dezembro 2006 Archives

Em Direção ao Sul

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Em Direção ao Sul (Vers Le Sud, 2005 – FRA/CAN)

A estrutura de onde parte a trama é bem interessante, querendo colocar o Haiti como um paraíso para mulheres de meia-idade e mal resolvidas sexualmente, um local onde elas encontrariam prazer com os garotões negros, realizariam seus desejos e fantasias. É a prostituição as avessas, onde os homens se vendem para o poderio financeiro feminino. Elas também não têm direito?
A ação se desenvolve a partir de três turistas vindas de partes diferentes do mundo, mais precisamente entre a dominadora e ácida Ellen e a doce e apaixonada Brenda. As duas disputam as atenções do mesmo garoto, Legba, cada uma demonstra, a seu modo, o amor pelo garoto. Ganhar seus carinhos (claro que em troca de presentes e outras mordomias financeiras) torna-se mais importante do que qualquer paisagem que o Haiti possa oferecer.
Até esse ponto o filme caminha bem, mas o roteiro demonstra-se mal resolvido quando pretende mergulhar dentro da realidade de Legba e seu país. Pouco elucidativo, o filme passa a ficar carente de fatos, explicações, ou de alguma bagagem que dê crédito ao que vem a seguir. Nem para demonstrar a miséria com que o povo haitiano convive o filme é capaz, mostra sim um país pobre, mas bem aquém do que sabemos ser realmente.
Pouco a pouco nos resta a sempre competente Charlotte Rampling brindando cada cena com elegância e sofisticação, o diretor Laurent Cantet (A Agenda/Recursos Humanos) tinha chance de muito mais, talvez tenha faltado ser ousado, talvez o problema vá muito além. É um filme que começa interessante e chega ao fim quase que arrastado num triângulo amoroso e um pano de fundo que pretende deflagrar a opressão porque passa o povo hatiano, mas o pano de fundo não resiste e Karen Young parece tão chata e frágil quanto sua própria personagem.

Ellen (Charlotte Rampling) Brenda (Karen Young) Legba (Ménothy Cesar) Sue (Louise Portal)

Pink Flamingos

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(Pink Flamingos, 1972 - EUA)

Acho que depois de tê-lo assistido, meu conceito de bizarro expandiu-se um pouco. Ainda não tinha visto um conjunto de situações com grau tão alto de bizarrice, praticamente gratuitas. Eu não precisava ter assistido para saber que não é o tipo de filme que me seduz, mas foi com essa experiência que cheguei a algumas conclusões. Uma delas é que sim, há um pequeno público adepto a esse conjunto de imagens e que aprecia estando consciente de sua anormalidade, talvez seja esse o prazer, a total fuga do comportamento regrado que a sociedade teima impor. Quando alguém me disser, você precisa ver o quanto isso é bizarro? Teria a resposta na ponta de língua, você precisa ver John Waters para saber o que é bizarro. Até aqui tinha descoberto uma vertente mais soft do diretor, Pink Flamingos é o filme que o tornou ícone de um público, e transformou o travesti Divine em sua atriz fetiche.
Há duas maneiras de assistir ao filme, uma delas é deliciando-se com as cenas de zoofilia, estupro e outros atentados sexuais. A outra forma é achar aquilo um horror do mau gosto desde o primeiro plano e não ver a hora de acabar. Eu consegui criar uma terceira via, apenas acompanhar tudo sem um pré-julgamento, não tentar entender os propósitos (mesmo que não estivesse gostando). A conclusão principal que cheguei foi que não há propósito algum em o filme ter uma lógica, ou algum fundamento, o espírito é de criar uma grande quantidade de cenas bizarras compondo um painel ultra-crítico aos padrões de comportamento.
Há o casal de seqüestradores que injeta semens em mulheres para engravidá-las e venderem os bebes para casais de lésbicas, há a mamãe que cuida da filha doente mental e faz sexo oral com o filho, e há muito mais. A pergunta não é como uma mente consegue imaginar um conjunto tão doentio de situações, mas como os atores são convencidos de embarcarem nessa viagem e chegarem a cometer atos tão bizarros como a cena final (antologicamente bizarra)? A pergunta foi plagiada de um amigo, mas é a maior interrogação que fica. Pink Flamingos é nojento, é tosco, é sem graça, mas por incrível que pareça é humano, e por isso merece ser filmado.


MÚSICA DA SEMANA:

BACK ON THE CHAIN GANG
(The Pretenders)

I found a picture of you, o-o-oh, o-o-oh
You had hijacked my world at night
To a place in the past we've been passed out of, o-o-oh, o-o-oh
Now we're back in the fight

We're back on the train, yeah
O-oh, back on the chain gang

Circumstance beyond our control, o-o-oh, o-o-oh
The phone, TV and the news of the world
Got in the house like a pigeon from Hell, o-o-oh, o-o-oh
Threw sand in our eyes and descended like flies

And put us back on the train, yeah
O-oh, back on the chain gang

The powers that be
That force us to live like we do
Bring me to my knees
When I see what they've done to you

Well, I'll die as I stand here today
Knowing that deep in my heart
They'll fall to ruin one day
For making us part

I found a picture of you, o-o-oh, o-o-oh
Those were the happiest days of my life
Like a break in the battle was your part, o-o-oh, o-o-oh
In the wretched life of a lonely heart

Now I'm back on the train, yeah
O-oh, back on the chain gang

A Promessa

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A Promessa (Wu Ji, 2005 - CHI)

Eu até queria começar falando um pouco da história, um comentário qualquer sobre os rumos dos personagens, só que o desgosto em lembrar é tanto que minha idéia foi arruinada. O máximo que vou dizer é que há uma garota órfã que faz uma promessa para uma feiticeira, em troca de riqueza e beleza aceita a impossibilidade de apaixonar-se por homens. Com essa mísera informação já é bem possível adivinhar o que vai conhecer. Ela se apaixonar? Não! Como você adivinhou? Tudo bem, tem um vilão, tem também o escravo mais veloz do universo e um honroso cavaleiro de armadura vermelha.
Agora chega, vou falar das marcas que o filme deixam na memória. Para começo de conversa essa tal promessa fica renegada a segundo plano, nem é tão mortal quanto parece. Depois os efeitos especiais são toscos, pobres, decepcionantes. Aliado a tudo isso se tem um espetáculo visual fabuloso, imagens incríveis, uma mistura de cores capaz de encher os olhos, ultrapassando o que se tinha feito até então. Só que a impressão de que Chen Kaige encantou-se pelo carnaval carioca é latente. Uma escola de samba chinesa em pleno cinema, exércitos coloridos como uma ala carnavalesca. Um espetáculo fabuloso, mas no lugar errado.
Os personagens são fracos, e os acontecimentos mirabolantes. Será que preciso falar mais alguma coisa? Junte-se a isso histórias de amor das mais melosas e odiosas, cenas pobres e diálogos paupérrimos. A propaganda do filme mais caro do cinema chinês, consegue mais denegrir, do que ajudar. Um filme de ostentação. A China quer ser maior do que os EUA em tudo, pelo cinema já estão começando da pior maneira possível.
(Hairspray, 1988 - EUA)

Começa como uma sátira do estilo imposto pela cena musical dos anos sessenta, os penteados são de longe os capazes de nos fazer rir com maior facilidade, mas danças e roupas não ficam atrás. Novamente em Baltimore, um programa de tv cativa a juventude na cidade, ganhar destaque dançando no programa é mais que uma posição de status, é a transformação em ícone.
Há no filme todos os clichês do gênero, a garota que faz de tudo para ser estrela, a feiosa (nesse caso uma gordinha) que cativa a todos com simpatia e bondade, bocós que só sabem sorrir e nada tem a dizer. Só que John Waters não é só isso, há sempre a presença do trash, do bizarro, o sorriso pelo ridículo. Por isso o filme desapega-se do selo clichê, pois satiriza o núcleo familiar, o ridículo é sempre engraçado.
Numa segunda fase a bandeira do racismo é inçada, a discussão sobre segregação cai de pára-quedas naquele microcosmo esquisito que se formava. A garota mais Penélope Charmosa que tem a mãe mais neurótica envolve-se com um negro. O programa de tv, que só permitia brancos, começa a receber manifestações revoltadas. John Waters transforma tudo aquilo numa bagunça, e o que estava mediano esvaece rapidamente.
O filme termina e bate uma saudade dos jovens ajeitando seus cabelos com spray, daquela música contagiante e das dancinhas com passos marcados. John Waters quis tratar de vários assuntos marcantes da década de sessenta, e acabou não conseguindo misturar as estações.

Barravento

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Barravento (1962)

Se eu tivesse assistido ao filme em seu lançamento, provavelmente teria em mente uma frase do tipo: “esse rapaz tem futuro!”. Tratava-se da estréia na direção de certo Glauber Rocha, apenas um jovem. Ainda não havia a urgência tão presente em seus filmes posteriores, mas existe ali o início de um discurso, a voz que começava a ecoar pelo ar, sem preocupação com as restrições dos que irão ouvir. É Glauber, é dinâmico, é político, é popular e erudito, como o mesmo afirmou “Um ensaio cinematográfico, uma experiência de iniciante.”.
Barravento faz referência a violência, o encontro de ar e mar em momento de transformações. Uma colônia de pescadores na Bahia segue fielmente antigos cultos míticos do candomblé, a atividade da pesca é comandada sob as mesmas rédeas da escravidão. Aruã é dito como filho de Yemanjá, aquele que deverá permanecer virgem para proteger aos pescadores.
Voltando de Salvador, Firmino rebela-se contra o contraste que seu novo estilo de vida apresenta-se em comparação a vida pacata do local. Firmino é a voz que Glauber escolheu para entoar suas críticas àquela sociedade, porém Firmino não encontra naquele povo simples, analfabeto e miserável, uma platéia capaz de se envolver com suas idéias. Resolvido a dar fim àquelas crenças religiosas arcaicas (em sua visão), Firmino traça planos diabólicos para desacreditar os líderes religiosos.
Por um lado o folclore e toda a cultura africana tão enraizada naquela vila de caiçaras, de outro a visão cosmopolita de alguém que trocou a pobreza por uma vida levemente melhor na cidade. No meio disso tudo a crendice popular, a religiosidade, e todo seu poder de controle da sociedade. O Barravento está nos fenômenos naturais, mas está também nessa eterna rivalidade entre crendices, o respeito às seitas, a cegueira dos menos favorecidos, as lendas. E a paixão da única personagem branca de todo o filme por Aruã é apenas mais uma das provocações de Glauber.
Comparado a seus filmes posteriores, o discurso é menos enfático, a câmera mais centrada, e os sentimentos menos trepidantes. Parece um experimento do que mais tarde se tornaria um dos diretores com carga mais autoral e características mais próprias do cinema nacional. Glauber começava contestando, capaz de expor sua visão crítica em um assunto tão intricado (a religião e seu poder de controlar as pessoas), e ainda envenenar o próprio caminho que escolheu para desmoralizar essas próprias crendices.

Firmino (Antônio Pitanga) Cota (Luiza Maranhão) Naína (Lucy Carvalho) Aruã (Aldo Teixeira)


MÚSICA DA SEMANA

GOD KNOWS
(El Perro del Mar - Composição: Sarah Assbring)

God knows
I've been taking a lot without giving back
God knows
I've been taking a lot without giving back

You gotta give to get
You gotta give to get back
You gotta give to get
You gotta give to get back
You gotta give to get
You gotta give to get back to the love

God knows
I've been taking a lot without giving back
God knows
I've been taking a lot without giving back
God knows
I've been asking a lot without giving back

You gotta give to get
You gotta give to get back
You gotta give to get
You gotta give to get back
You gotta give to get
You gotta give to get back to the love

Get back got to get back
Get back got to get back
Get back got to get back
Get back got to get back

Time

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Time - O Amor Contra a Passagem do Tempo (Shi Gan / Time, 2006 - COR/JAP)

A bem da verdade (da minha verdade), no princípio parecia que Kim Ki-Duk vinha com outra idéia genial, discutir um amor obsessivo, a dimensão do ciúmes, usando metáforas totalmente integradas a todo o simbolismo de seus filmes anteriores, e que ainda conseguiam discutir outras obsessões do mundo contemporâneo. Mais adiante, minha impressão, foi de que o cineasta deixou-se engolir por suas idéias. Então elas estão ali espalhadas, mas chega um momento em que a história caminha em círculos, repete-se numa incansável busca em dialogar com a cena inicial (e os sumiços dos personagens são provavelmente o grande x da questão).
Gosto muito do enfoque de Ki-Duk nos relacionamentos amorosos, o desenvolvimento dessas relações, a visão do diretor me instiga a ternura. Dessa vez trata-se de um amor imensurável, doentio, uma mulher capaz de transformações plásticas em seu rosto, em tentativa descabida de evitar que o namorado enjoasse dela. Claro que há exagero na proposta, essa é a tônica da qual Ki-Duk gosta de trafegar, levar situações ao exagero para provar que elas diminutas são tão absurdas quanto.
Temos um ponto de discussão, as cirurgias plásticas. Há cenas asquerosas, de embrulhar o estômago, o rosto da jovem sendo mutilado como num açougue. Quando as pessoas vão perder essa mania (que infelizmente cresce) de se preocupar exageradamente com a estética, com a beleza pasteurizada que a mídia impõe (ou o público induz a mídia a impor?). Dentro disso há o enfoque nos limites do amor, Seh-hee teme por problemas futuros com o namorado Ji-woo, mesmo linda decide mudar seu rosto, dá início a uma mirabolante história de idas e vindas, encontros e perdas, e muitas cirurgias plásticas.
É nesse ir e vir que Ki-Duk perde a efervescência do que estava planejando. Muitas cenas em separado são adoráveis, as paqueras no café, a tristeza de Ji-woo solitário em casa ou com amigos, os encontros com a garota no barco. Porém, as coisas tomam dimensões exageradas, realmente extrapolam de um jeito em que os sentimentos, e as discussões sobre ciúmes são jogadas a segundo-plano, em detrimento de uma lógica que possa encaixar a foto estilhaçada que abre o filme enquanto uma mulher abre as portas de uma clínica (aliás, as portas criam uma imagem genial de antes e depois, um efeito implacável e dominante).
O que houve é que o cineasta em sua ânsia pela genialidade reduziu os ares de sua obra, porém não deixou de lado suas marcas, e bem ou mal, conseguiu sim levantar importantes questões que sempre merecem ser analisadas, refletidas. Nem tudo que os olhos enxergam nos filmes de Ki-Duk são exatamente o que significam aquelas imagens (obsessão, amor, solidão, ciúmes, são partes do todo). Time não deixa de ser o passar do tempo, forma de aproveitar a vida para poucos, paranóia caótica para muitos.

Seh-hee (Park Ji-Yeon) Ji-woo (Ha Jung-woo)

O Crocodilo

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O Crocodilo (Il Caimano, 2006 – ITA)

Pelo menos intrigado Nanni Moretti conseguiu me deixar ao sair do filme. Não que a história fosse de uma complexidade incomunicável ou incompreensível, pelo contrário é complexo e direto, certeiro e ofensivo. O que mais me intrigava era a estranheza ao se olhar à obra como um todo. Como se fosse possível olhar o resultado final, como quem olha uma fotografia, e o que os olhos enxergavam era um corpo estranho, desengonçado. E o que intrigava era tentar imaginar o que se passara na cabeça de Moretti, para montar aquele esqueleto sem qualquer uniformidade.
Há uma grande homenagem ao cinema, logo de início aos filmes b, depois citando importantes cineastas e atores italianos, mais tarde com Jerzy Stuhr fazendo um produtor de cinema com primeiro nome homônimo ao seu, chegando a todas as dificuldades para se prosseguir com um filme (captação de recursos, dificuldades com cenários e profissionais, escolha de elenco, falta de verba, inexperiência).
Simultaneamente há o momento delicado na vida pessoal de Bruno Bonomo, a falência de sua produtora, e principalmente o término do seu casamento (momento delicado em que Bruno não consegue aceitar a situação, a separação da mulher e a perda do contato diário com os filhos). Nesse momento ele se aventura em levar às telas o roteiro de Il Caimano, sem saber que se trata de uma crítica direta ao todo-poderoso primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi.
Em tom de comédia rasgada acompanhamos todas essas sagas, há imagens com o próprio Berlusconi no Parlamento Europeu, em momentos hilários e ridículos de um chefe de Estado. A trajetória escusa de trinta anos desse senhor das comunicações que se tornou o maior influenciador de opinião no país, até comandá-lo oficialmente, é assim narrada de forma quebradiça, crítica e ácida. Moretti é muito competente em colocar o filme dentro do filme, voltar para a vida particular do produtor, e ainda criticar ferozmente seu alvo sem que tudo parecesse confuso.
Mas já chegando ao fim a mão do diretor perde o tom, não se consegue privilegiar a comédia rasgada, o drama familiar, o tom político. Moretti busca seus desfechos e só consegue montar um quebra-cabeça torto, desengonçado. Tenta representar sentimentos com a belíssima música The Blower’s Daughter, mas ela não combina com as imagens, com tudo que assistimos até então, seu resultado é artificial, nada envolvente. Depois o próprio Moretti entra em cena de forma feroz, cruel, chega ao ápice da estrutura crítico-política do filme, seu discurso em separado é fabuloso. Mas colocado no contexto, olhando para o filme como um todo, aquilo parece um patinho feio, o humor do filme todo deu lugar a um tom sereno, e Moretti me intrigou por não ter conseguido terminar o que vinha andando tão bem. Inesquecível a audácia de falar tão abertamente de um chefe de Estado no exercício de seu mandato, mesmo achando Berlusconi um monstro, Moretti me pareceu muito mais interessado na eleição que estava tão próximo a fazer um filme coerente e engajado. O engajamento está em seus fins, como encaixar todas as críticas de uma maneira retilínea? Isso pouco importa.

Bruno Bonomo (Silvio Orlando) Paola (Margherita Buy) Teresa (Trinca Jasmine)

John Waters [1/3]

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Vou aproveitar esse resto da semana para jogar no blog três filmes do John Waters que vi no dvd, culpa de um amigo meu hehe!



Pecker (Pecker, 1998 - EUA)

Envolvidos por uma música leve e contagiante somos apresentados aos créditos iniciais, enquanto o jovem Pecker trafega por Baltimore, com sua máquina fotográfica disparando flashes por toda a cidade, até chegar à lanchonete onde trabalha. A enormidade de pequenas situações de comédia trash contidas nesse pequeno clip musical são um pequeno aperitivo, amostra grátis.
A bizarrice, mesmo que leve, está desfilando por toda parte. A família de Pecker é uma espécie de show de horror, um conjunto de seres estranhos, começando pela irmã caçula viciada em açúcar. Dentro dessa maluquice, Pecker é um sujeito comum, apaixonado por sua namorada, sempre simpático e bondoso, seu hobby é tirar fotografias de momentos cotidianos.
Quando já estamos amplamente familiarizados com a personalidade de Pecker, vem John Waters mostrando suas verdadeiras intenções. Seu alvo é a fama, a visão de algo totalmente comum numa obra de arte de valor inestimável (tal como muitas vezes um simples borrão, ou um erro, pode ser visto como genial pela crítica arrogante e tapada). Uma pequena exposição das fotografias de Pecker, dentro da lanchonete, serve como trampolim para as principais galerias de arte dos EUA.
Recebe mil convites para outras exposições, entrevistas para os principais meios de comunicação, Pecker vira capa de revista, uma febre. A comédia trash mostra sua verdadeira faceta de sátira, o jovem Pecker indiretamente muda com toda a estrutura funcional da cidade, e principalmente das pessoas mais próximas de si. Até onde vale a pena a fama?
É puro passatempo, filme altamente divertido, com roteiro fraco e algumas cenas beirando o esdrúxulo, mas de tão bobo torna-se tão engraçado em muitos momentos. A bizarrice nos faz rir, chega um instante que pouco importa a lógica daquilo tudo dentro do contexto, é filme de John Waters, o que queremos mesmo é rir de tudo aquilo.

Pecker (Edward Furlong) Shelley (Christina Ricci)

O Ilusionista

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O Ilusionista (The Illusionist, 2006 – EUA)

Aquela velha história, batida e cansada, da aristocrata que se apaixona por um camponês, e obviamente os familiares dão um jeito de os separar. Anos mais tarde um reencontro, um vilão que não irá permitir a manifestação desse amor, pois tem interesse em se casar com a bela aristocrata. Quem agüenta rever essa história contada de maneira tão convencional e pouco criativa?
Há todo o lado do ilusionismo, que começa por entreter e desemboca num princípio de discussão religiosa. Divertir-se com as mágicas apresentadas é pouco. Aprovar a reconstituição de época impecável, e o sempre correto Edward Norton, também não são aspectos que nos surpreendam. Neil Burger até consegue imprimir um ritmo narrativo agradável, seu filme corria pelo regular até seus três minutos finais.
Quando estamos dando o filme por encerrado, prontos a levantar da cadeira, surge o suposto grand-finale. Que coisa mais ridícula! Não há palavra capaz de exprimir o quão absurdo, despropositado e infeliz é o desfecho do filme. Se o joguinho entre Eisenheim (Norton) e o príncipe-herdeiro Leopold (Rufus Sewel), corria pelos clichês do gênero, pelo menos não parecia absurdo, mas aquele minuto de lucidez do inspetor-chefe Uhl (Paul Giamatti) é mais que descartável, é detestável.
Depois daquilo tudo, fica difícil encontrar coisas interessantes em O Ilusionista, a direção de Neil Burger é convencional, o romance pouco animador, os personagens rasos e as interpretações fracas (exceto Norton). Tinha tudo para agradar aqueles que buscam um entretenimento mais superficial, se bem que havia algum pano de fundo histórico que poderia ser bem aproveitado pelos mais ligados (a força do império húngaro na Europa), porém o resultado final demonstra que a história só pretendia contar mais do mesmo e terminar com um artifício genial, infelizmente ficou no genialmente horroroso.

O Labirinto do Fauno

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O Labirinto do Fauno (El Laberinto del Fauno, 2006 - MEX/EUA/ESP)

Não há um ponto de intersecção entre a fábula e o mundo real, imersos naquela fotografia dark, esfumaçada e serena, há na verdade uma infinidade deles. Confundimos-nos entre os dois mundos e as metáforas indicam a inexistência de grandes diferenças entre ambos. A fuga da realidade pela fábula, é apenas uma forma de enfeitar o feio, o incômodo. Trata-se de um filme sobre repressão, sobre angústias, sobre sonhos. Trata-se de um filme sobre o medo.
O medo contido na pequena Ofélia, que resiste às mudanças, ao carrasco do novo padrasto (um capitão do exército Franquista). Sua fuga dá-se pelos livros de fábula que tanto gosta de ler, mas principalmente pela aventura que uma fada e um fauno estão prestes a lhe oferecer. É revelado a Ofélia que na verdade ela seria um princesa, e que para retornar ao seu reino teria que cumprir três tarefas, a fim de demonstrar sua integridade. Enquanto isso a guerra civil espanhola prossegue em pleno ano de 1944, um grupo de revolucionários esconde-se nas proximidades da casa campestre de Vidal (o padrasto), a luta é contínua. Na casa uma espiã os auxilia.
Guillermo Del Toro faz mágica ao mesclar tão bem esses mundos distintos, um servindo de metáfora ao outro, como que explicando sutilmente o que nossos olhos não conseguiam entender claramente (talvez por já estarmos acostumados com as regras de conduta da sociedade). Sem dúvida a magia está na dosagem correta da fantasia (sem tornar-se pueril, com cenas extremamente violentas e sanguinárias, o corte da bochecha é terrível). O mundo de insetos, faunos, fadas e monstros, está tão perto da gente, nossos olhos é que teimam não enxergar.
Por isso trata-se de um filme sobre o medo, seja ele das criaturas mais inimagináveis, seja do carrasco impiedoso, seja na luta armada sem estrutura ou conforto. Em todos eles há medo, e também coragem para tentar enfrentar. A primeira metade da história cuida meticulosamente para nos envolver nesse clima tenebroso e mágico, obscuro e intrigante. Na segunda metade surgem fragilidades, as tais tarefas não demonstram tanta complicação assim (pelo contrário, as saídas são demasiadamente simples, regras infringidas). A figura do padrasto tirano ultrapassa o ponto, na preocupação em fazê-lo odioso temos um personagem-clichê, desumano, egocêntrico, incapaz de qualquer sentimento positivo. Por outro lado há o desenvolvimento maduro do tema político, um pano de fundo inquieto, Del Toro fez bom uso de tudo que estava ao seu dispor, e criou uma fábula referencial, linda de se olhar, encantadora e ainda assim assustadora.

Ofélia (Ivana Baquero) Vidal (Sergi López) Mercedes (Maribel Verdú) Carmen (Ariadna Gil) fauno (Doug Jones)

Assim é que Seria

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Assim é que Seria (Cosi Rivedano, 1998 – ITA)

Teria Gianni Amelio realizado uma homenagem ao neo-realismo? Sim, seu filme é totalmente realizado sob suas bases (Rocco e Seus Irmãos é a lembrança sintomática), seus temas são bastante semelhantes, o período histórico abordado é o mesmo, e os excessos melodramáticos estão espalhados por todos os cantos. Há até aquela cena que tanto odeio (de tantas vezes que vi se repetindo nos filmes), de dois homens olhando-se nos olhos, antes de se abraçarem.
As discrepâncias entre norte e sul, industrialização versus agricultura, e tantos outros aspectos conflitantes na Itália entre o fim da década de cinqüenta e o início da de sessenta, estão espalhados. Porém é a relação entre dois irmãos que conduz toda a história. O ilimitável anseio em oferecer ao irmão o máximo de conforto possível, e mais tarde as conseqüências que tais atos resultam. Relações entre irmãos sempre são turbulentas, conflitantes, só que há neles uma união inexplicável, e as brigas oferecem um pseudo ar de desunião.
Giovanni chega a Turim a fim de reencontrar-se com o irmão, esse será o primeiro de muitos reencontros. Pietro não trabalha, apenas estuda, será professor. É Giovanni quem realiza trabalhos braçais para sustentá-lo. Na relação deles essa misteriosa união fraternal é ainda mais exacerbada, admirável o orgulho com que Giovanni fala do irmão, sua dedicação para que Pietro finalize seus estudos com louvor.
O filme é dividido em pequenos capítulos, sempre datados com certa distância (algo em torno de um ano) e com um pequeno tema principal (chegada, decepções, dinheiro, cartas, sangue, famílias). Gianni Amélio trata das obsessões da época, resgata não só as dificuldades, como principalmente os aspectos político-sociais (sendo o desemprego o principal deles). Não é um filme objetivo e direto, sua narrativa levemente quebradiça permite lacunas que não necessariamente precisam ser preenchidas. Duas personalidades tão distintas, caminhos diferentes, e um amor entre eles muito maior do que se possa imaginar.

Giovanni (Enrico Lo Verso) Pietro (Francesco Giuffrida)
A Audiência Vai Começar (L'Udienza é Aperta, 2006 – ITA)

Abre se apresentando como um documentário sobre um caso envolvendo gente da Camorra e uma juíza respeitável, que cumpre a justiça a todo custo, e o mais respeitado advogado italiano. Mentira deslavada de Vicenzo Marra, a Camorra está lá, os juízes também, o advogado idem. A mentira é o tema do documentário, muito mais preocupado com o cotidiano do poder judiciário.
Então acompanhamos os juízes chegando ao fórum, reclamando de ter que marcar audiências aos sábados, resmungando porque os escritórios estão fechados porque a pessoa portadora da chave está atrasada. E continuamos com outras inúmeras futilidades. Depois o foco passa para o advogado e o acompanhamos no carro falando sobre a estrutura judicial da italiana, ou encontros dele com clientes ou advogados. Nenhum caso específico, é o dia-a-dia que está em foco.
Depois da triste descoberta sobre a falsidade ideológica do documentário, ficamos torcendo para aquela pasmaceira acabar logo, e ainda somos obrigados a presenciar (engraçado e triste) uma conversa filosófica entre dois juízes sobre machismo, relação agita judeus, preconceito e pós-conceito. Uma conversa xenófaba, intragável, porém hilariante, enquanto eles comem um pedaço de salame num escritório do fórum. E repartição pública é igual em qualquer país, os números de telefones anotados na parede são uma coisa só possível num lugar como aquele. Pior do que o documentário, é a mentira contada no começo dele.

Atlantic City

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Atlantic City (Atlantic City, 1980 – EUA)

A pequena história de um conjunto de decadentes, aprendizes de traficante, antigos gângsteres, jovens sonhadoras vindas de pequenas cidades interioranas. Os cassinos têm um magnetismo, uma estranha força funcionando como imã para esse tipo de gente. Frustrados e decadentes estão sempre perto de onde há dinheiro, porém nunca o bastante para consegui-lo.
O palco onde se encontram é Atlantic City, o roteiro cheio de personagens incomuns, mais estranho ainda é o resultado da equação que os engloba. Lou já foi um mafioso influente, ou pelo menos esteve com alguns deles, agora vive de migalhas e lembranças dos bons tempos. A vizinha Sally oferece ostras aos clientes do cassino, sonha em ser croupiê. A chegada do marido (Dave) e da irmã mais nova (grávida dele) agitam a vida pacata e sonhadora da jovem. O ponto de intersecção deles todos, o ardente desejo por sucesso na vida, riqueza.
Mal chega na cidade e Dave flerta com o submundo, possui um pequeno carregamento de drogas. Abrem-se as portas do sucesso para alguns, do fracasso total para outros. Na vida é preciso ter oportunidades, competência, mas também é preciso ter sorte. Numa cidade repleta de jogos de azar, o mundo nas ruas assemelha-se ao dos cassinos, enquanto o jogo não termina a sorte pode mudar de lado.
O aspecto mais interessante do filme é o desapego dos personagens ao sentimentalismo, Louis Malle trata as relações humanas com promiscuidade, o dinheiro com status muito maior do que amor, amizade ou fidelidade (e não está certo mesmo?). Por outro lado há certa ingenuidade nos personagens, um artificialismo nas relações, uma irregularidade dissonante. Talvez o que falte realmente ao filme seja vida, Atlantic City tem que ser mais pulsante do que isso.

Lou (Burt Lancaster) Sally (Susan Sarandon) Dave (Robert Joy)


Agradecimentos ao amigão Edú Aguilar que me emprestou o DVD

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v e r b e a t  b l o g s

Michel Simões