julho 2006 Archives

(Elsa y Fred, 2005 – ESP/ARG)

O mais lindo do filme é transmitir, e provar empiricamente, que nunca é tarde para viver. Seja no sentido de se divertir, seja no sentido de redescobrir o amor e o prazer de fazer as coisas juntos, seja apenas no sentido de se sentir vivo. Porque muitas pessoas chegam a certa idade e desistem de viver, recolhendo-se cada vez mais em poucas atividades, esperando apenas o tempo passar quando poderiam ainda usufruir muito, transformar a Terceira Idade na tão falada Melhor Idade.
Assim é Elsa, uma adolescente num corpo de senhora distinta. Uma mulher sem limites quando almeja sua felicidade. Bem-humorada, mentirosa, divertida, matreira, inquieta, uma senhora de fibra buscando seus objetivos, dando um olé na idade. Fred muda-se para um apartamento no mesmo andar, viúvo recentemente, hipocondríaco, viveu uma vida regrada, sem excessos.
Elsa encanta-se, insiste, surge um romance. E o público enamora-se também com aquele casal de velhinhos adoráveis, aprontando mil confusões como jantar num restaurante chique e sair sem pagar a conta (“tem coisas que não tem preço, e como não tem preço não precisamos pagar”). Marcos Carnevale tem seu maior mérito em dosar sabiamente comédia, romance e drama, sem tornar o filme exagerado em nenhum dos gêneros que flerta. É uma história simples, bonita, um exemplo para uma enormidade de pessoas que vivem fase parecida e não encontram forças para simplesmente viver os prazeres da vida.
Manuel Alexandre está barbaramente comedido, dono de um olhar cheio de carinho, e elogios na hora certa. China Zarrilla é um show, sua personagem pulsa na tela e com ela nos divertimos a cada instante, não só pelas situações, mas principalmente pela espetacular interpretação. Todos irão lembrar da cena mágica remetendo A Doce Vida de Fellini, realmente é um grande momento, porém ainda prefiro pequenos momentos que representam fortes sentimentos, e assim não poderia deixar de destacar um delicado abraço em frente à geladeira. Nunca é tarde para viver algo do gênero, nunca é tarde para o amor, Elsa e Fred nos ensinam isso.


MÚSICA DA SEMANA:

ATRÁS DA PORTA

(Elis Regina - Composição: Francis Hime/Chico Buarque)


Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei, eu te estranhei
Me debrucei sobre teu corpo e duvidei
E me arrastei e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
Nos teus pelos, teu pijama
Nos teus pés ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho
Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que ainda sou tua

Herencia

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(Herencia, 2001 - ARG)

Eis o típico filme simpático. Não vejo melhor definição. Paula Hernández em nada inovou em seu filme de estréia, ao contrário foi beber no rico e desgastado tema da crise econômica argentina. Dessa vez quem sofre dificuldades financeiras, a ponto de ser colocado a venda, é um pequeno restaurante de uma italiana que migrou há décadas para Buenos Aires. Por outro lado, um jovem alemão desembarcou na capital argentina em busca de um amor aventureiro, coisa de pouco mais de um ano atrás.
O rapaz anda por todos os cantos a procura de sua amada, tropeça na língua e em vários cantos da cidade, desejando uma vida muito diferente daquela que ele deixava na Alemanha. Caprichos do destino resultam no encontro do jovem alemão e da imigrante italiana, de tão teimosos tornam-se grandes amigos, uma relação bastante fraternal.
A partir daí o roteiro é todo marcado, a obviedade é um dos pontos da irregularidade que cerca o filme. Mas são situações tão gostosas que estão prestes a surgir, momentos cômicos leves e prazerosos. Seja o jeito peculiar de Olinda, a maneira mais que divertida e ciumenta de Angel, o jeito meio-sem-jeito de Peter. Pouco importa, a força de Hernández está nessa construção de momentos simples e divertidos, como se ao final da projeção pudéssemos sair caminhando mais leves, mais soltos.
O filme é cheio de desejos de aplicar leves lições de moral, resgatar sentimentos importantes, relevar alguns valores morais, e a figura de Federico é a mola propulsora para tais situações. Rita Cortese nos faz rir de todas as maneiras, sob todos os aspectos, uma figura deliciosa na tela. Por esse e outros motivos que Herencia nos cativa, mesmo que não seja um grande filme. Isso que eu chamo de diversão descompromissada, um filme simpático (e no meu restaurante ninguém vai colocar cat-chup no macarrão).

Em Segredo

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(Grbavica, 2006 - BOS/ALE/AUS)

Concentrar-se unicamente no segredo do título seria uma visão reducionista do filme, e Jasmila Zbanic comete um pouco esse erro. Elogiar e premiar apenas pela sua importância política também não é das atitudes que possam dignificá-lo mais, mesmo que isso não possa e nem deva ser desprezado. A soma desses fatores faz bem e mal ao resultado final, resta extrair o que de melhor tem-se a oferecer.
É o pós-guerra na Bósnia Herzegovina, e como sempre a crise financeira assola o país, a população enfrenta desemprego ou na melhor das hipóteses subempregos. É o caso de Esma que precisa dividir-se no trabalho numa fábrica durante o dia e como garçonete numa casa noturna, e ainda contar com ajuda humanitária para sustentar a filha adolescente. É o instinto maternal, Sara tem uma vida bem típica da idade (obviamente com suas limitações financeiras) e a mãe desdobra-se para que dentro do possível a filha possa por exemplo participar de uma excursão na escola. O pai? Morreu no front, durante a guerra, um mártir, o orgulho de Sara.
Há outros pequenos personagens, todos exercendo muito mais a função de interagir com mãe e filha, causando estopins e outras reações, do que obter qualquer outro aprofundamento, são incipientes e se gostaríamos de um retrato mais profundo da sociedade bósnia, ficamos com a doce ilusão. O trabalho de Zbanic é bastante competente em demonstrar a luta da mãe (sem precisar de dramalhões), a típica fase rebelde e cheia de altos e baixos de Sara. É um filme de alma feminina, aborda seus dramas, e esconde um segredo que talvez reflita o maior de todos os medos femininos. É um bonito trabalho, mesmo que não muito inspirador, trata de um tema justo, recorrente e atual, uma sociedade sofrendo hoje suas mazelas.

Tapete Vermelho

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(2006)

Antes de qualquer coisa, num filme como esse, ou se embarca na fábula proposta e com ela seguimos viagem, ou permanece-se a contragosto até o final da sessão. E essa homenagem a Mazzaropi é uma fábula envolvente, a começar pelo jeca-tatu que é de uma simpatia conquistadora. Matheus Nachtergaele é Quinzinho, conseguem imaginar alguém melhor? Simplesmente fantástico. O caipira do interior paulista prometeu ao filho levá-lo ao cinema para assistir um filme do Mazzaropi. Onde assistir um filme desses ultimamente?
Partem nessa jornada cinematográfica Quinzinho, sua esposa Zulmira, o filho Neco e o burro Policarpo. O imaginário popular está pontuado por esse road movie caipira, e o sorriso, volta e meia, estará presente no rosto do público porque se o filme não chega a ser uma maravilha, ele nos reconquista a cada cena, a cada aventura, a cada nova tentativa frustrada de assistir ao filme do famoso comediante no cinema.
Luiz Alberto Pereira é o cineasta que nos propõe essa viagem, a graça de toda história está contida em seus personagens e na repetição de seus comportamentos. O jeito sonhador e persistente de Quinzinho, o mal-humor de Zulmira, o desejo de Neco de sempre descobrir o novo (o ator mirim é exagerado em suas expressões). E ainda sobrou espaço para o diretor inserir a figura esquecida de Mazzaropi num contexto mais atual com, MST, cinemas que se transformam em bingos e igrejas e etc; mesmo que nem todas essas situações funcionem perfeitamente bem, pelo contrário algumas soam até patéticas (principalmente a figura do dono do cinema). Tapete Vermelho é uma graça, e em momento algum deseja ser maior do que é, um pequeno e agradável filme.



MÚSICA DA SEMANA:

NO SURPRISES
(Radiohead)


A heart that's full up like a landfill
A job that slowly kills you
Bruises that won't heal

You look so tired and unhappy
Bring down the government
They don't, they don't speak for us
I'll take a quiet life
A handshake of carbon monoxide

No alarms and no surprises
No alarms and no surprises
No alarms and no surprises
Silent, silent

This is my final fit, my final bellyache with

No alarms and no surprises
No alarms and no surprises
No alarms and no surprises please

Such a pretty house, such a pretty garden

No alarms and no surprises (let me out of here)
No alarms and no surprises (let me out of here)
No alarms and no surprises please (let me out of here)

Superman - O Retorno

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(Superman Returns, 2006 - EUA/AUS)

Nunca entendi coisa alguma de HQ, porém desde minha infância três eram aos meus olhos os grandes super-heróis dos quadrinhos, Batman, Homem-Aranha e Superman. E deles o homem de aço sempre me despertava menos encanto, não que eu fosse fã destacado de um ou outro, longe disso. Tudo isso, somado ao meu notório pouco interesse em filmes de ação, serve para explicar a total falta de expectativas para o filme, e minha incapacidade em comparar a fidelidade da adaptação.
É tanta coisa que desgosto que não sei nem por onde começar. Bem, deixe-me ver, pode ser pelo início da história que é lento demais, melhor adjetivo seria modorrento. Quando finalmente parece que vai pegar no tranco, os personagens já estão mais ou menos caracterizados, surge a seqüência do avião. Aquela câmera treme mais do que ataque epilético, impraticável é enxergar o que está acontecendo, em contrapartida a câmera tem um desejo obsessivo de filmar todos os detalhes, a mulher é jogada para cima e para baixo tantas vezes que seria impossível que seus ossos não terminassem moídos, em migalhas.
Busca-se um lado mais humano do Superman, algo latente sobre seu amor, sobre seu ciúme de Lois Lane. A idéia é ótima, porém duas coisas não funcionam. A primeira, e chega a ser irritante, é a cara de estátua de Brandon Routh, os efeitos visuais quase transformam seu rosto no de um boneco de cera, e a quantidade de vezes que ele é flagrado olhando Lois Lane é a melhor explicação do que se chama de modo muito popular “dor de corno”. Isso é culpa de Bryan Singer, que desejando encontrar um ar mais sensível acabou tornando o homem de aço num tolo.
O outro ponto é a ausência de química entre os dois atores, em momento algum os protagonistas causam suspiro no público (diferente, por exemplo, dos filmes do Homem-Aranha de Sam Raimi), não há amor no olhar, falta brilho. Até que todas as cenas românticas foram pensadas com carinho, são no papel totalmente pertinentes, pena que filmadas não deram certo. Tenho uma definição básica para isso, quando falta química estamos enxergando dois atores atuando num par romântico, quando há química é como se estivéssemos vendo um casal inflamado de paixão, dilacerando-se por amor.
E para encerrar há o pior, o plano de Lex Luthor que é simplesmente qualquer nota, porque chamar de mirabolante é pouco. O plano é das coisas mais sem graças e mal-explicadas que se tem notícias, um pecado. E a seqüência final, com suas patéticas idas e vindas, fecha de vez com qualquer tentativa de levar a sério o filme. Só porque os efeitos especiais são lindos, ou que a ambientação da cidade é precisa, isso não vai me fazer gostar de um filme onde o protagonista só fica voando e segurando tudo que teima em cair.
Eu nem ia escrever nada, mas a semana foi tão agitada e com tantos encontros de amigos blogueiros que não poderia deixar que se passasse em branco. Os dias de férias que o grande amigo Ailton tirou em São Paulo foram motivo para uma série de encontros, reencontros e apresentações, resultando em diferentes passeios, as mais diversas conversas e muitos filmes. Uma semana atípica, diga-se de passagem, deliciosamente atípica. Quem quiser saber mais detalhes o Ailton fez um diário de viagem em seu blog. Mas posso dizer que foi um prazer imenso encontrar e ter longas conversas com Ana Paul, Marcelo V., Fer, Ana, Francisco, Tiago, Denise, Renato, Edu Aguilar, Carlos Reichenbach. Não importa o grau de amizade que tenho com esse ou aquele, foram todos momentos mais que prazerosos, que se repitam mais vezes!



Electric Dragon 80.000 V (Electric Dragon 80.000 V, 2001 - JAP)

Uma criança pendurada numa torre de alta tensão sofre uma alta descarga elétrica, adulto ainda permanece ligado a oitenta mil volts, e constantes explosões de violência que só são tranqüilizadas ao tocar sua guitarra elétrica. Sua sensibilidade é reservada aos lagartos, Morrison trata deles com carinho, coloca cartazes por Tóquio a procura de um de seus lagartos perdidos. De outro lado há Thunderbolt Budd, que também sofreu uma fortíssima descarga elétrica de um raio que caiu em sua cabeça. Seu rosto é metade humano, metade máquina, só que sua carga elétrica é de dois milhões de volts. Ao descobrir a existência de Morrison, trama um duelo contra seu rival.
Filmado em vídeo, totalmente em preto e branco, o filme tenta buscar uma narrativa anárquica, flertando com o punk. O diretor Sogo Ishii busca na linguagem brusca e acelerada a transposição dos mangás para as telas. Nesse ponto seu resultado é satisfatório, pena que seja esse o único ponto, de resto o filme trata-se de uma chatice sem fronteiras, com um roteiro sem pé nem cabeça, personagens fracos e não desenvolvidos e uma história que tenta se equilibrar em sua linguagem por não ter outros artifícios em seu alicerce. Fuja de seu barulho ensurdecedor e dos berros do protagonista (guitarrrrrr)!

O Tambor

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(Die Blechtrommel, 1979 – ALE)

O que tem de divertido, O Tambor tem de crítico e sagaz também. A história narrada em tom de fábula guarda discussões sobre a vida e a morte, além de tratar o Nazismo com um nada despretensioso deboche. A história começa muito antes do momento em que Oskar Matzerath decide forçar um acidente porque resolveu nunca mais crescer (aos três anos de idade). Os primórdios dessa fábula surgem ainda no início do século XX, quando os avós de Oskar se conheceram no campo (uma cena divertidíssima debaixo da saia).
A cidade de Danzig era habitada por um pequeno povo, que não eram nem alemães e nem poloneses, o romance homônimo de Günter Grass trata um pouco desse povo sem pátria, perdido entre os conflitos que marcaram a primeira metade do século na Europa. O garoto demonstra-se um incorrigível observador, por seus olhos acompanhamos os rumos da história, junto com seu inseparável tambor vermelho e branco e sua voz incomum capaz de quebrar janelas, taças e demais vidros (ai de quem contrariá-lo).
Interessante como esse pequeno grande filme guarda a discussão de tantos assuntos, começando pelo mais óbvio que é a Segunda Guerra Mundial e todos os seus absurdos. Porém há muito mais, há uma criança analisando o mundo adulto e resolvendo não pertencer àquele mundo. Há as eternas convenções sociais, casamentos arranjados, amores impossíveis, maior importância para as aparências e o conforto financeiro em detrimento a felicidade. Discute o amor, a morte, o desejo de dar rumo a sua vida. É como se Volker Schlöendorff escrevesse certo por linhas tortas.
O cineasta nos faz rir quando, a todo instante, está adicionando mais um novo elemento que deseja pincelar em seu filme. O maior exemplo e a grande cena do filme é o encontro Nazista (em praça pública). O pequeno Oskar escondido começa a tocar seu tambor. A banda entra no ritmo e troca de música, aquela multidão que ouvia atentamente às palavras de um inflamado militar do Fuhrer, passa a valsar. Rapidamente todos estão contagiados pela música, aquele encontro político transforma-se num grande sarau até que a chuva dispersa a multidão, só vendo a cena para entender a complexidade da situação, o humor ácido e contundente de Schlöendorff, um momento inesquecível do cinema.



MÚSICA DA SEMANA:


MARESIA

(Adriana Calcanhotto - composição: Antonio Cícero & Paulo Machado)



O meu amor me deixou levou minha identidade
Não sei mais bem onde estou nem onde a realidade
Ah, se eu fosse marinheiro era eu quem tinha partido
Mas meu coração ligeiro não se teria partido
Ou se partisse colava com cola de maresia
Eu amava e desamava sem peso e com poesia
Ah, se eu fosse marinheiro seria doce meu lar
Não só o Rio de Janeiro a imensidão e o mar
Leste oeste norte sul onde um homem se situa
Quando o sol sobre o azul ou quando no mar a lua
Não buscaria conforto nem juntaria dinheiro
Um amor em cada porto ah, se eu fosse marinheiro
Nem pensaria em dinheiro um amor em cada porto
Ah, se eu fosse marinheiro
O meu amor me deixou...
(Annie Hall, 1977 – EUA)

Woody Allen é um cineasta de idéias, de idéias geniais. Seus filmes nem sempre se desenvolvem maravilhosamente do começo ao fim, mas sempre há sacadas geniais espalhadas aqui e ali. Noivo Neurótico, Noiva Nervosa seria uma comédia romântica, se Allen fosse um romântico, só que Allen não é um romântico e sim um cara extremamente cerebral e como essas duas características dificilmente andam juntas, temos uma comédia dramática afiada e perspicaz.
Falta ao filme o toque no coração do público, a impulsividade de nos apaixonarmos por aquele casal, sobra ao filme momentos inteligentes, discussões afiadas e verdades encontradas nos altos e baixos dos relacionamentos. Gostamos e nos divertimos com as situações, não com o casal em si. Alvy Singer é um comediante em Manhattan, Annie Hall uma iniciante cantora da noite. São dois tipos incomuns, de personalidades fortes e com caminhos próprios muito bem delineados em suas mentes.
Surge entre eles o amor, o homem normalmente é menos flexivo, as neuroses e inseguranças de Alvy contaminam a relação do casal. Annie briga, resmunga, reclama, mas aceita (aceita assistir novamente um documentário branco e preto sobre o Nazismo, aceita fazer sexo com o parceiro mesmo sem vontade alguma), porém aceita até certo ponto, sua alma aventureira dá limites a essa relação, sua necessidade de novos vôos.
Não se trata de um típico filme de relacionamento, porque Woody Allen não se encaixa em rótulos, ao contrário ele cria seus próprios. A cena da fila do cinema é dos momentos mais antológicos, incrivelmente pensada, uma doce crítica aos pseudo-intelectuais, aos sabichões que decorrem verborragicamente todo esse lixo intelectual que suas mentes ousaram perpetuar, uma banana aos donos da razão. “...não me filiaria a um clube que aceita como sócio alguém como eu”, já pararam para pensar nessa frase? Allen é um pessimista, mas um pessimista que enxerga as coisas como elas são, seu defeito é não conseguir solucionar o problema que ele já sabe a resposta.

Eu, Você e Todos Nós

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(Me and You and Everyone We Know, 2005 - EUA)

Do estranho surge o belo, do improvável e sintético nasce a poesia, da cabeça eloqüente e incomum de Miranda July brota um filme singelo, puro, pretensioso e ainda assim cativante. Não sei se o segredo está na doçura da personagem Christine Jesperson (papel da própria July), se na metralhadora de metáforas (nem sempre compreensíveis), se no ritmo agridoce ou se é a delicadeza de algumas cenas que fazem essa arriscada salada torna-se um filme de alguns pequenos deliciosos momentos.
O melhor seria deixar a cabeça de fora dessa sessão e assistir ao filme com o coração, mesmo que haja nele algumas discussões interessantes (principalmente dessa sociedade aprendendo a interagir no mundo da Internet, cada vez mais cedo se tornando adultos solitários e melancólicos, o poder como forma de afastamento das coisas mais importantes). O quebra-cabeça proposto por Miranda July é unicamente composto por pessoas desiludidas, mas com alguma esperança de felicidade no fundo de si. Pena possuir algumas situações de mau gosto, é nessa pretensão que perde parte do encanto.
É um filme sobre essa nova forma de encarar a modernidade, e os problemas que se apresentam nela, mas também é um filme basicamente sobre sexo. Prova de que a vida muda, a tecnologia nos transforma, porém estamos sempre buscando as mesmas coisas: amor, carinho, sexo, companhia. A aproximação entre a aspirante a artista e o desiludido vendedor de sapatos é tão somente a chave condutora, já que as inúmeras sub-tramas desenvolvidas paralelamente são o tempero com que July deseja cozinhar nossas emoções.
Esse universo imperfeito não funciona no intuito de transformar o jogo de imagens e sentimentos numa poética manifestação artística, porém é capaz de alguns momentos no mínimo inesquecíveis. Um filme de pequenos significados, de pequenos e belos sentimentos, uma garotinha com anseios tão antiquados é capaz de nos hipnotizar narrando a idealização de seus sonhos. A metáfora sobre a duração de um relacionamento e o caminhar por um pequeno trecho de uma rua, o beijo carinhoso de uma mulher tão poderosa e tão solitária. Momentos únicos, mas há algo que ficará grudado na minha mente, a cena do beija-flor, o tocar de mãos mais carinhoso que se possa ter filmado, é quase possível sentir o calor daquelas mãos, os dedos entrelaçando-se num momento que não é somente a pele que sente, o repousar da cabeça nas costas, desculpem mas quero para minha vida muitos momentos como esse.

Christine Jesperson (Miranda July) Richard Swersey (John Hawkes)

Gritos e Sussuros

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(Viskningar Och Rop, 1972 - SUE)

Cortinas vermelhas, piso vermelho, móveis com estofado nesse mesmo tom de vermelho, mulheres com vestidos impecavelmente brancos, que visão linda. As cores não estão dispostas tão somente para um espetáculo visualmente luxuoso, há significados, há sentimentos que se fazem representar por aquelas cores. O vermelho é a cor do filme, representa o amor (a necessidade da enferma Agnes em ser amada por suas irmãs), representa a dor que essas mulheres sentem em suas vidas melancólicas, o vermelho é um prenuncio.
Eu admiro os cineastas que conseguem se expressar por imagens, capazes do dom de fazer poesia sem usar uma palavra. Ingmar Bergman faz isso, focaliza objetos de maneira tão delicada e simultaneamente representativa que o silêncio ganha importância substancial. O relógio faz clara menção ao tempo, tempo esse oprimido pela vida angustiante dessas quatro mulheres.
Agnes está doente em fase terminal, sofre terminantemente e suas duas irmãs voltam à casa de campo para cuidar dela (ou presenciar os últimos momentos da irmã), a outra presença feminina forte é de Anna, empregada que cuida de Agnes há doze anos. Por meio de flashbacks partes importantes da vida de cada uma delas são reveladas. A frieza e rispidez de Karin imersa num casamento monótono. Maria, seu casamento, e uma relação extraconjugal com um amor do passado. Agnes, mulher eternamente carente de afeto, examinando suas dificuldades em se relacionar com a mãe. Anna que se entrega numa relação mais que dedicada à enfermidade de Agnes.
As personagens sussurram pelos casamentos imersos no vazio e na angústia, vivem de recordações e imaginações, mulheres a se lamentar, mas sem força alguma para retomar suas vidas como gostariam. Cada uma a seu modo tornou-se fria, solitária, egoísta. Há cenas pulsantes, destaco uma em particular; Maria ouve seu amante decifrando sua personalidade pelas rugas de seu rosto, momento desprovido de sarcasmo ou sutileza. A câmera decifra cada um dos belos traços que formam seu rosto, enquanto descobrimos facetas nada animadoras de sua personalidade.
Bergman demonstra uma visão muito negativa da alma humana, como se vivêssemos numa gangorra, ora capazes de enxergar nossas desilusões, ora camuflando-as cinicamente. Karin e Maria são a perfeita compreensão do cinismo, por mais que dilacerem seu coração em angústia, agem como rocha inabalável, em busca de seus insólitos interesses. O tique-taque dos relógios ainda tumultua minha mente, a imagem hipnotizante daquelas árvores em outono ainda inebria meus olhos, a frieza dos sentimentos e a claustrofobia daquele quarto ainda fazem com que sussurros ecoem em meus ouvidos.

Agnes (Harriet Andersson) Anna (Kari Sylwan) Karin (Ingrid Thulin) Maria (Liv Ullmann)


MÚSICA DA SEMANA:


CALEDONIA

(BB King - composição Tito Jackosn)


Walk on my baby
She's great
She's lonely linky ain't have nothing to eat
She's my baby
And I love her just the same
Crazy about this girl cause
Caledonia is her name

Caledonia Caledonia
What makes you big yet so hard
I love her, yea I love her just the same
Crazy about this woman crying time
Caledonia is her name

You know what?
(What's that?)
You know my mama told me to
Deal that girl long you know that?
(Ah your mama definately knew some)
I ain't lying boy, you see my mama didn't
Understand the girl too much
And she didn't like her, you see?
So I think I walk her down to the house
One more time and just trying to call out
See if she ask me

Caledonia Caledonia
What makes your big head so hard
I love her, yea I love her just the same
Crazy about this woman cause
Caledonia is her name

Know you know
(What's that?)
My mother said leave that woman alone
Ah your mama
No she said so
She would bet if you be around
You see my mama was good
For booing it down for the idea
So now I think I go back to the house
And just talk to her just one more time
That's what I'm gonna do

Caledonia Caledonia
What makes your big head so hard
I love her, yea I love her just the same
Crazy about this woman there
Caledonia is her name

Caledonia Caledonia
What makes your big head so hard
I love her, yea I love her just the same
Crazy about this woman cause
Caledonia is her name

I love that girl
O Samurai do Entardecer (The Twilight Samurai, 2002 - JAP)

A figura do samurai totalmente desglamourizada, renegada a um serviço burocrático, estigmatizada pela visão simplista que se possa ter de um funcionário público. Yoji Yamada renova ao oferecer a esse mito um lado muito mais carnal e crível, e não só no aspecto “profissional”, o filme todo é calcado em sentimentos, decisões, morais e visões extremamente possíveis. Não temos grandes surpresas no desenrolar, pelo contrário, é possível antever praticamente todos os rumos da história, mas isso não quer dizer que se trata de um filme cheio de clichês, é a proximidade com a realidade que faz o filme soar tão familiar, tão verídico.
Seibei Iguchi é chamado pejorativamente pelos colegas de trabalho como samurai do entardecer, pois assim que termina o expediente sai correndo para casa enquanto os demais combinam o que chamamos hoje de happy hour. Iguchi ficou viúvo cedo, restou-lhe cuidar das duas filhas pequenas e de sua mãe senil. Ganhando pouco tenta complementar a renda familiar com pequenos trabalhos artesanais. É uma vida difícil, Iguchi tem tantas preocupações que se tornou uma pessoa desleixada, sempre mal arrumado, com roupas rasgadas, nem sempre toma banho.
O filme é narrado na visão da filha caçula de Iguchi, talvez seja essa a mais infeliz decisão de Yamada, por inserir (principalmente no final) um sentimentalismo barato que o filme todo não possuía, tudo bem relevemos. A vida de Iguchi ganha um novo sentido ao reencontrar seu grande amor da infância, o samurai que hibernava dentro dele é recolocado a prova, seus sentimentos despertados, porém há dentro de si um enorme conflito pela sua vergonhosa situação financeira. O dilema de não poder sustentar uma mulher que sempre viveu em uma situação confortável incomoda Seibei, pergunta-se se o amor seria capaz de aniquilar dia-a-dia essa dificuldade.
Além da belíssima fotografia dando total destaque ao cinza nos ambientes fechados, a beleza do filme de Yamada está nessa compassada maneira de firmar o protagonista como uma pessoa comum, cheio de problemas e indefinições. É uma história de verdade que encanta platéias por sua beleza, espontaneidade e realismo; e não o que estamos acostumados ultimamente, histórias mirabolantes com intuito de encantar platéias. Soa muito mais próximo de nós quando o que estamos vendo pode estar acontecendo (ou ter acontecido) conosco. Além, é claro, de poder constatar um amor reprimido em cada olhar de Hiroyuki Sanada e Min Tanaka.
Às Cinco da Tarde (Panj é Asr, 2003 – IRA/FRA)

É de dar pena, o Afeganistão é um país arrasado. Se você se envolve com aquele conjunto de imagens, com aquele mundo de dramas de gente paupérrima e cheia de fé, é hermeticamente impossível não terminar o filme com profunda desolação. Um sentimento de vazio, de temor pelo quê o ser humano poderá fazer com esse planeta, com a vida. Abominável é pouco, talvez nem chorar sejamos capazes de tão duro, cruel, árido e deprimente que a conjuntura do país se apresenta. Não é um país arrasado por uma guerra, é um povo residente num país que troca de patronos e continua soterrado no esmo, passam pelas mãos de russos, talibãs, norte-americanos e sei lá mais quem, até que venham os próximos.
A sacada magistral é a discussão da política, não uma discussão política (o que é bem diferente), e sim uma discussão sobre política. Garotas acabam de ter direito a freqüentar escolas (algumas, porque os religiosos mais fanáticos não aceitam mulheres estudando) e já sonham em se candidatar a presidente do país. Noqreh é uma delas, o filme segue o destino de sua pequena família para exemplificar os destinos comuns de cada família afegã. O irmão é motorista de caminhão, há tempos estão sem notícias dele. A cunhada carrega seu bebê recém-nascido e desnutrido, seu leite secou. Há o pai idoso, perdido naquele país que acaba de se livrar das lideranças religiosas fanáticas, incrédulo das mudanças que assiste pelas ruas, a nova ordem social.
Noqreh interessa-se pelos discursos políticos, quer saber o que os políticos dizem para atrair tantos votos. Por outro lado os refugiados não sabem nem o nome do presidente de seus países de origem, o povo não está interessado em política, principalmente quando não tem o que comer, onde dormir. Noqreh é uma garota amadurecendo, quando calça os sapatos brancos de salto sente-se um pouco mais livre, corajosa. Numa belíssima cena, depois de tanto vagar por escombros atrás de um lugar para sua família se refugiar, Noqreh larga os sapatos e pula amarelinha, o sonho acabou, a ilusão de se tornar adulta é deixada de lado, melhor seria voltar a ser criança.
Num diálogo com um soldado francês, Noqreh pode não entender porque aquele rapaz instruído e de um país desenvolvido demonstra o mesmo desinteresse e desconhecimento político que aquele bando de refugiados desesperados, porém se ela não entende, nós entendemos perfeitamente que é no desinteresse que habita o sucesso da corrupção. Ver aquela peregrinação de refugiados, buscando um escombro qualquer para instalar a família. O desespero por água e comida, o risco das minas espalhadas pelas ruas, o contraste daqueles tecidos coloridos das vestimentas femininas em contraponto ao chão de terra batida, uma mesma paisagem de seca, tristeza e desespero. Como um ser humano pode viver sob essas condições (ou melhor, sob total falta de condições)? Samira Makhmalbaf (e o roteirista que é seu pai, Mohsen Makhmalbalf) foi buscar algum tipo de inspiração, ou uma forma de ligar sua história, no poema homônimo de Garcia Lorca. Fez um filme forte, tanto em imagens, quanto no aspecto documental e principalmente nas discussões que pode estabelecer.
O Homem Urso (Grizzly Man, 2005 – EUA)

Timothy Treadwell era um apaixonado por ursos? Um louco inconseqüente? Alguém que buscava fama e a encontrou pagando alto preço por isso? Nenhuma dessas definições parece resumir a personalidade desse ambientalista morto por aquilo que ele mais amava no mundo, ursos. Treadwell pareceu-me muito mais, alguém que não se adapta ao sistema, um incompreendido. Inúmeras vezes ele reclama dos problemas de relacionamento com mulheres, demonstra-se frustrado, solitário. Encontrou em suas expedições um horizonte para sua vida, algum equilíbrio. Pessoas assim normalmente criam seu próprio mundo a fim de proteger-se, Treadwell fez diferente mergulhando no mundo desses animais.
Werner Herzog remonta a história de vida desse aventureiro, desse homem que durante treze verões relacionou-se com ursos-pardos no Alasca, fez pesquisas, protegeu-os da caça indiscriminada, jamais andou armado ou tomou qualquer outra precaução com sua segurança. É resgatado o amor pelos animais desde a infância de Treadwell, e depois traçado um perfil de sua vida, optando-se em fazer um documentário exclusivamente biográfico o resultado é o esquecimento do trabalho de Treadwell com os ursos, suas possíveis contribuições. Os ursos estão lá como meros coadjuvantes, a maior parte das filmagens é de monólogos ora infantis, ora exaltados, ora desequilibrados e ora extremamente coerentes, todos inflamados com o desejo paternalista de proteção dos ursos.
Traços de desequilíbrio emocional são facilmente notados, como um narcisismo em gravar horas e horas de seus próprios depoimentos. Pelo menos é essa a predominância do material exposto por Herzog, não estamos falando do mundo dos ursos, mas do mundo de Treadwell, que é totalmente envolvido com eles. Um homem cheio de obsessões e isso Herzog capta muito bem, atrás daquele tipo de cabelos loiros jogados na testa e óculos escuros, escondia-se um ser humano frágil, doce e infeliz (prova disso é seu citado envolvimento com drogas e etc) que preferia os animais a esse nosso mundo tão burocrático, mesquinho e cruel.
Somos poupados do vídeo que captou a morte de Treadwell e sua namorada, se bem que segundo informado apenas pode-se ouvir o som já que a imagem ficou encoberta por um par de tênis. Foi melhor assim, Herzog não permitiu que o sensacionalismo estampasse seu filme, se bem que a curiosidade é praticamente incontrolável.


MÚSICA DA SEMANA:

SAPATO NOVO

(Los Hermanos - composição: Marcelo Camelo)


Bem, como vai você?
Levo assim calado de lá
tudo que sonhei um dia
como se a alegria
recolhesse a mão
pra não me alcançar

Poderia até pensar
que foi tudo sonho
ponho meu sapato novo
e vou passear
sozinho como der
eu vou até a beira
besteira qualquer
nem choro mais
só levo a saudade morena
é tudo que vale a pena

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Michel Simões