais tarde a surpresa do encontro inusitado com um familiar, Tonacci filma tudo isso com alma, abraçando cada cena e colocando um pouco de si em cada diálogo.

Porém não se pode negar que se trata de um filme chato, de aborrecer. Porque não há praticamente nada acontecendo ali, ficamos tocados pelas emoções que todos assumem, provindas dos personagens interpretados pelas próprias pessoas que viveram tudo aquilo (principalmente o sertanista da Funai). É um filme respeitoso, delicado, e de aborrecer.

Enfrentando e vencendo a tarefa de cruzar as mais de duas horas de projeção, tem-se a certeza de que muito ficará, principalmente um respeito ainda maior por esse povo praticamente banido de nosso território. E no rosto de Carapiru fica, um leve sorriso, um ar de inocência, e um carinho típico dos que têm bom coração. E posso imaginar do outro lado Tonacci, com semblante parecido, orgulho por ter conseguido transpor ao cinema o mundo indígena tal qual sua realidade, sem glamour, com cara e cheiro de mato; mesmo que seu reconhecimento seja minúsculo e quase ninguém assistirá, porque por melhor que seja, também é chato.

Fica Comigo

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(Be with Me, 2005 – CIN)


Os personagens surgem gigantescos na tela, enquadramentos completamente colados aos corpos. Comida, muita comida, em planos fechados, seja na arte do preparar, seja comendo-a de forma ruminante, nojenta. O tempo de cada cena começa preciso, vagaroso, permitindo que apreciemos um a um os afazeres de um senhor fechando sua loja. O silêncio como rotina, como elemento constante em vidas distantes, imprecisas.

Serão três histórias com um ponto-chave: sutileza. Enquanto tentamos começar a entender o que se passa em cada uma delas, a sutileza imposta por Eric Khoo inicia uma fase de fascínio, o filme vai ganhando moldes de algo atemporal e grandioso, prometendo muito. O segurança gordo e solitário que acompanha pelas câmeras os passos de uma executiva por quem se apaixona, enquanto sofre preconceitos e zombarias de seu pai e irmão, comendo compulsivamente, é apenas o primeiro passo para amor e solidão que irão permear o filme.

As duas adolescentes interligadas pelas inovações tecnológicas disponíveis atualmente (e-mails, chat, sms) que aos poucos demonstram ser mais que amigas, trazem nova perspectiva sobre amor e solidão. Se na outra história o amor era o sonho de um só, aqui ele foi um sonho vivido e que agora machuca aquela que ainda não aceita a separação, não entendendo os motivos da ruptura, ainda tem em sua memória os momentos íntimos.

Enquanto o foco central residia nessas histórias, o filme guardava essa sutileza máxima, essa atualização da dinâmica dos relacionamentos dentro das novas possibilidades de tecnologia, corria tudo muito interessante. Mas chega o momento da vida da mulher cega e surda dominar a narrativa, inclusive a idéia do filme surgiu da própria autobiografia de Theresa Chan, e o aspecto documental impera num choque visual. E por mais linda que seja aquela história de vida, ela é infantilizada na narrativa, e a partir daí o filme se perde num roteiro estranho, e com ele a sutileza se vai. Ainda que a aproximação entre Theresa e aquele senhor solitário que tem o dom de cozinhar acontece de forma graciosa, não estamos falando de amor num primeiro momento, mas da possibilidade de afastar a solidão de suas pessoas.
Há uma cena no cinema, um repousar de cabeça, um entreolhar, tudo de uma sutileza que encontramos nos grandes momentos de nossas próprias vidas (esse momento irá ficar guardado). Fica Comigo ainda recupera seu prumo no encerramento de uma das histórias, mas sua irregularidade é irrecuperável e o suicídio culminando numa história caindo sobre a outra é dos momentos mais grotescos e inesquecivelmente ridículos da história do cinema. Tudo o que prometia foi por água abaixo, felizmente temos muito a recordar daquelas duas garotas descobrindo o amor e o inferno da dor numa velocidade alucinante.
(White of the Eye, 1987 - EUA)


Pena o final ser tão convencional e batido porque a forma como foi montado e o roteiro que anda com rumos obtusos quase que o tempo todo são o grande charme contido no filme de Donald Cammell. Quanto mais o tempo passa, menos se tem, a pergunta sobre quem é o serial-killer fica praticamente hibernando na cabeça devido aos flashbacks em tom azulado e a todo o desenvolvimento da vida do casal principal. Estamos envolvidos no clima ora de suspense psicológico, e ora de drama familiar envolvendo o casal, e um ex-namorado da esposa e uma socialite se insinuando descaradamente ao marido.

Nesse quebra-cabeça formando uma desestruturada figura geométrica, surge o detetive investigando as mortes brutais de algumas mulheres, e a pista sob certo de tipo de marcas de pneus de caminhonete. A condução de Cammel não é das mais convencionais e a sensação de roteiro patinando é inusitada, porque sabemos que o público está sendo cozinhado e que qualquer caminho pode ser seguido pela história.

Eis que quando tudo se afunila e a trama do serial-killer assume sua posição principal, o cineasta cai na estrada do convencional, com vilão clichê, situações idem, e um terrível final desanimador. Não que surpreender na escolha do vilão seja algo genial, só gostaria que seguisse a mesma linha e que as máscaras não camuflassem tão bem comportamentos tão brutais e sanguinolentos. Exterminar todo aquele mini-vale é clichê demais. Ainda assim, com 80% de um bom filme, não se pode simplesmente desprezar, caminho sensato é apreciar seus bons e intrigantes momentos.

Paul White (David Keith) Joan White (Cathy Moriarty) Mike Desantos (Alan Rosenberg)

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Michel Simões