Quinta-feira elétrica, fora da sala escura. Uma hora de trânsito, debaixo do sol do meio-dia, dentro de um carro preto, e o cabeçudo aqui com pólo preta. E a temperatura não amenizaria o resto do dia. A sessão que mais entrou gente durante o filme, diria que mais da metade do pessoal sentou com o filme começado, gente com até vinte minutos de atraso. Finalmente estive no Reserva nessa Mostra, dos maiores só falta a Sala UOL (sua hora vai chegar). Depois de muita pesquisa para arrumar um estacionamento barato e próximo do Artplex, corri para a Central a fim de pegar mais ingressos.
Já na saída esbarrei com a crítica Neusa Barbosa, dessa vez fui cumprimentá-la, simpaticíssima nos cinco minutos que conversamos. Fui saindo e finalmente encontro meu amigo Edú Aguilar (já parecia q a Mostra ia acabar e nada de os encontrarmos), paramos para um café (água sem gás para mim, por favor rs), colocamos o papo em dia, o Edú me atualizou sobre seus novos projetos, ainda apareceu um ator (que trabalhou em Dois Córregos) amigo do Edu. Combinar sessão que é bom? Nada, ficamos só no talvez.
Nova disparada descendo a Augusta (já virei figurinha carimbada naquela calçada), alias engraçado acompanhar a progressão de uma reforma na calçada que estão fazendo num pedaço da Augusta, cada dia fica pronto mais um pedacinho, pelo jeito amanha termina, chega de pisar na areia e desviar de cimento fresco. A sessão do Bom Velhinho está repleta da crítica, não dá nem para citar nomes, só vou falar de três que ainda não citei (Inácio Araújo, Eduardo Valente e Cleber Eduardo), mas é só para exemplificar. Na saída novo encontro rápido com Chico Fireman e Guilherme, troca rápida de informações de sessões que teremos em conjunto. Emendei com o doc do Gitai, na fila encontrei o Alberto, batemos mais um bom papo dessa vez numa sessão (e confirmamos que nenhum dos dois encontrou o Jorge que conhecemos naquela primeira fila onde tudo começou). Depois do filme vi no café do cinema Tônica Carrero, a idade passa a todos, não para ela.
Se vocês pensam que acabou, estão enganados. Onde estão Andrews e Stela para formarmos o trio? Dessa vez nossas sessões eram distintas, mas tínhamos um buraco de mais de uma hora para o último filme do dia, então eu subi tudo de novo para irmos comer qualquer coisa no Viena. Os três sentados com programações pela mesa, guia da Folha, canetas inquietas riscando filmes e colocando outros. Até dois dias atrás não íamos mais nos encontrar nos próximos dias, eu fiz uma reformulação que acabou acertando duas sessões do trio juntos. Resultado da visita ao Viena, quebrei a promessa que fiz a mim mesmo de não alterar mais nada (sou melhor para prometer aos outros rsrs). Um opina daqui, o outro bate o pé dali, o terceiro solicita encarecidamente, tá bom, tá bom, a boa notícia é que vamos nos encontrar todos os dias até o final da Mostra. Eu tive que trocar três filmes, eles então, impossível calcular. Aguardem mais peripécias do trio, e eles venceram, Babel entrou na Mostra (sorry Summer Palace, não troco meus amigos por nada desse mundo). Depois nova corrida lá para baixo, onde encontrei o Flávio na fila, com esse já esbarrei algumas vezes, vejo ele e lembro de uns filmes poloneses que ele andou assistindo. Vimos o filme, ufa, 23:45, acabou, só se forem os filmes, porque no elevador encontrei o Castilho (calma, esse não tem nada a ver com cinema, um amigo que trabalha na concorrência e tinha acabo de jantar, isso me faz lembrar que minhas férias estão acabando).
Arame Farpado – só de não ter aquelas inúmeras apresentações musicais que Bollywood adora, já foi um alívio. A história é interessante, tratando de mulheres que se tornam nômades (em todos os sentidos) para sobreviver da pobreza e miséria indiana. Mudam várias vezes e ao bel interesse de nome e religião. Há um humor singelo no filme, uma demonstração de coisas ainda tão atrasadas num país que possui grande parte das sumidades dos cientistas mundiais. Corre pelo melodrama, mas sem exagerar, típico filme bonitinho.
Belle Toujours – Sempre Bela – Tinha tudo para ser um fiasco, mas Manoel de Oliveira acerta ao recuperar a história de Sèverine. O filme disseca a obra de Buñuel, às vezes repetindo-se desnecessariamente, às vezes carregado de um requinte magnífico. Os planos panorâmicos (ora diurnos, ora noturnos) de Paris acompanhados por uma trilha orquestrada, são sensacionais. O momento em que são apagadas as luzes no jantar, e a câmera focaliza os dois à mesa, a claridade vindo pela janela que reflete a Cidade Luz, inesquecível. Oliveira tem um timing que nas mãos de qualquer outro diretor soaria como falso, exagerado; uma bela homenagem que em momento algum tira o brilho do filme anterior.
Notícias de Casa/Notícias do Lar – que grata surpresa este documentário de Gitai. Na verdade é o terceiro doc do mesmo tema, o 1º filmado há 25 anos, o 2º 9 anos a seguir, e este nos dias atuais. Uma casa, a região a sua volta, a analogia entre a casa e a Palestina. Gitai busca depoimentos dos antigos proprietários que foram expulsos de casa pelo governo israelense, também encontra vizinhos, o pessoal que a construiu, parentes de todos estes. E termina com um depoimentos capaz de resumir todo o filme, seu espírito e sua discussão.
Flutuando – os norte-americanos compraram uma fábrica na Rússia e a fecham. Resultado? Desemprego. É uma comédia de humor negro, acompanhamos um jovem buscando um novo emprego, ele não se adapta facilmente aos que lhe são oferecidos, também é cada roubada. O humor permeia, a crítica social está presente todo momento, mas o filme vai além e consegue retratar o cotidiano de um jovem (como este), a relação com garotas e com a família, a independência. E acima de tudo, o buraco mal-tapado que se tornou a Rússia.