março 2007 Archives

A Rosa

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A Rosa (The Rose, 1979 - EUA)


Não, o argumento passou longe do original. Cantores pop imersos num mundo de extravagância e beirando aos limites, cujo fim repentino acaba com suas carreiras (e consequentemente com a vida), é o tipo de notícia estampando periódicos e sites por tudo quanto é lado. Alguns acreditam tratar-se de uma biografia não-autorizada de Janis Joplin, e na verdade contempla alguns aspectos desse mito, mas trata-se muito mais de uma condensação, uma generalização dessas carreiras marcadas por tragédias.

E o filme dirigido por Mark Rydell caminha sem grandes inovações, é o perfeito feijão-com-arroz. Nada destoa e nada encanta. Bem, não é assim exatamente, há uma divindade iluminada de nome Bette Midler. Quem não deve ter torcido o nariz ao saber que aquela baixinha, meio-gordinha, interpretaria uma roqueira vivendo de limites? Ela não precisa mais que dez segundos para convencer qualquer um, energizante. Se fosse cantora, diria que ela é dona de uma impressionante presença de palco. Vibração, garra, fibra, são poucos os adjetivos para qualificar seus momentos ao microfone, ela mesma canta as músicas, mas principalmente ela hipnotiza com todo aquele entusiasmo incessante.

Bette Midler é Mary Rose, uma cantora de estrondoso sucesso que veio de uma cidade do interior dos EUA. Agora no auge, aguarda o grande momento de retornar a sua cidade natal. Como grande parte das estrelas, enfrenta sua turnê buscando prazer sem limites, consumo de álcool e drogas é apenas um indício, não só dessa busca, mas principalmente da fragilidade camuflada daquela figura. Instável, indecisa, uma estrela.

É o velho esquema “sexo, drogas e rock'n roll”, e sabemos bem onde essa história vai acabar. O mais divertido é saber de tudo isso e ainda acompanhar cheio de interesse cada desenlace, cada briga com o novo namorado, ou com o empresário. Porque Bette Midler nos conquistou desde a primeira fala, porque ela canta When a Man Loves a Woman de um jeito que bate fundo no peito. Mary Rose é Janis Joplin, mas também é uma infinidade de astros que não souberem equilibrar seu prazer com os limites do corpo, o final pode ser apelativamente medonho, mas a gente sempre sofre com a perda dos ídolos.

Mary Rose Foster (Bette Midler) Rudge Campbell (Alan Bates) Houston Dyer (Frederic Forrest)

Os 12 Trabalhos

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Os 12 Trabalhos (2006)


Ricardo Elias conseguiu me irritar, e isso é uma grande façanha. Até gosto do seu estilo de filmar, de como ele trata a imagem, mas seu roteiro é muito ingênuo, tudo muito bobinho e superficial demais. Na estrutura é quase uma continuação de seu filme de estréia, se o personagem no anterior atravessava São Paulo de ônibus e metrô, dessa vez progrediu e já está pilotando uma moto. Olha que maravilha!

Heracles, ex-detento da Febem, deseja deixar a vida de crime, seu primo Jonas (motoboy) conseguiu uma chance na empresa onde trabalha. Agora Heracles terá que enfrentar os 12 trabalhos (roteiro livremente inspirado na mitologia grega) para firmar-se na vida. Nem dá muita vontade de escrever qualquer coisa, são tantas situações ridículas que dá desanimo ficar lembrando. O primeiro ponto é o descuidado com o passar do tempo, Elias perdeu completamente a noção.

Depois o filme não consegue nem aproximar-se da rotina diária de um motoboy, nem mergulha completamente em Heracles, fica tudo ali no superficial. Tudo acontece para aquele garoto, com ar meio tímido que esconde um bom briguento, e por fim as situações sempre suavizam para seu lado. A história do gato é de matar, mas a carona para o aeroporto é o absurdo dos absurdos (para alguém em seu primeiro dia, ex-detento, precisando mostrar serviço).

Então ficamos com aquele amontoado de pequenas emoções e sensações que Ricardo Elias deseja retratar, sem conseguir resultado algum. Não consegue mostrar nada, quer dar um ar artístico para o aprendiz de motoboy que desenha HQ, tudo meio perdido, tudo muito vago, e por fim resolve transformar aquele único dia num momento fatídico e casual.

Sidney Santiago (Heracles) Jonas (Flavio Bauraqui)

A Leste de Bucareste

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A Leste de Bucareste (A Fost Sau N-A Fost?, 2006 – ROM)


De princípio a câmera é relativamente voyeur. São três os personagens focados por entre cantos e portas entreabertas, um professor constantemente bêbado, o dono de uma minúscula emissora de TV, e um senhor de idade. Retrata o despertar dos três, uma manhã. O professor acorda de ressaca e discutindo com a mulher (momentos engraçados), uma briga entre pai e filha por ela não querer cobrir o reveillon na tv, e o senhor de idade brigando (literalmente) com a TV.

Corneliu Porumboiu desenha ricamente a personalidade de cada um deles, ainda não sabemos aonde estes personagens irão se encontrar (ou confrontar). A segunda parte é uma, não diria crítica, uma constatação da realidade romena (ou seria a de todos os países do extinto Segundo Mundo?). Num programa de tv, nossos três personagens encontram-se debatendo fatos que ocorreram há dezesseis anos. Teria ocorrido uma revolução nessa pequena cidade a leste de Bucareste antes da queda do ditador Nicolau Ceausesco?

Nesse instante o filme descamba, a câmera inquietasse, porém não fica estática, o amadorismo do cameraman, o tosco no cenário e no programa em si, principalmente nos debatedores. É um desfile de gargalhadas, as discussões entre os participantes da mesa redonda e os telespectadores que os desmentem por telefone, retratos de um país com falsos heróis e um povo cansado de ser enganado, iludido, e assistir a tudo calado.

Fico me coçando de vontade de descrever alguns momentos inesquecíveis, onde é impossível conter os risos, é verdade que estão muito mais ligados à peculiaridade dos personagens, do que a estrutura proposta por Porumboiu, e daí? O filme é irregular, mas essas pequenas riquezas não vão sair da memória. Por exemplo, a fila dos amigos esperando o professor receber o salário para que ele pagasse as dívidas, ou o velho fazendo barquinhos de papel em pleno programa ao vivo. Um filme de pequenos e toscos, porém grandiosos momentos.


Jderescu (Teodor Corban) Manescu (Ion Sapdaru) Piscoci (Mircea Andreescu)



O show de Roger Waters foi simplesmente inesquecível, eu que nem era tão fã assim do Pink Floyd vou me obrigar a dar maior atenção às suas músicas porque finalmente descobri que há algo mágico ali. Nessa música em específico emocionei-me realmente, do meu lado um casal com mais de quarenta anos beijava-se apaixonado (após dizer algo como: “que ótimas lembranças), dois metros abaixo um senhor também com mais de quarenta chorava e repetia “que vergonha, mas não me agüento”. São essas coisas que deixam os momentos mais especiais, a música estava fantástica, o espetáculo visual idem, mas a emoção do público e as pequenas histórias que surgiram embaladas por aqueles acordes, isso não tem preço. Além de poder estar reunido com três dos meus quatro melhores amigos (contando apenas os homens), e ver um emocionado, outro alucinado como criança, sei lá, são emoções que a gente guarda a vida toda!



MÚSICA DA SEMANA


TIME
(Pink Floyd – composição: Mason, Waters, Wright, Gilmour)


Ticking away the moments that make up a dull day
You fritter and waste the hours in an offhand way.
Kicking around on a piece of ground in your home town
Waiting for someone or something to show you the way
Tired of lying in the sunshine staying home to watch the rain.
You are young and life is long and there is time to kill today.
And then one day you find ten years have got behind you.
No one told you when to run, you missed the starting gun.
So you run and you run to catch up with the sun, but it's sinking
And Racing around to come up behind you again.
The sun is the same in a relative way, but you're older
Shorter of breath and one day closer to death.
Every year is getting shorter, never seem to find the time.
Plans that either come to naught or half a page of scribbled lines
Hanging on in quiet desparation is the English way
The time is gone the song is over, thought I'd something more to say
Home, home again
I like to be here when I can
When I come home cold and tired,
It's good to warm my bones beside the fire
Far away across the field
The tolling of the iron bell
Calls the faithful to their kneesTo hear the softly spoken magic spells.

O Cheiro do Ralo

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O Cheiro do Ralo (2006)

Um escroto obcecado pelo fedor do banheirinho de seu escritório. O cheiro do ralo causa uma urgência, uma necessidade, lentamente toma forma de combustível para a mente insana e esquizofrênica de Lourenço. A sociedade não enxerga, mas vive a beira da merda, a consome, e hipocritamente a vilipendia. Gostamos de rir do bizarro, do escroto, do insano, nos divertimos com tudo que parece ridículo e absurdo, porém nossa inércia não nos deixa perceber que é a merda a sorrir da gente, toda essa bizarrice é metáfora para nossa própria vida.

Se mudássemos a montagem do filme, poderíamos ter várias esquetes com os mesmos personagens, porque o filme é isso, um conjunto de pequenas visões da sociedade, protagonizadas pelos mesmos personagens. Temos metáforas pertinentes, algumas situações muito engraçadas, resultando num filme escroto (tal qual o personagem) a se perder nesse lamaçal de estranhices. Lourenço compra e vende bugigangas (antiguidades), na verdade se diverte com o poder que o dinheiro lhe proporciona, vale muito mais a situação de compra e vende do que o produto em si. Cruelmente termina com a noiva, e pouco depois se apaixona por uma bunda, isso mesmo, não a mulher, a bunda dela.

O cheiro saindo do ralo, o dinheiro o corrompendo, a bunda, formam um mosaico de loucura capaz de enlouquecer completamente esse sarcástico e esquizofrênico ser. “O poder é afrodisíaco”, talvez seja a melhor frase do filme, não só por sua força de reflexão, mas por sua auto-afirmação nos atos e negociações. O cheiro é a obsessão, mas é o poder o causador da autodestruição de Lourenço.

Heitor Dhalia não consegue descolar Lourenço da simpatia do público, Selton Mello é fantástico, sarcático e humorístico, como de costume espetacular. Mas o filme não poderia ser o que deseja, tendo um personagem tão odioso e ainda capaz de criar tamanha empatia. E Cheiro do Ralo perde a oportunidade de mostrar suas verdadeiras garras, o público continua rindo da bizarrice, do ridículo, sem se ver nela. Nos resta lembrar dos momentos impagáveis como a garota dando ok, Lourenço não percebendo que mudou de garçonete, e a história de "... os convites estão na gráfica" (sacada genial que durante o filme se desenvolve finalizando ainda melhor), são momentos impagáveis, já que o resto é muito irregular.

Próximo Post: A Leste de Bucareste

O Doce Amanhã

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(The Sweet Hereafter, 1997 – CAN)

O primeiro plano é lindo, a câmera por cima focaliza um casal e seu bebê dormindo entre os lençóis brancos (como se fosse uma pintura de Caravaggio). Daí em diante tem início a vida pacata em uma cidade canadense, o drama de um advogado e sua filha drogada e o acidente que os unirá. O filme corre em vários tempos, a montagem brinca com presente, passado e futuro, há filmes em que essa artimanha é muito pertinente e interessante, em outros os sinais de arrogância de quem considera sua obra uma arte inquestionável são a razão.

E Atom Egoyan está presente na segunda opção, a montagem é apenas um dos elementos, o tom dos personagens, dos cenários, da trilha sonora, o conjunto todo é de causar ânsia. Aquele ar de “filme de arte” (odeio esse termo, prefiro dizer cinema alternativo) está impregnado em cada take, em cada leve movimento de câmera (aproximando-se e distanciando-se do foco central). E onde estará o doce amanhã de uma cidade que perdeu todas as crianças num acidente de ônibus escolar? Só na cabeça do Egoyan mesmo.

Desfilam um conjunto de personagens típicos de uma pequena cidade, a cena em que o advogado começa a pesquisar sobre as famílias é ótima, com um casal expondo os podres de cada morador (excetuando nossa casa, ninguém mais presta nesse mundo). Depois o oportunista advogado divide-se em tentar encontrar o ponto exato no drama de cada família (raiva, preocupação com a reincidência do acidente, interesse monetário), e atender aos telefonemas de sua filha viciada (simultaneamente o filme tenta dar ao advogado um lado humano e um lado corrosivo).

O resumo da ópera é, Egoyan cobriu-se de pequenas idéias as quais ele considerou geniais, depois distribui esses pequenos acontecimentos entre os personagens, e achou que unificando-os com uma montagem não-cronológica estaria resultando numa obra-prima (talvez haja quem concorde). Não sofremos impacto em nenhum drama, Egoyan nem sequer nos deixar apurar esse sofrimento, ele em mais cenas geniais e músicas pedantes para nos arremessar. Pelo menos Nicole nos salva de uma tragédia maior.

Mitchell Stephens (Ian Holm) Nicole (Sarah Polley) Billy (Bruce Greenwood)

O Raio Verde

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(Le Rayon Vert, 1986 – FRA)

Há toda uma explicação científica sobre as cores do arco-irís e o que nossos olhos conseguem ver, Julio Vernes escreveu um livro sobre ele, mas resumidamente o raio verde é o último dos raios de sol do dia. No exato instante em que o sol se põe no horizonte, enxergaremos seu raio na cor verde, e não amarelo como de costume. A cor verde possui toda uma mística no desenvolvimento do filme.

Dois rompimentos defloram a solidão em Delphine, o primeiro não é recente, seu noivado com Jean-Pierre, e o outro a desistência de sua amiga em viajarem em férias (nas vésperas). A partir dali tem–se uma mulher fragilizada, inconstante (ou melhor, constantemente triste), completamente entregue a solidão de sua alma. Fica tão evidente que todos passam a discutir abertamente com Delphine seu problema, obviamente machucando ainda mais aquele que se sente só.

Ela desiste de viajar, muda os planos, viaja para outro destino só que se sente deslocada, retorna, viaja novamente, e volta rapidamente, suas férias acontecem de galho em galho, não há lugar no mundo que a faça sentir-se em paz. Cada vez mais Eric Rohmer faz de Delphine uma chata, a melancolia é sua palavra de ordem, exibe-a como capricorniana. Não sei de astrologia, mas meu signo é esse, e por mais chata que Delphine se transformava, mais me identificava com ela em seu íntimo (causando repulsa e grande interesse simultaneamente).

Quando já estamos considerando aquela mulher insuportável, eis que surge uma companhia que a faz mudar o comportamento, então constatamos que Delphine apenas não conseguia ser sociável quando estava incomodada, não lhe fazia bem manter as aparências. Suas fraquezas estavam expostas por não encontrar formas de camuflá-las num daqueles comportamentos sociais falsos. Mais um dos filmes da série Comédias e Provérbios, Rohmer arremessa a protagonista na escuridão da solidão para lhe oferecer o raio verde.


Delphine (Marie Rivière)



MÚSICA DA SEMANA


OPEN YOUR EYES
(Snow Patrol)

All this feels strange and untrue
And I won't waste a minute without you
My bones ache, my skin feels cold
And I'm getting so tired and so old

The anger swells in my guts
And I won't feel these slices and cuts
I want so much to open your eyes
´Cause I need you to look into mine

Tell me that you'll open your eyes [x4]

Get up, get out, get away from these liars
´Cause they don't get your soul or your fire
Take my hand, knot your fingers through mine
And we'll walk from this dark room for the last time

Every minute from this minute now
We can do what we like anywhere
I want so much to open your eyes
´Cause I need you to look into mine

Tell me that you'll open your eyes [x8]

All this feels strange and untrueAnd I won't waste a minute without you

A Inglesa e o Duque

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(L'anglaise et le Duc, 2001 - FRA)

Imagine um quadro de Renoir, em movimento, pois é essa a estética visual que embasbacados teremos o prazer de admirar. A constante sensação é de olhar para um quadro, e ao invés daquela sensação estática, sermos surpreendidos pelo movimento daquelas figuras, pelo som. Eric Rohmer deu ainda mais vida à pintura, e isso não é brincadeira, são vários quadros focalizados e que ganham movimento (dezoito no total).

Partindo dessa visão onírica de imagem, desenrola-se a história da aristocrata britânica (Grace) e do Duque de Orléans. Ela uma adepta fervorosa da monarquia, vivendo na França em plena Revolução Francesa, sofrendo todas as mazelas impostas à aristocracia por Robispierre e seus pares. O duque foi seu amante no passado, agora são amigos inseparáveis, ele é sobrinho do rei, faz parte do congresso e ocupa posição de destaque no governo com a derrubada do rei.

Não é mais um filme histórico narrando os fatos da Revolução Francesa, é basicamente sobre as transformações causadas aos aristocratas, sobre suas convicções e ideais e a necessidade de lidar com aquele novo projeto de nação. Grace é determinista, inconformada, fiel aos seus ideais, trava longas discussões com seu querido amigo, o duque. Estamos compreendendo uma outra visão dos fatos, não necessariamente dos que foram derrubados do poder, mas dos que se aproveitavam dele e enxergavam nele o melhor para a França.

O filme não é só fantástico pela fotografia e essa proximidade com a pintura, nem pela consciência política que está enraizada em Grace e todos com quem dialoga. Há algo orgânico, emocionante, seja na angústia da decisão sobre a condenação do rei deposto, seja na defesa contra a acusação de espiã, ou no medo de ser descoberta dando abrigo a um ex-governador, estão balbuciando a época, o momento, o contexto histórico. Os planos fixos e gerais, a formalidade, o classicismo, Rohmer resgata sensivelmente todo o horror vivido por aqueles que não estavam a favor da revolução.

Grace Elliot (Lucy Russel) Duque de Orléans (Jean-Claude Dreyfus)

Prêmio Jairo Ferreira

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Só posso dar os parabéns, por tudo. Pela iniciativa, pelo formato leve e despojado (quase nos moldes mesa de bar), pela homenagem a Jairo Ferreira. A noite de ontem foi inesquecível, porque a crítica cinéfila brasileira está sendo oxigenada, tem preferências próprias e um imenso desejo de refletir e de se apaixonar pelos filmes. E ontem foi a celebração de tudo isso, o ponto alto foi o discurso do Valente, mas tudo foi delicioso (o curta O Guru e os Guris do Jairo Ferreira era ótimo e perfeitamente condizente com a proposta da noite).

Parabéns ao CineSesc por ter apoiado e principalmente parabéns para essa molecada que tem fibra e corre atrás do que acredita. E está fazendo acontecer, de forma humilde, de seu modo, mas está buscando. E ainda teve o filme do Beto Brant (que aliás toda a equipe, inclusive o diretor estavam nas poltronas da fileira exatamente na minha frente), Cão sem Dono é um belo filme, escrevo mais com tempo e perto de sua estréia que está programada para maio-junho. Que venha a segunda edição, que essa brincadeira tenha vindo para ficar. E de quebra encontrei amigos por lá...

Ladrões de Bicicleta

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(Ladri di Biciclette,1948 - ITA)

As recordações transitam pela memória, e todas levam a uma única lembrança marcante, angústia. Há tanta angústia exprimida nas feições de Antonio Ricci que toda a temática social, registrada de forma ultra-humana e integralmente alinhada a uma veracidade sem limites, restringem-se a segundo plano dado todo o esplendor com que se trata o amargor, a angústia de Antonio Ricci. Não se pode renegar a visão esquerdista acusatório e precisa, mas nessa triste história de dissabores e dificuldades, esse sentimento tão negativo sobressai-se de maneira avassaladora.

Culpa de um Lamberto Maggiorani soberbo, e culpa também de Vittorio De Sica capaz de flagrar toda a volúpia do olhar do ator, todo o martírio explicitado em cada gota de suor, em cada gesto de desanimo, por cada triste lamento. É um filme triste, de uma história triste, sobre uma vida triste, reflexo de um conjunto imenso de vidas ainda mais sofridas e desiludidas. O desemprego joga a auto-estima a níveis irrecuperáveis, num sopro de sorte nossa figura central finalmente arranja um ganha-pão. Mas o emprego requer uma bicicleta, e a dele está penhorada.

Esse é apenas o início do martírio, o primeiro momento de angústia. A vida é muito injusta, o destino então dos mais cruéis que se tem notícia. Estamos verificando o quão corruptível é o homem, até que ponto deixamos de lado a razão para que o instinto animal dê o ar da graça. Chega um momento em que as decisões perdem a lógica. Será que os fins realmente justificam os meios? De Sica assola essa família com todas as dificuldades possíveis, para depois deixar essa pergunta no ar, estaria o diretor querendo justificar uma resposta?

Não sei, e pouco interessa, a resposta está dentro de cada um. O que não se pode negar é a angústia que continua soberana por cada plano, um aperto de mão guarda um dos momentos em que não esquecerei jamais, o ato e a força tentam transmitir segurança (algo como sinta-se seguro comigo, está tudo bem), só que nem o mais ingênuo dos humanos não seria capaz de perceber o arrependimento, a dor, a frustração que aquela pressão de uma mão sobre a do outro significa. Mais um daqueles momentos mágicos que vou guardar comigo, só o cinema é capaz de nos transmitir.

Antonio Ricci (Lamberto Maggiorani) Bruno (Enzo Staiola) Maria (Lianella Carell) Baiocco (Gino Saltamerenda)



MÚSICA DA SEMANA

ATÉ PARECE

Marisa Monte (Composição: Marisa Monte, Dadi, Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown)

Até parece
Que não lembra que não sabe
O que passou
Não faz assim
Não faz de conta que não pensa
Em outra chance para nós dois
Olha pra mim
Não me torture, não simule
Não me cure de você

Deixa o amanhã dizer
Deixa o amanhã dizer

Sonhos com Shangai

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(Qing Hong / Shangai Dreams, 2005 – CHI)

Na década de sessenta o governo chinês temia uma invasão da poderosa vizinha URSS em regiões pouco habitadas do país, adotaram a estratégia de povoar estas regiões no interior criando pólos industriais (chamados terceiro fronte). Inúmeras famílias deixaram Shangai para trabalhar nas fábricas, buscar novas perspectivas de vida. Agora na década de oitenta esses imigrantes vivem do arrependimento de ter partido da cidade estruturada, rica culturalmente, e cheia de oportunidades para os filhos.

Há dois temas muito bem delineados, um deles é esse arrependimento, o desejo de retornar a Shangai, a frustração de não ter conseguido alcançar o desejado conforto financeiro e agora ver os filhos crescidos sem oportunidades, distante de boas escolas, isolados em pequenos vilarejos rurais. Os pais fazem reuniões secretas, planejam deixar seus empregos, mas tudo é velado, o regime comunista não permite a liberdade de escolha, por isso aguardam ansiosos por uma transferência, lutam por esse remanejamento. O outro ponto é facilmente encontrado nos filmes chineses, a educação extremamente rígida exercida sobre os filhos e os confrontos inevitáveis entre gerações. Quin Hong no alto de seus dezenove anos é perseguida descaradamente por seu pai (Lao Wu), obrigando-a a se concentrar exclusivamente nos estudos, proibindo-a de qualquer outra atividade social.

Em meio ao desenvolvimento conjunto desses dois pontos Wang Xiaoshuai nos oferece travellings lentos, movimentos convidativos, a câmera nos convida a ficarmos à vontade naquela casa singela, como se estivéssemos de passagem pelos cômodos e diminuíssemos a velocidade dos passos para ouvir as conversas, contemplar os objetos e sua disposição. Fora isso, há o início das descobertas culturais do ocidente, músicas, roupas, cortes de cabelo (tudo da década passada). Os bailinhos, as brigas de gangue, é o princípio da ocidentalização, enquanto os jovens começam suas próprias libertações.

O filme ganha um ar carregado, um tom de tragédia familiar em sua fase final. A paciência dos descontentes, que sonham com o retorno a Shangai, chega ao limite. Quin Hong sofre com a repreensão do pai a um namorico que ela flertava com um rapaz “local” (o que a impossibilitaria de voltar a Shangai, aliás, fica explicito o preconceito entre locais e imigrantes). Após um incidente assombroso os dois temas fundem-se, sonhos desmoronando, a perda das ilusões, o peso da situação pode ser notado nos rostos de cada personagem, no ritmo da direção, na cor da fotografia impecável. Estamos falando de um drama familiar, estamos falando de um drama político, de uma discussão social-cultural, estamos mesmo é fazendo uma paridade entre autoritarismo e um desejo libertário. E aquele sorriso tímido no final é o xeque-mate de um filme que transcorreu singelo e sóbrio, e terminou conseguindo nos apoquentar.

Quin Hong (Gao Uanyuan) Lao Wu (Yao Anlian)
Vários assuntos extra-cinema têm girado na minha cabeça, alguns deles devem desembocar por aqui (por mais que haja mais de trinta filmes com textos já escritos). Estava quase escrevendo sobre a volta da amizade na minha vida, não a ausência de amigos que agora estaria preenchida (pelo contrário, felizmente estou bem servido de amigos), mas a existência de um grupo de amigos com contato muito próximo, com troca constante de experiências. Aquela turma em que tudo que você vai fazer, já pensa se será possível fazer em conjunto. A idéia girava mais precisamente em como se formou (ou melhor como me inseri) num quinteto sólido e heterogêneo que mais parecem saídos da história do Mágico de Oz. Vou amadurecer melhor essa idéia, quem sabe mais pra frente, já que o Homem-de-Lata matou a pau num texto levemente parecido.

Hoje tive um estalo de fazer uma espécie de alerta, não que seja algo grave, mas tenho certeza que muitas pessoas não se dão conta do que vou escrever. E posso afirmar porque trabalho com isso, mesmo não tendo conhecimento técnico sobre o assunto, estou vendo o que acontece, ouço os técnicos dizendo, aprendi muito depois de mais de dez anos trabalhando nessa área. O estalo veio de um artigo do Estadão, assunto esse que sempre acabo comentando ultimamente. O artigo tratava sobre o boom do refrigerante H2OH, isso mesmo refrigerante, e as exigências tomadas pelas autoridades a fim de separar esse produto das águas minerais. O centro da questão está na falta de costume do consumidor em ler os rótulos dos produtos, caindo na rede das campanhas de marketing. Quantas e quantas pessoas não estão comprando H2OH achando que se trata de água com um toque de limão. É uma bebida carbonatada (com gás), tem todos os ingredientes que possui um refrigerante, no próprio rótulo está escrito refrigerante. Isso quer dizer que é um veneno para a saúde? Não, longe disso, mas que aquilo não é água com gostinho diferente, apenas um refrigerante com menor quantidade de edulcorantes e de carbonatação que o normal.

Então vou mais longe, vocês já perceberam as mudanças que os alimentos industrializados vem sofrendo nos últimos anos? Alguém se lembra de como era a consistência do requeijão? Tínhamos que tomar um cuidado enorme para ele não escorregar da faca e sujar a toalha de mesa (e consequentemente xingo dos pais). Pois leia o rótulo e a maioria dos produtos irá conter a descrição “especialidade láctea”. O que é isso? É uma imitação de requeijão, com mesmo rótulo, aparência parecida, e embalagem idêntica. Então não é requeijão? Mais ou menos, com o passar dos anos e a necessidade de redução de custos, as empresas foram obrigados a buscar alternativas e a Anvisa a alterar e criar novas categorias de produtos. Para o “novo” requeijão, foi permitido a substituição de alguns ingredientes por amidos modificados e outros produtos que fazem com que se aproxime muito do requeijão tradicional (ainda há 3, 4 marcas do tradicional no mercado), pena que apenas se aproximam. A consistência é diferente, o gosto também, e principalmente os valores nutritivos são mais pobres.

E não pensem que pára por ai, a maionese era feita basicamente de gemas de ovos e agora pode-se ter um nível maior de óleos e gorduras, substituindo o ovo que é caro. Consequentemente um produto com colesterol maior, menor valor nutritivo e etc. A margarina sofreu a mesma mutação (alguns também mudaram o nome para creme vegetal, e você nem percebeu). O chocolate também não é mais o mesmo, é possível substituir parte da manteiga de cacau por uma gordura fracionada e chegar muito próximo do que era o chocolate antigamente. Fora que se criou um novo produto “sabor chocolate” que na verdade é um compound com aparência e consistência e sabor muito inferior. A diferença dos dois está no limite de sólidos de cacau (pó de cacau, liquor de cacau e etc), e principalmente no gosto que é completamente. Só que é mais barato né. Normalmente esse segundo está sendo usado em coberturas (por exemplo nas barras de cereais). E quando lançaram aquela bebida tipo Tampico? Todo mundo achava que era suco de laranja, quando de suco da fruta não tem nada. Gatorade também tem seus sais, mas nada de fruta. São raros os repositores energéticos (verdadeiro nome dos produtos acima) que possuem ao menos 2% de suco de fruta.

Não pensem que pára por ai, são inúmeras as mudanças, já estão aparecendo os substitutos dos substitutos, e a coisa caminha num ritmo muito veloz. Calma para aqueles que se preocuparam com receio de que tudo seja venenoso, que produtos industrializados não prestam. Na verdade estamos perdendo parte do sabor que tínhamos (acostumando o paladar com o que é oferecido) e também ingerindo produtos menos saudáveis. Por outro lado surgem produtos mais caros e com ganho de valor nutritivo, infelizmente os preços não são acessíveis para as camadas mais pobres, mas há essa opção (bebidas à base de soja, diversos produtos com fibras). O segredo é ler os rótulos (que agora obrigatoriamente devem conter o valor nutricional de cada porção de produto).

Se meu chefe ou alguém do meu ramo de atividade ler isso aqui estou perdido (brincadeira), porque muitas dessas mudanças foram executadas por produtos que comercializamos aqui onde trabalho, fazem parte do meu dia a dia. Alguns anos atrás a Anvisa obrigou que a farinha de trigo fosse enriquecida com ferro, esqueceu de se preocupar com a biodisponibilidade, então a indústria decidiu pelo ferro reduzido que atinge os níveis de ferro exigidos no produto final, mas o corpo humano não absorve esse ferro. Resultado, não serviu de nada. Acho legal alertar meus amigos para que criem o hábito de ler os rótulos, entender um pouco do que estão comendo. Por exemplo, estamos desenvolvendo no Brasil um produto que irá substituir a gordura hidrogenada e assim diminuir as gorduras saturadas, gorduras trans e etc, principalmente em pães e biscoitos. Portanto enquanto a indústria corre para buscar soluções que diminuam os custos, também estão buscando alimentos mais saudáveis, daqui alguns anos todos saberemos melhor o que estamos comendo e quais os riscos de cada produto.

Para finalizar, uma pergunta simples e que possivelmente muita gente ainda não saiba. O que é exatamente diet e light? Qual a diferença? Quando surgiu o termo diet todos relacionavam a um produto para diabéticos, um ledo engano. A legislação diz que para ser chamado light, o produto deve reduzir em 25% algum de seus itens do similar comum. E para ser chamado diet a redução deve ser de 100%. Isso não quer dizer que essa redução deve ser de açúcar, pode ser de gordura e outras coisas. Para saber exatamente o que se está reduzindo é necessário ler rótulos. Um produto diet pode chegar a ter mais açúcar do que seu similar por exemplo, tudo depende.
Vou ficando por aqui, só para vocês saberem que quando o assunto não é cinema, ele não precisa necessariamente ficar preso a baladas e encontros ou coisas do coração. Se preparem para a enxurrada de produtos concorrentes desse H2OH, é questão de dias. E podem beber, desde que saibam que não é água, é refrigerante.
(Notes on a Scandal, 2006 – RU)


Pretendo falar o mínimo possível do filme, não que qualquer informação irresponsável possa estragar aos que ainda não assistiram, não há muito mesmo a explanar sobre a história escandalosa de uma professora envolvendo-se com um aluno adolescente, já que infelizmente deixou de ser novidade há algum tempo. Se bem que compreende um segundo assunto tabu na mesma trama. Vou me ater apenas a Richard Eyre sincronizando milimetricamente vários travellings com a trilha incidental de Phillip Glass, causando uma sensação íntima, delicada, e imensamente presente.

Desejo mesmo é gastar minhas linhas com essa dupla estupenda de atrizes. Judi Dench e Cate Blanchett, capazes de nos envolver de tal forma que chegamos a esquecer por alguns instantes do que está acontecendo, para apenas admirá-las, reverenciá-las. Cate Blanchett há tempos fincou seus pés no hall das grandes atrizes de sua geração, seu sorriso é de um sabor licoroso, o olhar profundo, e seu gestual e modo de falar caracterizam esplendorosamente aquela professora de artes. Por outro lado Judi Dench oferece uma aula, não de história como sua personagem sugeriria, mas de interpretação, de sensibilidade, de transformação em poucos milésimos de segundo. Dench nos deixa boquiabertos a cada instante, a cada nova fala, seu sorriso seco e olhar penetrante resumem sua mente diabólica, dominadora, a faceta ora doce e compreensiva ganha rapidamente contornos psicóticos. Determinada, friamente amorosa, uma víbora megera.

Até já vimos essa Bárbara no cinema (em outras peles), mas nada como a dualidade transmitida por Dench, há algo ali de extraordinário, de fundamental, ela não perde a pose e ainda assim consegue ser rude, fatal, psicótica, e tão sensível. A dupla em cena realmente impressiona, faltam adjetivos para explicitar. E quando você já está buscando na memória a coleção das grandes cenas do filme, surge um Bill Nighty abrindo a porta de casa e desabafando com a esposa de uma forma tão humana, tão carregada de sensibilidade, soltando um “mas eu estava ali” que só o silêncio do olhar e do próprio público podem representar um pouco do poder que aquela cena impetrou. Um momento deliciosamente fulminante.

Barbara (Judi Dench) Sheba (Cate Blanchett) Richard (Bill Nighty)

O Grande Momento

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(1957)


Impressionante como Roberto Santos resumiu de forma tão precisa e elaborada uma verdade imensamente brasileira. Para muitos a festa de casamento é o grande momento das vidas, o problema são os custos para que a celebração saia como nos sonhos. Dentro de nossa realidade tão pobre e oprimida, nos divertimos com as peripécias de Zeca e sua família para que o momento tão aguardado realize-se com primor.

Buscar o terno, comprar bebidas, escolher o fotógrafo, preparar as malas para a lua-de-mel, brasileiro sempre deixa as coisas para a última hora. Ainda mais quando não há dinheiro para tantas “extravagâncias”. Zeca tenta esconder suas situação financeira da noiva, não quer estragar seu grande momento, por isso faz das tripas coração para atender todas as formalidades de uma festa de casamento. Já num momento de stress e desespero vende sua bicicleta, na cena mais linda e poética do filme, Zeca pedala sua última liberdade despedindo-se de sua companheira, a bicicleta.

Pelo longo e agitado dia dos noivos, Roberto Santos nos apresenta pequenos detalhes que se mostram tão presentes em nosso cotidiano. Há uma ingenuidade de outras épocas, fruto do evidente Neo-realismo impregnado no filme, mas isso não resulta em pontos negativos, ao contrário, retrata ainda melhor a época em questão sem que o saudosismo imperasse. Os detalhes de última hora, a falta de cálices para servir um convidado, as eternas brigas entre irmãos, bebida acabando, baixarias. Não é preconceito, mas isso tudo é muito brasileiro, esse amadorismo que os ternos e vestidos não escondem, só se torna sinônimo de diversão. Estamos nos vendo a cada instante em cena.

Paulo Goulart em estado de graça, capaz de construir um personagem repleto de malandragem em sua bicicletaria suburbana, tomado de requinte e fino trato quando vestido com um terno para o casamento. E se Roberto Santos não tivesse conseguido expor na tela nossa sociedade tal como ela é, ainda assim haveria a seqüência final, que pode parecer tão singela e talvez clichê, porém capaz de levantar discussões internas com nossa consciência: até que ponto devemos esconder situações querendo poupar pessoas que amamos. Não estamos sofrendo e criando um problema maior do que ele realmente é? Por outro lado, o medo faz parte da natureza humana.

Zeca (Gianfrancesco Guarnieri) Angela (Myriam Pérsia) Atílio Santini (Jaime Barcellos) Vitório (Paulo Goulart)



MÚSICA DA SEMANA:


THE SCIENTIST
(Coldplay - Composição: Berryman/Buckland/Champion/Martin)


Come up to meet you, Tell you I'm sorry
You don't know how lovely you are
I had to find you, Tell you I need you
And tell you I set you apart
Tell me your secrets, And ask me your questions
Oh let's go back to the start

Running in circles, Coming up tails
Heads on a silence apart

Nobody said it was easy
It's such a shame for us to part
Nobody said it was easy
No one ever said it would be this hard
Oh take me back to the start

I was just guessing at numbers and figures
Pulling the puzzles apart
Questions of science, science and progress
Do not speak as loud as my heart
And tell me you love me, Come back and haunt me
Oh and I rush to the start

Running in circles, Chasing tails
Coming back as we are

Nobody said it was easy
Oh it's such a shame for us to part
Nobody said it was easy
No one ever said it would be so hard
I'm going back to the start

Faces

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(Faces, 1968 – EUA)

Desmantelando, as peças que formavam o casamento do alto executivo Richard com Maria desabam a cada fotograma. Peças essas são todas as relações e sentimentos que sedimentavam este matrimônio, está tudo ali caindo, quase podemos sentir o gosto do veneno destilado na telona, escorrendo lacrimoso. O término do casamento é o meio, o alvo é a classe-média alta e sua pomposa posição social, sua sordidez camuflada por trajes elegantes, jantares finos e desfile de etiquetas.

Primeiro Richard conhece Jeannie num bar, logo em seguida deixa sua esposa para buscar os braços de Jeannie, enquanto isso Maria afoga suas mágoas envolvendo-se com um garoto de programa. Narrar esse resumo do filme é praticamente não dizer nada, já que o desenrolar dos fatos é mera formalidade, quase desinteressante. O valor de Faces está na presteza das longas seqüências, no formato desenvolvido por John Cassavetes, no sem número de emoções e verdades que cada diálogo corrosivo teima em apontar.

A casa chique, o terno alinhado, o vestido delicado, apenas embalagens, Richard trava um maçante duelo alcoólico com seu amigo pela generosidade de Jeannie, perdem o senso do ridículo remetendo aos momentos juvenis. Mais tarde um novo duelo, dessa vez com outro executivo, caso estivessem num jantar de negócios seriam pessoas completamente diferentes, mas ali estão sedentos por seus objetivos, e o principal deles chama-se prazer. Na outra ponta Maria e suas amigas divertem-se (ou tentam) com o garoto de programa, seus pudores não permitem que ultrapassem algumas barreiras, sentem-se horrorizadas pelo comportamento pouco samaritano de uma das amigas, é a hipocrisia, a inveja.

Tal qual a maioria dos casamentos, aquele era mais um de fachada que os cônjuges teimavam em manter aparências, o descontrole das turbulentas situações arquitetadas por John Cassavetes apenas figuram como flagrante para a hipocrisia social. Com seus enquadramentos penetrantes, Cassavetes nos proporciona a sensação de dividir o sofá da sala com aqueles personagens, os cortes parecem tão aflitos quanto as situações, uma sensação de movimento, de pontos de visão opostos. O desmantelamento discutido é da classe-média, e toda a hipocrisia que resguarda por atrás de sua pose e arrogância.

Richard (John Marley) Jeannie (Gena Rowlands) Maria (Lynn Carlin) Chet (Seymour Cassel)

Antônia

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(2006)

Querer fazer um retrato da periferia englobando o máximo de questões possíveis é um grande problema. Porque sempre há muita história para contar e pouco tempo para isso, e aonde caímos? Na superficialidade, na necessidade de se pular etapas e demonstrar logo os resultados, na aceleração do tempo causando a impossibilidade de depuração do público de tudo que se está vendo. Então Antônia acaba por ser um filme leve incrementado com recheio pesado e dolorido que mal sentimos o gosto.

Quatro mulheres, jovens, negras, cultivando um sonho desde crianças, cantar. Em meio a seus dramas pessoais e imensas dificuldades, elas lutam pelo que acreditam, formam o grupo (Antonia) e iniciam carreira em pequenos bares e festas. Nesse momento que a periferia entra de vez na vida dessas mulheres, a violência, namorados, gravidez, brigas.

Deveria ser um filme sobre garra, sobre superação, não é, Tata Amaral fez um filme sobre a amizade e nesse quesito está o melhor que Antônia guarda. Porque trata a amizade tal qual ela é, cheia de discordâncias, opiniões contrárias, brigas e discussões (até mesmo separações), mas a amizade sempre está rondando aquele quarteto e em sua união está sua verdadeira força.

Thaide nos agracia com momentos mágicos de um humor cativante, Negra Li e Leilah Moreno são os destaques no quarteto, tanto por suas vozes poderosíssimas (se estivessem nos EUA já seriam uma Beyoncé da vida) quanto por suas interpretações precisas. Entramos pela porta da frente no mundo da periferia, cheio de dramas, com problemas para todos os lados, e ainda assim com alegria, com muitos sonhos, porque no dia em que os perdemos fica difícil até mesmo levantar da cama (como bem disse Bárbara).

(Negra Li) Bárbara (Leilah Moreno) Lena (Cindy) Mayah (Queniah)





Tudo bem que eu devo ter dormido umas 28 horas nos últimos 7 dias, mas o Gringoday de ontem foi imperdível, hilário, quatro brasileiros, dois finlandeses e uma alemã, na mesma mesa, falando diversas línguas, contando diferenças com muito bom-humor e depois caindo no samba-rock. Hoje ainda vai ter mais!!!

Próximo post: Faces [John Cassavetes]

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Michel Simões