julho 2007 Archives

Flandres (Flandres, 2006 – FRA)

O título refere-se ao nome dado a uma pequena região compreendida em parte da divisa de França e Bélgica. Ali nasceu o cineasta Bruno Dumont. O diretor nos oferece poucos elementos, tal qual a juventude tem a seu dispor. O ambiente bucólico, a vida em câmera lenta, a presença das máquinas contrastando com a natureza (tratores, motos). Jovens isolados, sem grandes perspectivas, imaturos, indiferentes.

Andre é fazendeiro, quieto, tímido. Às vezes deita-se pelos campos com Barbe, fazem sexo. Ato bruto, instintivo, animal, se há sentimentos de um pelo outro, estão reclusos de maneira tão introspectiva que nem eles conseguiram enxergar. Ela deita-se com outros. Além do sexo, só resta a esses jovens alguns encontros com amigos, em bares ou qualquer outro lugar. Os planos são predominantemente estáticos, Dumont faz ótimo uso do cinemascope, nos oferecendo uma paisagem árida ao extremo (metáfora da alma desses personagens). Surge uma grande novidade, uma guerra (nenhuma referência à época ou local), os homens alistam-se, resta pouco às mulheres, Barbe enlouquece, tédio.

A fase na guerra é composta de seqüências cruéis e doloridas, repleto de cenas que nos causam surpresa e espanto (a explosão com os cavalos, o rapaz carbonizado, morte de crianças, etc). Não há máscaras, heroísmos, romantização, Bruno Dumont nos insere na violência de forma crua, pulsante. Um bando de garotos imaturos, perdidos, capazes de atos abomináveis, a poeira e o suor grudados em seus rostos, o medo estampado em suas faces, um flagrante cada um por si. Todos sabem que ninguém escapa ileso de uma guerra, Dumont nos oferece o retorno de alguns deles a Flandres, um pouco mais maduros, um pouco mais humanos, homens diferentes (isso não significa melhores).

Com seu ritmo compassado e paciente, Bruno Dumont retira camadas para nos oferecer o ser humano em seu estado bruto, o quanto somos animais quando expostos a situações-limite. No fundo Flandres não nos equipara a eles, seja na vida interiorana e próxima da natureza, seja na guerra, seja no retorno dos horrores dela, quando precisamos mostrar nosso íntimo, é o lado animal que fala mais alto.

Barbe (Adelaïde Leroux) Andre Demester (Samuel Boidin) Blondel (Henri Cretel)

2x Bruno Dumont

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A Humanidade (L’Humanité, 1999 - FRA)

Um simples artigo definido pode mudar completamente o sentido de uma palavra. Humanidade, sentimento nobre, algo bem próximo da caridade, porém muito mais amplo; humanidade tem muito de bondade e ainda assim mantém-se como algo único. Agora pense no título, A Humanidade, está totalmente centrado nessa sociedade corrupta e mesquinha, capaz de crueldades das mais perversas e regida por um comportamento egoísta hediondo.

Estamos na pacata Winter, cidade francesa singela, da praia é possível avistar a Inglaterra. O roteiro nos oferece um fato e um personagem, ele é o inspetor policial que investigará o assassinato brutal de uma garota de onze anos (o fato). E a narrativa busca afastá-los a todo momento, Pharaon é desajeitado no jeito de ser, quieto, pacato, meio bobo. Logo notamos sua paixão “secreta” pela vizinha, que sempre o convida para os passeios com o namorado. E a vida dos três caminha assim, Joseph meio estúpido e ignorante, Domino ziguezagueando entre o seco e o doce, e Pharaon como um ser quase vegetativo, introspectivo, divertindo-se em dar bom dia a todos na rua.

O que Bruno Dumont quer dizer com tudo isso? Que a humanidade é um câncer e por isso mesmo não há cura, e que todos somos frágeis, cruéis e desequilibrados: Talvez não seja especificamente este o raciocínio, mas é o que se obtém da lentidão de falas e imagens a qual fomos imersos. Há em Dumont uma necessidade em filmar a natureza, os campos, os planos abrem para contemplar o verde sempre no processo de melancolia. Depois voltamos aos planos fechados nos personagens de expressão blasé.
Mais adiante o roteiro comprovará todas as nossas desconfianças, sobre o fato, mas principalmente sobre Pharaon e toda a sensibilidade lenta e silenciosa que está contida naquele sujeito de bondade ingênua e capaz de reter em seu sofrimento algumas das mazelas da humanidade.

Cinzas do Passado

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(Ashes of Time / Dung che sai duk, 1994 - HK)


A primeira impressão de estarmos diante de um filme convencional de Wuxia vai por água abaixo nos primeiros minutos, o tom intimista, os diálogos lentos e poéticos, as poucas seqüências de ação são praticamente indecifráveis com sua velocidade constante e impossibilidade de diferenciar os opositores.

Tem-se o proprietário de uma taberna no meio do deserto servindo de elo para diversos personagens e dramas que transcorrem pela tela. Kar-Wai mostrava os primeiros passos de seus amores melancólicos e irrealizáveis. A história é intricada, confusa, personagens com dupla personalidade, desencontros, amores em vão, o próprio drama pessoal do taberneiro Malicious West discorre lentamente pelo filme.

Numa das passagens surge a máxima “o homem sem problemas é aquele sem lembranças”, um viajante oferece um vinho com a fantástica capacidade de apagar a memória de quem o bebe. Pessoas sem lembranças são pessoas sem história, sem passado, de prazeres momentâneos. Kar-Wai pauta sua discussão, temos mais lembranças felizes ou infelizes?

É um filme de tristezas, e cada lágrima escorrida (pelos olhos e pelo coração) é mais uma forma de nos entregarmos às mazelas da dor humana. É Kar-Wai debruçando-se em nos provar que a infelicidade reside em cada lar, em cada um de nós, e o tempo supostamente curaria as feridas quando na verdade as mantém distante do dia-a-dia, escondidas num armário qualquer. “Do you know the difference between drinking wine and drinking water? The more wine you drink, the warmer you'll get. Water will only make you feel cold.”.

Tabu

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Tabu (Gohatto, 1999 – JAP)


Numa milícia de samurais no Japão do século XIX acompanha-se toda a discussão e a forma como o homossexualismo era encarado por seus pares. A alta cúpula fazia vistas grossas até que os relacionamentos (e principalmente o ciúmes) pudessem causar danos ao bom funcionamento da milícia. Nagima Oshima coloca dessa forma os amores vividos pelos samurais, apimentando com o jovem Sazoburo (de beleza e madeixas inigualáveis) relações entre os samurais da milícia Senshen.

Escândalo? Não sei onde, principalmente em nossa sociedade moderna tão adepta a aceitar o homossexualismo, talvez a forma tão transparente e corriqueira com que os personagens aceitam as relações entre aqueles samurais tenham causado algum espanto. Alias o filme não vai além disso, homens desejando e se apaixonando por Sazoburo até que uma dessas relações precise ser intercedida pelos líderes.
Não sei ao certo onde Tabu não acertou, falta-lhe um pouco de tudo, surgem com encenações frias e apenas propositadas para amarrar uma história. Nenhum plano tem vida própria, nenhum personagem extrapola seus limites, nenhuma grande cena que nos faça coroar a obra de Oshima. Você senta, assiste e depois vai dormir, assim sem grandes emoções. Nem aborrecer Oshima pode já que a narrativa é até mais acelerada que o normal para um filme desse estilo.

Em Busca da Vida

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Em Busca da Vida (Still Life, 2006 – CHI)

A construção da barragem de Três Gargantas está inundando alguns povoados, metáfora para o próprio país que vai perdendo sua identidade enquanto permite que o capitalismo avassalador tome conta de tudo. É um país cartão-postal do desenvolvimento para exportação, e um país em ruínas para a população que não vê nem o cheiro de todo esse dinheiro que está invadindo a China. Jia Zhang-Ke discute as raízes de um povo, enquanto as cidades são inundadas levando memórias e recordações, duas histórias seguem simultaneamente. São pessoas visitando essa região em ruínas em busca de entes queridos, enquanto o país inunda parte de suas raízes. Esse homem buscando sua esposa e filha, e essa mulher atrás de seu marido, na verdade saíram em busca de suas raízes, de seus passados, almejam um recomeço. Ainda não sei precisar em que ponto o cinema de Zhang-Ke não me atinge, respeito seus filmes e suas críticas, mas há algo que não me cativa, que não me comove, talvez porque nada em seus filmes se desenvolve, o exposto nos primeiros cinco minutos será trabalhado a exaustão sem alavancar algo mais. Mas não posso negar que o aspecto deplorável que os olhos enxergam é tudo que o cineasta deseja nos fazer sentir, o aspecto cinzento, nebuloso, caindo aos pedaços, está impregnado em cada fotograma, junto com a solidão dos que partiram em busca da vida (um basta ao apenas continuar vivendo).

A Comédia do Poder

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A Comédia do Poder (L´Ivresse Du Pouvoir, 2006 – FRA)


Claude Chabrol inspirou-se no verídico caso Elf que trouxe novamente à tona na França os crimes do colarinho branco, a corrupção. Porém Chabrol não desenvolveu um filme sobre corrupção, sobre negociatas, sobre política. Trata-se de um filme sobre o poder e o caso de corrupção é mero fio condutor para que o cineasta tecesse suas visões sobre o fascínio e suas conseqüências.

A figura da juíza Jeanne Charmant Killman é profundamente enigmática, cítrica ao trabalhar, e doce no convívio do lar. Formas distintas de exercer seu poder. Ao investigar um grande caso de corrupção, os holofotes miram em sua figura, cada passo é acompanhado de perto pelos envolvidos (executivos, políticos, intermediários) enquanto as intimações são expedidas.

Como disse, é Chabrol dissecando o poder, a seqüência inicial mostra um executivo sendo interpelado por suas secretárias, muitos minutos e acontecimentos depois e esse mesmo senhor é liberado da cadeia, ninguém o espera na saída. O poder não diminui, apenas troca de detentor. Quanto mais a juíza ganha os noticiários, mais seu marido sente-se inferiorizado, um fraco que não sabe lidar com a ascensão da esposa nesse mundo machista. Enquanto isso Jeanne está seduzida demais (pelo poder e principalmente pelos elogios melosos de seu sobrinho especialista em endeusá-la) para conseguir notar a desfragmentação de seu casamento.
Estamos diante de um filme concentrado em minúcias, todas convictas de sua razão de existir. Jeanne não gosta de ser agraciada com uma adjunta, teme perder poder (ainda mais por ser uma mulher, a eterna disputa feminina), um dos cabeças no caso de corrupção usa suas armas para seduzir a juíza a fim de livrar-se de possíveis complicações. Chabrol oferece a Isabelle Hupert diálogos ásperos, tipicamente franceses, o humor sarcástico, uma comédia sobre o poder. Pena que procurando um desfecho, Chabrol decline-se pela salvação (caberia melhor num romance literário do que numa obra discorrendo sobre o poder) e termine num mar de vala comum, mas seu filme é muito mais interessante que o final escolhido e suas marcas ficam na mente, principalmente por sua habilidade indiscutível em filmar e por ter Hupert em eterno estado de graça.

Pão e Tulipas

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(Pane e Tulipani, 2000 – ITA)


Aquele filme bonitinho e encantador, que quanto mais a história transcorre, mais sabemos de tudo que irá acontecer, e mais ficamos envolvidos com aqueles pequenos e encantadores personagens. Os acontecimentos surgem no meio sem querer, calcados na obviedade de que uma dona-de-casa tradicional irá encontrar novas emoções em qualquer novo estilo de vida a que se dispuser.

E assim acompanhamos as descobertas e a quebra de rotina a qual Rosalba predispõe-se, deixando seu marido completamente perdido. Artimanha barata de Silvio Soldini ao inserir ao seu redor apenas personagens amargurados, calados, tristes, e dispostos a se encantar por essa mulher descobrindo o prazer de viver e a possibilidade de conciliar as coisas importantes da vida sem que seja necessário abdicar das demais.

O filme transcorre nessa fórmula barata, mas tão encantadora que não há possibilidade de não nos cativar, de não nos emocionarmos, são cenas pequenas e singelas, tratadas com carinho e principalmente recheadas de minuciosas preciosidades que tanto buscamos e infelizmente andam tão ausentes do nosso dia-a-dia. Nos encantamos porque sentimentos tão nobres ficam cada vez mais distantes de nossas vidas tão atribuladas e corridas, as quais nem chance de apreciar os pequenos prazeres da vida nós temos.

Rosalba Barletta (Licia Maglietta) Fernando Girasoli (Bruno Ganz)

Literatura

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Depois dos amigos Ailton e Marlonn terem me intimado, fui obrigado a pensar uns dois minutinhos. Quando era mais jovem lia muito, mas ultimamente essa hábito está meio encostado, preciso urgentemente buscar alguns autores a mim ainda desconhecidos, ainda vou chegar lá. Como foi uma busca rápida de memória, deve ter faltado algum bom livro, mas pelo momento essa foi a lista dos meus 5 livros:


Vidas Secas, de Graciliano Ramos
Eu Vim Nu, de David Weiss
O Nome da Rosa, de Umberto Eco
Dom Casmurro, de Machado de Assis
São Bernardo, de Graciliano Ramos



E como tenho que passar a encrenca para frente, aí vão os escalados: Alê Marucci, Andy, Chico Fireman, Mikie e Stelinha.

Flutuando

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Flutuando (Svobodnoe Plavanie, 2006 – RUS)


Os norte-americanos compram uma fábrica na Rússia e encerram suas atividades. Resultado? Desemprego. Ultimamente esse seria um ótimo apelido para o país que obrigou o mundo a ser bipolar por muitas décadas. Pelas lentes de Boris Khlebnikov a Rússia é acinzentada, melancólica, irônica, ri de suas tristezas, um país suspenso no tempo, flutuando numa órbita sem que alguém entenda o porquê.

Logo a câmera se decide por Lyonya, um dos recém-desempregados. Jovem, quieto e desengonçado, dança com algumas garotas numa festa sem demonstrar grande entusiasmo, briga no final. Essa seqüência funciona com intuito de caracterizar melhor o personagem que acompanharemos em busca de um novo emprego, na agência a funcionária robotizada sempre tem um a lhe oferecer e que ele não se adaptará, também é cada roubada.

Finalmente ele se encaixa, tapar buracos pelas ruas, uma arte como diz seu patrão, ninguém faz um serviço tão bem feito quanto o seu, um dom. E assim Lyonya segue seu cotidiano, tapando buracos pelo asfalto, o céu cinzento, o asfalto esburacado e empoçado, e ele com seus colegas de trabalho no alto de sua melancólica empolgação. Às vezes encontra uma amiga de escola, conversam, flertam, discutem, falta romantismo, falta vibração.

A comédia de humor negro não encanta e mesmo assim não deixa de agradar, o humor permeia de uma maneira bastante singular. A crítica social está presente por todos os lados, mas o filme vai além e consegue retratar o cotidiano de um jovem (como este), a relação com garotas e com a família, a independência. E acima de tudo, o buraco mal-tapado que se tornou a Rússia.


Lyonya (Aleksandr Yatsenko)

Paris, Te Amo

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(Paris Je T'aime, 2006 - FRA)


Dezoito curtas (cada um transcorrido num bairro, “arrodissements”), diversos diretores, um clima. Paris, a cidade-luz, a cidade do amor. A idéia seria algo como relacionar o amor a Paris. E o amor florescendo em cada esquina desse lugar mais que encantador e romântico. O difícil seria o resultado não ser apaixonante. Uma declaração de amor à cidade, ao romantismo, ao amor que fica ainda mais estonteante em Paris. Começamos com um sujeito francês procurando vaga para estacionar seu carro nas ruas de "Montmartre", no fundo o solitário trafega almejando a companhia que tanto lhe falta. É seu dia de sorte? Uma mulher desmaia na calçada, Bruno Podalydès nos oferece fantasia, humor e aquela famosa acidez social dos franceses. Simpático!

Em “Quais de Seine", Gurinder Chadha brinca com a mistura de raças, a imigração, as diferenças religiosas. Um garoto gentil flerta com uma muçulmana, num impulso a persegue até uma mesquita, para o amor não há preconceitos e diferenças. Doce! Gus Van Sant realiza a primeira brincadeira, em "Les Marais" um jovem tradutor de inglês puxa papo com um garoto trabalhando, o rapaz parece sem reação enquanto o tradutor divaga sobre vidas passadas, almas gêmeas. Um flerte inusitado, uma surpresa com sutilíssima crítica ao modo operantis norte-americano. Divertido!

Quando Steve Buscemi abre “Tuileries" a gargalhada se forma, e o sorriso só sairá do rosto ao término do curta dos irmãos Joel e Ethan Coen. Um turista no metrô parisiense, um casal fogoso, uma confusão tremenda, tudo apimentado com um guia da cidade e a foto da Monalisa. Hilário! Walter Salles e Daniela Thomas tornam o clima mais pesado em "Loin du 16ieme", Catalina Sandino Moreno com uma mudança de olhar consegue dar sentido e vazão a toda história. Uma babá atravessando a cidade para ir trabalhar, uma história triste e tão real, uma visão terceiro-mundista. Bonito!

Um vendedor de produtos de beleza acostumando-se a trabalhar em “Porte de Choisy", Christopher Doyle traz surrealismo, erra feio na mão, acelera sem necessidade, faz uma mistura esquisita e não consegue nada que preste. Ridículo! Diferente de "Bastille", onde Isabel Coixet conseguiu uma proeza fascinante em tão curto espaço. Sergio Castellitto redescobrindo o amor por sua esposa num momento tão delicado de suas vidas, o gostoso é apaixonar-se pela mesma mulher todas as manhãs. Lindo, lindo, lindo! Outro com clima carregado, Nobuhiro Suwa traz a dor de uma mãe pela perda do filho em "Place des Victoires", um caubói lhe oferece uma última despedida, Juliette Binoche é melhor que o todo. Doloroso!

Que delícia e grata surpresa Sylvain Chomet nos ofereceu em "Tour Eiffel". Uma história de amor entre mímicos, tudo tão leve, tão marcante, tão expressivo, e tão encantador. Suspirante! Um único plano-sequência e um segredinho bem guardado foram as armas de Alfonso Cuarón em "Parc Monceau", além é claro de ter Nick Nolte (sempre ótimo), uma rápida conversa entre um senhor e uma jovem cheia de medos e lamentações. Gostoso! Pena que em "Quartier des Enfants Rouges" o melhor seja a direção de Olivier Assayas, uma atriz norte-americana apaixonando-se por um traficante numa noite qualquer. Evasivo!

"Place des Fetes" não é narrado cronologicamente, montamos o quebra-cabeça lentamente, Olivier Schmitz fala de um homem ferido encontrando a garota por quem se apaixonou e que indiretamente o levou àquela situação. Tenta ser poético. Bonitinho! Fanny Ardant e Bob Hoskins, dois espetáculos, o fetiche de um casal numa boate, a surpresa de uma declaração de amor mais que bem planejada, e Richard LaGravenese ainda teria mais surpresas até o final de "Pigalle". Fantástico! Vincenzo Natali radicalizou, uma vampira apaixonando-se por sua presa, a escuridão da noite dá maior realce ao vermelho do sangue, do amor. O amor corre pontuado pelo humor, não há limites e nem formas de amar em "Quartier de la Madeleine". Inusitado!

Um casal em lua-de-mel, ela procura pelo túmulo de Oscar Wilde em "Pere-Lachaise". Wes Craven traz a alma do poeta para oferecer um pouco de romantismo a esse homem tão seco e frio, com uma mulher tão linda, doce, e romântica. As palavras de Wilde trazem o desfecho perfeito. Romanesco! Tom Tykwer foi genial, contou a história do namoro de um cego e uma aspirante à atriz (Natalie Portman linda novamente), apressou a montagem e se apoderou dessa artimanha para nos contagiar em "Fauborg Saint-Denis", o amor está no ar. Eletrizante!

O diálogo ácido, sarcástico, irônico. Em "Quartier Latin", Frédéric Auburtin e Gérard Depardieu trazem o último encontro de um casal prestes a assinar o divórcio, Ben Gazzarra e Gena Rowlands dão um show, timming perfeito para a discussão, sem perder a elegância. Ótimo! Uma turista norte-americana solteirona, estudante de francês, lê sua redação sobre sua viagem à Paris. Alexander Payne traz a "14th Arrondissement" nova crítica ao estilo norte-americano de ser, mas vai além e faz uma ode a cidade, mostrando porque Paris é a cidade do amor. Depois é só criar uma maneira de unificar algumas histórias, enquanto saímos embalados pela música, apaixonados por Paris, apaixonados pelo amor.

Hamaca Paraguaya

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(Hamaca Paraguaya, 2006 - PAR)

Que este é o primeiro filme paraguaio em décadas todo mundo já ficou sabendo. Talvez o que não se saiba é que a diretora Paz Encina conseguiu extrair do simples uma proximidade brutal com a realidade. O filme é aquilo, dois velhos, uma rede, um pequeno sítio, e os resmungos dos dois. O cão que late, a chuva que ameaça e não vem. E há o sentimento de melancolia relacionado ao filho que foi para a guerra, há a tristeza gerada pela solidão que os dois sentem, que pulsa dentro do casal.

Há também o amor deles que pode não ser pontuado por carinho, porém é recheado de companheirismo. E ficamos ali estáticos em longos planos fixos acompanhando os dois levarem a vida mais que pacata bem a seu modo. Esperando notícias do filho, esperando o tempo passar, esperando o clima mudar, esperando a hora de sair da rede e ir para a cama.

Mais que interessante é a quebra proposta, durante o filme o som deixa de ser sincronizado para funcionar em tempo distinto da imagem. Assim surge uma sensação de recordação, ou melhor, mais que isso, um dinamismo entre os sentimentos que estão expostos pelos personagens e suas causas que nos são informadas pouco-a-pouco. Um choque eficiente entre o sentir e as razões que o levaram.

Obviamente trata-se de um filme mais que experimental, por sua estética e formato. Por outro lado há a lentidão serena e quase irritante. Sem dúvida um difícil teste de paciência para assistir, recompensador para quem perceber essas pequenas minúcias ricas, em estado bruto.

8 Mulheres

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(8 Femmes, 2002 - FRA)


Tão banal e tão engraçado, François Ozon realizou a façanha de unir as principais e mais talentosas atrizes francesas da atualidade (faltou apenas Juliette Binoche) numa comédia nada sutil, e completamente neurótica. Há aquela piada falando sobre a guerra que aconteceria caso trancassem sete mulheres num quarto por uma semana. Ozon trancou oito delas durante um dia e recheou essa convivência com uma morte misteriosa e uma enormidade de motivos capazes de transformar cada uma delas numa forte suspeita.

Esposa, filhas, sogra, cunhada, governanta, amante, irmã, um covil feminino a tirar vantagem e se aproveitar de um mero homem. Incomunicáveis, esse grupo desdobra-se em descobrir os segredos sórdidos de cada uma enquanto nos deliciamos com as confusões e confissões. Ver aquele desfile de atrizes fantásticas nos deixa maravilhados com o talento dilacerante de tantas damas. O roteiro nem é tão bom assim, mas aquele grupo enfeitiça de tal modo que é indescritível ver Deneuve e Ardant se esbofeteando pelo chão, por exemplo.
Oito mulheres é isso, muito mais calcado em suas estrelas do que num texto precioso, ou um espetáculo de grandes tiradas. Ozon faz seu filme sobreviver bem por sua façanha inegável em reunir grupo tão invejável, o resto é imitação da idéia de Almodóvar em expor mulheres ao risco eminente de um ataque de nervos.

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Michel Simões