maio 2007 Archives

Vício e Beleza

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(Ai ni ai wo / Betelnut Beauty, 2001 – TAI/FRA)


Feng volta desempregado do serviço militar, muda-se para Taipei, não quer voltar a trabalhar como padeiro. Fei-Fei deseja liberdade, a menina mimada pelos pais burgueses quer sair do casulo como uma borboleta e voar para seus destinos. O primeiro encontro debaixo de uma chuva torrencial é apenas faísca, se encontrarão adiante, ela usando vestidinhos hiper-curtos e sexy’s, vendendo uma espécie de semente de “betél” (betelnut). Ele morando nas redondezas, ainda em busca de rumos. Paixão imediata.

Dois jovens aprendendo a lidar com o cotidiano, com as responsabilidades, infelizmente ela tem envolvimento com uma gangue, ele cria amizade com alguns deles. E Fei-Fei não quer ser como sua mãe esperando o marido chegar tarde da noite sem uma boa explicação. Lin Cheng-sheng desejava travar um diálogo com essa geração perdida que os cineastas atuais apreciam tanto retratar, porém o roteiro é quebradiço, mal ajambrado, impreciso. Os personagens tomam caminhos distantes, a violência urbana é colocada de uma forma não-evitável, fatal, garantida. E por mais dificuldades que haja, sabe-se que não é bem assim, que ainda há caminhos.

Mas não se pode negar que Angelica Lee tem um gracejo e leveza irresistíveis. Aquele olhar maroto, meio menina ingênua e meio mulher meiga e delicada, seria capaz de colocar qualquer marmanjo aos seus pés. Ela é para se apaixonar, cada gesto e olhar de Fei-Fei são de tirar do sério, não que ela exale sexy-appeal, mas seu charme é simplesmente encantador. O desenlace amoroso é de longe o maior interesse no filme, muito culpa de Angelica Lee que foi capaz de transformar um simples beijo, um singelo sorriso, uma cara emburrada, em cenas pequenas e inesquecíveis.

E claro que não poderia deixar de falar nas tais sementes vendidas em pequenas barracas pelas ruas (espécie de camelos em bancas), além do apelo sexual no ato da venda, a taz noz causa efeito parecido com a maconha e faz movimentar o mundo do crime organizado. O filme só não precisava querer misturar tudo isso de forma tão profunda, até o clichê da preferida de um gangster que o deixa e acaba perseguida desesperadamente por ele, está no filme. Mil esforços seriam válidos pela ternura de Angélica Lee.

Feng (Chen Chang) Fei-Fei (Angelica Lee)

Ventos da Liberdade

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(The Wind That Shakes the Barley, 2006 - ING/IRL)


“Não quero vê-lo nunca mais”, essa frase é proferida duas vezes, já na reta final do filme, e suas aparições me deixaram marcas muito maiores do que todo o conflito retratado na Irlanda. Estamos em 1920, irlandeses lutam pela libertação do país junto a coroa britânica, o início do IRA, guerra civil instalada. O ritmo acadêmico levemente burocrático e apostilado adotado por Ken Loach para conduzir sua trama não nos transfere uma pulsação eloqüente com a história. Acompanhamos atentos, porém não envolvidos. E morrem inocentes, mulheres e crianças sofrem abusos, e os revoltosos contra-atacam tocaiando militares britânicos e assim vai.

São duas horas transcorridas e pouca emoção na tela, porém chegam os minutos finais e o filme levanta uma discussão e vai muito além do conflito em si, discutindo o ser humano. Um acordo dúbio coloca os revoltosos com opiniões divididas, surgem confrontos, os amigos e companheiros de ontem são os inimigos de amanha. É um mundo cão, um conjunto de interesses e vaidade, totalmente sem limites. Até onde pode ir nossa ideologia?

O centro das atenções é um aspirante a médico que desiste dos estudos para lutar pela nação. Humanista, equilibrado, idealista, incorruptível. Daminen é o herói sem porte-físico e nem a cara de galã. A atuação contida de Cilian Murphy, e principalmente tudo falado sobre a direção de Loach acabam sendo legitimados pelos minutos finais. Não apenas a discussão política torna-se robusta, há a leitura de uma carta (leitura essa cheia de paixão), momento dramático e quilibrado que foge com elegância do piegas. Loach cozinhou seu público na panela de pressão até que ela explodisse e espirrasse todo seu veneno ideológico por cada canto. O choro de Teddy é de cortar o coração (eufemismo? É muito mais doloroso que isso).

Daminen (Cillian Murphy) Teddy (Padraic Delaney) Dan (Liam Cunningham) Donnacha (Gerard Kearney) Gogan (William Ruane)

Princesas

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(Princesas, 2005 - ESP)


O que têm de clichê, também têm de simpático e envolvente, e nesse caso poderemos, aceitemos, desculpemos, e assim nos envolvemos. Caye foi uma criação genial de Fernando Leon de Aranoa e ao escolher Candela Peña como protagonista o cineasta estava com o passaporte carimbado para as emoções que desejasse expor. Garantia de simpatia e ternura, capazes de serrem refletidas em casa cena, em cada gesto. A vontade é de abraçá-la, beijar-lher a testa, receber mais e mais de sua ternura.

Só que Aranoa não deixou a discussão política completamente de lado, sutilmente criou uma metáfora que anda atingindo os mercados do primeiro mundo (produtos ofertados com custo muito baixo, oriundos do terceiro mundo). A diferença é que Aranoa expõe esse fenômeno, metaforicamente, utilizando-se da prostituição. Assim as prostitutas espanholas sofrem com africanas e latinas que cobram ninharias por seus serviços.

Por outro lado há a abordagem do aspecto humano, mergulhamos no mundo de sonhos e fantasia dessas mulheres e novamente Caye vem para nos bestificar com suas verdades simplórias e marcantes. Num momento ela solta a brilhante observação de que sente saudades do que ainda não teve, em outro momento afirma que só queria alguém para buscá-la no trabalho (referindo a ter alguém para amar). São cenas como as que destaquei que nos fazem esquecer dos clichês de namorados violentos, segredos mantidos para as famílias, dificuldades em manter relacionamentos, e tudo mais. Princesas vai buscar o dia-a-dia, as conversas no salão de cabeleireiro (substituindo o bar do filme anterior). Um Aranoa não tão contundente, mas Candela Peña é um tremendo achado.

Caye (Candela Peña) Zulema (Micaela Nevárez)

Imperdível

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Noite de Estréia (Opening Night, 1977 – EUA)


A peça de teatro dentro do filme transcorre numa engenhosidade admirável, entre exibições e ensaios absorvemos partes do todo, algo meio incompleto e confuso. Enquanto isso acontece o acidente em que uma apaixonada fã de Myrtle Gordon é atropelada na presença da atriz. A morte da garota perturba-a causando-lhe alucinações com a jovem, aliado a sua discordância de pontos cruciais em sua personagem, Myrtle entra numa profunda crise de identidade. Ela está se vendo na personagem, a peça trata do envelhecimento, e Myrtle já atinge a meia-idade, por isso discorda veemente de muitas características do texto.

Bom, a trama é basicamente essa, só que nada nos é oferecido mastigadinho. John Cassavetes promoveu aqui um dos roteiros mais complexos e emblemáticos, Myrtle Gordon afoga-se pouco-a-pouco em sua crise, altera o texto em meio às apresentações, não termina ensaios, desaparece, bebe compulsivamente, seus problemas tornam-se muito maiores que ela própria. Toda a equipe fica a mercê de sua irregularidade emocional, a autora leva-a numa vidente, o diretor cansa de paparicar, atores dão carinho ou despejam sua fúria.

E com a meia-hora final temos as peças que nos faltavam para compreender integralmente a peça de teatro, finalmente estão na estréia de Nova York, e Myrtle enfrenta seu momento mais crítico. Tem-se ali um show de superação, atriz e personagem fundem-se num só, o que passamos a sentir naquele momento é algo inexplicável. Cassavetes até então fazia um filme cheio de imperfeições, desenhava um labirinto de emoções, e todas as explosões contidas afloram de uma vez num banho de interpretação de Gena Rowlands e do próprio diretor. Aqueles momentos finais são algo único no cinema, na verdade é difícil expressar exatamente o que eles representam ao filme e principalmente a quem o está admirando, é preciso ver para entender toda a complexidade de Myrtle, sua relação com sua idade e sua visão da personagem que interpreta, até que ponto as duas são realmente a mesma pessoa. Noite de Estréia é uma pequena pérola que não se pode expressar sua beleza.


Myrtle Gordon (Gena Rowlands) Maurice Aarons (John Cassavetes) Many Victor (Ben Gazzara Sarah Goode (Joan Blondell)

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Vermelho Como o Céu

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(Rosso Come Il Cielo, 2004 - ITA)

Trata-se da história verídica de um dos mais renomados técnicos de som do atual cinema italiano. E para que funcionasse seria necessário um garoto com tom doce, cativante, meigo. Pois bem, encontraram Luca Capriotti, e tudo ficou mais fácil. Num acidente doméstico Mirco perdeu a visão, estamos nos anos setenta e as escolas regulares não o aceitam mais. Acaba ele transferido a uma escola especializada, em outra cidade.

O primeiro sentimento é de revolta, de não-aceitação, e Mirco sofre com a adaptação de sua deficiência até descobrir um velho gravador. A partir daí seremos arremessados num mundo de magia, criatividade, fantasia, imaginação. Incrível como Cristiano Bortone nos envolve de ternura nas cenas em que os garotos cegos deliciam-se na busca pelos sons, na descoberta das possibilidades.

Mais adiante virá a discussão sobre o método usado pela direção da instituição de ensino, caímos no clichê. Só que aquele clima mágico já nos impregnou, a visita ao cinema, as gravações às escondidas, a apresentação (momento de lágrimas), a sensibilidade presente em Mirco, o tom perfeito que nos conquista e emociona sem cair no melodrama. Todas as lembranças de Vermelho Como o Céu chegam impregnadas de doçura, emoção e um agradável sorriso.


Mirco (Luca Capriotti) Davide (Francesco Campobasso) Padre (Simone Colombari)
Ettore (Marco Cocci) Francisca (Francesca Maturanza)


PS: Na última semana tirei quase todo o atraso do cinema, fazendo uma enxurrada de sessões de cinema, se preparem para muitos posts

Baixio das Bestas

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(2007)

As diversas vertentes do tema sexo, discutindo seus comportamentos na Zona da Mata de Pernambuco (e porque não expandir para as diversas zonas predominantemente rurais brasileiras). O filme de Cláudio Assis exagera na dose de violência e perversão (não que esteja mentindo), mas o desejo de chocar parece o único mecanismo que o cineasta encontrou pra prosseguir com seu raciocínio e se fazer entender.

O mundo transpira sexo, começando pelos filhinhos mimados de fazendeiros que estudam na capital e barbarizam nos finais de semana com os carros dos pais pela cidadela, mergulhados em álcool e drogas, atravessando madrugadas em orgias por bordéis. Passando pelo puritanismo hipócrita do velho sustentado pelo trabalho de lavadeira da neta adolescente, e que a noite exibe a menina nua aos caminhoneiros de passagem pela cidade (de tudo que será visto, nada será mais indigesto e repugnante do que esse conjunto de cenas).
Um filme irmão de seu antecessor, só que com menor contundência, e algum desperdiço de talentos (Hermila Guedes é o melhor exemplo, por outro lado Caio Blat, Matheus Nachtergaele e Dira Paes estão bem como sempre) aqui e ali debruçados em uma gratuidade nas cenas. Os homens vivem para a cachaça, as mulheres para a submissão, e o destino imperdoável a quase todos eles. Assis não nos oferece reflexão, seu filme é novamente cru e direto, a fotografia oferece sensação de lama, de logo, é nesse antro que vive essa gente, assolada por seus costumes antiquados, desumanos, egocêntricos, sexuais.

O Hospedeiro

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(Gwoemul / The Host, 2006 - COR)

O cinemão norte-americano nos acostumou com russos mal-encarados como terríveis vilões da humanidade, por isso é sarcástico quando o coreano Bong Jooh-Ho inverte os papéis colocando um cientista norte-americano dando ordens para que seu assistente jogue pelo ralo produtso altamente tóxicos. O tom de voz, a cara de mal, o ar maquiavélico, tudo muito canastrão. O rio Han é então contaminado e uma estranha criatura nasce depois daquele lento travelling em tantas garrafas do terrível produto. O bichão nojento e apavorante ganha ótimos efeitos especiais, uma mistura de Alien, polvo e algum peixe feio.

A outra ponta da história é a família Park, a neta do patriarca acaba seqüestrada pelo Hospedeiro em seu primeiro grande ataque, e toda a família mobiliza-se numa empreitada pelos esgotos de Seul a fim de resgatá-la. Enquanto isso o governo coreano tenta mantê-los em quarentena devido aos riscos de terem contraído um vírus do tal Hospedeiro, e portanto correndo o risco de contaminarem a população.

Momentos de comédia pastelão, toques de terror, algumas boas seqüências de ação, o filme equilibra-se em diversos gêneros e num fiapo de roteiro. Nada que empolgue muito, algumas cenas absurdas no mesmo estilo hollywood de existir. Muito mais interessante são os pequenos detalhes e críticas espalhadas pela história, como o graduado desempregado que afoga sua depressão na bebida, gente roubando para comer, e o ataque direto e frontal ao todo-poderoso EUA e suas intervenções em assuntos que não lhes diz respeito. O pânico criado sobre o vírus, as notícias sobre o oficial infectado (tirando o monstro, tudo foi baseado num caso verídico). E a seqüência final de ação, alguém tinha dúvida de qual seria o desfecho? Não eu.
Park Gang-Du (Song Kang-ho) Park Hie-bong (Byeon Hie-bong) Park Nam-il (Park Hae-il) Park Nam-Joo (Bae Du-na) Park Hyun-seo (Ko Ah-sung)

Além do Desejo

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(En Soap, 2006 – DIN)

Estão ali todos os mandamentos do Dogma 95, alguns deles terrivelmente negativos no contexto geral, outros enriquecem, trazem familiaridade ao público que conhece esse movimento cinematográfico. O Dogma 95 não deixa de ter muitos detalhes interessantes, eu particularmente gosto. A narração em off, desnecessárias na maioria das vezes em que é empregada, não foge a regra e teoriza sobre o óbvio, esmiúça o nítido, é mais que supérflua. O que mais atrapalha ainda é a própria divisão em capítulos, como prefácio do capítulo há um resumo do que ele englobará (uma questão colocada na narração, uma espécie de suspense camuflado), com isso entrega-se o ápice, estamos sempre por dentro do que virá, essa antecipação de acontecimentos representa efeito semelhante àquele sujeito que conta os finais dos filmes que você não viu.

Há na sociedade contemporânea uma nova diversidade de relacionamentos, as barreiras estão sendo quebradas e aquela romântica e antiga relação homem x mulher, vai ganhando novas alternativas. O mundo GLS está mais que difundido, ele faz parte realmente do mundo como um todo, deixou de ser isolado e trancafiado numa redoma. Nesse novo contexto é que se desenvolve o filme dirigido por Pernille Christensen, engessada nos formalismos do famoso movimento dinamarquês, completamente sem barreiras para personagens e sentimentos.

Um contraste, é essa uma boa definição de Charlotte, mulher independente, cheia de atitude, financeiramente bem-resolvida. Está de mudança, processo de separação no casamento. Dói a ferida do término do relacionamento, uma mulher de pedra nas aparências, e quebradiça em sua estrutura. Sua liberdade sexual e seu estilo forte e masculinizado de ser são armas para combater suas dores. A vizinha de baixo no novo apartamento é Verônica, frágil, doce, sentimental. Um travesti aguardando autorização judicial para realizar sua operação de mudança de sexo. Verônica é dependente, inconstante, melancólica.

Opostos sob todas as formas, e não é que surge entre os dois uma relação forte e heterogênea, um romantismo desmascarado, brutal, amargo. O sarcasmo está na relação em si, na forma de tratamento, no estranho amor que teima em aparecer numa situação tão bizarra. Os dois são super sarcásticos, porém pouco-a-pouco se envolvem nos problemas do outro, quando menos se espera já estão completamente impregnados da vida do outro. Verônica torna-se mais forte, Charlotte assiste novela, é a influência tomando conta daqueles corpos. Decisões tomadas por impulso, comportamentos raivosos por não saber lidar com as situações. É o amor, só que um estranho amor, sufocado por espinhos, quando você enxerga já está contemplando aquela relação, mas ela é tão intricada, tão díspar, que não é possível adivinhar o que resultará daquele vai-e-vem de sentimentos, emoções e reações.

Charlotte (Trine Dyrholm) Verônica (David Dencik)

8x Godard - Final

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O Demônio das Onze Horas (Pierrot le Fou, 1965 - FRA)


“Pierrot!”, “Meu nome é Ferdinand”. Quando deres conta de que não se trata de um filme sobre aventureiros, mas de uma história sobre pessoas que cortaram seus laços com a rigidez da sociedade contemporânea e permitiram que suas necessidades sobrepujassem suas vidas, abriras uma nova visão sobre aquela seqüência de pequenos absurdos. Estamos falando de liberdade, não a liberdade que acreditamos ter (imposta sobre os limites do comportamento), mas a liberdade total do comer quando há fome, beber quando temos sede, amar quando há desejo e caminhar pela beirada da praia lançando pedras ao mar só por assim desejar.

O filme transpira liberdade, apeguar-se unicamente aos meios adotados por Marianne e Ferdinand para que esse estilo próprio de vida fosse possível seria dizimar o frescor da obra. Não estou aqui legitimando os atos, mas legitimando o cinema e essa forma de expressão que corre fora a normalidade aparente. Se não, quais aventureiros passariam horas debruçados em literatura, em meio aos animais, com colagens pelas paredes de pinturas de Renoir ou Picasso? Jean-Luc Godard estaria testando nossa capacidade de fugir da realidade? Já que ele distribui prazeres, enquanto a ética sangra de vergonha.

Ferdinand cansou-se da vida monótona da burguesia, genial a cena em que convidados conversam como se lessem textos retirados de comercias de tv. Corre ele aos braços de Marianne, uma antiga paixão, que agora está envolvida com tráfico de armas na Guerra da Argélia. Vivem de pequenos furtos e golpes, o bastante para sobreviver, cuidar da alma e do outro, sobrevivem pelo amor, ou enquanto este dure, circundados pelo azul do céu e do mar, pelo sol, pelo cultivo do espírito.

Anna Karina canta e encanta em versos como “jamais diga que vai me amar p/ sempre..., você me conhece eu te conheço”, ou na doce canção sobre sua curta linha da sorte. Marianne é altiva, leve, traiçoeira sim, mas ela pula, sorri, gira como um pássaro. Jean-Paul Belmondo parece saído de um filme noir, só que nele há uma classe, uma elegância, de quinta-categoria, e ainda assim charmosa. Raoul Coutard continua comandando a fotografia, há uma seqüência em especial, logo que o casal encontra o baixinho que os reconduzirá a trama do tráfico de armas, a câmera acompanha Ferdinand descer do barco, os personagens discutem, cada um segue seu caminho, e num travelling de 360º captamos as direções de cada um deles, tudo assim simples e complexo, simplesmente fantástico.

E se tudo isso não fosse o bastante, num diálogo antes da fuga do casal, Marianne ouve no rádio a notícia da morte de cento e tantos na Guerra do Vietnã. Comenta sobre a frieza com que recebemos notícia tão cruel, ela é tratada de forma tão impessoal que nem nos abalamos, pois não sabemos que são aqueles que se foram, do que gostavam... São apenas números, pode ser numa guerra, um avião que cai, são apenas números, nossa humanidade só sai da hibernação quando a dor toca a carne, de mais damos de ombros.

Ferdinand “Pierrot” (Jean-Paul Belmondo) Marianne Renoir (Anna Karina)

Proibido Proibir

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(2006)

Eu só pedia para que o clichê do título não contaminasse algum diálogo capital da história que se armava como um triângulo amoroso. Pedido negado, que raiva. Jorge Duran deve ter armado seu filme a partir da idéia desse diálogo, e no desenrolar fica tão óbvio que a cena que poderia soar como lírica e doce termina desgastada por uma obviedade presumida. Desperdiçou um belo momento.

Muito justa a abordagem oferecida pelo cineasta à amizade de Paulo e Leon, é bem verdade que mais adiante ele carregaria na mão transformando compensação numa forma de aceitação, quando a cena final sugere algo mais amplo e por incrível que possa parecer, extremamente crível e recorrente nos relacionamentos contemporâneos. Por outro lado há o fator denuncia, sempre a violência e a criminalidade em voga e novamente Duran desperdiça porque poderia muito bem fazer um filme sem heroísmos, calcado exclusivamente na relação do trio central, ou então mirasse sua câmera para o drama da ex-porta-bandeira e sua família habitando uma favela fluminense. A mistura desses temas ocasionou somente na amizade entre um maconheiro-aprendiz-de-médico e uma senhora vivida, cativante e imbuída na malandragem.

No que Duran acerta em cheio é a façanha de fazer isso tudo soar agradável, seja pelos belos planos, seja pelo ritmo narrativo agradável, seja com atores talentosos. Não se trata daquele filme a nos mergulhar nos dramas dos personagens, mas o tempo passa prazeroso enquanto as estripulias do porra-louca de Proibido Proibir, o garoto negro idealista, e a doce e decidida garota burguesa, envolvem-se de forma tão particular.

Paulo (Caio Blat) Letícia (Maria Flor) Leon (Alexandre Rodrigues) Rosalina (Edyr Duqui)

Trip to Porto Alegre

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Queria um sentimento diferente para expressar já que quase todos os textos que posto (excetuando os filmes) acabam falando de amor e/ou paixão (seja no aspecto positivo ou negativo), mas nesse caso não encontrei sentimento parecido. Voltei de Porto Alegre apaixonado, só que dessa vez é diferente, apaixonado pela cidade. Aquelas ruas arborizadas, aquelas calçadas delicadas, aquelas construções pequenas e carregadas de uma arquitetura própria, aquela metrópole com cara de maquete e ar de interior cosmopolita, Porto Alegre é o máximo. E o Parque Redenção? E as margens do Guaíba? E a vista maravilhosa do pôr-do-sol daquele pequeno café no Centro Cultural Mário Quintana? (minha nossa, o que é aquilo?).

Meus olhos poderiam estar enfeitiçados, mas o que senti foi estar cruzando o lado mais gostoso e aconchegante da Europa, logo aqui no Brasil, um requinte terceiro-mundista, mas ainda um requinte delicioso, e uma vontade de ficar. Uma vontade de procurar emprego e partir de mala e cuia para aproveitar cada centímetro daqueles centros culturais, dos cinemas de rua aconchegantes e charmosos, isso sem falar na companhia dos amigos. Thomaz, Luciene, Fer e Fabrício, cada qual não sabia mais o que fazer para agradar aos dois forasteiros (eu e meu chapa Ailton), revezavam-se em seus horários para nos mostrar o máximo da cidade, lugares imperdíveis, barzinhos diferentes e etc, etc, etc.

Rever e conviver com amigos que os quilômetros nos impedem de estar mais próximo é de um prazer estrondoso. Aliado a isso conhecer uma cidade como Porto Alegre transforma qualquer fim de semana prolongado em mais um momento para ficar guardado (ou melhor, para ser revelado a todos, porque os bons momentos não devem ficar guardados e sim reavivados o tempo todo). Tudo bem que a chegada a São Paulo surpreendeu com um drama que talvez eu consiga escrever por aqui nos próximos dias (felizmente com um final já feliz e que pode ser mais ainda), só que as lembranças mais pungentes ficaram camufladas devido a esse drama todo. E agora, aos poucos, os bons momentos surgem e trazem satisfação imediata. E como sempre, não importa o lugar e sim a companhia, por isso, apesar de lugares tão lindos e prazerosos, o grande momento da viagem foi o aniversário de Don Thomazzo, aquela mesa reunida e conversas das mais hilárias que pude dividir. Porto Alegre me aguarde, porque voltarei mais vezes.

8x Godard [7/8]

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O Desprezo (Le Mépris, 1963 – FRA/ITA)


Um olhar é determinante, Brigitte Bardot, o sentimento do título está intimamente condensado em alguns dos olhares desferidos por aquele rosto fatal e angelical. Todo o conjunto de traços perfeitos e estonteantes a nos deixar embasbacados, como crianças admiradas por tamanha formosura, estão na verdade apenas nos distraindo para que mais tarde sejamos estilhaçados pelo poder do desprezo contido naqueles olhos, naquelas feições divinais.

O primeiro plano nos insere no cinema dentro do cinema, uma câmera fixa filma um travelling de uma mulher caminhando em nossa direção, enquanto um narrador cita os créditos iniciais, e a seqüência termina com a câmera filmando a câmera. Depois, um corte. Camille deitada na cama de bruços, completamente nua, a pouco terminara de fazer amor com o marido, e naquele instante estão os dois ali a contemplar-se, a trocar palavras. Ele diz qualquer coisa, ela pergunta se ele gosta de seus joelhos, de suas coxas, de suas nádegas (oh, que nádegas). A imagem desliza lentamente pela pele dourada, pelo corpo perfeito, pela graça com que Camille passa os momentos pós-êxtase com o marido.

O filme mal começou e Jean-Luc Godard já nos causou paixão às duas coisas que o roteirista MP irá perder no decorrer do filme, o cinema e a esposa. Um arrogante produtor norte-americano contratou Fritz Lang (o próprio em pessoa no filme) para transpor às telas a Odisséia de Homero. Não contente com o material exibido, contrata o roteirista MP para reescrever o roteiro, um simples trabalho, uma mudança estrutural na vida.

Não gosto dos caminhos femininos sugeridos pela história (adaptação do romance de Alberto Moravia), uma visão mal-intencionada da mulher. A tradutora é um joguete do patrão, e ainda recebe carícias de MP sem mais nem menos. As mulheres vendem-se sem pudores, deixam de lados sentimentos por dinheiro, entregam-se ao mais repugnante dos homens e o único fascínio é o financeiro. Não sei, assistimos as mulheres desprezando (por suas razões) e sendo menosprezadas.

Sem dúvida, jamais nos esqueceremos da longa discussão no apartamento do casal, onde em poucas horas expõem-se uma enormidade de desgastes e desprazeres pessoais. Inseguranças, desconforto, mágoa, enquanto decidem sobre o jantar, a viagem ou não a Capri, realmente aceitar o trabalho de roteirista, reformar o apartamento e quem vai ao banho; tem-se um desfile de sentimentos trancafiados prestes a emergir naquele matrimônio, ali nasce o desprezo, ali descobri aquele olhar inebriante de Brigitte Bardot desferiu sem pudor e piedade, dói no peito.

Paul Javal (Michel Piccoli) Camille (Brigitte Bardot) Jeremy Prokosch (Jack Palance) Francesca Vanini (Giorgia Moll) Fritz Lang (Fritz Lang)

Marcas da Vida

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(Red Road, 2006 - RU/DIN)


A vida profissional de Jackie está calcada no voyeurismo, porém é um lado voyeur muito mais contemporâneo, o das câmeras, dos circuitos fechados. Pelas ruas do subúrbio de Glasgow estão espalhadas câmeras monitorando os movimentos da população, Jackie é uma das pessoas encarregadas em acompanhar possíveis atos criminosos e acionar policiais, bombeiros, ambulância (seja o que for). Seu dia a dia é movido pela curiosidade, já que seria impossível não se interessar por um conjunto de imagens, uma infinidade de encontros. Jackie quase faz parte do dia a dia de muitas pessoas (sem que elas saibam).

Esse misto de aventura e tensão passa a um outro estágio quando Clyde muda-se para o condomínio Red Road. Ela passa a observá-lo ininterruptamente, claramente há algo muito forte no passado, que liga essa mulher imensamente solitária (que pratica sexo apenas como uma mecânica necessidade física) e o ex-detento que volta ao convívio social. A trama vai se tornando mais perigosa, Jackie deixa de lado a segurança das câmeras e começa a se aproximar de Clyde. É nesse estágio que Andrea Arnold apresenta seus amplos recursos na direção, a tensão atinge pontos alarmantes no público, a sensualidade é enigmática, latente. Estamos obcecados em adivinhar o próximo passo dessa esquisita relação, os passos de Jackie não parecem ter lógica e aí está a grande chave do mistério que move o filme.

O ápice extremo é a cena de sexo, desconcertante, delirante, um momento de libertação máximo, é para nos deixar remoendo de vontade. As poucas informações que o roteiro nos ofereceu até ali ainda não deixam que nada possa ser esclarecido, se temos curiosidade em saber, estamos ainda mais conectados naquela atmosfera de suspense extremo, esperando que um momento de explosão possa acontecer naquele ambiente caótico e marginal.

Nos minutos finais chegam todas as explicações, que não conseguem nos entreter tão bem quanto aquele lado de tensão-sensualidade que nos intrigava até então. As explicações nos lançam num drama doloroso, visto e revisto no cinema, não há problema algum no seu desenrolar, apenas decepciona perante o contexto hipnótico que se apresentara. Resultando ainda assim num grande filme de interpretações precisas, personagens enigmáticos, planos claustrofóbicos e um senso de futuro que cada dia parece estar mais próximo.

Jackie (Kate Dickie) Clyde (Tony Curran)

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Michel Simões