agosto 2006 Archives

O Tempo que Resta

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(Le Temps qui Reste, 2005 – FRA)

Até do título surge a sutileza e a noção triste e serena de movimento, de algo a se esvair lentamente, parecido com o barulho do vento bem ao fundo, a areia movendo-se. De um filme abordando os derradeiros momentos de um jovem ao descobrir sofrer de um câncer em estágio terminal, pode-se antecipar rapidamente todos os contornos que esse resto de vida irá tomar. Ao não recusar o clichê que sua própria história o encurralou, François Ozon trafega delicadamente rumo a elegância e beleza que seu filme se resume.
Resta a visão de um cineasta, resta a dor, o amor, resta a despedida, a busca de seu próprio eu na infância. Caminhos sem volta, caminhos garantidos, Ozon dá seu toque ao simples e resulta no belo. Substitui a obviedade da doença, pela também óbvia dor da proximidade da morte, do tempo a se esgotar, da indecisão entre magoar aqueles que se ama ou magoar muito aqueles que se ama.
Romper com seu parceiro para poupá-lo, agredir sua irmã no seu ponto mais frágil, sua fria intolerância é tão somente um dos sintomas da pessoa que está partindo, e dá lugar a alguém mais ressentido, sofrido. Uma transformação contínua enquanto o corpo definha, dói a lembrança de seus momentos pueris, as recordações cada vez mais presentes. Nos momentos mais duros é na infância que buscamos consolo, nosso oásis de paz. A fotografia deixa de ser apenas a profissão, para ser uma espécie de testamento, capaz de captar suas conflitantes emoções, algo que ele poderá deixar aos seus. Tira fotos do parceiro logo após romperem, tira fotos da avó ao se despedirem, tira fotos da praia, despede-se com seus cliques.
Melvil Poupaud totalmente irrepreensível, seu semblante discreto e angustiado, aliado aos enquadramentos da câmera de Ozon e as escolhas corretas na trilha sonora, resultam em momentos oníricos. Se ocasiões especiais estão espalhadas à vontade, vide o encontro com Jeanne Moreau e a força como situação da seqüência de ménage-à-trois; ainda assim nada pode superar a cena potente e singela em que Romain avista a irmã ao celular brincando com os filhos num parque. Pegando-se a bagagem que o filme nos deixou até ali, aquele momento torna-se único, as lágrimas no rosto são incontroláveis. A certeza é de que Ozon conseguiu captar toda a complexidade do personagem que construiu, não consigo pensar naquele momento sem arrepiar a espinha, sem notar a precipitação de novas lágrimas. Se o filme não fosse o que é, essa cena já faria o cinema valer a pena.

Romain (Melvil Poupaud) Laura (Jeanne Moreau) Jany (Valeria Bruni Tedeschi) Sasha (Christian Sengewald) Sophie (Louise-Anne Hippeau)

O Joelho de Claire

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(Le Genou de Claire, 1970 - FRA)

Definitivamente o estilo de Eric Rohmer não me agrada muito, também não chego a considerá-lo um orquestrador de maus filmes, apenas não me agrada de modo geral. Este é o quinto filme da série Seis Contos Morais, é novamente Rohmer verbalizando sobre a infidelidade, a sedução, a conquista. Posso perfeitamente compreender a convicção na personalidade da escritora Aurora e do diplomata Jérome, seguros de si, pessoas maduras que acabam divertindo-se a seu modo com o joguinho que eles mesmos planejaram.
Aurora faz Jérome de cobaia, insinua para que ele seduza as filhas adolescentes que moram na casa em que Aurora está hospedada, ela quer transformar em livro os relatos do amigo. Primeiro é Laura, e é nessa personagem que Rohmer desencontra-se, porque dimensiona exageradamente a maturidade desta garota. Ela discute relações como quem atravessou dois longos casamentos, a relação entre Jérome e Laura é pegajosa, e a garota consegue conduzi-la quase maquiavelicamente. Não há fragilidade, não há insegurança, em contrapartida ela demonstra as mais normais características de uma adolescente quando se trata da mãe, ou de um colega de escola. Laura foi idealizada por Rohmer, viabilizou seu filme, mas não a verossimilhança.
Depois há Claire, essa sim construída dentro da normalidade. Sua beleza descomunal esconde a fragilidade de seus sentimentos, uma personalidade quase selvagem, facilmente fascinante para um homem maduro e galanteador. Rohmer faz do joelho da moça um acontecimento apoteótico, as cenas que o envolvem são flamejantes, resumem eficazmente todo o enredo e ritmo da história. Muito mais que os inúmeros e longuíssimos diálogos (muitos deles ótimos e esclarecedores) travados por Jérome e Aurora, ou Jérome e Laura.
Vale falar da atmosfera criada por Rohmer, a paisagem paradisíaca repleta de verde, e aquela burguesia caminhando, colhendo flores, andando de lancha. A natureza é figura totalmente presente, sucos de fruta no jardim, comer fruta diretamente da árvore, longas tardes ensolaradas, aquilo sim é vida. Jérome e Aurora estão brincando, não irão se ferir, cada um tem seu propósito naquelas semanas de férias (o filme é dividido como num diário). Os momentos em que o joelho de Claire ganham destaque são a perfeita demonstração da moralidade que Rohmer almeja discutir.

Jérome (Jean-Claude Brialy) Aurora (Aurora Cornu) Laura (Béatrice Romand) Claire (Laurence de Monaghan)




Só vou postar sobre o filme mais para o final da semana, mas desde que ouvi a música nos créditos finais de Lemming, não tive dúvidas de que seria a música da semana, aliás, o filme é ótimo.

MÚSICA DA SEMANA:

DREAM A LITTLE DREAM OF ME
(The Mamas and the Papas - Composição: Kahn / Schwandt-Andre)

Stars shining bright above you;
Night breezes seem to whisper ‘I love you?
Birds singing in the sycamore tree.
Dream a little dream of me.

Say nighty-night and kiss me;
Just hold me tight and tell me you'll miss me.
While I'm alone, blue as can be,
Dream a little dream of me.

Stars fading but I linger on, dear
Still craving your kiss.
I'm longing to linger till dawn, dear,
Just saying this...

Sweet dreams till sunbeams find you
Sweet dreams that leave all worries behind you.
But in your dreams, whatever they be,
Dream a little dream of me.

Stars fading but I linger on, dear
Still craving your kiss.
I'm longing to linger till dawn, dear,
Just saying this...

Sweet dreams till sunbeams find you
Sweet dreams that leave all worries far behind you.
But in your dreams, whatever they be,
Dream a little dream of me
O Açougueiro (Le Boucher, 1970 - FRA)

O que esse filme tem que possa interessar alguém além da assinatura de um cineasta consagrado? Ou da participação de um ator/atriz que se goste muito? Na minha humilde visão, nada. Só a leitura do nome de Claude Chabrol não me contenta, possuir esse ou aquele ator no elenco menos ainda. Isso pode me trazer expectativa, mas está longe de ser garantia de que seja um bom filme. É um filme simplíssimo, sem disfarces, enxuto sobre todos os aspectos. Composto basicamente de cenas corriqueiras, no começo faz insinuar-se como romance, ledo engano (isso é bom).
De início um casamento, e a professora do pequeno vilarejo rural francês conhece o açougueiro, entre eles nasce uma amizade. Jantam juntos, conversam em diversas oportunidades, tudo muito pacato e tranqüilo. Uma série de assassinatos começa a agitar a cidade, mas é um agito tão brando que mal se percebe que corpos de jovens garotas estão aparecendo nas proximidades.
Excetuando a seqüência crucial que se apresenta bastante competente em sua atmosfera de suspense, temos apenas um pouco de estilo de Chabrol destilado em uma cena ou outra, resultando num filme pouco inspirado, algo que deveria ser lembrado apenas por completar a filmografia de um cineasta importante.

O Que Você Faria?

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(El Metodo, 2005 – ARG/ESP/ITA)

O título em português é medonho. Todo este assunto relacionado a técnicas de seleção de emprego, posturas a serem tomadas durante todo o processo seletivo, dinâmicas de grupo, livros de auto-ajuda, revistas especializadas, o mundo corporativo, são detestáveis ao meu paladar. No convívio do dia-a-dia, nas decisões tomadas a todo o momento, você sempre irá se basear em sua consciência e experiência, e não correr até uma revista em busca da decisão mais corporativa. Querem robotizar nosso comportamento, ou melhor, as pessoas acreditam que lendo sobre o assunto irão mudar suas condutas.
Sete executivos são trancafiados numa sala de reunião, um será escolhido para a vaga de emprego que todos pleiteiam. A competição está na mesa, a tensão grande, preenchem formulários e aguardam o início da dinâmica de grupo (ou no caso o misterioso Método Grönhom). Todo o contato durante o processo de seleção é feito via computador, são propostos jogos, interação total entre os postulantes à vaga. Os próprios candidatos decidem as eliminações, agredir, defender-se, esquivar ou atacar, tudo pode voltar-se contra você, os aspectos éticos não são os únicos em questão, há uma disputa e todos almejam o sucesso.
Sim, trata-se de uma espécie de Big Brother, assim como reserva grande proximidade com o teatro (o roteiro é baseado numa peça). Há dois destaques, a engenhosidade no roteiro é fundamental para que a tensão seja latente em cada um dos personagens, além de nos prender totalmente durante a narrativa. A direção de atores promovida por Marcelo Piñeyro é espetacular, todo o elenco está soberbo. Há naquela mesa de discussão as mais variadas características, e cada ator as assume com primor invejável. Seria impossível destacar apenas um.
Algumas derrapadas nos jogos propostos fazem com que nem tudo sejam flores (principalmente os acontecimentos no banheiro e o jogo com a bola, aliás, estão intimamente ligados). Enquanto os setes executivos digladiam-se tentando provar sua total capacidade para o cargo, Madri está em guerra num protesto violento contra o FMI e suas políticas. Esse lado de crítica política no filme de Piñeyro está muito bem inserido no contexto geral, porém não é capaz de sobressair-se, talvez por estarmos tão compenetrados naquele clima complexo e de alta tensão em que todos se encontram naquela sala. O mundo em chamas e eles ali, engravatados, decidindo qual deles seria mais importante num esconderijo pós-atômico (ótima demonstração do total afastamento dos dois mundos). O que Você Faria? é surpreendente, não pelos temas que deseja discutir (testes de seleção, comportamentos corporativos, políticas econômicas do capitalismo), mas pela tensão, pelas maneiras com que as pessoas conseguem sair das situações, um jogo psicológico intrigante.

Carlos (Eduardo Noriega) Nieves (Najwa Nimri) Fernando (Eduard Fernández) Ricardo (Pablo Echarri)Enrique (Ernesto Alterio) Montse (Natalia Verbeke) Adriana Ozores (Ana) Julio (Carmelo Gómez)

A Marselhesa

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(La Marseillaise, 1937 - FRA)

Minha admiração pela França vem de garoto, lembro-me de cantarolar a Marselhesa enquanto o professor de história entregava as provas, assobiando-a. O início da Revolução Francesa marcou um longo período de caos no país, aliás, a história francesa é marcada por sangue, intensas disputas políticas, constantes trocas de poder, conflitos religiosos e isto é só o começo. Muitos acusam o hino nacional francês de não ser belo por vangloriar batalhas e atiçar a violência sangrenta, desde que se saiba o contexto em que o texto foi escrito a beleza desse hino torna-se muito flamejante (tanto por sua letra, como por sua representatividade popular).
Não pretendo contar muitos detalhes do período histórico que Jean Renoir reproduziu com imenso brilho na telas do cinema. O cineasta esquivou-se dos pensadores Iluministas e do Protestantismo para concentrar-se unicamente no povo francês (jacobinos), vangloriando a paixão pela causa, o nacionalismo. Pode muito bem ser sensacionalista, porém é belo e glorioso, tratando da revolta da população cansada da monarquia e seus caprichos.
Canto de Guerra para o Exército do Reno, esse foi o primeiro nome da Marselhesa quando composta em 1792. Logo após a queda da Bastilha, um exército de jacobinos prepara-se em Marselha para apoiar os parisienses na derrocada da monarquia. A música é entoada pela multidão de soldados, o fervor do canto toma conta de seus corações. São momentos empolgantes, ouvimos a Marselhesa com paixão, é completamente irresistível o desejo de cantar junto aqueles versos.
Renoir é brilhante em muitos momentos, pena que poucos personagens são bem desenvolvidos, por outro lado há uma preocupação em transformá-los em heróis de carne e osso, que amam, que se preocupam com a família e seu lar. Posso estar cometendo uma hipérbole gigantesca, mas comparo o filme a Os Lusíadas de Camões, onde o grande homenageado dessa história é o povo francês. Renoir faz um retrato histórico primoroso, numa narrativa empolgante, nada envelhecida, repleta de humor, e de um nacionalismo apaixonante. Liberdade, Igualdade e Fraternidade são desejos latentes naqueles homens que se doam pelo mais sincero amor à pátria, e para eles que a Marselhesa foi composta. Que belo hino, que belo filme!



MÚSICA DA SEMANA:

A MARSELHESA
(Rouget De Lisle)

Allons enfants de la Patrie
Le jour de gloire est arrivé !
Contre nous de la tyrannie
L'étendard sanglant est levé
Entendez-vous dans nos campagnes
Mugir ces féroces soldats?
Ils viennent jusque dans vos bras.
Égorger vos fils, vos compagnes!

Aux armes citoyens
Formez vos bataillons
Marchons, marchons
Qu'un sang impur
Abreuve nos sillons

Que veut cette horde d'esclaves
De traîtres, de rois conjurés?
Pour qui ces ignobles entraves
Ces fers dès longtemps préparés?
Français, pour nous, ah! quel outrage
Quels transports il doit exciter?
C'est nous qu'on ose méditer
De rendre à l'antique esclavage!

Quoi ces cohortes étrangères!
Feraient la loi dans nos foyers!
Quoi! ces phalanges mercenaires
Terrasseraient nos fils guerriers!
Grand Dieu! par des mains enchaînées
Nos fronts sous le joug se ploieraient
De vils despotes deviendraient
Les maîtres des destinées.

Tremblez, tyrans et vous perfides
L'opprobre de tous les partis
Tremblez! vos projets parricides
Vont enfin recevoir leurs prix!
Tout est soldat pour vous combattre
S'ils tombent, nos jeunes héros
La France en produit de nouveaux,
Contre vous tout prêts à se battre.

Français, en guerriers magnanimes
Portez ou retenez vos coups!
Épargnez ces tristes victimes
À regret s'armant contre nous
Mais ces despotes sanguinaires
Mais ces complices de Bouillé
Tous ces tigres qui, sans pitié
Déchirent le sein de leur mère!

Nous entrerons dans la carrière
Quand nos aînés n'y seront plus
Nous y trouverons leur poussière
Et la trace de leurs vertus
Bien moins jaloux de leur survivre
Que de partager leur cercueil
Nous aurons le sublime orgueil
De les venger ou de les suivre!

Amour sacré de la Patrie
Conduis, soutiens nos bras vengeurs
Liberté, Liberté chérie
Combats avec tes défenseurs!
Sous nos drapeaux, que la victoire
Accoure à tes mâles accents
Que tes ennemis expirants
Voient ton triomphe et notre gloire!

Na Telona

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Essa semana foi ao ar meu primeiro texto como colaborador no site Na Telona, estou achando super-legal essa experiência de escrever para um site propriamente dito e como as atualizações são mensais nem terem problemas de ter que fazer as coisas correndo ou coisa que o valha. Encaro como uma extensão do blog, é mais gente lendo o que escrevo e eu continuo com meu hobby. Pretendo usar a base do texto que escrever p/ blog, mas no site será mais completo, com maiores informações e profundidade.
Quem quiser ler, o primeiro texto é sobre o filme Pai e Filho do Sokurov (quis começar com um diretor que gosto muito e o russo veio bem a calhar). Nessa edição também há criticas para os filmes Transamerica e Possession, além de um delicioso texto sobre Nino Rota.

Aqui está o link direto para o meu texto: http://www.natelona.com/review_c.asp?id=376

O Arco

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(Hwal, 2005 - COR/JAP)

Uma balança pendurada na lateral de um barco. Os pés da jovem resvalam na água pacífica, em pleno alto-mar. Desfila um sorriso inebriante, enigmático, acalentador, enquanto hipnotiza nossos olhos, nossas sensações. Uma reconfortante paz emerge daquela imagem quase utópica, algo entre o pueril e o insinuante, a magia do fascinante. Aquela menina, quase mulher, poderia ser a personificação da perfeição, mas não é, ela representa o Belo.
Pesquisei um pouco porque sou leigo, e encontrei a informação de que no Budismo o arco representa a perfeição, e no caminho da perfeição há o desapego ao Belo. Esse é o segredo da fábula criada por Kim Ki-Duk, o filme pode remeter a uma legião de significados, busque o seu, mas se interesse pelo que representa aquela figura pintada no casco do navio e talvez tenha encontrado o caminho que Ki-Duk desejou trilhar, culminando na frase que se refere a beleza do som emitido por um arco.
Uma garota mora há dez anos num barco com um senhor arqueiro que aluga a embarcação para pescadores amadores. Casar-se-ão quando ela completar dezessete anos. Aquele barco é o mundo que ela conhece, sua relação com o restante esbarra nas flechas que o arqueiro usa para afastá-la dos pescadores e no mar que a mantém distante de terra firme. Surge um rapaz que desperta na garota a paixão, uma nova descoberta. Logo ela que só tinha experimentado até então um amor de pai (pelo menos aos seus olhos). Pode-se fazer um paralelo com pai e filha muito apegados, até que a moça comece um namoro, o ciúmes e o sentido de possessão são latentes no pai traído.
A força da imagem e a voz do silêncio, são pontos que sobressaem do exercício de estilo que Ki-Duk oferece. Seus personagens não têm nome, eles quase (alguns nunca) falam, porém eles olham, e os olhares dizem tudo. Eles também tocam, sentem, não há necessidade de palavras quando se pode expressar tudo de maneira tão simples. O silêncio dos filmes de Ki-Duk é diferente, muitos cineastas buscam na lentidão e no silencioso uma forma de reflexão, um momento poético arrebatador. Já Ki-Duk dá voz ao silêncio, sentimentos escorrem da fisionomia de cada personagem, eis parte da beleza de seu cinema. Ele reinventa a forma de expressão, os olhos não mentem.
Partindo dessa premissa, Han Yeo-reum opera milagres frente às câmeras. Dona de um olhar capaz de expressar todas as emoções de sua personagem. Há cenas comprovando essa capacidade, uma delas é o momento de ruptura na relação com o velho arqueiro; em outra a música representa a paixão e seu rosto é apura tradução dessa paixão. Mas não há música, ela apenas existe em sua imaginação (e em nossos ouvidos). São duas passagens que se relacionam entre música e amor, porém são diferentes tipos de amor, um carnal e outro fraternal. A descoberta dessa diferenciação é o mote do trágico que irá marcar a segunda fase do filme.
Kim Ki-Duk não acerta o tempo todo em seu filme, há muitas imagens gratuitas, didáticas ao extremo, como se perdesse o tom do seu exercício estilístico. Até se reencontrar no final, que pode parecer artificial e fantasioso, só que dentro da fábula proposta é condizente, virtuoso. Ki-Duk foge do fácil, busca sim o poético e a plasticidade como forma de arte, alguns podem torcer o nariz, mas tentar decifrar o que exatamente aquelas imagens representam pode se tornar um jogo triunfal.

a garota (Han Yeo-reum) Arqueiro (Jeon Seong-hwang) o rapaz (Seo Si-jeok)

Os Sem-Floresta

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(Over the Hedge, 2006 - EUA)

Voltado para um público bem infantil, talvez falte uma maior identificação do público com os personagens. É uma tarefa difícil puxar da memória bons momentos, cenas marcantes, também não há recordações que aborreçam. A impressão que fica é que quase cairá no esquecimento, divertimento passageiro. Parte da culpa é dos diretores Tim Johnson e Karey Kirkpatrick, e parte é dos próprios criadores que não encontraram fórmula para que os personagens centrais ganhassem destaque no imaginário, perdem-se um ar bobinho demais que os marca. Talvez alguns se lembrem de RJ, outros irão recordar aquele esquilinho inquieto e ligeirinho (Hammy), não deve passar muito disso.
A premissa é boa, um grupo de animais silvestres acorda de mais um período de hibernação e encontram seu habitat reduzido com a construção de um enorme condomínio residencial. Desesperam-se com a preocupação de como arrumar comida para a próxima hibernação. Aparece RJ contando fábulas sobre deliciosas guloseimas que eles poderiam roubar dos humanos, mas seus planos não eram exatamente de filantropia para aqueles pequenos animais.
Repleto de lições morais (nós comemos para sobreviver, eles vivem para comer), a história gira em seu próprio eixo, enaltecendo a amizade, o interesse em grupo e a confiança, e novamente os humanos são estereotipados como carrascos (será que não somos mesmo, já que os que tanto dizem amar os animais moram nas casas construídas nos desmatamentos?). Temas nobres, mesmo que tratados de maneira tão infantil, não devem ser duramente criticados, devemos perder essa mania de que todas as animações conseguem atingir adultos e crianças. Os Sem-Floresta é para um público específico, e mesmo não encantando esse público alvo, as crianças se divertem com o passatempo, e isso é o mais importante.




MÚSICA DA SEMANA:

A LITTLE RESPECT
(Erasure)

I try to discover
A little something to make me sweeter
Oh baby refrain
From breaking my heart
I'm so in love with you
I'll be forever blue
That you give me no reason
Why you're making me work so hard

That you give me no
That you give me no
That you give me no
That you give me no

Soul, I hear you calling
Oh baby please
Give a little respect
To me

And if I should falter
Would you open your arms out to me
We can make love not war
And live at peace with our hearts
I'm so in love with you
I'll be forever blue
What religion or reason
Could drive a man to forsake his lover

Don't you tell me no
Don't you tell me no
Don't you tell me no
Don't you tell me no

Soul, I hear you calling
Oh baby please
Give a little respect
To me

I'm so in love with you
I'll be forever blue
That you give me no reason
Why you're making me work so hard

That you give me no
That you give me no
That you give me no
That you give me no

Soul, I hear you calling
Oh baby please (Give a little respect)
Give a little respect
To me

(Soul) I hear you calling
Oh baby please (Give a little respect)
Give a little respect
To me

Semana Perversão III

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A Bela da Tarde (Belle de Jour, 1967 - FRA)

Existe mulher no mundo capaz de identificar melhor a burguesia do que Catherine Deneuve? Falo isso no que se refere à elegância, postura, sutileza de movimentos e tom de voz. Ela é a própria personificação da aristocracia, do lado bom da aristocracia, um simples desabotoar, um mero toque na campainha, a classe está nos pequenos gestos. Ver Deneuve em trajes de um jogo de tênis é uma visão indescritível, é a naturalidade da situação o ponto de maior exacerbação, tem gente que nasceu para aristocracia (outro exemplo é Charlotte Rampling, porém sem a beleza hipnotizante de Deneuve).
Recém-casada, bem de vida, um marido amoroso, Sèverine não deveria ter nada a se queixar. Frígida, ama o marido, mas não encontra prazer nele. Desesperada (sem perder a pose) decide testar-se na casa de Madame Anais, entregar-se a qualquer um. Sèverine encontra o que faltava em sua vida, ama cada dia mais seu marido, contudo seu prazer sexual vem das suas tardes secretas.
Luis Buñuel oferece a cada imagem à elegância e classe que sua personagem exala, cada cena é serena, delicada, nenhuma quer ser mais importante que outra. O filme começa com um delicioso passeio de carruagem que depois demonstra ser uma vingança, o marido descobriu suas atividades secretas, mais tarde saberemos porquê Pierre decidiu armar sua vingança daquela forma. Os personagens de Buñuel são isentos de cinismo, de uma transparência virtuosa, são o que são e ponto final.
A Bela da Tarde não empolga como um todo, estamos muito mais fascinados pelas costas nuas de Deneuve, por sua presença marcante em cena, pelos movimentos que fazem uma mulher entediada com tudo buscar prazer na mais antiga das profissões. As mulheres repudiam as que se vendem, uma minoria acaba encontrando seu prazer exatamente nisso (muitos homens sonham com uma vida assim, uma mulher para amar em casa, e um mundo de mulheres para terem prazer pelas ruas).




La Famille Bellelli - 1857-60
Edgar DEGAS



Domingo fui visitar o MASP, um pouco decepcionante porque a maior parte das obras de Degas eram esculturas em bronze, mesmo assim há alguns quadros belíssimos. E complementa a Mostra um conjunto de quadros de pintores que influenciaram Degas de alguma forma, e aí temos um espetáculo a parte!

Semana Perversão II

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Coisas Secretas (Choses Secrètes, 2002 – FRA)

Há detalhes muito interessantes no filme de Jean-Claude Brisseau, a começar pela mudança de foco que a trama toma depois de transcorrido seu primeiro terço. Aparentemente teríamos um filme sobre duas mulheres testando seus desejos sexuais, buscando extrapolar limites sempre na ânsia pelo algo mais, pelo proibido, pelo estímulo máximo de sua libido. Brisseau faz desta fase uma breve introdução para algo que seria mais próximo a um clichê, porém nas mãos de Brisseau foge desse possível estigma.
Voltamos aos pontos interessantes, e há o flerte com Shakespeare (e o seu Contos Proibidos do Marquês de Sade). Há também uma inegável proximidade com a pintura, aqueles quadros que remetem a corpos nus em evasivas câmaras de palácios, a beleza ofegante da mulher e do sexo, a falta de pudores. E para completar, a presença constante de música clássica empregada com muita elegância e requinte, Bach e principalmente Vivaldi.
Com esse conjunto Brisseau desenvolve seus personagens numa trama sobre o poder, e sobre o autocontrole para exercer este poder. O sexo sempre está presente como figura central na personificação do poder, há aqueles que sabem usá-lo a seu favor e aqueles manipuláveis. As duas jovens tramam descobrir a vítima ideal, o amante endinheirado que irá debruçar-se aos pés dessas mulheres cheias de encantos, irresistíveis, insaciáveis. Encontram o executivo Delacroix, e encontram também um rival, alguém que pode estar a altura de seus desejos e suas tentações (Christophe). Dois homens, duas maneiras de encararem a vida, o sexo, dois comportamentos perante as mulheres.
Já na fase final a personagem de Nathalie encontra-se perdida na trama, perdeu função, ela mais aborrece quando surge do que qualquer outra coisa. Brisseau que tão bem amarrou seu filme e criou uma atmosfera envolvente e marcante não conseguiu uma saída melhor para ela. Por outro lado a maneira como Delacroix é subjugado funciona de maneira desconcertante, Roger Mirmont está espetacular demonstrando toda a desconstrução de um respeitável homem de família vivendo finalmente momentos de felicidade longe daquele engessado estilo de vida. Num telefonema para Sandrine, a câmera congelada em seu rosto segurando o telefone e a voz de Delacroix falando sobre seus sentimentos, sobre a situação. Da voz do ator surge o tom de desolação, sobriedade, sensatez, tristeza, se Sabrina Seyvecou não consegue nos emocionar ouvindo, Mirmont faz muito mais que isso só de ouvi-lo.

Sandrine (Sabrina Seyvecou) Nathalie (Coralie Revel) Delacroix (Roger Mirmont) Christophe (Fabrice Deville) Charlotte (Blandine Bury)

Semana Perversão

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Verdade Nua (Where the Truth Lies, 2005 - EUA)

O desejo de Atom Egoyam era fazer um filme noir, o desejo de Karen O'Connor era desvendar um caso obscuro no passado de seus dois grandes ídolos. O desejo de Vince Collins é dinheiro para desfrutar da vida confortável a qual se acostumou. Já Lanny Morris não mudou muito com o passar do tempo, seus desejos ainda giram entre sexo, fama, e sucesso.
Egoyam inventou demais no seu filme noir, algumas coincidências no roteiro mais atrapalham do que causam espanto ou ajudam (aliás são tantas que causam até enjôo); o clima ora parece bastante arranjado e ora surge perdido; e as insistentes narrações em off teimam em considerar o espectador como incapaz de compreender a trama, além de oferecer um clima doce demais, quase uma fábula infantil.
A jovem jornalista Karen O'Connor pretende descobrir os verdadeiros motivos da separação da dupla de humoristas de enorme sucesso na década de cinqüenta, Vince Collins e Lanny Morris. Consegue uma entrevista com Collins para publicação de sua biografia, só que seu envolvimento com os dois vai muito além das simples entrevistas. Karen entra pela porta dos fundos no mundo do show business, perversão, sexo, drogas, interesses, são as práticas mais comuns.
Favor concentrar atenções especiais em Colin Firth, talvez seja esse dos pontos de maior engano de Atom Egoyam. Todos os filmes dão maior visibilidade a personagens como o de Kevin Bacon (principalmente por um ator ser mais famoso que o outro), e Egoyam acaba caindo na vala comum quando poderia ter dado destaque a ótima composição de personagem feita por Firth. Um excelente trabalho para um tipo: comedido, mascarado, fraco e egocêntrico, Firth rouba cenas com seu falso-coadjuvante. Alison Lohman é linda, desfila sensualidade, Egoyam não lhe pede mais, poderia.
Toda seqüência de Lanny Morris cantando no hotel enquanto Vince faz um “servicinho” é bárbara, aliás a trilha sonora é um deleite. O filme escorrega aqui e ali, sofre pela obviedade de roteiro, de condução da trama e etc, mas ainda assim há muito a se aproveitar, esse lado negro do mundo artístico sempre desperta interesse, mesmo que as verdades não sejam tão inquietantes assim.

Karen O'Connor (Alison Lohman) Lanny Morris (Kevin Bacon) Vince Collins (Colin Firth) Reuben (David Hayman)



MÚSICA DA SEMANA


QUANDO VOCÊ VOLTAR
(Legião Urbana - composição: Renato Russo)

Vai, se você precisa ir
Não quero mais brigar esta noite
Nossas acusações infantis
E palavras mordazes que machucam tanto
Não vão levar a nada, como sempre
Vai, clareia um pouco a cabeça
Já que você não quer conversar.
Já brigamos tanto
Mais não vale a pena
Vou ficar aqui, com um bom livro ou com a TV
Sei que existe alguma coisa incomodando você
Meu amor, cuidado na estrada
E quando você voltar
Tranque o portão
Feche as janelas
Apague a luz
e saiba que te amo...

Sokurov nos Cinemas

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Não sou de ressuscitar posts, ainda mais que tenho vários filmes para publicar ainda, mas com esse quase milagre que é a estréia de mais um filme de Sokurov nos cinemas (já tinha desistido desse estreiar), me senti obrigado a trazer o texto que escrevi na Mostra SP de 2003. É óbvio que irei assistir ao filme novamente, é óbvio que gosto muito do filme (mesmo que seja o que menos gosto do diretor, se bem que só assisti 3), e mais óbvio que estou louco para ver outros dos seus filmes (principalmente The Sun que não veio para a última Mostra). Fica a vontade de oportunidades de conhecer mais da filmografia desse genial cineasta (eu sei que sou exceção, que a maioria não suporta seus filmes).


Pai e Filho (Otets i Syn/Father and Son, 2003 – RUS)

A primeira cena já desperta polêmicas e atenções; o som de uma respiração ofegante, dois corpos masculinos emaranhados em movimentos de muito carinho. O que pode parecer uma forte cena homossexual não passa de um momento em que um pai assiste ao pesadelo de seu filho. Com um forte apelo poético o cineasta russo Alexandr Sokurov (Arca Russa/Moloch) apresenta a relação pai e filho alcançando os limites do amor.
Um ex-militar ferido em combate reservou toda sua vida para criar seu filho sem a mãe (que morreu quando o garoto era muito pequeno). Essa relação tornou-se muito mais íntima do que o normal, o pai abdicou parcialmente de sua vida, não tem grandes amigos ou buscou novos amores. A relação é tão próxima que a namorada do filho preferiu deixá-lo de tanto ciúmes, mesmo gostando muito do rapaz. O filho segue os passos do pai e estuda para fazer carreira militar, o amadurecimento normal de sua idade começa a afastá-lo do pai, essa nova fase do relacionamento causa muito sofrimento aos dois, como se fossem obrigados a desprender-se de algo contra sua vontade, a demonstração de afeto explícito absorve a solidão sentida. “O amor do pai crucifica e o filho amoroso se deixa ser crucificado” repete o filho em vários momentos.
O diretor busca demonstrar a pureza do amor destes dois homens, mas é impossível não se deixar levar pela malícia que certas cenas possuem, hipocrisia demais acreditar que apenas a conotação poética será assimilada pelas cenas ou então tornam-se elas inverossímeis. Toda a estrutura narrativa foca-se no poder das imagens, abraços apertados e olhares compõem todo o roteiro, que é simplório e poético. Aliados ao uso preciso de uma trilha sonora magistral, baseada em Tchaikovsky e a plasticidade das cenas que borbulham de afeto trazendo sensações riquíssimas ao público. Quer maior demonstração de solidão do que aquela neve cobrindo o telhado?
Sokurov cria com primor uma cena de troca de olhares e uma branda discussão quando o casal de namorados termina a relação, tudo acontece numa janela entreaberta da escola militar que ele freqüenta. Com habilidade impar, os olhos ao mesmo tempo que procuram tentam esconder-se do outro. O poeta Sokurov dominou o cineasta e sua obra tornou-se um pouco abstrata demais. Se a sensibilidade e os aspectos humanos são desbravados com inspiração, a transposição destes elementos para a tela grande apresenta lacunas. Não se pode negar que é uma outra forma de cinema, um outro tipo de narrativa que foge aos padrões, um poema que invadiu as telas.

Pai (Andrei Shchetinin) Filho (Aleksei Nejmyshev)
Projeto Sons

Projeto desenvolvido em oficinas, com os estudantes participando efetivamente do processo criativo execução, roteiro final e direção a cargo do responsável pela oficinas, Eduardo Aguilar (que deixa suas referências efervescerem, principalmente sua paixão cinéfila, tanto nas homenagens, como em aspectos que cortejam Bergman, o Neo-Realismo, o terror; não saberia dar referências desse gênero). São quatro curtas-metragens, cada um deles desenvolve-se numa das fases do dia (o amanhecer, a noite, a hora do almoço...), sempre tendo o sexo como discussão, abordando seus mais diversos aspectos tais como: desejo, ódio, arrependimento, perda, prazer, dor, medo, culpa, angústia, necessidade, amor. Como conjunto o trabalho entrega-se numa busca por tratar o tema com amplitude, inovação, e alta dose de atualidade dentro da nova confecção sexual que se apresenta, intrigantemente libertária sem desprender-se do conservadorismo. Desses é a inovação a desabrochar como grande destaque, são pequenas histórias carregadas de elementos dramáticos, e a inovação está abertamente presente no desenrolar de cada uma, roteiros cuidados para abastecer o público com a quantidade necessária de informações para que possam ter completo entendimento, e um desenvolvimento extremamente criativo e moderno.

Jogos (2005)
É a grata surpresa do projeto, já começou me conquistando com o plano na janela que dá vista para a Avenida Paulista. Depois começa a desenhar-se em algo que nossos olhos falsamente enxergam, até a surpresa nos pegar de arroubo (e que surpresa genial). Sua contemporaneidade é mais que objetiva, é pungente. Trata não só o amor, como maneiras de mantê-lo aceso, e a eterna busca pela paixão flamejante. Sofre um pouco em algumas falas que soam artificiais, não pela maneira como foram contextualizadas, e sim como foram recitadas.

Claustro (2005)
Esse é um pouco obtuso, talvez lhe falte algo a explicar melhor a reação de seus personagens, suas aflições e sentimentos. Por outro lado há uma raiva incontida intensamente, e também um desejo que pulsa do corpo e dos olhos de Márcia de Oliveira. O travelling inicial tem função dúbia, representar o momento do dia, e dar indícios da atmosfera claustrofóbica que aquele apartamento reserva. É corajoso por não tratar um deficiente como coitadinho (muito pelo contrário), e ainda mais corajoso no desenvolvimento dos sentimentos que marcam seus personagens.

O Quadro (2005)
A perda, a separação, vontade de reconciliação, saudades, desejo. Está tudo resumido na história do casal recém-separado que se prepara para colocar a casa à venda. Em um deles ressurge a esperança do retorno, ao se deparar com cada cômodo na lembrança (ou fragmentos) dos momentos que viveram juntos. Esse também sofre de uma artificialidade nos diálogos, como se os atores estivessem com as falas decoradas demais, recitando palavra por palavra, mantendo a mesma entonação de voz, falta na fala a vibração que sobra nos gestos. Destaque para a cena do vinho escorrendo pelo pescoço.

Lourdes – Um Conto Gótico de Terror (2004)

Se atmosfera é o triunfo para um filme de terror, Aguilar sabe criá-la perfeitamente. Se os curtas anteriores primavam por roteiros muito bem delineados, nesse é a atmosfera a tomar conta da narrativa, aliás o roteiro parece vago, não elucidativo. Brinca (ou briga) com tabus, sexo versus religião principalmente, pena que Lourdes não parece ir muito longe de todo o clima que o envolve.


Oferendas (2006)

Muito mais interessante do que a trama, que na verdade é basicamente simples, está todo o processo criativo desenvolvido. É um filme de atmosfera, ela transpira em cada quadro. Engraçado como a câmera é lenta e ainda assim carrega todo o clima nebuloso, há algo de bergmaniano escondido nos movimentos, ainda que o macabro seja o fio condutor. Soou-me estranho as poucas falas divididas em idiomas diferentes. Ousado, Oferendas sabe ser simples e ousado, tanto em imagens (e alguns interessantes posicionamentos de câmera, há um em especial focando o recinto do ritual exatamente de cima, uma visão “aérea”) como na presença na mente que se mantém após o término. Dos cinco trabalhos citados, o que sem dúvida mais me agradou por parecer mais harmônico em seu conjunto.

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Michel Simões