(Le Temps qui Reste, 2005 – FRA)
Até do título surge a sutileza e a noção triste e serena de movimento, de algo a se esvair lentamente, parecido com o barulho do vento bem ao fundo, a areia movendo-se. De um filme abordando os derradeiros momentos de um jovem ao descobrir sofrer de um câncer em estágio terminal, pode-se antecipar rapidamente todos os contornos que esse resto de vida irá tomar. Ao não recusar o clichê que sua própria história o encurralou, François Ozon trafega delicadamente rumo a elegância e beleza que seu filme se resume.
Resta a visão de um cineasta, resta a dor, o amor, resta a despedida, a busca de seu próprio eu na infância. Caminhos sem volta, caminhos garantidos, Ozon dá seu toque ao simples e resulta no belo. Substitui a obviedade da doença, pela também óbvia dor da proximidade da morte, do tempo a se esgotar, da indecisão entre magoar aqueles que se ama ou magoar muito aqueles que se ama.
Romper com seu parceiro para poupá-lo, agredir sua irmã no seu ponto mais frágil, sua fria intolerância é tão somente um dos sintomas da pessoa que está partindo, e dá lugar a alguém mais ressentido, sofrido. Uma transformação contínua enquanto o corpo definha, dói a lembrança de seus momentos pueris, as recordações cada vez mais presentes. Nos momentos mais duros é na infância que buscamos consolo, nosso oásis de paz. A fotografia deixa de ser apenas a profissão, para ser uma espécie de testamento, capaz de captar suas conflitantes emoções, algo que ele poderá deixar aos seus. Tira fotos do parceiro logo após romperem, tira fotos da avó ao se despedirem, tira fotos da praia, despede-se com seus cliques.
Melvil Poupaud totalmente irrepreensível, seu semblante discreto e angustiado, aliado aos enquadramentos da câmera de Ozon e as escolhas corretas na trilha sonora, resultam em momentos oníricos. Se ocasiões especiais estão espalhadas à vontade, vide o encontro com Jeanne Moreau e a força como situação da seqüência de ménage-à-trois; ainda assim nada pode superar a cena potente e singela em que Romain avista a irmã ao celular brincando com os filhos num parque. Pegando-se a bagagem que o filme nos deixou até ali, aquele momento torna-se único, as lágrimas no rosto são incontroláveis. A certeza é de que Ozon conseguiu captar toda a complexidade do personagem que construiu, não consigo pensar naquele momento sem arrepiar a espinha, sem notar a precipitação de novas lágrimas. Se o filme não fosse o que é, essa cena já faria o cinema valer a pena.
Romain (Melvil Poupaud) Laura (Jeanne Moreau) Jany (Valeria Bruni Tedeschi) Sasha (Christian Sengewald) Sophie (Louise-Anne Hippeau)
Até do título surge a sutileza e a noção triste e serena de movimento, de algo a se esvair lentamente, parecido com o barulho do vento bem ao fundo, a areia movendo-se. De um filme abordando os derradeiros momentos de um jovem ao descobrir sofrer de um câncer em estágio terminal, pode-se antecipar rapidamente todos os contornos que esse resto de vida irá tomar. Ao não recusar o clichê que sua própria história o encurralou, François Ozon trafega delicadamente rumo a elegância e beleza que seu filme se resume.
Resta a visão de um cineasta, resta a dor, o amor, resta a despedida, a busca de seu próprio eu na infância. Caminhos sem volta, caminhos garantidos, Ozon dá seu toque ao simples e resulta no belo. Substitui a obviedade da doença, pela também óbvia dor da proximidade da morte, do tempo a se esgotar, da indecisão entre magoar aqueles que se ama ou magoar muito aqueles que se ama.
Romper com seu parceiro para poupá-lo, agredir sua irmã no seu ponto mais frágil, sua fria intolerância é tão somente um dos sintomas da pessoa que está partindo, e dá lugar a alguém mais ressentido, sofrido. Uma transformação contínua enquanto o corpo definha, dói a lembrança de seus momentos pueris, as recordações cada vez mais presentes. Nos momentos mais duros é na infância que buscamos consolo, nosso oásis de paz. A fotografia deixa de ser apenas a profissão, para ser uma espécie de testamento, capaz de captar suas conflitantes emoções, algo que ele poderá deixar aos seus. Tira fotos do parceiro logo após romperem, tira fotos da avó ao se despedirem, tira fotos da praia, despede-se com seus cliques.
Melvil Poupaud totalmente irrepreensível, seu semblante discreto e angustiado, aliado aos enquadramentos da câmera de Ozon e as escolhas corretas na trilha sonora, resultam em momentos oníricos. Se ocasiões especiais estão espalhadas à vontade, vide o encontro com Jeanne Moreau e a força como situação da seqüência de ménage-à-trois; ainda assim nada pode superar a cena potente e singela em que Romain avista a irmã ao celular brincando com os filhos num parque. Pegando-se a bagagem que o filme nos deixou até ali, aquele momento torna-se único, as lágrimas no rosto são incontroláveis. A certeza é de que Ozon conseguiu captar toda a complexidade do personagem que construiu, não consigo pensar naquele momento sem arrepiar a espinha, sem notar a precipitação de novas lágrimas. Se o filme não fosse o que é, essa cena já faria o cinema valer a pena.
Romain (Melvil Poupaud) Laura (Jeanne Moreau) Jany (Valeria Bruni Tedeschi) Sasha (Christian Sengewald) Sophie (Louise-Anne Hippeau)
