fevereiro 2007 Archives

Pequena Miss Sunshine

| | Comments (0)
(Little Miss Sunshine, 2006 - EUA)

E o Oscar vai para a kombi amarela, porque ela é simplesmente o máximo. Tudo bem que Arkin compôs um personagem inesquecível, que Greg Kinnear se firma cada vez mais como um talentoso ator, ou que Toni Collette e Steve Carell representem seus personagens de forma tão natural, que a prodígio Abigail Breslin encanta. E principalmente que Paulo Dano está espetacular (e quase ninguém se lembra de citar). Tudo isso forma o caldo, mas o charme todo está naquela kombi amarela com problemas de embreagem. Fale em Pequena Miss Sunshine e a primeira lembrança será da kombi.

Então é só aquele carro desajeitado o causador de tanto sucesso? De jeito nenhum, há dentro daquela geringonça ambulante uma caricatura familiar elaborado com requinte, sarcasmo e um toque de sabedoria, fruto de um roteiro consistente não preocupado apenas em criar situações cômicas. O cômico do filme surge naturalmente, como quando Richard é parado pela polícia e pede para a família fingir-se de normal. Normal como? Ele um alucinado por uma técnica de auto-ajuda furada que ele mesmo inventou. O filho adolescente em voto de silêncio, manda recados em blocos e não esconde odiar a todos. O avô viciado, o tio gay, culto e suicida e assim sucessivamente.

Num primeiro olhar, parecem um bando de perdedores, só que essa é uma análise rala, estritamente superficial, estamos falando de pessoas incomuns, sim desequilibradas, mas ainda assim repletas de um entusiasmo. Talvez seja esse o adjetivo do filme, entusiasmo, seja ele de Richard ao falar dos nove passos, seja de Olive com a participação no concurso, seja Dwayne (sim ele mesmo) em se tornar piloto de caças. E esse entusiasmo tão difundido entre uma família tão heterogênea é transmitido para além da película. Isso porque o filme é simplesmente hilário, inteligente, crítico sem ser óbvio.

A direção de Jonathan Dayton e Valerie Faris começa com o espírito de enquadramentos indies e tudo mais que anda em moda (e acaba perdendo a graça), porém com o passar do tempo, estamos tão entretidos com o entusiasmo daquela família, seus micro-problemas que dissolvem-se ou eclodem em velocidade exorbitante, que até mesmo a câmera aquietasse sem cair no óbvio. E Dwayne me surpreendeu, tanto mal-humor e doçura, uma ojeriza forçada e típica da adolescência, a cena do abraço talvez seja a mais marcante, aquele garoto soube condensar o terremoto de emoções que seu personagem sugeria.

Olive (Abigail Breslin) Richard (Greg Kinnear) Dwayne (Paul Dano) avô (Alan Arkin) Sheryl (Toni Collette) Frank (Steve Carell)

no Rio

| | Comments (14)

Primeira vez no RJ. Via crucis até reunir a galera para a viagem. Horas de estrada entre papos e música. Uma primeira visão noturna da cidade maravilhosa. Primeira olhadela em Copacabana. Jogar as malas no hotel e correr para a Lapa. Monobloco na Fundição. Um mar de gente, um desfile de globais dançando do lado. Pular até as cinco da manha. Dormir até meio-dia. Curtir praia em Ipanema. Primeira parada no Belmonte. Segunda parada no Conversa Fiada. Olhar para aquela cidade boemia, acolhedora, viva. Volta ao hotel. Acordar 7:30. Desfile do Monobloco na Av Atlântica. Pular que nem canguru no meio da multidão atrás do trio-elétrico. Se acabar ao som do pout-pourri acelerado de Ben Jor já depois do meio-dia. Quatro horas num céu azul, sem uma nuvem. Dali direto para a Pedra da Gávea. Voar de asa-delta. Paisagem linda, momento antológico, o tempo parou. Hora de voltar. Resumo da viagem, conhecer tanta gente animada e interessante, babar no cinema de rua em frente a praia, entender porque todo mundo dizia que o Rio é tão lindo, começar a entender cada região e cada lugar, ver o Cristo de longe, passar na frente do Jardim Botânico. E ter a certeza de que muitas visitas ainda serão necessárias. Riscando vários daqueles itens da lista fazer-obrigatoriamente-antes-de-morrer. E ainda tinha a viagem de volta, cinco amigos no carro (dois finlandeses), cantando e dançando que nem criança, fazendo coreografia, overdose de risada. Só deu para chegar em casa e assistir os cinco últimos Oscars, e ganhou o melhor filme, e finalmente Scorsese ganhou, está todo mundo feliz. E quem fez essa viagem muito mais. Tudo num fim de semana.






Essa vai para a Stelinha (que nos deixou órfãos provisoriamente)




MÚSICA DA SEMANA:


TAJ MAHAL / FIO MARAVILHA / PAÍS TROPICAL
(Monobloco - Composição: Jorge Ben Jor)

Foi a mais linda história de amor
Que me contaram e agora eu vou contar
O amor do príncipe Shah Jahan pela princesa Nuts Mahal
O amor do príncipe Shah Jahan pela princesa Nuts Mahal

Tetê, tetê, teteretê, teteretê
Teteretê...

Taj Mahal...

E novamente ele chegou com inspiração
Com muito amor, com emoção, com explosão em gol
Sacudindo a torcida aos 33 minutos do segundo tempo
Depois de fazer uma jogada celestial em gol.
Tabelou, driblou dois zagueiros
Deu um toque, tirou o goleiro
Só não entrou com bola e tudo porque teve humildade em gol
Foi um gol de classe onde ele mostrou sua malícia e sua raça

Foi um gol de anjo
Um verdadeiro gol de placa
Que a galera agradecida assim cantava

Fio maravilha
nós gostamos de você
Fio maravilha
Faz mais um pra gente ver

Moro
Num país tropical
Abençoado por Deus
E bonito por natureza, mas que beleza!

Em fevereiro, em fevereiro
Tem carnaval, tem carnaval
Eu tenho um fusca e um violão
Sou Flamengo e tenho uma nega chamada Tereza

Sambaby, Sambaby
Posso não ser um grande líder
Pois é
Mas assim mesmo feliz da vida, contente
Meus camaradinhas me respeitam
Essa é a razão da simpatia,
Do poder do algo mais e da alegria

Sambaby, Sambaby
São milhões de mentalidade medianas
Pois é
Mas assim mesmo levo a minha vida feliz e contente
Pois não devo nada a ninguém
Pois sou feliz, muito feliz, Muito feliz comigo mesmo

Borat

| | Comments (0)
Borat: O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América (Borat: Cultural Learnings of América for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan, 2006 – EUA)

Rir do ridículo não é das maneiras capazes de muito me agradarem, sempre tenho uma visão negativa desse humor óbvio e gratuito, realmente desnecessário, para não dizer de mau-gosto. Evito por saber que não gosto, não foram poucas as experiências broxantes que tive nessa matéria. Eis que surge Borat, e um cardápio recheado desses elementos “desanimadores”. Uma das primeiras piadas trata da posição geográfica do Cazaquistão e seus vizinhos com nomes também incomuns. A piada faz parecer que a gozação é contra sua própria nação, quando na verdade eles estão rindo de nós ocidentais que não fazemos a menor diferença entre esse ou aquele país provindo da ex-URSS.

Borat apresenta-se como um repórter enviado pelo Cazaquistão aos EUA para fazer um documentário sobre as diferenças e aprender os aspectos culturais da grande potência. Rimos da falta de infra-estrutura e da pobreza, rimos dos costumes completamente esquizofrênicos na nossa visão, rimos do jeito desengonçado de Borat, e principalmente rimos de sua peregrinação pelos EUA.

O conjunto de situações ridículas, hilárias e espalhafatosas é constante. Tudo bem que muitas delas nós rimos sabendo que aquilo é artificial, escachado, porém pouco a pouco surgem seqüências filmadas em digital, com espontaneidade absoluta, e o que está nascendo daquele humor pastelão calcado num humor chulo é um painel da própria cultura norte-americana. Não estamos enxergando o país como a indústria quer que seja enxergado, mas sim da forma como as engrenagens trabalham. As reações violentas no metro, as feministas, o ápice no culto religioso. Borat vem com aquela camuflagem ridiculamente engraçada para na verdade expor o ninho dos costumes dos habitantes da nave-mãe.

Pensando em tudo isso, não é a direção de Larry Charles que nos surpreende, mas a verdadeira coragem, cara-de-pau, e senso de oportunidade encontrado por Sacha Baron Cohen para atuar e principalmente criar todo o argumento capaz de arregimentar toda essa arquitetura. Gargalhadas repetem-se a todo instante, Sacha esbanja naturalidade e irreverência, podemos rir do óbvio e patético, ou então ler nas entrelinhas desse contrato firmado entre aquela figura onipresente de bigode (que parece ter saído do Pânico na TV) e o público ávido por rir das diferenças tão gritantes.

Borat (Sacha Baron Cohen) Azamat (Ken Davitian)

Vênus

| | Comments (2)
Vênus (Venus, 2006 - ING)

A terceira-idade, sempre ela, passamos nossa existência inteira sabendo dos principais conflitos e melancolias que deverão nos afligir ao atingir tal época da vida. Ainda assim, torna-se impossível precaver-se, e aqueles males antes temidos acabam invariavelmente como a tônica do fim de nossa biografia. Veja o trailer e saberá exatamente o que esperar de Vênus, e não vais surpreender-se positiva/negativamente.

No mundo de dois senhores de idade avançada surge um ser estranho, um óvni para os padrões de costume de ambos. É apenas uma jovem vinda do interior para ajudar ao tio-avô que sofre dos males da idade, saúde debilitada. Reações completamente diferentes dos dois amigos, o tio Ian enxerga a sobrinha como a reencarnação do diabo, prefere a eutanásia a continuar vivendo sobre o mesmo teto. Seu amigo Maurice aproxima-se da garota, trava um diálogo, encontra pontos em comum.

Temos dessa estranha relação alguns pontos bastante interessantes, primeiro é a evidente diferença nas formas de se encarar a vida nessa idade, alguns preferem reclamar das dores nas costas e aceitar que os dias devem passar até que o fim chegue, de outro lado há aqueles que ainda não se contentaram com o que viveram e almejam mais, almejam estar com pessoas queridas, almejam atividade prazerosas, almejam quem sabe ainda amar. E isso não é tudo, a relação de amizade entre Jennie e Maurice (ou seja lá como se prefere chamar esse relacionamento) é muito honesto dos dois lados, ela encantada com qualquer facilidade financeira, enquanto ele compra pequenos prazeres por menores que sejam.

E ai que está, não está se falando de prostituir-se, mas sim de interesse. Os dois são interesseiros, jogam o jogo que eles mesmos criaram com as cartas abertas, cria-se uma cumplicidade, surge o desejo, o vislumbramento, e porque não a amizade. Maurice sente-se vivo, aceita os limites e imposições de Jennie, não estamos falando de um açucarado romance, é a honestidade quem fala mais alto no filme de Roger Michell, isso sem falar numa delicadeza na maneira de filmar, em alguns enquadramentos específicos, no agridoce.

A composição não menos que fenomenal de Peter O'Toole flui como a grande ferramenta que Michell tem nas mãos para que seu filme não saia dos trilhos. O humor misturado com melancolia chegando à dose certa, nesses moldes a cena do balde tornar-se-á inesquecível, assim como algumas declarações de Ian, e o pop doce de Put Your Records On cantado por Corinne Bailey Rae vai martelando na cabeça. Não por ser uma música inesquecível, ou um filme inesquecível, mas o som cai tão bem, chega em momento tão oportuno, condensa de forma tão delicada as sensações de Maurice e Jennie, que uma coisa liga à outra. Vênus é delicada e capaz de transpor na tela o verossímil, e isso é tão raro quanto prazeroso de se ver.

Maurice Russel (Peter O'Toole) Jennie (Leslie Phillips) Ian (Richard Grifiths)

De Cara Nova

| | Comments (2)
Na verdade eu nunca gostei do visual do blog, a acomodação foi deixando ele daquele jeito. Agora está melhor, ainda não do jeito que eu gostaria, mas já dá para pensar apenas no conteúdo. Caso me enfeze, posso mudar uma coisa ou outra, mas vai ficar com essa cara a partir de agora.

E estava tão louco esses que repeti informações, uma beleza, mas tudo bem, vamos em frente que o fim de semana vai ser no RJ!

Espero que gostem da cara nova, chega de experiências de cores e tamanhos de fontes, formatos e toda aquela purpurina...

PS: Já comprei meu ingresso p/ Roger Waters. E me livrei do contador de acessos tb!

Clint Japonês

| | Comments (3)
Confissão 1: Eu vi o trailer e não tive a menor vontade de ver, sim fiz mau-juízo, relutei, fugi, pensei que fosse um filme à la Wes Anderson, depois fui cedendo, finalmente assisti, e não tenho vergonha de assumir que estava enganado, adorei, seu nome: Pequena Miss Sunshine


Confissão 2: Estou apaixonado, completamente apaixonado, aliás faz tempo que ela me acertou em cheio, e cada dia que passa esse sentimento é mais forte aqui dentro, o coração bate mesmo descompassado, quanto mais vejo Celine mais fascinado fico, cada vez que a escuto cantar, falar, rir, chorar. Tudo tão doce, ela tão centrada, inteligente, dinâmica, graciosa. Se fosse para idealizar, seria Celine, não canso de assistir Before Sunset e me emocionar um pouquinho a mais!




Cartas de Iwo Jima (Letters From Iwo Jima, 2006 – EUA/JAP)

Fazer um filme sobre a ótica do outro é uma coisa, fazer um filme com a sua visão sobre a ótica do outro, é completamente diferente. Clint Eastwood almejava a primeira, porém realizou a segunda. Também um caubói norte-americano resolve fazer um filme falado em japonês, com atores locais, e ainda pretende tratar do patriotismo, e eu ainda acreditava que ele iria conseguir resgatar um pouco da cultura e aproximar-se das emoções e sensações que os soldados viveram ao defender Iwo Jima, o tolo nessa história sou eu.

Os soldados e demais militares escrevem cartas a seus familiares, planos fechados com atores fazendo cara de melancolia, tudo tão norte-americano, tão melodramático (acentuado por uma trilha sonora teimosa), ou minha visão do povo oriental é deturpada ou Eastwood não entendeu nada. Pelas cartas resgatamos um pouco da vida de cada um, os filhos e esposas que ficaram, e o que o cineasta deseja transmitir é algo como olhem-os-japoneses-também-são-gente. Quando um dos militares lê uma das cartas escrita pela mãe de um soldado inimigo, e entre uma explosão e outra os soldados japoneses comovem-se com aquelas palavras, chega-se ao limite do ultrajante.

Felizmente o filme não é só isso, a fotografia monocromática praticamente iguala os ambientes causando um espetáculo único. O destaque dado ao conhecimento de que a derrota são favas contadas e ainda assim todos (ou quase todos) lutam e morrem com fervor pela pátria, consegue finalmente trazer um pouco de veracidade àqueles personagens. E os suicídios em grupo são momentos fortes, para nossos olhos e para nossa reflexão. A história é baseada em relatos do general Tadamichi Kuribayashi, que tinha uma posição diferente da maioria, ordenando o recuo das tropas aos suicídios. Sabia muito bem ele que cada vida de um soldado valia muito, principalmente a inferioridade numérica e tecnológica que enfrentavam os japoneses.

E Clint Eastwood desperdiçou momentos de tensão que poderiam nos deixar boquiabertos, em A Conquista da Honra, quando a tropa desembarca na praia e começa a adentrar em Iwo Jima temos a visão de dentro das cavernas, os japoneses aguardando o momento exato de pegar o máximo de soldados desprevenidos. Aguardei muito por esse momento no filme-irmão, e as cenas estão lá, poucas e rápidas, muito mais preocupado estava Eastwood em se concentrar no general e no momento exato em que ele daria a ordem para atirar, perdeu a tensão, perdeu a sensação de armadilha, Eastwood perdeu a chance de tentar entender um pouco mais ao invés de colocar sua visão ocidental dos fatos.
Tadamichi Kuribayashi (Ken Watanabe) Nishi (Tsuyoshi Ihara) Saigo (Kazunari Ninomyia) S(Ryo Kase) Ito (Shidou Nakamura)

Idêntica

| | Comments (0)
Se eu contar o carnaval cultural que estou encarando, ninguém acredita, mas se eu falar que a Helen Mirren é xerox colorida da rainha, isso ninguém duvida! Vi inclusive em pré-estréia Borat e Vênus (aliás a música não sai da cabeça, uma delícia)!

A Rainha (The Queen, 2006 - ING)

A rainha dirige! A rainha até consegue sorrir! Da forma como é colocado, trata-se de um filme quase desnecessário, um documentário-ficcional; ainda mais que os fatos são tão recentes e muita coisa mudou desde então, principalmente a visão que se tinha do recém-eleito primeiro-ministro Tony Blair. Stephen Frears oferece uma dimensão de importância à monarquia britânica inflacionada, há tempos que a família real está mais para peça decorativa do que influente no poder. Tudo bem que as formalidades existem e o respeito do povo por sua rainha é algo admirável e indecifrável para nós.
O foco é a semana pós-morte da princesa Diana, mais precisamente a indiferença com que foi tratada a situação pela família real, e a grande comoção nacional pela morte da Princesa do Povo, ocasionando em níveis alarmantes de baixa-popularidade dos monarcas, em detrimento a estourada da aprovação de Tony Blair que acabara de assumir e apoiava funeral aberto ao público e todas as devidas homenagens a Diana.
Elizabeth II chora pela morte de um cervo, não pela mãe de seus netos, é essa frieza que esperamos encontrar na figura forte e preponderante da rainha. Helen Mirren não está lá, o que vemos é a própria rainha interpretando-se porque o tempo todo esquecemos que se trata de uma atriz, mais parece um conjunto de cenas de arquivo (já que muitas são assim com discursos do irmão de Diana por exemplo, ou o povo na rua chorando pela princesa). Diversas passagens são irritantes de tão bem filmadas por Stephen Frears, por ele transpor exatamente a visão que temos da intimidade real, a arrogância indiscriminada, o egocentrismo, e o marido da rainha então, um ridículo nobre.
E Tony Blair também está suavizado, nem parece o fantoche de Bush que se tornou desde a invasão ao Iraque. Aqui ele é um humano, que retira os pratos da sala e até lava a louça enquanto sua esposa assiste televisão, que fala ao telefone com camisa de futebol do seu time do coração. É bem verdade que durante um bom tempo Blair fez mudanças importantes no governo britânico, mas a visão de Frears é a de oferecer um bom-mocismo falso, além de querer devolver um status que a monarquia não possui, ainda faz de Blair o político perfeito.
Mas há um momento único, Elizabeth II caminhando próxima de seu povo, a população que estava amplamente revoltada com sua falta de atitude e de compaixão esquece rapidamente uma semana de criticas e enaltece sua rainha. Há um respeito tão grande e inexplicável por uma figura tão sisuda, arrogante, aristocrática e esnobe, que se arrepiar com aquela multidão é pouco. Aprendemos sobre os costumes da família real, nos irritamos com seu modo de vida pomposo e utópico, mas os britânicos veneram e por isso mantém esse abajur chique na sala. Helen Mirren, como você consegue?
Elizabeth II (Helen Mirren) Tony Blair (Michael Sheen)


MÚSICA DA SEMANA:


PUT YOUR RECORDS ON
(Corinne Bailey Rae)

Three little birds, sat on my window
And they told me I don't need to worry.
Summer came like cinnamon ,so sweet,
Little girls double-dutch on the concrete.

Maybe sometimes,
We've got it wrong, but it's alright.
The more things seem to change,
the more they stay the same.
Oh, don't you hesitate.

Girl, put your records on,
tell me your favorite song.
You go ahead, let your hair down.
Sapphire and faded jeans,
I hope you get your dreams.
Just go ahead, let your hair down.
You're gonna find yourself somewhere, somehow.

Blue as the sky,
sunburnt and lonely.
Sipping tea in the bar by the road side.
(just relax, just relax)
Don't you let those other boys fool you.
Gotta love that afro hairdo.

Maybe sometimes,
we feel afraid, but it's alright.
The more you stay the same,
the more they seem to change.
Don't you think it's strange?

Girl, put your records on,
tell me your favorite song.
You go ahead, let your hair down.
Sapphire and faded jeans,
I hope you get your dreams.
Just go ahead, let your hair down.
You're gonna find yourself somewhere, somehow.

Just more than I could take,
pity for pity's sake.
Some nights kept me awake,
I thought that I was stronger.
When you gonna realize,
that you don't even have to try any longer?
Do what you want to.

Girl, put your records on,
tell me your favorite song.
You go ahead, let your hair down.(go let your hair down)
Sapphire and faded jeans,
I hope you get your dreams.(hope get your dreams)
Just go ahead, let your hair down. (Baby, let your hair down)

Girl, put your records on,
tell me your favorite song.
You go ahead, let your hair down.
Sapphire and faded jeans, (Sapphire and faded jeans)
I hope you get your dreams.
Just go ahead, let your hair down.
Oh, You're gonna find yourself somewhere, somehow

Dreamgirls

| | Comments (0)
Como isso aqui virou uma bagunça, prometi mais dois Cassavetes e estou entregando um musical, vão se acostumando. A vida está tão louca que já vi e escrevi sobre Borat e Vênus, e nem vi ainda A Rainha e Cartas de Iwo Jima.

Dreamgirls – Em Busca de um Sonho (Dreamgirls, 2006 - EUA)

E a característica mais marcante não está no filme propriamente dito, e sim na atitude de encará-lo. Digo isso porque estava assistindo e não acreditando que se tratava de Beyoncé naquele papel de uma cantora com voz sem sal que se torna líder do grupo musical exclusivamente por sua beleza magistral (cheguei a confirmei se era ela mesma com o amigo do lado). Oras Beyoncé é uma diva do mundo pop, assumiu um papel flagrando o retrato de sua própria carreira, afirmando que talento não é nada em detrimento dos aspectos físicos. Em certa altura afirma-se que sua voz não tem personalidade, nem potência, é apenas suave, estão falando de Deena (e também dela mesma e de tantas outras cantoras de mega-sucesso internacional).
The Supremes com Diana Ross serve de inspiração para a história de The Dreams, três jovens sonhando com a carreira musical conseguem dar início como backing vocals do cantor James “Thunder” Early. Mais tarde deixam a sombra do cantor para o sucesso na carreira solo, sem antes enfrentar uma série de dificuldades (principalmente internas com a saída de uma delas por excesso de orgulho e vaidade).
O que mais falta em Dreamgirls são canções empolgantes, ou temos Jennifer Hudson (em atuação marcante, reafirmando-se a cada cena com atitude e inconformismo) e sua voz potente e explosiva mostrando todo seu talento, ou temos canções substituindo diálogos, ou as apresentações de The Dreams e James Early. Portanto música é o que não falta, só que praticamente todos esses números musicais estarão fadados ao esquecimento, salvo quando Effie expõe sua indignação com a decisão dos demais contra ela e quando Early cansa de suas música modorrentas, e de sucesso, para tocar algo com mais swing.
Assim como nos números musicais, a grande maioria dos personagens é fraco e pouco desenvolvido, aliás além de Hudson, Eddie Murphy é o único a destoar do ritmo sem graça da maioria. Primeiramente por criar uma figura única, aquele charme meloso, o topetão, o sorriso, Murphy vem bem o tempo todo, até que num mero olhar de apenas um segundo ele se afirma como um grande ator, enquanto desabotoa sua camisa apenas mexe a cabeça em direção de quem está falando, o olhar é tão penetrante que dispensa o uso de palavras.
Bill Condon dirige esse conjunto de irrepreensíveis detalhes técnicos que não conseguem resultar num espetáculo fabuloso, está tudo ali perfeito, faltando um mero detalhe, um algo mais, falta emoção, falta fibra, falta realmente vibração. Dreamgirls tenta ser retrato de uma época da indústria musical, cria o agente que se torna um vilão-magnata, o outro agente que não se vende ao sistema, as cantoras que deixam sua personalidade de lado a favor do sucesso, está tudo ali exposto na tela, só falta realmente acreditarmos.

Deena Jones (Beyoncé Knowles), Lorrell Robinson (Anika Noni Rose) e Effie White (Jennifer Hudson) Curtis Taylor Jr. (Jamie Foxx) James "Thunder" Early (Eddie Murphy)

Semana Cassavetes III

| | Comments (0)
Uma Mulher Sob Influência (A Woman Under the Influence, 1974 – EUA)

Retrato cru do perfil familiar de uma classe média baixa setentista norte-americana. O homem (Nick) trabalha duro e incessantemente, falta-lhe constantemente tempo para o lar. A mulher (Mabel) bebe, entope-se de pílulas, cuida dos três filhos pequenos. O homem ressente-se da impossibilidade de oferecer atenção à mulher, enquanto ela almeja, anseia, amarga o tédio e a falta do marido.
Com cinco minutos de filme já estamos tomados por aquela família, Mabel nos dominou de uma tal forma que almejamos, desesperadamente, saber mais sobre aquela mulher, conhecer os desdobramentos que sua virá tomará. John Cassavetes nos conquistou com seu estilo intimista, sua atmosfera devastadoramente realística, não é um filme documental, mas o documento de uma sociedade contemporânea. Estamos imersos nos cômodos daquela casa, no desequilíbrio daquela mulher. Os 155 minutos passam como se fossem 90, cenas em tempo real onde os destemperos são construídos ao seu tempo, notamos cada pequeno detalhe a construir um comportamento.
O casal combinara de ter uma noite a dois, despacharam os filhos para casa de uma avó (Mabel arrepende-se no mesmo instante em que o carro sai da garagem, cena tão linda e tão real), um acidente termina com os planos. Mabel sentada à mesa de jantar, fumando, pés sob a mesa, cabelo esvoaçado, expressão de desconsolo, copo na mão, que momento, que cena, que atriz (Gena Rowlands).
O roteiro é um fiapo, Cassavetes calca sua história em poucas e longas seqüências, concentra-se em discussões e impulsos emocionais dentro dos cômodos daquela casa modesta. Os personagens são cheios de defeitos e qualidades, rompantes raivosos, desequilíbrios, discussões, uma família sem firulas. E a cena final, não é genial, é perfeita, por ser a mais pura e inerente realidade, nem no fim Cassavetes inventa, deixando seu retrato ainda mais familiar e puro. Não há salvação ou redenção, na vida existe apenas o prosseguir, só com o tempo aprendemos.

Mabel (Gena Rowlands) Nick (Peter Falk)

Semana Cassavetes - II

| | Comments (0)
A Morte de um Bookmaker Chinês (The Killing of a Chinese Bookie, 1976 – EUA)


É o submundo das boates de striptease, e não o folhetim policial que interessa a John Cassavetes. A exigência de um assassinato está lá, a dívida que é o fato gerador também, mas tudo gira em torno do estilo de vida de Cosmo Vitelli. Todo filme que tenha como tema um estabelecimento como este, ou que, tenha cenas transcorridas dentro dele, perde alguns segundos (quando não muitos) focalizando corpos nus daquelas mulheres em posições e danças sensuais. Cassavetes não esconde o nu, mas o trata de uma forma natural, temos quase a mesma visão do próprio Vitelli.
Porque Vitelli vê arte em seu trabalho, prova isso quando telefona para um de seus funcionários questionando como está indo o show e o mesmo não sabe responder qual apresentação está ocorrendo. Vitelli enlouquece, questiona, canta a música, fala das letras formando a palavra Paris. Para Vitelli suas garotas fazem arte, arte esta que entretém marmanjos, mas Vitelli enxerga de forma diferente.
Pega três de suas garotas, uma limosine, champanhe e um figurino classe, e parte para jogar pôquer, perde. A dívida é grande, ele sabe muito bem com quem está lidando. Os mafiosos não querem o dinheiro, obrigam-no a matar um bookmaker chinês em Chinatown, pressionam, insistem, artimanhas não lhes falta. Cosmo Vitelli mergulha-se de vez no submundo, prostituição, jogo, crime.
Cassavetes filma em ambientes extremamente escuros, em pequenos feixes de luz distinguimos os rostos, em outras cenas mostra Los Angeles à noite, luz estourada, as luzes que mantém a cidade acordada. Há uma atmosfera noir, há Ben Gazzarra administrando um pequeno espetáculo, não estamos falando de um filme espetacular, mas de uma obra retilínea, cansamos de ver os rostos das dançarinas (e isso é bom, seus corpos são instrumentos de trabalho, mas são personagens e não simples objetos sexuais). É essa proximidade com a verdade que faz dos filmes de Cassavetes algo diferenciado, não estamos falando de momentos de explosão ou de alta carga emocional, falamos de um cinema-verdade, sem que necessite da contundência de violência (por exemplo), é um cinema do dia-a-dia, no caso, o de uma boate de estriptease.
Cosmo Vitelli (Ben Gazarra)
MÚSICA DA SEMANA:

HEART-SHAPED BOX
(Nirvana - composição Kurt Cobain)

She eyes me like a pisces when I am weak
I've been locked inside your heart-shaped box
for weeks
I've been drawn into your magnet tar pit trap
I wish I could eat your cancer when you turn black
chorus:
hey, wait, I've got a new complain,
forever in debt to your priceless advice
hey, wait, I've got a new complain,
forever in debt to your priceless advice
hey, wait, i've got a new complain,
forever in debt to your priceless advice
your advice

meat eating orchids forgive no-one just yet,
cut myself on angel hair and babys breath,
broken hymen of your highness i'm left black,
throw down your umbilical noose so i can climb right back

Repeat Chorus
She eyes me like a pisces when, I am weak
Ive been locked inside your heart-shaped box for weeks
Ive been drawn into your magnet tar pit trap
i wish i could leach your cancer when you turn black

Repeat Chorus

Semana Cassavetes - I

| | Comments (0)
Há muito tempo sou louco para conhecer os filmes de John Cassavetes, e não vou negar que ao falar dele minha primeira lembrança é do Filipe Furtado que sempre fala dele. Felizmente o Cinesesc está com essa programação de 5 filmes do diretor, só iria postar após o Oscar, mas como não vi nenhum dos indicados nesse fim de semana vou aproveitar que os filmes talvez continuem em cartaz e colocar logo por aqui. Já tenho três textos prontos, um a escrever e um a assistir... do Oscar assim que possível quero ver A Rainha, mas também começa na Cinemateca uma bela mostra sobre Rohmer (já vi alguns, não sou grande fã, mas pretendo ver uns 3-4 que me despertam muita curiosidade). Por fim, já deu para ter uma idéia que 2007 começou bem em questão de mostras, já que acabou agorinha a do Godard, onde assisti 7 filmes e nas próximas semanas post por aqui!!!


Sombras (Shadows, 1960 – EUA)

O jazz é pura improvisação, Sombras também. John Cassavetes não é músico, mas seu trabalho de cineasta constroe-se sob as mesmas pirâmides dos jazzistas. É do improviso que Sombras toma sua forma, cada cena representa uma nota na composição de Cassavetes. O amadorismo iminente é mais uma arma na representação do tipo de cinema que marcaria o diretor, a câmera registra tudo de forma crua, próxima, é inevitável a sensação de participamos das rodas de amigos numa festa. Acrescentemos o tema racismo numa época em que o clima permanecia quente e a discussão em voga, e temos um filme imprescindível por si só.
Na pequena história de três irmãos, temos de maneira sutil toda a variação de temas recorrentes ao ser negro nos EUA da década de cinqüenta. Hugh tenta a vida como cantor, mas não passa de mediano, fica renegado a algumas musicas entre apresentações de coristas. Ben também é músico, mas há nele um aspecto muito mais rebelde, um inconformado com aquilo que possui, rebelde por natureza. Por fim há Lelia (de pele moreno-clara) que discute arte e começa um relacionamento com um branco, até que ele descubra suas origens raciais.
Não vou dizer que se trata de um filme fantástico, pois não o é, está mais próximo de um experimento de um cinema que começava a surgir. Porém é inegável a força do filme de estréia de Cassavetes, principalmente pela condução da história, a simplicidade dos diálogos e o total desprendimento de partido no imbróglio do racismo. A câmera é crua por isso, tão próxima e tão distante, o jazz pontuando todo filme enquanto assistimos aos desdobramentos desses três irmãos (típicos, entre brigas, pazes, e afetos). Cassavetes trata o racismo, trata a família, e a eterna sensação é de dividirmos com aqueles personagens cada centímentro do extracampo, sentados à cama, saindo para dançar, exprimidos numa mesa de bar por uma garota. Sombras talvez fosse, como tema, mais representativo em sua época, o que não diminui sua apreciação ainda hoje.
Lelia (Lelia Goldoni) Ben (Ben Carruthers) Hugh (Hugh Hurd) Tony (Anthony Ray)

Os Pássaros

| | Comments (0)
Os Pássaros (The Birds, 1963 – EUA)

Vou falar logo que não gostei dos diálogos, muito certinhos, milimétricos e bobinhos. Às vezes parece até teatrinho infantil. O filme começa com um flerte, numa loja que comercializa pássaros. O advogado Mitch e a socialite Melaine brincam de seduzir, a garota estonteante quer mais e pesquisa sobre o rapaz, compra periquitos para presentear a irmã de Mitch.
Impressionante como os pássaros estão presentes em cada seqüência do filme, como meros coadjuvantes, ou como vilões implacáveis, pouco importa, eles sempre são assunto, dividem o cenário ou apenas emitem seus sons. Gaivotas, pardais, corvos, cada ave, pouco-a-pouco, se torna mais um ser aterrorizante colocando pânico na pacata Bodega Bay. É delicioso esse tipo de suspense pouco utilizado atualmente, onde desde o começo a presença do fato gerador pode ser sentida, como se apenas observasse na espera do momento certo.
O flerte entre Melaine e Mitch prossegue, mas o terror toma conta da cidade com os constantes ataques dos pássaros. Reunindo-se em grupos, a imagem intimidante dos bandos parados em fios e cercas é algo monstruoso, crianças correndo, posto de gasolina explodindo, o caos instaurado. Alfred Hitchcock idealiza cenas memoráveis, como a que Mitch passa silenciosamente entre os pássaros quando caminha rumo à garagem, ou a visão da janela da escola quando os pássaros formam seu bando de ataque no playground.
Os momentos pré-ataque são o grande sabor, a adrenalina total na expectativa de quem será a vítima, o momento certo do ataque. Essa mistura de romance infantil, e terror nefasto, dão o caldo para Hitchcock nos oferecer seu banquete. E quando nos fornecem os curiosos números de aves que habitam o planeta, aí sim o terror toma conta de nós. E como era linda Tippi Hendren, impressionante!

Melaine Daniels (Tippi Hendren) Mitch Brenner (Rod Taylor) Cathy (Jessica Tandy)

Pagando pecados...

| | Comments (0)
Pecados Íntimos (Little Children, 2006 - EUA)

A visão do mundo (como sociedade) capitaneada aqui por Todd Field é muito pobre, esdrúxula. Uma fábula de terror, não aquela com monstros e o fantástico, muito mais para uma fábula às avessas onde o mundo está encharcado de um câncer que ainda pode alcançar a redenção. Nesse mundo cor de rosa, aos olhos dos outros, e mais esburacado que queijo suíço nas relações e sentimento (mais particulares), Field rotula todos e espalha peças de um quebra-cabeça, para mais tarde querer montá-las e ainda exibir na parede como num quadro.
Nesse mundo perfeito por fora, as mães levam os filhos pequenos a um playground, o pai desempregado e sustentado pela esposa advogada-workaholic também. Brad assumiu a vida de dono-de-casa, mas a esposa não lhe dá atenção, não tem tempo para isso, enquanto isso ele finge estudar para o exame da OAB pela enésima vez. Na outra ponta há Sarah, outra infeliz, casada com um nerd obcecado por perversões na Internet. Inclusive, para Field, todos os nerds vivem de obsessões sexuais, já que na terceira ponta dessa história está McGorvey e seus desejos sexuais com crianças, e fechando aparece o ex-policial Larry em sua caça as bruxas (perseguidor do ex-detento McGorvey).
Aos poucos os quatro relacionam-se dentro da história, ainda há inúmeros outros personagens, mas o que vale é a preocupação de Field em primeiro apresentar a visão da sociedade sobre esse quarteto, para então nos apresentar o lado mais íntimo de cada um deles. O foco é no casal Sarah e Brad, ou melhor, na tentativa de justificar o caso extra-conjugal que surge entre eles. Vivendo às custas dos cônjuges, e divertindo-se nas tardes enquanto as crianças brincam e descansam.
Mais adiante o roteiro (baseado no livro Little Children de Tom Perrotta) resolve promover a redenção desses personagens, livrá-los dos pecados, nesse instante que algumas situações meio soltas reaparecem para desembocar no desfecho. E então o filme desarruma-se de vez, é um caminho sem volta, ladeira a baixo, nada poderia mais detestável do que o apresentado nos últimos trinta minutos. Provar o tempo todo que todos têm seus pecados íntimos, que ninguém é inocente, e ainda promover a salvação de todos é querer acreditar que a raça humana tem salvação, que em alguns anos não haverá mais violência, injustiças, e que além de tudo salvaremos nosso planeta, a fauna, flora e tudo mais. Estava indo tudo tão bem no caso amoroso entre Sarah e Brad (a gente sempre se envolve com o amor, não importam as variáveis), para que se meter em fazer algo tão absurdamente infeliz?

Sarah Pierce (Kate Winslet) Brad Adamson (Patrick Wilson) Kathy Adamson (Jennifer Connelly) Richard Pierde (Gregg Edelman) Larry Hedges (Noah Emmerich) Ronald McGorvey (Jackie Earle Haley)
Nas estréia da semana A Rainha é obrigatório, Antonia talvez, já Rocky Balboa... só se a mina valer muito a pena, mas muiiiiiiito mesmo...

A Conquista da Honra

| | Comments (0)
A Conquista da Honra (Flags of Our Fathers, 2006 - EUA)

Vou pedir para esquecerem os vinte, trinta, minutos finais. Isso mesmo, coloquem a parte na memória, finjam por alguns momentos que aquilo não pertence ao filme de Clint Eastwood. Assim nos resta um baita filme, destacando-se pela quase antagônica sensibilidade em recriar momentos de guerra. Antagônica porque a violência caminha ao lado de uma câmera melancólica e suscetível, aqueles tons acinzentados da fotografia, soldados tratados exclusivamente como seres humanos (inexistência de heróis na visão da lente, ausência de maniqueísmo).
O poder de uma fotografia, e a verdade por trás dela, uma farsa (não planejada) reconduzindo um país à glória. Na Europa, os Nazista já haviam se entregado, mas os combates em 1945 continuavam pelo Pacífico. Os EUA, quebrados financeiramente, precisavam urgentemente que a população re-financiasse a guerra, só que a população estava cansada, queria seus filhos de volta. As forças militares tentam tomar a ilha de Iwo Jima, uma fotografia de seis soldados (sem rosto) hasteando a bandeira numa montanha. Comoção nacional.
Os EUA são o país do marketing (odeio isso), e só precisam deles mesmos para causar uma revolução de consumo. Enquanto a fotografia contagia a população e estampa capas de jornais pelo país, acompanhamos a guerra em Iwo Jima, combates, feridos, o cheiro de enxofre, a defensiva japonesa. Eastwood esbanja categoria, filmando as batalhas com dinamismo e fervor, enquanto discute a política por trás da fotografia, a posição dos soldados que deixam seus amigos para correrem o país em turnê angariando fundos para financiar a guerra (fama e ostracismo).
O que Eastwood está fazendo é desmistificando o mito, desglamourizando o heroísmo, os dramas pessoais daqueles soldados se tornam tão próximos de nós que estamos mais que sensibilizados com suas angústias. Num momento inesquecível a radialista pede para que os fuzileiros pensem em suas garotas (que os esperam), enquanto ouvem aquela canção. Todos completamente estáticos por alguns instantes, atônitos, aquele apelo radiofônico acerta em cheio os desejos e aflições daqueles jovens. Outro momento fabuloso é toda a seqüência da invasão da ilha, a tensão chega a níveis alarmantes, fruto da silenciosa movimentação dos japoneses escondidos em pequenas cavernas, atocaiando os inimigos, antes mesmo de serem disparados os tiros doem em nossa carne. E o que dizer da sobremesa imitando a fotografia, a calda de morango simbolizando o sangue, todo o mal-gosto do marketing contido numa única sobremesa.Entre o ótimo filme de guerra, e o drama centralizado nos três soldados sobreviventes, há aqueles malditos minutos finais (pedi, mas não consegui esquecer), Eastwood não conseguiu deixar de lado o heroísmo. São depoimentos, recordações, todos aqueles discursos sentimentalóides que vibrávamos por não existir, surgem como numa enxurrada. Não adianta rezar para terminar logo e assim o filme manter o alto nível, aquela babaquice está impregnada, estava indo tão bem Clint, para que querer emocionar o público de maneira tão gratuita e óbvia? O estrago não chega a ferir a dignidade do filme, mas que ele deixa de ser grande, isso deixa. E para encerrar, outro show de Barry Pepper, garoto impressionante.


Próximo Post: Pecados Íntimos (a bomba)
O Último Rei da Escócia (The Last King of Scotland, 2006 - RU)

É tão cópia, tão cópia de O Jardineiro Fiel que não é possível não se irritar. Kevin MacDonald mudou o país na África, mais um ou outro detalhe, e foi-se embora na esteira do filme de Fernando Meirelles. Os planos aéreos dos lagos são iguais, as crianças correndo ao lado da rua, a história com algum tipo de envolvimento com o mundo farmacêutico, a forte presença de hospitais, a cena do necrotério, a fotografia então é cópia descarada. Obviamente esse tem o foco numa figura política de suma importância para a história da Uganda (trata-se de uma história baseada em fatos reais), o problema é o maniqueísmo de MacDonald querendo se aproveitar da cartilha de sucesso do filme de Meirelles.
Porém somos bobos e sentimentais e terminamos por nos envolver com a figura carismática do médico escocês (James McAvoy ótimo) recém-formado, em busca de uma aventura em Uganda. Coincidências do destino o levam a aproximar-se do general Amin que acabara de se tornar presidente do país. Torna-se médico pessoal do presidente, mais que isso, seu conselheiro mais íntimo e confiável.
Amin foi apenas mais um que subiu ao poder num golpe, com forte apelo popular, e pouco depois transformou o país numa carnificina incontrolável. Mais um vindo das camadas pobres que emergiu com apoio das colônias européias. A história de Amim é a própria história da África, Garrigan é apenas um instrumento para mergulharmos no coração político ugandense, descobrir seus meandros, e o descontrole total de um humilde que assumiu o poder sem entender bem o que fazia por ali. O país em frangalhos, miséria, no plano seguinte a casa do presidente, maravilhosa, coberta de riquezas e requinte, é o contraste, é a África.
E tem ainda Forest Whitaker, que dessa vez diferencia-se por um sotaque cuidadoso, e um olhar megalomaníaco. Chegando perto do final, o filme cai numa trilha de suspense, um pouco cinematográfica, porém MacDonald foi competente em nos envolver naquela atmosfera, nosso querido personagem em apuros, um avião seqüestrado e os reféns trazidos para o aeroporto de Uganda, o mundo contra o governo de Amin. Estamos vivendo a macro-política, enquanto há alguém num beco sem saída, a violência é crua, nos causa calafrios. Assistimos o quadro político de um país da África, já entendemos todos.


Nicholas Garrigan (James McAvoy) Idi Amin (Forest Whitaker) Sarah (Gilian Anderson) Kay Amin (Kerry Washigton)

Próximo Post: A Conquista da Honra




MÚSICA DA SEMANA:


PANIS ET CIRCENSES
(Mutantes - Composição: Caetano Veloso e Gilberto Gil)

Eu quis cantar uma canção iluminada de sol
Soltei os panos sobre os mastros no ar
Soltei os tigres e os leões nos quintais
Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer
Mandei fazer de puro aço luminoso um punhal
Para matar o meu amor e matei
Às cinco horas na avenida central
Mas as pessoas da sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer
Mandei plantar folhas de sonhos no jardim do solar
As folhas sabem procurar pelo sol
E as raízes procurar, procurar
Mas as pessoas da sala de jantar
Essas pessoas da sala de jantar
Mas as pessoas da sala de jantar

O Homem Duplo (A Scanner Darkly, 2006 - EUA)

A ação acontece sete anos a frente da data a que se assiste, Richard Linklater deixa o tempo assim, meio no futuro, quando na verdade está retratando o presente, o hoje. Inclusive o filme se presta sempre a dualidade, a vida dupla do agente Bob Arctor de longe é o que menos importa, estamos numa discussão aberta ao modo de agir em sociedade, a privacidade reduzida, e sem dúvida ao consumo de drogas.
Fala-se de um novo tipo de droga, Substância D, que causa sérios danos cerebrais aos dependentes. Bob Arctor leva uma vida dividida, trabalha com um agente infiltrado numa rede de amigos usuários da droga, a idéia é descobrir contatos. Bob acaba engolido pelo ambiente. Da mesma forma que tenta combater a droga, sofre da dependência e demais males, é obrigado a ser usuário devido a seu trabalho, mas chegou a um grau de dependência delicado, talvez irreversível. Dentro desse microcosmo de uma juventude imersa nesses prazeres controversos, Bob ainda tem a namorada que não se deixar tocar.
A rotoscopia digital é uma variável interessante, primeiro que ver Keanu Reeves e Winona Ryder (além de outros astros) nesse formato de animação causa uma cumplicidade, por rostos tão conhecidos nossos, depois a possibilidade dos efeitos gráficos muito mais ilimitados (devidamente utilizados na mutação de rostos por segundo). Linklater mostra-se cada vez mais inventivo em sua filmografia, criando filmes verbalizados, inteligentes, visual despojado e movimentos de câmeras inusitados (nas animações em rotoscopia) e ainda imensamente presentes de temas tão recorrentes à sociedade contemporânea. O cineasta faz de seus filmes ensaios de diferentes fases da vida.
O roteiro patina um pouco, chegando a cansar um pouco, mas uma guinada surpreendente no final acaba trazendo um desfecho muito interessante, histórias que não terminam, respostas vagas, tal qual nossas próprias vidas. Linklater promove pequenas discussões do modo operantis de se viver, nossas relações de amizade, e principalmente a forma como nos inserimos mundo a fora. Seríamos homens duplos, mostrando parte de nossas facetas de acordo com interesses pré-estabelecidos?
Próximo Post: O Último Rei da Escócia

Dias de Glória

| | Comments (0)
Desde já afirmou que esse filme estará no meu top 10 de 2007, tenho certeza.


Dias de Glória (Indigènes, 2006 - FRA)

A maioria dos textos deverá ser clássico, tal qual a narrativa desse cinemão caprichado e calcado em sua história. Pode-se divergir opiniões, mas os temas, discussões, e estruturas seguirão a mesma cartilha. Se pensarmos na atual disposição (espalhada pelas ruas da França) em se discutir (eufemismo, eu sei) sobre xenofobia, o filme de Rachid Bouchareb torna-se mais que atualizado, diria obrigatório. Estamos falando sim de um filme de guerra, porém acima das lutas e batalhas está a discussão do preconceito racial (e a forma como a França lida e principalmente sempre lidou com suas ex-colônias africanas). Sem falar de um estranho amor a uma pátria que nem é a sua, mas que de tão acostumados a respeitar (a força) desde crianças, passa a invariavelmente ser.

No finalzinho do filme, chegam à Aldeia da Alsácia, uns poucos gatos pingados (soldados). Cansados, exauridos, marcados pela trajetória desgastante da guerra, amigos que se foram, o inimigo que pode estar a espreita quando menos se espera. Aquela não será a única batalha, apenas a que Rachid Bouchareb privilegiará com precisão cirúrgica. Os enquadramentos nos inserem naquelas construções parcialmente demolidas, estamos à espera do exército inimigo que está prestes a atacar, a munição escassa, a quantidade de soldados irrisória, nos resta o medo de não resistir a mais aquele ataque. O suor, o corpo cansado, apreensão, uma seqüência hipnótica, tiros, bazuca, estamos dentro da guerra e ela não é nada gloriosa.

Segunda Guerra Mundial, mais de cento e trinta mil soldados são garimpados na Tunísia, Argélia e demais colônias francesas, para lutarem pela libertação da metrópole frente a dominação Nazista (e o governo colaboracionista de Vichy). Esses soldados enfrentam duas batalhas, uma delas é no front, diante dos inimigos armados; a outra é dentro do próprio exército, contra a discriminação dos soldados (e superiores) franceses, contra as diferenças impostas, lutam pela França, porém renegados a uma posição inferior, sofrendo injustiças em todas as esferas, desde a não promoção por merecimento chegando até serem servidos com comida diferenciada.

Não estamos falando dos escravos do século XIX, mas do ano de 1943 e de nativos de países ainda dependentes da França. Tratados com total diferença, lutando por uma causa que não é deles, morrendo pela França. Há uma cena especial de causar frio na espinha, no navio todos os soldados (não importa a nacionalidade) cantando A Marselhesa com fervor, entoando aqueles versos com toda sua garra e fibra, injustiçados e ainda assim dominados por uma estranha fascinação.
O elenco é indiscutivelmente fantástico, Abdelkader destaca-se pela rebeldia, pela luta contra injustiças, as discussões por direitos iguais a todos os soldados. Messaoud se apaixona por uma francesa e sonha em casar-se e morar na pátria-mãe. O tolo Said encontra uma chance de se tornar algo melhor do que o inútil que todos pensam ser. Apenas uma pequena mostra da micro-sociedade criada por Bouchareb. Chamados de muçulmanos (num tom de demérito), sempre expostos aos momentos mais delicados das batalhas. E o desfecho disso tudo vem para deixar qualquer um estarrecido (muitos podem achar piegas, eu fiquei completamente arrepiado). Seja pelo gênero, seja pela discussão pertinente, pouca importa o que atrair-te, filmaço imperdível!

Abdelkader (Sami Bouajila) Yassir (Samy Naceri) Said (Jamel Debbouze) Messaoud (Roschdy Zem)


Próximo Post: O Homem Duplo

Este arquivo

Esta página é um arquivo de posts de fevereiro 2007, listado do mais novo ao mais antigo.

janeiro 2007 é o arquivo anterior.

março 2007 é o próximo arquivo.

Posts fresquinhos na página principal - ou mexa nos arquivos pra ver outros posts.



v e r b e a t  b l o g s

Michel Simões