abril 2007 Archives

8x Godard [6/8]

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Passion (Passion, 1982 - FRA/SUI)


Belo e irritante. Filmes exageradamente artísticos não me conquistam, esse modo desfragmentado de passar sua mensagem (já que o filme não é exatamente constituído de uma história) é algo que não chega a me incomodar, mas também está de longe de conquistar. Por outro lado Jean-Luc Godard é único, é autêntico, é sagaz, e possui uma visão de cinema muito mais apurada do que a maioria dos reles mortais.

Se alguém tentar montar uma sinopse vai acabar caindo no cineasta polonês Jerzy que tenta fazer um filme baseado em alguns quadros famosos. Enquanto filma, inicia uma relação amorosa com Isabelle que acaba de ser demitida da fábrica de Michel que mantém outro relacionamento amoroso, com a dona do hotel onde a equipe de filmagem está hospedada. Falei, falei, e não falei nada, porque isso é apenas bobagem dentro de Passion, não é um filme de história, é um filme de sensações, de sentimentos, de imagens, de vibrações.

Godard conseguiu misturar casos de amor, a desigual relação patrão-empregado, o famoso sindicato polonês Solidariedade, a arte da pintura de Delacroix e Rembrandt. E ainda o mundo cinematográfico, a arte de filmar, de buscar a luz perfeita. Seria um feito e tanto, o filme corre numa ordem cronológica, mas importância alguma isso tem, o que vale é tudo que se podemos absorver de Passion. Misturar amor, pintura, e ainda discutir política de forma tão crítica e contundente, é algo que só Godard poderia fazer.

O que aborrece é essa mania de que o público que não conseguir entender todas as referências e sandices provindas da mente iluminada do cienasta, é um público chulo e ignorante, quando na verdade, de tão intricado, o filme torna-se relativamente chato, cansativo. Não espero entender cada milímetro das idéias de Godard, longe disso, mas filmes que julgam antecipadamente seu público não me conquistarão jamais, e Passion é imerso em paixão, é inteligentemente arranjado para compreender todos esses temas e engajamentos de Godard, mas não para se fazer compreender. Arrogante em sua forma.


Jerzy (Jerzy Radziwilowicz) Isabelle (Isabelle Huppert) Michel (Michel Piccoli)


MÚSICA DA SEMANA


WISE UP
(Aimee Mann)

It's not.. what you thought...
When you first... began it.
You got... what you want...
Now you can hardly stand it, though,
By now you know, it's not going to stop...
It's not going to stop...
It's not going to stop,
Till you wise up.


You're sure... there's a cure...
And you have finally found it.
You think... one drink...
Will shrink you to... your underground
And living down, but it's not going to stop...
It's not going to stop...
It's not going to stop,
Till you wise up.


Prepare a list for what you need,
Before you sign away the deed,
'Cause it's not going to stop...
It's not going to stop...
It's not going to stop,
Till you wise up.


No, it's not going to stop,
Till you wise up.
No, it's not going to stop,So just give up.

Inferno

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(L'enfer, 2005 – FRA/ITA/BEL/JAP)


Segunda parte da trilogia deixada de herança por Kieslowski, não há limites para o calor do inferno. Se o primeiro filme começava eletrizante e caminhava irregular até o desfecho insosso, Danis Tanovic (Terra de Ninguém) tem muito mais sucesso mantendo a narrativa num padrão alto, explorando delicadamente a infernal vida de três irmãs marcadas por problemas no presente e no passado.

Sophie sofre com a infidelidade do marido, nem sua beleza e sedução parecem despertar desejo nele. Anne vive um caso com um professor casado, que está arrependido e quer terminar. Céline experimenta a solidão, sofre de insônia conseguindo dormir apenas em trens, só encontra companhia na mãe que mora num asilo. Cada drama dessas mulheres tem atenuantes, como sempre há de existir, e além deles há um lance nebuloso do passado familiar que está prestes a voltar a tona.

Nada de cenas inflamadas de desespero, melodramas baratos. Essas mulheres choram, sofrem, tudo em cenas de delicado tato que Tanovic nos oferece. É um roteiro muito bem planejado, pequenas peças que se encaixam lentamente, sem que sequer estivéssemos procurando-as. São dramas pessoais corriqueiros, daqueles que encontramos no vizinho ou num amigo próximo, o inferno dessas mulheres vai cozinhando suas almas pouco a pouco.

De todas, o drama de Sophie desgarra dos outros, sua obsessão compulsiva pelo marido, quanto mais descobre sobre a traição, mais ela o deseja, mais tenta reencontrar a chama de desejo que se esvaiu. Numa das cenas ela entra num quarto de motel e encontra a amante dormindo, aproximasse do corpo nu, o olhar fixo, toca suavemente a pele. Emmanuelle Béart é dona de uma expressão poucas vezes vista, como se seus olhos estivessem a ponto de encher-se de lágrimas a todo instante, uma mistura de sedução, desejo, sofrimento, amor e mágoa. O inferno está dentro de seus olhos.

Sophie (Emmanuelle Béart) Céline (Karin Viard) Anne (Marie Gillain) Pierre (Jacques Gamblin) Frédéric (Jacques Perrin) Sebastien (Guillaume Canet)

Visto numa Mostra uns 10.000 anos atrás!!!

O Segredo

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(The Secret, 2006 – EUA)

Devido a uma polêmica discussão entre amigos sobre o assunto, acabei convencendo-me a encarar o documentário de auto-ajuda. E mesmo sem criar grandes expectativas foi impossível conter a revolta ao final da projeção. E o motivo principal é a razão caça-níqueis de levá-lo ao cinema, porque ele como obra é de um formato (e demais categorias técnico-artísticas) simplesmente esdrúxulo (repare que ainda não estou citando o conteúdo). Não dá para chamá-lo de chulo, é ridículo mesmo, amador. Um punhado de seguidores do tal Segredo aparecem com depoimentos calcados numa técnica de lavagem cerebral, repetição de frases, ênfases, a idéia é vender sua lógica goela abaixo e fazer com que o público, ao término, corra para comprar o livro e demais artigos que possam ter sido lançados. Minha revolta está no seu lançamento nos cinemas, aquilo é um dvd institucional que chegou à tela grande.

Bom, primeiro acredita quem está disposto, duvida quem é descrente ou já entra de caso pensado, ou ainda aquele que não se vende a qualquer besteira que decidiram afirmar como verdade irrefutável. O tal Segredo está calcado Lei da Atração, portanto pensamento positivo atrairia coisas positivas e assim por diante. Até aí não vejo problema algum, gosto de qualquer material que tente rever conceitos, que mostre que a vida não tem que seguir os mesmos padrões de comportamento sempre. Gosto de tudo que faça as pessoas questionarem suas condutas, principalmente o dia-a-dia. O duro é ouvir “você quer ser milionário?”, e se vender a idéia de que é simples, basta mentalizar, pensar positivo, realmente acreditar que pode, e assim rios de dinheiro cairão na sua vida. Assim, sem mais nem menos.

O Segredo poderia durar dez minutos, aliás existe uma apresentação em PowerPoint com imagens e frases do filme que já seriam o bastante, porque tudo gira numa irritante elipse de vai-e-vens e depoimentos picaretas. A lógica é a mesma dos programas religiosos de tv, a seita ilude seus adeptos. Não se fala em atitude, em mudança, em destruição de seus próprios paradigmas. Não, apenas você precisa mentalizar e terá dinheiro, o amor dos seus sonhos, saúde invejável e etc. Imagine se seis bilhões de pessoas pedissem a mesma coisa, a briga que esses seis bilhões causariam no magnetismo da Terra.

Voltando ao primeiro ponto, pode-se até acreditar na tal Lei da Atração, o que não dá para engolir é um documentário charlatão, feito num fundo de quintal e carregado do que pior encontramos nos vídeos institucionais. É triste ver isso chegar nos nossos cinemas. Pense positivo, mentalize, mude vários aspectos da sua vida que não lhe agradam e não fazem bem, mas tenha atitude, sem ela estará sempre preso às regras de acomodação. Direção de Drew Heriot.

Maria Antonieta

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Maria Antonieta (Marie Antoniette, 2006 – EUA)


Definitivamente embarcamos no mundo de Sofia Coppola, e ela trata a melancolia e a solidão de uma maneira estritamente particular. Uma singularidade inebriante que a cada filme reconfirma sua abordagem e intensifica sua amplitude. Sofia lida com o assunto que domina, essa solidão da alma feminina, e ao repetir sensações e vazios redistribui energia a seus personagens. Pode-se mudar o país, a época, a idade, são os mesmos males a acometer suas mulheres, o mesmo olhar vago e distante. Diferente de Kar-Wai que lida com a solidão dos corpos e sentimentos, Sofia lida com a solidão da alma.

Quando se decidiu por Maria Antonieta, não era a biografia que lhe interessava, mas a situação de uma menina estrangeira e mimada caindo de pára-quedas em plena corte francesa no século XVIII. O estranhamento dos costumes, a sensação de não pertencer àquele local, o vazio constante. Nesse contexto a cena de choro ao se desfazer de seu cãozinho é somente o primeiro sinal da aspereza e indiferença que a aguardava.

A fim de abraçar melhor, como se a cineasta quisesse oferecer algum carinho à personagem, o filme vem recheado de música pop (que menina rica não quer ser pop?), e temos o contraste daquela garota frágil e fútil, coberta de seus vestidos e penteados, desfilando pela trilha sonora ativa e empolgante. Funciona, e bem, porque Sofia contextualizou sua personagem à época transmitindo ares dos males da mulher contemporânea.

Ainda assim há no filme um distanciamento, temos seus melhor nas cenas em que Maria Antonieta cai em si e permite que seu olhar torne-se espelho da alma. Fora disso há uma preocupação zombeteira em quere ser pop e atrair melhor o público, e em dado momento Sofia decidiu aproveitar e também transformar aquilo tudo numa biografia. O resultado é uma aceleração incomoda nos fatos, nas cenas, nos cortes. Uma pressa que nos deixa sem ter como respirar, e por cenas que quase nada acrescentarão ao espírito que se criara. O filme sofre dessa inconsistência, guarda pequenas (e boas) doses do melhor de sua diretora, e passa tempo demais se preocupando em estabelecer relação que comprove a ao público a verdadeira importância daquele casamento consumado, do nascimento do herdeiro. Entre a biografia e a personagem, quis se os dois e o resultado final surge desastrado.


Marie Antoniette (Kirsten Dunst)


MÚSICA DA SEMANA

REGRA TRÊS
(Composição: Toquinho e Vinícius)

Tantas você fez que ela cansou
Porque você, rapaz
Abusou da regra três
Onde menos vale mais
Da primeira vez ela chorou
Mas resolveu ficar
É que os momentos felizes
Tinham deixado raízes no seu penar
Depois perdeu a esperança
Porque o perdão também cansa de perdoar
Tem sempre o dia em que a casa cai
Pois vai curtir seu deserto, vai.
Mas deixe a lâmpada acesa
Se algum dia a tristeza quiser entrar
E uma bebida por perto
Porque você pode estar certo que vai chorar

...


Recado p/ Turma de Oz

Pelo menos sobrevivemos a essa semaninha "inferno astral" onde todos entraram pelo cano, pior que quando pensei que as coisas fossem melhorar nessa semana, já veio outra notícia desanimadora. Que fase!!!!!

Maria

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Maria (Mary, 2005 - EUA)

Há tantas interpretações possíveis dentro do filme de Abel Ferrara, que a discussão de todos os pontos facilmente resultaria num livro. A força e o impacto das imagens, dos temas; com um simples plano, ou uma frase solta, o cineasta obtém o poder de criar um novo ponto de partida para raciocínios mil. A questão é só dar início à discussão, e será acalorada, pois trata invariavelmente de religião, e a toda hora Ferrara expõe um dos livros que foram retirados da bíblia.

Ficarei com dois, que na verdade resulta num único, temas. A fé e a transformação (a partir da primeira). Três personagens têm suas vidas completamente alteradas, resultado da fé, mesmo que seja a fé dos milhões que podem surgir na realização de um filme polêmico sobre a vida de Jesus. Não importa, não deixa de ser fé, aquele cineasta oportunista e ganancioso não deixa de possuí-la, apenas canaliza-a para um outro plano (e a seqüência dele trancado na sala de projeção, completamente ensandecido é a total comprovação da fé, num momento arrepiante).

Marie era a atriz, do tal filme, a interpretar Maria Madalena. Inclusive começamos ao término das filmagens, quando Marie (tocada por sua própria interpretação e personagem) decide largar tudo e partir para Jerusalém, em busca de sua fé, de uma nova fase espiritual. As visões antagônicas desses dois companheiros de filmagem serão postas frente a frente por um terceiro, o apresentador de TV Theodore Younger. Ele próprio diz não saber se acredita, mas seu programa faz uma ampla discussão (com teólogos e entendidos nas mais diferentes áreas) sobre a vida de Jesus no planeta, sobre o mito e o verídico.

A fé e a transformação de Theodore vem de um momento delicado, o complicado parto de seu filho, o riscos que mãe e filho correm (a vida de ambos na corda bamba). O descrente busca um milagre em si, aquele turbilhão de discussões religiosas torna-se um rodamoinho de indefinições na cabeça daquele homem passando por provações, no mais complicado dos momentos de sua vida (nessas horas descobrimos nosso verdadeiro eu, testamos nossa força interior). O encontro desses três personagens demonstra a verdadeira faceta de cada um. Estamos falando de um filme de transformações, um filme de amor, um filme sobre a descoberta da fé, da verdadeira fé.

Ferrara não está aqui para discutir religião, é dela que surgem os dilemas e discussões, a importância da religião para o cineasta é ser a mola propulsora para essa babel de sentimentos. A mídia não passa ilesa, Ferrara coloca pequenos recados (diretos e certeiros), mas a cerne continua na discussão da fé, e o cume é atingido pela interpretação fora de série de Forest Withaker. Ele é quem passa por maiores transformações, ele é quem sente a necessidade extrema de encontrar o amor, rever conceitos e estabelecer um novo plano para sua vida. Plano espiritual, e principalmente familiar.

Theodore Younger (Forest Withaker) Marie (Juliette Binoche) Tony Childress (Matthew Modine)

8x Godard [5/8]

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Infelizmente para Mim (Helas Pour Moi, 1993 - FRA)

Dessa vez Jean-Luc Godard ultrapassou os limites, qual a graça de querer ser tão indecifrável assim? Será que ele se diverte com os textos daqueles que tentam julgar, entender, criticar ou elogiar, seu filme, brincando com o absurdo que as interpretações humanas podem chegar? Daria muito bem para ter causado os mesmos efeitos com trinta, trinta e cinco minutos, assim não estaríamos lançados ao tédio e desconsolo daqueles minutos intermináveis.

É novamente Godard renegando a história, objetivando através da imagem a busca de sensações, sentimentos, representações. A estrutura é daquele jeito, desregrada, incomunicável, “artística”. Não deixa de ser um estilo muito interessante, provar que não precisamos de uma seqüência lógica e didática para compreender sentimentos e significados. Porém, não precisava ser tão intricado.

Há um casal, escrevendo um livro, há um editor que está interessado em publicá-lo e sai a procura dos escritores e das últimas páginas do manuscrito. O casal escreve e vive aquelas emoções, é um livro e uma relação de angústia, indecisão, medo, amor, arrependimento. Fala-se, de certo modo, dos percursos da humanidade (ou melhor, da dificuldade), tudo é baseado num texto do poeta italiano Leopardi.

Sempre em seus filmes, por mais difíceis, complexos, às vezes rabugentos e incompreensíveis, há sempre passagens memoráveis. Dessa vez destaco a pequena parábola do pai, do pai, do pai do narrador que sempre que queria algo, caminhava até certo ponto na floresta, ascendia o fogo e fazia uma prece. Com o passar das gerações, parte dessa rotina vai sendo esquecida, por fim estamos nos dias atuais e ainda nos lembramos da história. Infelizmente para Mim é um filme de perda, mais que isso, um filme de ruptura e a incongruência com que ela atinge a nós, pobres mortais.

Aude Amiel (Aude Amiot) Abrahm Klimt (Bernard Verley) Simon Donnadieu (Gérard Depardieu) Rachel Donnadieu (Laurence Masliah)

8x Godard [4/8]

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Uma Mulher é Uma Mulher (Une Femme Est Une Femme, 1961 – FRA)


Sente-se e aperte o cinto porque você acaba de entrar na montanha-russa de Jean-Luc Godard. Podem até pensar que estou de brincadeira, mas reflitam se não ficamos totalmente a mercê do jogo promovido pelo cineasta, ele brinca com nossos corpos, a sensação é de que a poltrona ganha movimento no ritmo da música, fomos incorporados pelo todo. Entre diálogos surgem alguns acordes, pode ser uma ópera, pode ser outro gênero musical, o cineasta utiliza a música para intensificar a atmosfera, não está buscando potencializar sentimentos, quer mesmo é postergar o clima, intensificá-lo, a poltrona quer pular junto.

Godard está o tempo todo brincando, discutindo (e apontando) as diferenças entre os sexos, os anseios de homens e mulheres. Ângela trabalha como stripper e quer ter um filho, mas seu namorado Émile (na verdade moram juntos) não deseja um filho a curto-prazo, manda que ela vá ter com outro. Eis que surge Alfred, amigo do casal, e apaixonado por Ângela. A brincadeira principal do cineasta é composta de um pensamento um tanto machista, que o desejo de uma mulher não pode ser freado (desejo leia-se capricho). A mulher deseja e usa suas armas até conseguir, que seja um vestido, um homem, que seja um filho ou um bombom.

Enquanto a história se desenvolve, entre as insistências de Ângela, os senões de Émile, e as brigas do casal (as discussões via capas de livro causam risadas bárbaras), nos deliciamos com um conjunto de pequenas situações que se espalham pelo filme. O casal sempre se beijando na porta do prédio, as citações a filmes de Truffaut, a música de Charles Aznovour esculhambando com a mulher amada, Godard é dono de um humor rico, nobre, e incrivelmente direto.

Émile é um protótipo de Antoine Doinel, Jean-Claude Brialy caminhando pelo quarto escuro com o abajur nas costas é uma recordação que causa risos espontaneamente. Já Anna Karina representa dessa vez uma mulher que pretende condensar todas as mulheres, então não se busca um desenvolvimento mais profundo em seu personagem, o que se quer é a superficialidade, é a brincadeira de que uma mulher é uma mulher, que no fundo todas são iguais em seus anseios e desejos. E Anna Karina desponta novamente, ela se faz sutil, e linda, volúvel, amorosa, inquieta, a mulher é sempre imprevisível, até a página dois. Godard brincou de fazer uma comédia, brincou de fazer um musical, brincou de discutir a guerra dos sexos, criou diálogos asperamente hilários, e nós ficamos rindo a toa.


Ângela (Anna Karina) Émile (Jean-Claude Brialy) Alfred (Jean-Paul Belmondo)


MÚSICA DA SEMANA:

AMIGO É PRA ESSAS COISAS
(composição: Sílvio da Silva Junior e Aldir Blanc)

Salve, como é que vai...
Amigo a quanto tempo...
Um ano ou mais.....
Posso sentar um pouco?
Faça o favor.
A vida é um dilema...
Nem sempre vale a pena...
Ah...O que é que há?
Rosa acabou comigo.
Meu Deus, porquê?
Nem Deus sabe o motivo.
Deus é bom!
Mas não foi bom pra mim...
Todo amor um dia chega ao fim
Triste!
É sempre assim...
Eu desejava um trago...
Garçon, mais dois!
Nem sei como eu lhe pago...
Se vê depois...
Estou desempregado.
Você está mais velho...
É!
Vida ruim...
Você está bem disposto.T
ambém sofri.
Mas não se vê no rosto.
Pode ser...
Você foi mais feliz...
Dei mais sorte com a Beatriz!
Pois é...
Tudo bem...
Pra frente é que se anda.
Você se lembra dela?
Não.
Lhe apresentei...
Minha memória é fogo...
E o l'argent?
Defendo algum no jogo.
E amanhã?
Que bom se eu morresse!
Pra que rapaz?
Talvez Rosa sofresse...
Vá atrás...
Na morte a gente esquece!
Mas no amor a gente fica em paz.
Adeus.
Toma mais um...
Já amolei bastante.
De jeito algum...
Muito obrigado amigo.
Não tem de que.
Por você ter me ouvido.
Amigo é pra essas coisas...
É.
Toma um Cabral.
Tua amizade basta.
Pode faltar.
O apreço não tem preço.
Eu vivo ao Deus-dará!

8x Godard [3/8]

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Viver a Vida (Vivre sa Vie, 1962 - FRA)


Pense na sua memória, na forma como ela armazena as lembranças. Elas surgem de forma contínua, ou fragmentada? Trazendo apenas trechos da sua vida essencialmente de momentos marcantes e/ou determinantes? Se nossa própria vida nos é recordada por fragmentos, nada mais natural que descubramos a vida de Nana através deste mesmo formato estilhaçado, doze fragmentos para ser exato. Também, estamos falando de Jean-Luc Godard, o mais oblíquo dos cineastas.

No primeiro ato Nana está terminando seu relacionamento num café, a câmera atem-se, num lento zigue-zague, a flagrar os dois sentados (de costas) no balcão, conversando. A primeira das pequenas reviravoltas, falta a essa vendedora de vinis dinheiro para pagar o aluguel. Seu desejo de ser atriz, acaba na prostituição, e mais adiante em conseqüências ainda mais trágicas. Pouco importa o desenrolar da vida de Nana, Godard não está preocupado em narrar uma história essencialmente com começo, meio e fim (por mais que estejam todos lá). O que Godard pretende é nos fazer encantar por aquela garota, descobri-la, fazer com que os atos sejam menores do que a personalidade.

“As pessoas têm o lado interior e o exterior, retirando o exterior fica o interior, retirando o interior resta a alma”. É da alma de Nana que Godard trata e deixa isso claro já no primeiro ato, quer dizer, claro a seu modo porque nada é claro num filme de Godard. São três momentos principais em que Nana permite que sua personalidade sobreponha-se aos atos, na carta que parece pueril de tão simples e direta, e na dança ao som da jukebox. O terceiro é o choro ao assistir Joana D'arc de Dreyer no cinema. Nessas situações sua alma toma as rédeas do corpo, seu eu explicita-se de forma mais libertina. Não está ali buscando interesses diferentes dos explícitos, Nana apresenta a limpidez de sua alma.

A sensual malícia e graça que Anna Karina desfila em cada fotograma possui um efeito hipnotizador, homem algum pode negar encantar-se com seu modo de olhar e sorrir. Anna Karina permite que sua Nana seja completamente desnudada pela câmera de Raoul Coutard e os leves deslizes de imagem, Godard não nos dá nada mastigada, em contrapartida absorvemos Nana e suas facetas. Viver a vida foi a forma que Nana encontrou para sobreviver, estamos falando no preocupar-se com o hoje, na hibernação de sonhos, na desistência do amor, e até mesmo na conseqüência de querer tudo isso novamente a seu dispor. E eu poderia passar o resto da vida olhando para aquele rosto perfeito.

8x Godard [2/8]

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6x Godard? Estou ficando completamente louco, serão 8x Godard, é filme que não acaba mais!!!!


O Pequeno Soldado (Le Petit Soldat, 1960 – FRA)

Ainda não estou certo sobre o que escrever. Tenho algo com Godard que é totalmente diferente de qualquer cineasta. Em grande parte dos assistidos, durante a projeção não estou gostando do que estou vendo, acabo até me vendo com pensamentos em outro lugar. Depois o filme vai crescendo na memória, alguns não me deixam espaço para pensar em outra coisa, exemplo perfeito foi com Elogio ao Amor que terminei odiando, deitei achando ruim, dormi quase gostando e acordei praticamente adorando (aliás dos que vi, quase todos os filmes de Godard ficam entre o bom e o muito bom, nenhum me pegou de jeito ainda).

Godard filmou a Guerra da Argélia, não bem a guerra, uma história que envolvesse o conflito. Um soldado desertor refugia-se na Suíça trabalhando para um grupo de extrema-direita. Executando atentados, falta a Bruno Forestier ideologia. Até que o mesmo decide não quer executar novamente, nega-se a cumprir uma missão, apaixona-se por Verônica Dreyer, termina perseguido pelos dois lados do conflito, torturado.

Nessa visão do filme, Godard tem o dom de tratar o assunto com tamanha distância, que mais parece que a história acontece num planeta distante e que o cineasta não tem opinião alguma sobre o assunto (se bem que na época a maioria dos franceses não tinha opinião também, já que parecia absurdo manter colônias pelo mundo num pós Segunda Guerra). Depois a trama de espionagem torna-se mais intricada, descobrimos novos agentes, suspeita-se de agentes duplos, ex-amigos que partem a caça de Bruno.

Mas sabe que isso tudo parece alegoria dentro do verdadeiro conteúdo de O Pequeno Soldado? Um amigo faz uma aposta com Bruno que ele se apaixonaria por Verônica assim que a conhecesse, os três se encontram, conversam, andam de carro e na hora de se despedir, Bruno entrega o valor da aposta ao amigo. Assim, de maneira seca, depois irá explicar a moça. Numa sessão de fotos (Bruno trabalha a paisana numa agência de notícias), ele deixa toda sua alma transparecer, ali descobrimos o verdadeiro Bruno. Eis que surge a afirmação majestosa: “O cinema é a verdade a vinte e quatro quadros por segundo”.

Apaixonado, muito mais interessado está em descobrir se a cor dos olhos de Verônica (só poderia ser Anna Karina, a mais linda atriz do cinema pb) são cinza-Vélasquez ou cinza-Renoir. Pouco a pouco descobrimos as preferências de Bruno, seja a pintura de Paul Klee, a poesia de Aragon, ou o perfeito horário do dia para se ouvir os clássicos (Mozart, Bach). Esse desenvolvimento da alma daquele Bruno que nos parecia isento de ideologia, um mero executor de ordens executivas, faz com que descubramos a complexidade travestida de desinteresse. O amor despertou nele tudo que estava hibernando, e dessa pequena implosão temos Bruno em sua mais pura forma.

São dois filmes em um, a trama de espionagem bem convencional, usual, batida, e se lembrarmos que o conflito ainda sangrava e que a França ainda sofre com os males daquela situação, essa trama faz-se acima do convencional em conteúdo (não em forma, que chega a aborrecer em alguns momentos). De outro lado há o lado humano e psicológico de Bruno, temos novamente Godard mergulhando na alma humana sem deixar de espalhar suas obsessões artísticas por cada conjunto de vinte e quatro quadros. Anexas, têm-se um pequeno filme de um grande cineasta, e todo pequeno filme guarda pérolas que cada um descobre onde menos se espera. Já falei que Anna Karina é a atriz mais linda do cinema em pb? Tem dúvida ainda? Reveja a sessão de fotos (o melhor do filme em muitos sentidos)!

Bruno Forestier (Michel Subor) Verônica (Anna Karina)

6x Godard [1/6]

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No começo do ano a Cinemateca Brasileira promoveu uma Mostra com filmes de Godard, consegui assistir a 6 filmes dele e nos próximos dias (como nem tenho ido ao cinema) vou aproveitar e jogar uma enxurrada de Godard pelo blog. Já teatro estou tendo uma boa presença, qualquer dia faço um resuminho das 5 últimas peças que vi e ainda não postei, no menu do lado tem os nomes e citações!


Acossado (À Bout de Souffle, 1960 – FRA)


Não é bem um filme de gênero, mas uma história repleta de vitalidade, personagens desglamourizados e um humor leve, e porquê não, pueril. Vejamos Michel Poiccard, um assaltante, um malandro, um fora-da-lei por excelência, um bandido pé-rapado e estiloso. Consegue ser uma figura despretensiosa, aos nossos olhos, já que a pretensão é de suas características marcantes, fala por excelência, despreza sem esmero aquilo que não lhe interessa, rude e direto, insistente, arrogante. Jean-Paul Belmondo exemplar, capaz de oferecer uma figura marcante conceitualmente, e também visualmente, não nos identificamos porém o guardamos com carinho na memória.

É estruturalmente um filme de perseguição, Michel Poiccard viajava para Paris e na estrada assassinou um policial. O cerco se fecha a sua procura, a polícia o identificou, e ele atrás de um amigo que lhe deve dinheiro enquanto tenta convencer a norte-americana Patrícia (a mulher que ama, a seu modo) a partirem juntos para Roma. Há tantas delícias espalhadas pelo filme de estréia de Jean-Luc Godard que não é tarefa fácil recordar todas. Desde seu primeiro filme suas referências artísticas espalham-se pelas cenas, filmes e cinema, música, literatura, sempre há uma citação, o pôster de um filme, uma ida ao cinema. E essa é apenas uma dessas delícias, há todo um estilo em desenvolvimento, é verdade que aqui ainda em experimento, por isso Acossado é mais retilíneo e padronizado que sua filmografia.

Porém desde aqui a história perde espaço para a forma de se contar, a grande preciosidade de Acossado não são as perseguições, roubos de carro e coisas do gênero. Toda a engenhosa seqüência com Patrícia e Michel, no quarto de hotel, desnuda completamente o lado psicológico dos dois personagens, a cada discussão, cada ato, cada opinião, descobrimos mais um pouco daquelas figuras tão distintas. Ele tão francês e enigmático, homem no significado mais chulo da palavra, e ela vinda de uma outra cultura, meio indecisa, meio fascinada por aquele sujeito canastrão e charmoso.

Acossado inicia determinando os rumos e também a sonoridade da personalidade de Michel Poiccard. Para depois vagar por um longo período de ratificação dessa sonoridade, nessa fase Godard já está destilando princípios de seu estilo, mas há algo que não se encaixa, estamos patinando até que chegamos na citada seqüência no quarto do hotel. Dali em diante o filme se ajeita, Michel começa a ser acossado pela polícia, e então temos um filme que nos prende, que nos enaltece, desde ali temos Godard em sua forma, e brincalhão, bem humorado, divertido, e com Belmondo iluminado fica tudo mais fácil.


Michel Poiccard (Jean-Paul Belmondo) Patricia (Joan Seberg)



MÚSICA DA SEMANA:



NICE DREAM
(Radiohead)

They love me like I was a brother
They protect me, listen to me
They dug me my very own garden

Gave me sunshine, made me happy

Nice dream, nice dream
Nice dream

I call up my friend, the good angel
But she's out with her answerphone
She says she would love to come help but
The sea would electrocute us all

Nice dream, nice dream
Nice dream, nice dream
Nice dream, nice dream
Nice dream


If you think that you're strong enough
If you think you belong enough
If you think that you're strong enough
If you think you belong enough

[Just as well Just as well Just as well]

Nice dream, nice dream
Nice dream, nice dream

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Michel Simões