setembro 2006 Archives

Cafundó (2005)

A ponta de timidez a cobrir o filme causa uma sombra muito maior do deveria, ofusca situações que poderiam ser mais grandiosas em sua realização. Como aquela mosca tão pequenina e que tanto nos incomoda com seus vôos rasantes em direção ao nosso rosto. A fotografia é bela, a claridade é flamejante trazendo aqueles anos tão distantes para mais perto da gente. A direção dividida pelos estreantes Paulo Betti e Clóvis Bueno é tão cuidadosa em alguns momentos, tão delicada, e ainda assim tímida em interiorizar-se, em dissecar melhor os personagens e emoções. A sombra da timidez cobrindo a inspiração.
A preocupação em contar tintin por tintin da vida de João de Camargo, estica ligeiramente a fase pré-religiosa da trama. O ex-escravo que se deslumbra facilmente com o mundo cheio de transformações na entrada do século XX, encontra dor e mágoa até ser escolhido por um anjo e por São Benedito, para ser um missionário de Deus na Terra. Recebe o dom da cura, sempre apto a ajudar o próximo, atos não almejando o bem próprio. Eis a vida de João de Camargo, também conhecido como Preto Velho, lenda da região de Sorocaba, interior paulista.
João de Camargo fundou a Igreja da Água Vermelha, unificou orixás e outros traços religiosos vindos da África, com santos e outros aspectos da Igreja Católica. Fiéis atravessavam quilômetros em busca de sua benção, essa mistura de culturas religiosas é característica marcante do povo brasileiro, uma sociedade acostumada com diferenças. Explorar melhor esses aspectos daria ao filme um ar muito mais religioso, porém faria muito bem o transformando em mais do que uma simples biografia desse líder popular-religioso.
E Lázaro Ramos? De onde saiu esse ser iluminado? Já nem posso chamá-lo de ator, tão impressionante sua capacidade de mutação entre personagens, sua fantástica aptidão para encarnar vidas, assumir formas. Lázaro é daqueles atores que deveríamos ir atrás de toda sua filmografia, que deveríamos correr ao teatro quando estivesse em cartaz, e gravar qualquer momento seu na TV. Chamar de show o que ele fez nesse e em outros tantos trabalhos no cinema é pouco, João de Camargo deve se orgulhar de tão magnífica personificação. Se os diretores exigissem mais dele, teríamos tido momentos antológicos.

João de Camargo (Lázaro Ramos) Rosário (Leona Cavalli) Cirino (Leandro Firmino da Hora)


Ranking - Década de 60

Só para não deixar passar em branco, segue o ranking que mandei para a Liga dos Blogues Cinematográficos.

1-O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (Glauber)
2-Fellini 8 e 1/2 (Fellini)
3-Beijos Proibidos (Truffaut)
4-Terra em Transe (Glaube)
5-A Batalha de Argel (Pontecorvo)
6-Lawrence da Arábia (Lean)
7-Jules e Jim (Truffaut)
8-Dr. Fantástico (Kubrick)
9-Quem Tem Medo de Virgina Woolf? (Nichols)
10-2001 - Uma Odisséia no Espaço (Kubrick)
11-Kes (Ken Loach)
12-Z (Costa-Gavras)
13-A Noiva Estava de Preto (Truffaut)
14-Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber)
15-Alphaville (Godard)
16-Um Só Pecado (Truffaut)
17- Antes da Revolução (Bertolucci)
18-A Primeira Noite de um Homem (Nichols)
19- Lolita (Kubrick)
20-A Bela da Tarde (Buñuel)


Enquanto isso a lista dos filmes que com obrigação máxima a assistir o quanto antes só vai crescendo (haja tempo para tudo isso).... sem contar os que já estou computando dos anos 60, estão na lista: Era uma Vez na América, Um Tiro na Noite, Paris, Texas, Asas do Desejo, O Homem Elefante, Possessão, Estranhos no Paraíso, Não Amarás, Drugstore Cowboy, Zelig, Cabra Marcado p/ Morrer, Jogada de Risco, Os Amantes do Círculo Polar, Manhattan, O Fantasma da Liberdade, Chinatown, Barry Lyndon, Um Estranho no Ninho, Verdades e Mentiras, Um dia de Cão.

Ufa, agora então que a lista só cresce rsrsrs

Dias de Abandono

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(I Giorni Dell'Abbandono, 2005 - ITA)

O que mais falta ao filme é saber transmitir as emoções que estão na tela. Entendemos toda a situação, os acontecimentos são de uma verossimilhança notável, cada reação de desespero é prontamente compreendida. Mas nada disso adianta para envolver, para que aquela separação deixasse de ser mais uma para então se tornar uma lembrança que permaneça.
Apontar culpados? Todos têm sua parcela de culpa, Margherita Buy descabela-se, chega ao total desespero, completamente fora de si, e nada adianta. Não chega a ser artificial, apenas comum, incapaz de estabelecer uma relação mais íntima com o público. Os demais atores também não empolgam (nem mesmo as crianças conquistam), aliás Goran Bregovic (que na verdade é músico) é das coisas mais desanimadoras que uma câmera chegou a captar. E a direção de Roberto Faenza passa tão em branco, quanto o filme, não falta somente uma marca autoral, lhe falta entusiasmo e lhe sobra didatismo.
Podem dizer que a história não ajuda, mas toda história pode ser ótima se alguém souber contá-la. Aqui a figura central é Olga, quarenta anos e mãe de dois filhos, é pega de surpresa quando o marido decide deixar a família. Ela que parecia uma mãe centrada, uma profissional confiável, e uma pessoa equilibrada, demonstra-se uma mulher instável, fragilizada. Claro que uma surpresa dessas é para desmontar qualquer um, ainda mais num momento inesperado.
Dias de Abandono peca pela ausência completa de ousadia, explora um problema tão comum e traumatizante da sociedade moderna, porém segue as linhas mal traçadas de uma redação infanto-juvenil daquele estudante que foi obrigado a entregar a redação no prazo. Falta um ar de inspiração, sobram lágrimas jorrando pela tela, todas elas muito bem justificadas, nenhuma delas realmente vividas.

Olga (Margherita Buy) Mario (Luca Zingaretti)

A Sentinela

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(La Sentinelle, 1992 - FRA)

Não foi preciso mais do que um, dois, no máximo cinco segundos para afirmar que realmente tratava-se de um filme de Arnaud Desplechin (aliás, sua estréia na direção). É a luminosidade, a claridade da imagem, há algo só dele naquele efeito que se mistura entre raio de sol, verde e concreto. Falo apenas da primeiríssima imagem, sem movimento ou personagens, mas posso me referir ao filme como um todo.
Depois resplandecem resquícios do cinema político que o filme irá se tornar. É um lance memorável, uma brincadeira com os estadistas Stalin e Churchill, uma suposta reunião onde os dois dividiam entre eles o Leste Europeu no pós-guerra, com um desfecho anedótico. Desplechin mostra-se de um talento admirável, invoca uma trama intricada sobre os meandros da diplomacia internacional. Só que não é feito isso de forma clara, direta, mastigada, a atmosfera de suspense despista o lado mais político do filme, para só resgatá-lo em seu final. Por outro lado, ele permeia toda a narrativa, está sempre circundando o estudante de medicina legal que misteriosamente encontrou em sua mala de viagem uma cabeça mumificada.
Os meandros que conduzirão Mathias a todo o desenrolar da história, seriam menos interessantes se Desplechin não fosse um cineasta único, diálogos truncados e uma montagem inovadora, são peças-chave do quebra-cabeça que esconde as peças principais que facilitariam a percepção clara dessa figura. Mathias, filho de diplomata, volta à Paris e sente dificuldades em se relacionar com sua irmã e com os amigos (todos seguindo carreira diplomática). Sente-se um peixinho fora d'água naquelas festas requintadas, na arrogância transparente daqueles jovens que arrotam cultura. Mathias tem o mesmo grau de instrução, mas vive fora daquele mundo (uma metáfora contextual relacionada a um povo fora da Europa, da França principalmente). Será esse estrangeiro quem irá trazer a tona todo o enredo político que o filme reserva.
A queda do muro de Berlim marcou o fim da bipolaridade mundial, a Europa sempre foi o coração da disputa entre capitalismo e socialismo, uma guerra velada que não explodiu uma bomba, não invadiu um território inimigo, mas mudou profundamente político-e-socialmente todos os continentes. Desplechin vem discutir o tema no pós-queda do muro, constrói um filme despojado e sofisticado para discutir o que tantos fizeram com filmes pobres, didáticos e heróicos. Estão lá os massacres, os campos de concentração, o horror das guerras, a destruição, os acordos diplomáticos. Mesmo tão bem elaborado, há situações gritantemente descabidas, um exagero na proposta, é bem verdade que não chegam a tirar o brilho, tudo para aumentar a dose de suspense, trazer violência à tona. Desplechin não perdoa aqueles que não merecem perdão, e faz isso de forma perspicaz e genial, um talento diferenciado.

Mathias Barillet (Emmanuel Salinger) Jean-Jacques (Thibault de Montalembert) Bleicher (Jean-Louis Richard) Claude (Emmanuelle Devos)



MÚSICA DA SEMANA:


FROM NOW ON
(Supertramp)

Monday has come around again
I'm in the same old place
With the same old faces always watching me
Who knows how long I'll have to stay
Could be a hundred years of sweat and tears
At the rate that I get paid

Sometimes I slowly drift away
From all the dull routine
That's with me every day
A fantasy will come to me

Diamonds are what I really need
Think I'll rob a store, escape the law
And live in Italy
Lately my luck has been so bad
You know the roulette wheel's
A crooked deal, I'm loosing all I had

Soon be like a man that's on the run
And live from day to day
Never needing anyone
Play hide and seek, throughout the week

My life is full of romance

Guess I'll always have to be
Living in a fantasy
That's the way it's got to be
From now on

Guess I'll always have to be
Living in a fantasy
No it won't be really me
From now on

You think I'm crazy I can see
It's you for you, and me for me
Living in a fantasy
From now on

Guess I'll always have to be
Living in a fantasy
That's the way it's got to be
From now on

Guess I'll always have to be
Living in a fantasy
It's you for you, and me for me
From now on

Guess I'll always have to be
Living in a fantasy
That's the way it's got to be
From now on

Guess I'll always have to be
Living in a fantasy
It's you for you, and me for me
From now on

Guess I'll always have to be
Living in a fantasy
That's the way it's got to be
From now on
(Yuki Yukite Shingun, 1987 - JAP)

Naquela primeira olhada parecia que tinha entrado numa fria, mais um daqueles documentários chatos sobre um maluco e suas teorias conspiratórias. Felizmente foi um ledo engano dissipado em poucos minutos. Jamais poderia imaginar as proporções que aquela história iria desencadear. Realmente o filme é sobre um maluco, seu nome Okuzaki Kenzo, 62 anos, ex-combatente na Nova Guiné, preso durante mais de dez anos por ter atirado com um estilingue no imperador do Japão.
Okuzaki Kenzo é um sujeito, como poderia dizer... impaciente (um eufemismo gigantesco). Entretanto é determinado, focado em seus objetivos, um leão em busca da verdade. Kenzo desenterra a obscura morte de dois soldados japoneses no fim da guerra em Nova Guiné. Os soldados teriam sido mortos pelos próprios companheiros, quem deu a ordem e quais os motivos? Kenzo passa a visitar os oficiais daquele regimento, (não importando a patente), todos senhores com mais de sessenta anos, saúde debilitada, vida chegando ao fim.
Deles arranca informações, começa a montar o quebra-cabeças, e a cada nova peça a verdade mais mórbida ganha contornos. Soldados japoneses morrendo de fome, tendo de apelar ao canibalismo, escolhendo quais deles iriam morrer para os outros se alimentarem. Uma realidade inimaginável, e Kenzo não tem pudor em arrancar os relatos à força, parte para a agressão na casa daqueles velhinhos, quer descobrir os verdadeiros motivos.
A câmera de Kazuo Hara não omite nada, momentos constrangedores, situações que fogem ao limite, afirmações levianas, ninguém consegue assumir o canibalismo, mas ele está nas entrelinhas, na carne de porco “branca” ou “preta”. Kazuo Hara deixa que Okuzaki Kenzo conduza todo o documentário, e o trabalho dos dois resulta numa história contundente e horripilante.

A Feiticeira das Águas

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(Taki no Shiraito, 1933 - JAP)

Há uma limpidez no estilo narrativo de Kenji Mizoguchi que a sensação de estar lendo um livro e se deliciando com as fotografias existentes insiste na mente. Muito mais que a estrutura, a condução do diretor faz com que as imagens fluam naturalmente e delas formem-se facilmente todo o enredo da trama. Como se os diálogos não fizessem falta, Mizoguchi domina a técnica de nos envolver, de reter os olhos do público.
Está certo que a história sofreu muito com o envelhecimento, muito bonita para uns e completamente fora de questão para outros. O motivo central foi a grande mudança de comportamentos morais nessas décadas, há pequenos hiatos que se levados ao pé da letra seriam inaceitáveis, porém integralmente necessários para os fins de cada personagem. Portanto o filme vive desse dilema, lindo ou inverossímil, narrado com agilidade e total imanização.
Tudo começa como num faroeste, uma diligência, cavalos, uma estrada desértica. Taki no Shiraito é uma artista das águas, uma famosa figura circense. Acontecimentos fazem com que ela se apaixone por Kinya Murakoshi (que sonha estudar direito). O casal faz um pacto, ele vai a Tóquio estudar enquanto ela excursiona com o circo e paga os estudos do rapaz. Após ele se formar, os dois casar-se-iam. Taki no Shiraito economiza cada centavo, sonha com o dia em que finalmente poderia estar ao lado de seu amado. Mas a vida guarda surpresas para esses dois, os planos fogem completamente do controle de ambos.
O grande lance do filme é que toda a tragédia é impulsionada pelo amor e pela devoção da relação dos dois. Todo o carinho e dedicação acabam tornando-se a principal razão para os fatos tomarem seus derradeiros rumos. O amor funcionando indiretamente para a perdição das pessoas, por melhores e mais justas que fossem. É com emoção que guardo na memória a cena em que Taki no Shiraito chega ao quarto em que Kinya habitava durante seus estudos, outra grande lembrança é todo o pesar com que Taki no Shiraito empresta dinheiro para a amiga (não há pesar em ajudar a amiga, mas por não destinar o dinheiro aos estudos de seu amado).
Um amor abafado pela ética, pela moral e justiça. Mizoguchi nos oferece um filme de grande impacto ainda em sua fase de cinema mudo. As cenas onde o amor do casal é despertado, onde Taki no Shiraito desfila todo seu charme para conquistá-lo, são momentos que muitos cineastas metidos a fazerem filmes românticos deviam assistir e até copiar. Aquilo sim é romantismo, aquilo sim é amor que pode ser notado pelos olhos, pelo sorriso, pelas facetas do rosto. Trágico e belo, Mizoguchi fazia na década de trinta o que poucos conseguem atualmente.

Taki no Shiraito (Takako Irie) Kinya Murakoshi (Tokihiko Okada)

A Esquiva

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(L' Esquive, 2003 – FRA)

Sua irregularidade poderia ser um problema, mas aborda o mundo adolescente de uma forma tão realista, honesta e moderna, que as fragilidades cinematográficas ficam parcialmente esquecidas. A câmera na mão nos deixa ainda mais próximos do cotidiano daqueles jovens do subúrbio francês, filhos de imigrantes árabes. Estamos apenas retratando a realidade dessa camada da população, as mesmas inseguranças e medos, os aprendizados de sempre.
Como não poderia deixar de ser, é sempre o amor o grande causador de discórdia, de mudanças de comportamento, de solidão. Krimo brigou há pouco com sua namorada e acaba se apaixonando pela espevitada Lydia, até para o teatro o rapaz entrou a fim de conquistá-la. O diretor Abdellatif Kechiche aborda todo esse universo com uma simplicidade intrigante, as pequenas discussões, o código de ética que não está escrito em lugar nenhum, porém é seguido por todos. A questão da amizade e suas diferenças no universo masculino e feminino. E principalmente o amor, o desejo, a insegurança, a tristeza, a mágoa e principalmente a velocidade com que se cura tudo isso.
Kechiche não foca nos aspectos sociais, porém permite que eles margeiem toda a história. Ainda assim o diretor cria uma seqüência de tirar o fôlego, uma batida policial que nos deixa com o estômago retorcido de tamanha brutalidade com meros garotos e garotas. Da mesma forma que Kechiche narra instintivamente a vida adolescente, ele retrata os abusos e a total falta de preparo daqueles que deveriam impor a ordem.
Voltemos ao filme, e estão lá as picuinhas e a maneira particular com que solucionam seus problemas, as eternas discussões, o bom senso que parece não prevalecer (apenas parece). Um mundo de transformações, sentimentos conflitantes, descobertas mil. Não poderia esquecer da dupla de atores, Osman Elkharraz está tão bem que chega a nos irritar com seu tom de voz invariável, enquanto Sara Forestier demonstra ser uma atriz especial, dona de um talento a ser dilapidado.

Krimo (Osman Elkharraz) Lydia (Sara Forestier) Frida (Sabrina Ouazani)


MÚSICA DA SEMANA:

BORN TO BE WILD
(Steppenwolf)

Get your motor running
Head out on the highway
Lookin' for adventure
In whatever comes our way

Yeah, darlin', gonna make it happen
Take the world in a love embrace
Fire all of your guns at once and
Explode into space

I like smoke and lightning
Heavy metal thunder
Racin' with the wind
And the feeling that I'm under

Yeah, darlin', gonna make it happen
Take the world in a love embrace
Fire all of your guns at once and
Explode into space

Like a true nature's child
We were born, born to be wild
We can climb so high
I never want to die
Born to be wild
Born to be wild

Get your motor running
Head out on the highway
Lookin' for adventure
In whatever comes our way

Yeah, darlin', gonna make it happen
Take the world in a love embrace
Fire all of your guns at once and
Explode into space

Like a true nature's child
We were born, born to be wild
We can climb so high
I never want to die
Born to be wild
Born to be wild

A Traição

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(La Trahison, 2005 - FRA)

Philippe Faucon narra seu filme como se estivesse contando um caso, narrando um conto. São planos simples, nunca banais, como se seu cinema marcasse posição entre o comercial e o profundamente artístico, um meio termo que pode se digerido por uma parcela maior de público (mesmo que um pouco restrito). Ocasiona num filme cru, bastante imparcial, porém com perceptível distância entre lentes e público. Uma leve explanação sobre a traição, sobre escolhas e ideais, e principalmente sobre xenofobia e descontentamento.
Guerra da Argélia, década de sessenta, os harkis são argelinos que preferiram alistar-se no exército francês a participação da guerrilha armada da AFL. Muito mais do que lutar como soldados, a função principal é de funcionarem como tradutores da força militar francesa. O problema é simples, quem garante que os argelinos não estão infiltrados no exército a mando dos rebeldes? Dessa desconfiança surge a rivalidade formada nas tropas e milícias, harkis descontentes por serem tratados com indiferença e franceses desgostosos por não confiar naqueles “intrusos”.
Acompanhamos uma pequena tropa num vilarejo, o sub-tenente Roque é figura-chave do comando. Ali eles fazem controle populacional, impõe toque de recolher, procuram informações sobre os rebeldes. Deserções, desconfianças, traições, no mundo da guerra o difícil é saber quais são os aliados. Principalmente numa guerra desleal, a luta pela liberdade. Se os harkis são mal-vistos dentro do exército, o sentimento de traição entre os argelinos é muito maior, a negação a pátria, lutar contra seus próprios companheiros.
Sem pré-julgamentos Faucon não discute o tema traição, mas deixa expostas as diversas facetas que deveriam ser analisadas para se julgar o tema. Termina seu filme de maneira abrupta, como quem prefere desvencilhar-se da história casual daqueles personagens, para oferecer uma visão mais global da situação que se repete em cada milícia, em cada regimento, em cada vilarejo. Estão lá a miséria, o descaso, a luta por seus ideais, porém estão todos renegados a segundo-plano, Faucon quer mesmo é tratar da traição. Se o filme não toma partido, não discute, e nem nos envolve tanto, pelo menos é honesto e deixa suas cartas expostas à mesa para que quiser apreciá-las

A Pequena Jerusalém

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(La Petite Jerusalem, 2005 – FRA)

De uma delicadeza e sensibilidade invejáveis, o manejo da câmera é tão suave e tão próximo dos corpos que esta proximidade nos deixa mais íntimos daquela história, de toda sua dualidade. O conflito surge vigoroso, um misto entre a ideologia e o passional, o recatado, o renegar sentimentos, a explosão da emoção, tabus. Pequena Jerusalém é o apelido de um bairro no subúrbio de Paris que abrigou a primeira imigração de Judeus.
Há duas figuras femininas, duas irmãs. Mathilde, a mais velha, é casada com Ariel, filhos pequenos, segue a risca a ortodoxia religiosa imposta pelo marido, de tão recatada o casamento perdeu seu brilho, a crise os contaminou. Já Laura é estudante de filosofia, rebelde, deseja ser independente. Respeita os costumes religiosos, porém não é muito alheia a eles.
Com essas duas figuras riquíssimas, o diretor Karin Albou discute alguns posicionamentos femininos na sociedade Judaica contemporânea, aliás, muitos podem dizer que estão fartos desse tipo de discussão, mas Albou destila um estilo tão próprio que consegue trazer a tona outras abordagens sobre temas tão debatidos. É tudo tão afável e polido em seu filme, que mesmo o nu, e as discussões entre filosofia e religião subvertem em limpidez e espontaneidade. De uma destas mulheres surge o tema sexualidade, o prazer e o que sugere o Torá. E o tema é debatido abertamente, chegando a detalhes muito pessoais, Karin Albou demonstra maestria em não permitir que eles fujam ao subversivo.
A conflitante personalidade de Laura é prato cheio, ela renega os sentimentos, apega-se a filosofia (automaticamente afastando-a da religião). Quando na verdade a filosofia era uma maneira de camuflar-se, seus sentimentos emergem incontroláveis. Aquela mulher aparentemente fria e madura demonstra-se de uma fragilidade e entrega a paixão incontestáveis. Seu relacionamento com um muçulmano é o estopim, não só para o maior terror de sua família, mas um estopim psicológico, que demonstraria toda sua fragilidade e entrega a tudo aquilo que ela não pode controlar. Seu autocontrole só chegava até a página dois do manual, Laura é muito mais sensível do que acreditava ser. E de suas fragilidades Albou discute a condição religiosa (versus filosofia), a xenofobia, e principalmente o desejo numa sociedade tão reprimida.

Laura (Fanny Valette) Mathilde (Elsa Zylberstein) Ariel (Bruno Todeschini) Djamel (Hedi Tillette de Clermont-Tonnerre)

Flores do Amanhã

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(Xiang Ri Kui / Sunflower, 2005 – CHI)

O filme de Zhang Yang quer ser mais do que realmente conseguiu. Sua estrutura narrativa é clássica demais, seus personagens giram em torno de comportamentos que estamos cansados de acompanhar no cinema oriental. É um filme que já vimos diversas vezes, só mudaram os atores e os nomes dos personagens. Longe de resultar num filme descartável, apenas está chovendo no molhado, trazendo pouco de novo para arejar o público.
Um pai refletindo suas frustrações no filho, forçando que ele siga o caminho que o próprio pai sempre desejou. O pintor Gengnian perdeu suas habilidades após anos de tortura e trabalhos forçados em campos de trabalho durante a tirania de Mao Tse Tung. Ao voltar para casa, sua figura paterna não é reconhecida pelo filho Xiagyang. A fim de obter respeito e exigir disciplina, o pai insistentemente obriga o filho a praticar desenho e pintura.
A relação dos dois é tempestuosa, o conflito freqüente faz com que Xiagyang veja a pintura como um castigo, qualquer coisa que o aproximasse do pai seria visto como pura obrigação. O garoto até tenta machucar sua mão, apenas para se livrar desse carma (em seu ponto de vista). Os anos passam e Xiagyang aprende que seu pai quer controlar sua vida, numa tentativa de colocá-lo no melhor caminho possível (os pais sempre tentam fazer isso, mas há maneiras e maneiras). A forma truncada de educar causa muito mais ódio e recusa do que amor e proximidade.
Serão quase quarenta anos acompanhando a vida daquela família, sofrendo as transformações que a mudança política ofereceu. Além de Zhang Yang optar por uma narrativa extremamente clássica, seu problema ainda maior é o personagem de Gengnian. Sua figura é muito conflitante, o egoísmo é sua característica mais presente, as coisas devem acontecer no momento em que ele as quer. Seu fim talvez fosse a decisão mais coerente, seu mundo é solitário demais e ele não conseguiu adaptar-se ao mundo propriamente dito.
Infelizmente a belíssima personagem da patinadora desaparece sem nunca mais retornar à história, ela é a figura-chave a demonstrar a incoerência e egoísmo de Gengnian, suas atitudes são tão revoltantes com relação à moça que minha vontade era de esmurrá-lo, e mais tarde ele praticamente obriga o filho a dar exatamente o que o próprio pai tinha-lhes tirado.

Xiuqing (Joan Chen) Xiangyang – criança (Zhang Fan) Xiangyang – jovem (Ge Gao) Xiangyang (Wang Haidi) Gengnian (Haiying Sun)




MÚSICA DA SEMANA:

LOVE ME TWO TIMES
(The Doors)

Love me two times, baby
Love me twice today
Love me two times, girl
I'm goin' away

Love me two times, girl
One for tomorrow
One just for today
Love me two times
I'm goin' away

Love me one time
I could not speak
Love me one time
Yeah, my knees got weak

Love me two times, girl
Last me all through the week
Love me two times
I'm goin' away
Love me two times
I'm goin' away

Love me one time
I could not speak
Love me one time
Yeah, my knees got weak

Love me two times, girl
Last me all through the week
Love me two times
I'm goin' away
Love me two times
I'm goin' away

Love me two times, baby
Love me twice today
Love me two times, girl
I'm goin' away

Love me two times, girl
One for tomorrow
One just for today
Love me two times
I'm goin' away

Love me two times, baby
Love me twice today
Love me two times, girl
I'm goin' away

O Maior Amor do Mundo

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(2006)

Cacá Diegues consegue fazer um filme popular e de autor ao mesmo tempo, isso é muito interessante porque aproxima o público de um cinema que não segue a cartilha do óbvio. A primeira sensação é de um carinho muito grande do cineasta em cada tomada, uma atenção especial com cada cena, mesmo que muitos momentos tenha sido melhor planejados do que executados (a cena da máquina fotográfica principalmente), as peças se encaixa ao seu tempo, sem atropelos na história. Diegues transpira em cada take.
É mais uma história de alguém descobrindo uma doença letal e partindo em busca de uma espécie de redenção em suas origens, em sua infância, uma reconciliação com o passado. No caso, um astrofísico morando no exterior, ao retornar ao Brasil parte em busca de informações sobre sua mãe biológica. Diegues tenta, pouco-a-pouco, posicionar a vida de Antonio dentro do contexto histórico brasileiro, nascido no dia da fatídica final da Copa do Mundo de 1950, o personagem cruza a guerrilha armada da época da ditadura, e busca suas origens em meio ao tráfico e violência numa favela carioca. O diretor não pretende propor um painel histórico político-social do país nesse mais de meio século, seu objetivo é não deixar esquecidos esses pontos que fazem parte do nosso cotidiano.
A proposta principal é a descaracterização do personagem Antonio Salles Filho, um homem que aprendeu com seu pai a criar uma redoma impenetrável, praticamente alheio aos sentimentos, e poucos dias antes de morrer descobre que sem amor não há momentos de felicidades, e que o maior amor do mundo é a própria vida, já que ela propicia todos os sentimentos e desencontros. O choque entre o seu estilo de vida e a realidade da favela é pouco, quando ele se depara com os conflitos em sua cabeça, com tudo que desperdiçou e agora não terá tempo para recuperar.
Se José Wilker está literalmente entregue ao papel, a própria personificação de Antonio; Marco Ricca e Sérgio Brito (os dois dividem o mesmo personagem) atuam de forma magnífica. Cacá Diegues oferece momentos muito bonitos com toda a delicadeza na condução da trama, usa a música quase como um narrador, há Chico Buarque, Caetano e Gil, há também Villa-Lobos e rap’s; por outro lado desperdiça outros com esse exagero sonoro (a cena do nascimento na beira do rio é quase hedionda, e o revide da polícia que poderia ocasionar numa cena fortíssima se perde).
Está longe de ser um filme perfeito, mas talvez na imperfeição que esteja sua graça, porque nós seres humanos vivemos da imperfeição de nossos atos, são eles que tornam os sentimentos mais humanos. Diegues não esconde suas imperfeições, deixa à mostra para que todos vejam que Antonio, Flora, Luciana, Mosca e Zezé são de carne e osso; estão na esquina da sua casa.

Antonio Salles Filho (José Wilker) Luciana (Taís Araújo) Antonio Salles (Sérgio Brito/Marco Ricca)


PS: Assisti ao filme numa sessão especial de pré-estréia na Cinemateca, após a projeção teve debate com Cacá Diegues e José Wilker. Se Wilker é aquela figura carismática que está presente na maioria de seus papéis em novelas, Diegues é um bom de papo. Dois contadores de história!

O Sabor da Melância

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(Tia Bian Yi Duo Yun, 2005 - TAI/FRA)

Situação caótica, falta irrestrita de água em Taipei, rios e reservatórios estão praticamente secos, só há disponibilidade nos canos durante as madrugadas. Por outro lado, não sabem o que fazer com a safra de melância, exagerada fartura. Seu suco tornou-se o principal instrumento para saciar a sede da população. Nesse ambiente uma jovem, que recém retornara a cidade, reencontra um conhecido (personagens do filme Que Horas São Ai?). A amizade vai além, transforma-se em flerte, ela não suspeitava que seu recente amor está participando como ator das filmagens de um filme pornô no prédio em que ela reside.
Novamente Tsai Ming-Liang faz d'água o fio condutor a destilar suas provocações (ou no caso a falta dela), seus anseios e suas visões sobre a sociedade contemporânea, sobre o amor, sobre a solidão (principalmente). A melância representa a paixão, o desejo, Ming-Liang está quase dizendo que não existe mais o amor puro. A jovem apaixonada oferece o suco a fim de refrescá-lo, ele se livra do líquido pela janela e responde com um sorriso agradecido. É como se, numa simples ação, ele jogasse fora os sentimentos que ela nutre por ele.
O diretor mostra parte de sua visão do mundo da pornografia cinematográfica, sempre com humor sagaz. De outro lado, traz a tona uma profundidade eloqüente nas cenas de solidão da jovem, normalmente deliciando-se com melancia, ou em busca de garrafas d'água para uso doméstico. Eis que Ming-Liang faz sua provocação quanta a ingerência humana dos recursos naturais, a situação é tão grotesca que o reaproveitamento de cada gota faz-se mais que necessário.
Há diversas incursões musicais, normalmente com versões de famosas músicas em inglês. Algumas delas auxiliam na narrativa, trazendo fatos do passado ou revelando sentimentos, porém outras soam de enorme mal-gosto (e irão se unir há algumas seqüências com esse mesmo tom de mal-gosto, que acabam diluindo a beleza que Ming-Liang criara). Por essas que o resultado final torna-se irregular, se há grandes momentos como a seqüência em que o rapaz banha-se na caixa-d'água do prédio, ou quando fala das confusões de um encontro amoroso, e o melhor de todos debaixo da mesa de jantar com leves toques de carinhos entre os dois, há outros quase pavorosos. E não estou falando da cena final, que mesmo sendo precedida de momentos dispensáveis, seu resultado e significado enobrecem o filme e sua proposta.

Lemming - Instinto Animal

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(Lemming, 2005 - FRA)

Bénédicte retira-se por alguns instantes da sala de jantar para aprontar o prato de entrada, poucos segundos e Alain também se retira com a desculpa de auxiliá-la, quando na verdade estava meio sem jeito, aquele momento em que os anfitriões não sabem o que fazer para agradar os convidados. E não eram meros convidados, tratava-se de seu chefe e a esposa (com ar de poucos amigos). Bénédicte puxa contra si o marido, encostados na geladeira beijam-se num momento de carinho inenarrável. Aquele beijo lento e demorado congela o tempo para os dois, uma mistura de amor e orgulho, uma cena maravilhosa. O jantar termina desastroso, não por culpa dos anfitriões. Pior que será apenas o estopim para uma série de acontecimentos aterrorizantes.
Dominik Moll inicia apresentando um espelho ao casal perfeito. Educados, bonitos e joviais, prestativos, razoavelmente bem de vida, casa nova num ótimo bairro, a relação do dia-a-dia em ritmo de lua-de-mel. Logo a seguir um entupimento na pia, culminando com o jantar infernal. O motivo da pia entupida era um lemingue (um pequenino roedor) no cano. Um lemingue? Na França? Mas eles só vivem no norte da Escandinávia! Estranho. E estranho é pouco, a analogia do lemingue com o futuro daquele casal (no curto prazo), chega a ser barata, pouco importa quando se cria a atmosfera perfeita, quando a quantidade de acertos é tão grande.
E o diretor começa acertando na fotografia, no silêncio e vagarosidade com que conduz os fatos. No clima quase tenebroso, quase nunca explosivo, como se as emoções implodissem nos personagens. Nas deliciosas incursões de jazz e música clássica enquanto os personagens executam pequenas tarefas. O mistério está enraizado em cada cena, o estranho animal transforma-se num imã negativo, tenta-se relacionar os fatos a uma lenda romântica de suicídio em grupo dos lemingues.
E Moll continua acertando, nos fazendo manter a atenção redobrada, nos conquistando por sua excelência na direção e competência em surpreender sem parecer inverossímil (flerta com o cinema fantástico). Sua teia fica ainda mais intrigante por laçar com precisão suspense e amor, um filme tão pontuado pelo mistério consegue guardar momentos românticos preciosos. Se já não bastasse todo esse arsenal, o filme termina maravilhosamente bem, ausente de atropelos. E os créditos finais começam com a presença sonora de Dream a Little Dream of Me, e Moll surpreendente acerta de novo. Difícil levantar-se da poltrona, pois a música embala, perpetua tudo aquilo que acabamos de acompanhar, um momento mágico, o suspense dando lugar ao amor, quase inimaginável.
André Dussollier espetacular como coadjuvante, Charlotte Gainsbourg bonita e talentosa. Seu jeito meigo e o semblante que transmite total segurança, já seriam armas fáceis a nos conquistar, mas ela vai mais longe e controla perfeitamente as facetas de sua personagem. Lemming é uma grata surpresa, porque não há cenas dissonantes nem gratuitas, o que poderia soar corriqueiro terá importância em seu desfecho. Consegue variar em nuances sem sair do foco.

Alain Getty (Laurent Lucas) Bénédicte Getty (Charlotte Gainsbourg) Alice Polock (Charlotte Rampling) Richard Pollock (André Dussollier)



MÚSICA DA SEMANA:

FINGI NA HORA RIR
(Los Hermanos - composição: Marcelo Camelo)

Hoje eu quis brincar de ter ciúme de você
Mas sem porque meu coração me avisou que não
Fingi na hora rir
Talvez por aqui estar tão longe de você pra te dizer

Aquilo que eu temia aconteceu ou foi só ilusão
Você manchou nós dois e desbotou a cor de um só coração
Ou anda sozinha, me esperando pra dizer coisas de amor

Pois eu, eu só penso em você
Já não sei mais porque
Em ti eu consigo encontrar
Um caminho, um motivo, um lugar
Pra eu poder repousar meu amor

Quantas horas mais vão me bater até você chegar?
Aqui meu lar deixou de ser aquilo que um dia eu construí
E eu fico sozinho, esperando pra trazer você para mim

Sofro por saber que não sou eu quem vai te convencer
Que cada dia a mais é um a menos pro encontro acontecer
E eu fico sozinho, esperando por você, meu bem-querer

Pois eu, eu só penso em você
Já não sei mais porque
Em ti eu consigo encontrar
Um caminho, um motivo, um lugar
Pra eu poder repousar meu amor

Código Desconhecido

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(Code Inconnu: Récit Incomplet de Divers Voyages, 2000 – FRA/ALE/ROM)

Estava louco para rever Cachê, após assistir Código Desconhecido não me contive e no dia seguinte corri ao cinema. No meu entender esse filme serviu como esboço para que Michael Haneke desenvolve-se aquela que seria sua obra-prima (Cachê). Há algumas semelhanças, parte delas são do estilo próprio do cineasta, outras não são tão gratuitas, e não é só do tema que estou falando, ressalto a incompreensão presente nos personagens (ou melhor, na vida humana), a estante cheia de livros no apartamento de Anne, seu modo de se vestir. Portanto coisas pequenas e outras grandes, resumindo, algumas obsessões de Haneke.
Por me parecer um esboço, esse filme tornar-se-ia plausivamente irregular (sem procurar desculpas para suas falhas). Quando se fala em fragmentos, falamos em pedaços de histórias, em pequenos esquetes sem começo, sem fim; ligadas de alguma forma ao contexto geral, porém sem a preocupação da lógica, do total discernimento. As principais cenas do filme foram filmadas em longos takes sem cortes, a xenofobia está escancarada em cada uma dessas pequenas histórias que se entrecruzam.
É no primeiro longo plano-seqüência que os personagens principais interagem, há um garoto que fugiu do sítio que morava com o pai, procura a namorada de seu irmão, quer refúgio. Ela (Anne) é atenciosa, mas deixa claro que ele não pode ficar, se despedem. Irritado o garoto joga um papel amassado numa mendiga (imigrante romena), um rapaz negro traz o garoto pelo pescoço a fim de obrigá-lo a desculpar-se pelo insulto causado. Temos um jovem francês, um negro e um imigrante, e o incômodo que eles causam. Os comerciantes querem se livrar da mulher mendigando e o garoto negro que almejava justiça e respeito se torna o bode expiatório que vai parar na delegacia.
Temos a incompreensão entre raças e objetivos, faltava a guerra. Georges (o namorado de Anne) é fotografo de guerra, vive nos perigos do front presenciando o horror daquela estupidez. Uma discussão com uma amiga que não entende o porquê desse trabalho, quem estaria interessado em ver tais horrores, qual o intuito? - Haneke se põe na pele de Georges, defende o seu cinema. A imigrante é deportada, mas prefere mentir e voltar a Paris a ficar em seu país, mendigando consegue ajudar mais sua família.
Já relatei demais sobre o filme, ele é todo marcado por pequenas situações, conversas, discussões, pseudo-explosões emocionais, tudo voltado para a incompreensão em diversas formas. A violência está presente o tempo todo, a xenofobia, o ódio, o interesse próprio, o egoísmo e o egocentrismo, Haneke monta um quebra-cabeças torto, mas suas peças são claras e objetivas. O Código Desconhecido a que se refere é esse código de conduta que não está escrito em livro nenhum, em lei nenhuma, mas é seguido por toda a sociedade, devorando o próximo. E se depois de tudo isso, você achar que o filme é estranho e irregular (como eu), lembre-se que há Juliette Binoche que dispensa comentários.

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Michel Simões