junho 2006 Archives

Amarcord (Amarcord, 1973 – ITA)

Filme-nostalgia! Federico Fellini brinca de remontar suas lembranças (amarcord é um trocadilho fonético de “mi recordo”), e cria um filme com estrutura muito peculiar, quase um sonho. Um conjunto de recordações que magicamente apresentam-se de forma ordenada, mesmo que não necessariamente formem uma história com começo, meio, fim. Estamos numa pequena cidade costeira na Itália, década de trinta, o adolescente Titto é mais ou menos o fio-condutor dessa trama.
Com a câmera em contínuo, e embalante, movimento, e a trilha sonora precisa de Nino Rota (genial é pouco de tão bem que ela se enquadra a cada instante). Fellini expurga sua nostalgia e nos insere num sono profundo, só assim para mergulharmos nesse sonho com um teimoso sorriso no rosto mesmo quando o filme já terminou. É tempo do Facismo, os socialistas são perseguidos, política é apenas um dos temas presentes, Fellini não se esquiva, critica com seu tom levemente humorístico.
O fervor católico também está presente, as descobertas sexuais da adolescência não poderiam faltar. A escola, quem não se lembra da escola? Numa seqüência Fellini faz uma espécie de pot-pourri com diversos professores, cada um com suas manias (o apaixonado pelo idioma grego, a que bebe escondido durante as aulas, são tantos exemplos...), aquele bando de garotos aprontando mil durante as aulas. As paixões, pela professora de matemática, pela solteirona mais linda da cidade, pela gordona de peitos avantajados e voz sexy (a cena da tabacaria é simplesmente inesquecível), a sexualidade aflora, os hormônios estão a mil, e esses garotos são impossíveis!
E como não poderia faltar, a família. A cena do jantar em família é a minha preferida, os pais discutem, ele resmunga que trabalhou o dia todo e ainda terá que agüentar cara feia na mesa, ela não faz por menos e senta-se de costas para que assim ele não tenha que ver cara feia. Esse é um mísero exemplo dentro de toda complexidade que a cena possui, os tipos de conversa, discussões por coisas pequenas, é tudo tão real, tão próximo de uma família, que dá para sentir-se sentado naquela mesa, e a queda da cadeira então, hilariante!
Amarcord não envelhecerá nunca, porque política, religião, família e sexo sempre estarão presentes em nossas vidas, sempre serão tabus, sempre causaram discussões intermináveis, são temas eternamente recorrentes à vida. Brincar falando sério de cada um deles é vocação para poucos, Amarcord é um deleite.
Feios, Sujos e Malvados (Brutti Sporchi e Cattivi, 1976 - ITA)

Um travelling de 720º, ambiente extremamente escuro, um amontoado de gente divide-se por dois cômodos. Você algum dia imaginou assistir um filme sobre favelas italianas? Se pensava que esse era um “privilégio” exclusivamente terceiro-mundista, enganou-se. Mais de uma dúzia de pessoas vive exprimida naquele lugar de aspecto desagradável, se a primeira impressão forte é a miséria, a segunda é a completa falta de privacidade (casais transam debaixo das cobertas, em colchões que se espalham pelo chão).
A visão é de um conjunto de farrapos humanos, dentro daquela família há gente dos mais diferentes tipos, até mesmo um travesti. A maneira como Ettore Scola enxerga essa miséria é altamente negativa. O patriarca (Nino Manfredi) é um senhor mais que ranzinza. Sujeito egoísta e mesquinho, capaz de desconfiar de sua própria sombra. Scola transforma cada um dos filhos numa serpente sedenta pelo dinheiro do patriarca, planejam supostos financiamentos, no fundo só querem botar a mão na grana de alguma forma. Além dessa visão familiar deturpada, Scola dá vazão a uma libertinagem excessiva, o sexo como ponto de fuga, mas também uma promiscuidade incontrolável, algo fantasioso, caricato ao extremo. As mulheres se entregando a qualquer um, jamais dizem não, algo totalmente mecânico.
Mesmo esses dois pontos sendo um tanto artificiais, ao filme eles funcionam (não concordo com seu uso, porém entendo) como mecanismo de afirmação veemente do título e assim não nos parece estranho o conjunto de acontecimentos que surgirão a seguir. São feios, são sujos, mas são principalmente malvados. De um lado temos o comportamento do patriarca, mais obcecado em demonstrar ao restante da família que tem poder por possuir dinheiro, do que em usufruir do mesmo. Já a família busca formas de roubá-lo. Não há resquício de amor, ou qualquer outro sentimento que possa uni-los de alguma forma. Ettore Scola não está assim criticando os pobres e miseráveis, mas criticando a sociedade italiana como um todo, demonstrando que não há unidade dentro das famílias, o interesse pessoal está sempre a frente do coletivo, o bem-estar pessoal.
Vá Aonde Seu Coração Mandar (Va' Dove ti Porta il Cuore, 1996 – ITA/FRA/ALE)

Cristina Comencini fez a opção por um novelão, daqueles bem sentimentais e carregados pela pieguice, porém em quase toda novela há um núcleo interessante, um tema bem trabalhado, alguma coisa que acaba merecendo atenção, destoando do clima popularesco e apelativo. O filme de Comencini é repleto de deslizes, há momentos em que a sensação é de que a diretora acha que seu público é incapaz de compreender, de fazer associações, por isso ela exagera em frisar, usa mal a câmera lenta, bate repetidamente na mesma tecla.
Então o filme abre seu leque de possibilidades. Olga (Virna Lisi, ótima) é a matriarca da família, devido a seu falecimento a neta Marta reencontra-se com a casa que lhe acolheu na infância, encontra ali um diário da avó e por ele viaja por todas as fases de sua vida. Esse longo flashback não segue ordem cronológica, o tempo brinca de ir e vir, e nessa brincadeira surge um filme sobre três gerações de mulheres. A mãe de Marta morreu quando a garota ainda era criança, por isso há basicamente duas relações no filme, mãe-filha e avó-neta.
O problema do trabalho de Comencini é não conseguir unir cada época para dar conjunto ao filme, a história cresce muito quando o foco está em Olga antes de engravidar. Nesse momento Comencini consegue nos envolver, e não é devido ao segredo que iremos descobrir, a maneira como é conduzida essa parte da trama é o grande trunfo. A câmera é aconchegante, a atriz Margherita Buy iluminada, a música muito bem inserida, e o desenvolvimento de um casamento nada feliz em contraponto ao encontro do verdadeiro amor funciona de maneira agradabilíssima. A cena chave do filme acontece em duas fases, na primeira noite de sexo de Olga, ela pede ao marido que a olhe no rosto; já em sua verdadeira primeira noite de amor, seu sorriso e olhar de satisfação dizem tudo quando ela é olhada por seu parceiro.
Até a mensagem final do filme é carregada de sentimentalismo barato, siga sempre seu coração. As fases de eterna discussão e incompreensão entre Olga e sua filha, e mais tarde Olga e sua neta; todos os segredos de família que aos poucos se deixam revelar, Comencini fez um filme muito delicado, espalhando verdades por todos os lados, podendo emocionar esse ou aquele por atingir-nos exatamente em experiências próprias. Não é um grande filme, mas um filme com alguns grandes momentos.


MÚSICA DA SEMANA:

HOW SWEET IT IS TO BE LOVED BY YOU
(Holland-Dozier-Holland)


How sweet it is to be loved by you
How sweet it is to be loved by you

I needed the shelter of someone's arms there, you were
I needed someone to understand my ups and downs,
there you were
With sweet love and devotion
Deeply touching my emotion
I want to stop and thank you baby
I just want to stop and thank you baby
How sweet it is to be loved by you
How sweet it is to be loved by you

I close my eyes at night
Wondering where would I be without you in my life
Everything I did was just a bore
Everywhere I went it seems I'd been there before
But you brighten up for me all of my days
With a love so sweet in so many ways
I want to stop and thank you baby
I just want to stop and thank you baby

How sweet it is to be loved by you
How sweet it is to be loved by you

You were better for me than I was for myself
For me, there's you and there ain't nobody else
I want to stop and thank you baby
I just want to stop and thank you baby

How sweet it is to be loved by you
How sweet it is to be loved by you
(The Last Temptation of Christ, 1988 - EUA)

Jesus de Nazaré, um carpinteiro construindo cruzes usadas pelos romanos para crucificar os judeus, antagônico e trágico, não? Polêmica não seria a palavra, insolência talvez fosse um reflexo mais fiel do livro homônimo de Nikos Kazantzakis, adaptado pelo roteirista Paul Schrader. Ao acrescentar a última provação a esse carpinteiro escolhido como o Messias, obtém-se uma automática afronta a dogmas católicos, para muitos a leviandade já estaria presente em pensar em possibilidade tão “estapafúrdia”.
É um filme desenvolvido por conflitos, a crença religiosa como forma de combustível para a libertação, mas não espiritual, uma libertação política. Enquanto o pacato Jesus luta com as vozes que o atormentam e tenta compreender as mensagens que Deus lhe transmite, o povo espera alguém lhes livrar do império romano e da pobreza iminente, almejam a paz física, não espiritual. Nas longas discussões com Judas ficam camufladas essas reflexões, Jesus pregou o amor, muitos o seguiram por seus milagres.
Martin Scorsese filma tudo com leve distanciamento, não quer envolver-se por completo, deixando cada plano mais límpido, o mínimo de intervenções. Distanciar-se não significa esquivar-se, e sim dar liberdade, uma direção econômica por opção, e ainda assim fabulosa. Com essa escolha Scorsese conseguiu concentrar a polêmica na última tentação (fanáticos religiosos sempre irão criticar qualquer obra que ouse uma vírgula), dando liberdade artística para todas as outras conhecidas passagens bíblicas como o apedrejamento de Madalena, a Santa Ceia, a ressurreição de Lázaro.
A cena das provações no deserto é forte, mas a agressividade do Messias no palácio é assustadora, mesmo que extremamente fundada, alguém imaginou vê-lo desferindo golpes em barracas, clamando por guerra, falando em destruição? Talvez seja minha ignorância religiosa, mas a mim surpreendeu. Na cruz, um devaneio, a tentação que tanto o atormentou pela vida finalmente torna-se realidade. Jesus resolveu seus conflitos religiosos, a tentação física jamais, o desejo de viver a vida de um homem comum (casar-se, ter filhos) o perseguiu até que em seu momento mais frágil sucumbiu. São nos momentos mais difíceis que deveríamos (ou provamos) ser mais fortes.
(Pulp Fiction, 1994 – EUA)

“Não odeia isso? O quê? Os silêncios que incomodam. Por que temos que falar de idiotices para nos sentirmos bem? Não sei. É uma boa pergunta. É assim que sabe que encontrou alguém especial. Quando pode calar a boca um minuto e sentir-se à vontade em silêncio.” Depois do diálogo transcrito acima Quentin Tarantino me ganhou de vez, já não importava o que mais viria pela frente. A seqüência é longa, mas do detalhe do milk shake até a caminhada ao banheiro há um quê de genial em cada detalhe, a câmera pegando os atores em perfil, o jogo de plano contra-plano, os cortes entre um Vincent incomodado e Mia com olhar penetrante, a música compassada ao ritmo do diálogo, o ambiente anos 50, o tom de voz, o uso do canudo, tudo.
Aliás, são inúmeras cenas inesquecíveis, que mereceriam ser detalhadas, revistas. Desde os lábios vermelhos de Uma Thurman ao microfone, o diálogo pré-assalto de Tim Roth, os dois gangsteres com paletós ensangüentados. Tarantino teceu uma fascinante homenagem a literatura Pulp, criou um filme cult, inaugurou um estilo próprio e pop.
O sangue e a violência estão por toda a parte, a narrativa com ordem cronológica bagunçada é somente mais uma peça chave desse quebra-cabeças, é um filme cheio de referências (espada, moto, twist), e a maneira como Tarantino orquestra todas é fascinante. Essa violência que nos fascina é terrivelmente romântica, quase deliramos com um apertar de gatilho, o sangue jorrando, o humor sarcástico dos assassinos. Num filme sem mocinhos, os bandidos ficam mais fascinantes, ainda mais quando a dupla é formada pelos inspirados John Travolta e Samuel L. Jackson. Todos os personagens são marcantes, desde o figurino, passando pelo estilo, modo de falar e principalmente pelos olhares, ninguém passa em branco em Pulp Fiction.
O Rio (He Liu, 1997 – TAI)

Vem da água a discórdia, forte motivadora de conflitos, única capaz de reaproximar, se ainda for possível reaproximar esses três corpos que ousam considerar-se uma família. Os corpos de pai, mãe e filho único esbarram-se pelo apartamento (a alma não), não há entre eles diálogo, são estranhos dormindo sob o mesmo teto. Após mergulhar num rio poluído, uma súbita dor no pescoço passa a incomodar Lee Kang-Sheng. Ele disfarça, tente conter a dor, mas com o passar dos dias torna-se cada vez mais aguda, mal pode controlar o pescoço, é na dor do filho que a família encontra um frágil elo.
A mãe mantém um caso com um traficante de filmes pornôs, o pai refugia-se numa casa de banhos. A água está presente no rio causador da moléstia, no refúgio solitário daquele senhor combalido e acomodado, assim como nas goteiras que tomam conta do quarto causando reações adversas no casal. Tsai Ming-Liang foca-se em contrastes, não tem pressa para deixar clara a solidão e a transformação que a insuportável dor do filho causa em seus pais, mesmo que seja uma reação lenta.
Num quarto de hotel, um jovem casal pratica sexo, lentamente a escuridão domina a tela até que não possamos mais distinguir a imagem, restando uma pequena luz no centro. Um corte, e a luz faz o caminho inverso, e ali estão dois corpos masculinos acariciando-se, só que um deles é arredio, não quer receber, apenas oferecer. É um contraste majestoso, e uma cena que ganhará maior destaque à frente, quando em outra seqüência crucial do filme um tapa na cara é dado (tapa que dói muito mais naquele que o desferiu, e como dói, a dor da humilhação).
O filme inicia-se com uma escada rolante vazia, passam alguns segundos e dois jovens se encontram nela, Ming-Liang já resumia que a solidão e os reencontros seriam a tônica de seu filme, faltava apenas o elemento de influência nisso tudo, e de maneira mítica é a água capaz de todas essas transformações. A água traz o mal, revela segredos sórdidos, porém é ela quem traz a comunicação. O silêncio entre eles persiste, mas agora dividem uma fruta, talvez até façam uma refeição juntos, isso não significa que estejam salvos.
Ran (Ran, 1985 - JAP/FRA)

Akira Kurosawa numa livre adaptação de Rei Lear (Shakespeare), uma tragédia sem precedentes. Na época do Japão Feudal, o poderoso patriarca (Hidetora Ichimonji) resolve repartir seu reino entre seus três filhos, delegando ao mais velho o controle principal do feudo. Porém Hidetora não quer abrir mão de algumas regalias, como seu título. Os dois filhos mais velhos adulam o pai, são homens sedentos por poder, o mais jovem é o único a dizer verdades, daquelas que nem sempre gostamos de ouvir e acabam sendo mal digeridas por quem não está preparado. O pai renega o caçula, um ingrato. A guerra entre os mais velhos é inevitável.
Um espetáculo visual, algo no mínimo fabuloso, fotografia esplendida, a força das cores primárias (cada uma representando um dos irmãos), o vermelho mais presente, jorrando forte nas mortes ensangüentadas, os lindos campos verdes, os exércitos e seus cavalos perfilados com bandeiras hasteadas. Olhar imagem por imagem ocasiona um espetáculo grandioso, cada detalhe devidamente cuidado, cada personagem posicionado meticulosamente em cena.
Meu problema é como o exagero dramático, não adianta defenderem, não gosto, todos os atores buscam interpretações fortes, causando exagero, principalmente Tatsuya Nakadai, suas expressões não me convencem de tão dramatizadas. É implicância pessoal, mas interpretações que forçam a tragédia (quando a tragédia já está toda intricada no roteiro, na história fantástica de Shakespeare) não me emocionam, prefiro alta carga dramática em cenas que me parecem verdadeiramente reais.
Hidetora paga por seus próprios pecados, todo o desprezo que usou a seu favor para formar seu grande império, volta contra si com uma força gigante e numa velocidade furiosa. Inocentes são sacrificados por toda parte, e uma mulher fisicamente frágil demonstra-se muito mais forte e maquiavélica do que esses quatro homens que dominam as cenas, Kaede uma personagem terrivelmente fascinante. Uma tragédia tratando o orgulho, o desprezo, a vingança, e por fim o maior símbolo da bondade cai das mãos de mais um inocente, nos frangalhos que restaram de um castelo.


MÚSICA DA SEMANA:

EU E ELA
(Nando Reis)

Você quis terminar
Pediu que fosse assim
Trancou a porta e fechou a janela
Pra não pensar mais em mim
E eu te pergunto:
Pra que?

Não vou te procurar
Vou deixar você me esquecer
Pra encontrar a pessoa mais certa
Que possa lhe amar
Bem longe de mim
E eu te pergunto:
Por que?

Entendo ou não entendo nada
Estendo a mão sem dar um beijo
Escrevo as últimas palavras
Enfrento ou finjo que não vejo
Espelho meu desiste dessa cara
Esqueço ou fico com desejo
Espero mais ou devo apaga-lo
Entrego a ela todos os segredos

Ela que era tudo para mim
Foi tudo para mim
Tudo

Você quis terminar
Pediu que fosse assim
Trancou a porta e fechou a janela
Pra não pensar mais em mim
E eu te pergunto:
Por que?

Entendo ou não entendo nada
Estendo a mão sem dar um beijo
Espelho meu desiste dessa cara
Entrego a ela todos os segredos

Ela que era tudo para mim
Foi tudo para mim
Tudo
Império dos Sentidos (L'Empire des Sens, 1976 - JAP/FRA)

Nagisa Oshima encontrou no jornal uma notícia peculiar, uma ex-prostituta fora presa com um órgão genital masculino ensangüentado em suas mãos. O cineasta foi buscar mais informações e transportou para o cinema essa história real, dela criou um filme sobre o sexo como poder e principalmente como prazer. Os protagonistas abdicam dia-a-dia do restante de suas vidas para mergulharem nos prazeres sexuais, criam jogos cada vez mais arriscados, perdem qualquer limite do exibicionismo, desejam apenas prazer, cada vez mais prazer, almejam o nirvana sexual.
Gastar tempo sobre as inúmeras cenas de sexo explícito é diminuir o filme, quem estiver interessado apenas nisso está buscando diversão no local errado. Já falar da completa entrega dos atores Eiko Matsuda e Tatsuya Fuji ao filme, e seus propósitos, é um detalhe a merecer menção. Ficam expostos o tempo todo, seus corpos sendo filmados por todos os ângulos, completamente nus, não há um milímetro sequer que não seja mostrado detalhadamente. A câmera de Oshima praticamente toca a pele dos atores, quase sentimos o cheiro daquele quarto abafado, o cheiro infectado do sexo do casal.
Há sim sexo por todos os lados, de diversas formas, porém sempre focado nessa visão do sexo como um império, como poder. A empregada Abe se apaixona (exclusivamente no aspecto sexual do amor) por seu chefe Kichizo (que mantinha relações com todas suas criadas nas “barbas” de sua esposa), Abe possui uma hiper-sensibilidade e se entrega cada vez mais a ela, uma mulher sedenta por seu clímax. Tudo que beira o extremo torna-se perigoso, não há mais barreiras, o sexo pode ser visto como o momento máximo dos sentidos, quando todos eles são aguçados a seus limites, quando fazemos com que todos trabalhem ao mesmo tempo. O sexo talvez seja realmente o imperador dos sentidos.
A História de Qiu Ju (Qiu Ju Da Guan Si, 1992 - CHI)

Um acontecimento tão pequenininho, que parece loucura ser levado a tantas instâncias. Um vilarejo rural chinês, numa discussão o líder regional dá um chute no marido de Qiu Ju (bem naquele lugar). Desse micro-acontecimento Zhang Yimou desenvolve (muito tranqüilamente) dois interessantes pontos. Um deles é uma crítica direta contra a justiça, sua vagarosidade, e sua capacidade de se livrar das situações ao invés de buscar o justo em cada caso. Outro ponto é a obstinação por se lutar pelo que se acredita, e esperar o justo, nada mais ou menos do que isso.
Qiu Ju é determinada, quer uma retratação do chefe, o imbróglio vai parar na justiça e cada julgamento confirma como pena um valor a ser pago à vítima. Qiu Ju não se satisfaz, não está interessada no dinheiro, sua luta não é por uma indenização maior, ela apenas deseja um pedido de desculpas, em sua ética isso seria o justo. Por isso recorre a instâncias superiores, tribunais. Jamais se dá por vencida, mesmo grávida enfrenta longas caminhadas, viagens e muito frio para lutar por seus ideais, seu clamor por justiça é muito mais importante.
O filme de Yimou não sai do tom, bate na mesma tecla, segue o mesmo ritmo, é extremamente cadenciado, totalmente previsível, leia a sinopse e já saiba o que vai assistir. Isso tudo é positivo dentro do seu contexto, é uma história de persistência, de busca de valores. Quando se procura o justo, uma migalha a mais ou a menos não satisfaz. Essa é uma prática incomum no mundo contemporâneo, por isso que a cena final tem valor inestimável. Como cinema não há nada de especial, um filme sereno, já como mensagem tem poder, se sairmos um pouquinho do script. E ainda tem Gong Li que sempre merece atenção.
Visitante Q (Visitor Q, 2001 – JAP)

Falar de um tipo de filme que você pouco (ou melhor, nada) conhece, e nem muito interesse tem, é um tanto complexo, porque pode parecer pura má vontade (e honestamente não é). Fora o detalhe do ralo conhecimento, nem informações para um paliativo acabo tendo. Porém como esse é um blog de um amador, um cinéfilo sem preconceitos, que fala o que pensa, sem preocupação de querer agradar ninguém ou arrumar confusão, portanto escrevo o que sinto, o que penso e conseqüentemente o que sou. Tudo isso é balela, mera introdução, vamos ao filme que assisti em mais uma deliciosa Sessão do Comodoro no Cinesesc (cinema mais charmoso de São Paulo).
Não gostei, e não foi da violência bizarra e gratuita não, disso já esperava. Takashi Miike coloca dentro de uma panela de pressão situações familiares das mais hediondas possíveis. Uma família ao avesso, algo inimaginável, claro que ele exagera com claro propósito, quer criar uma caricatura da família contemporânea japonesa, uma caricatura bizarra, mas não deixa de ser uma. Instituição essa que se não está falida, enfrenta concordata brava, normalmente construída por mentiras, interesses, falsidade e hipocrisia.
Primeira cena, incesto entre pai e filha (uma jovem prostituta), pai esse obcecado por vídeos, busca imagens e situações reais para documentários na tv, mesmo que exponham ao ridículo sua própria família. O filho é constantemente humilhado por colegas, depois desconta na mãe com chicotadas e outras formas de violência. Ela por sua vez tornou-se viciada em heroína e também se prostitui.
Parece uma família projetada pelo capeta? Eis que misteriosamente aparece o tal visitante Q, seria ele um anjo vindo para ajustar aquela família, ou veio mesmo colocar mais lenha na fogueira? Essa figura ímpar faz com que cada um dos membros dessa família liberte seus impulsos e sensações, sua missão não é colocá-los nos trilhos, mas fazer com que eles encontram seus verdadeiros caminhos.
E acontece que o filme descamba, os propósitos estão lá, a crítica está bem delineada (a filmagem em vídeo digital traz nitidez à crítica severa aos reality-shows e outros do gênero), mas a seqüência de imagens transforma-se num conjunto de bobagens. Lá se foi tudo aquilo que o início do filme propunha, e resta aos que não estão gostando (eu inclusive) uma visão humorística do que se está vendo (espero que isso não ofenda aos que gostam). Destaco como exemplo duas cenas, uma delas na banheira quando a mulher joga vinagre, e na outra a esposa super-bem vestida e mancando, não resisti em conter as risadas. O problema não é ser bizarro, mas o seu uso.


MÚSICA DA SEMANA:

MIL PEDAÇOS
(Renato Russo)

Eu não me perdi e mesmo assim você me abandonou
Você quis partir e agora estou sozinho
Mas vou me acostumar com o silêncio em casa com um prato só na mesa
Eu não me perdi o Sândalo perfuma o machado que feriu
Adeus adeus adeus meu grande amor
E tanto faz de tudo o que ficou guardo um retrato teu
E a saudade mais bonita
Eu não me perdi e mesmo assim ninguém me perdoou
Pobre coração - quando o teu estava comigo era tão bom.
Não sei por quê acontece assim e é sem querer
O que não era pra ser: Vou fugir dessa dor.
Meu amor, se quiseres voltar - volta não
Porque me quebraste em mil pedaços
Kika (Kika, 1993 - ESP)

O tom humorístico escachado sempre esteve presente no cinema de Pedro Almodóvar, ultimamente perdeu espaço, porém continua presente. Mas houve uma fase que seus filmes eram basicamente realizados com essa proposta, um microcosmo de personagens bizarros e situações estranhas (muitas absurdas) que de alguma forma Almodóvar fazia interagirem até apresentarem o resultado que o cineasta pretendia. No final de seus filmes amarrava personagens e situações de maneira mais do que satisfatória, quando não brilhante. De Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos até Kika, passou por uma fase exclusiva de comédias, que no meu gosto pessoal desceram, lentamente, ladeira abaixo. Após Kika, Almodóvar iniciou uma nova fase, talvez tenha ele notado esse declínio na qualidade de seus filmes, sei lá, talvez seja eu o único a ter essa opinião.
Kika segue a mesma cartilha de seus antecessores, porém o roteiro é desastrado, Almodóvar exagerou na dose e depois não conseguiu amarrar tudo perfeitamente, principalmente porque seus personagens são pouco interessantes. Kika será o ponto de união na história, uma espécie de pessoa enganada por todos, porém ela também não é uma puritana ingênua e correta. Trabalha na tv como maquiadora, começa a namorar um fotógrafo cuja mãe suicidou-se. Ela terá um caso com o padrasto de seu namorado, um escritor cercado por mulheres. Ainda há espaço para uma apresentadora de tv com figurino meio retro, meio cibernético (uma figura interessantíssima), sem esquecermos da empregada lésbica e de seu irmão (um fugitivo da cadeia, ex-ator pornô).
Se a história não é lá essas coisas, vide a seqüência inteira do estupro (principalmente seu desfecho), como é um filme de Almodóvar sempre se encontra coisas interessantes espalhadas e dessa vez não é diferente. Dentro dessa bagunça escachada, há uma crítica (muito bem exposta e arquitetada) ao jornalismo sensacionalista. Tudo por uma notícia, a falta de pudor em invadir privacidades, em expor as pessoas. O outro ponto é o vouyerismo que o cineasta desenvolve de maneira perspicaz, não apenas com câmeras pelas janelas, mas também trazendo o público para dentro desse movimento vouyer, imagens vistas pela fechadura, câmeras posicionadas em vitrôs entre os cômodos da casa, o casal que transa tirando fotos, pena que o vouyerismo acaba inserido no contexto da história de maneira forçada, aquela peça que é colocada a força porque não está querendo encaixar direito.


Filmografia:
Tudo Sobre Minha Mãe *****
Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos ****
Fale com Ela ****
Carne Trêmula ****
Matador ***
Má Educação ***
Ata-me ***
De Salto Alto ***
A Flor do Meu Segredo ***
Maus Hábitos ***
A Lei do Desejo **
Que Fiz Eu para Merecer Isto? **
Kika **

Não vistos
Labirinto de Paixões
Pepi, Luci, Bom Y Otras Chicas Del Montón

Semana Almodovar [3]

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Matador (Matador, 1986 - ESP)

Eis aqui um filme interessante, principalmente pelas semelhanças apontadas empiricamente por Pedro Almodóvar entre sexo e touradas. O início é bruto, um homem masturbando-se ao assistir um filme de terror na tv. Depois, o mesmo homem ensina seus alunos a técnica para matar o animal durante uma tourada, simultaneamente uma mulher pratica sexo com um desconhecido, seus movimentos condizem perfeitamente com a aula que está sendo ministrada (belos cortes simultâneos entre aula e sexo), até o momento crucial em que ela crava em seu parceiro um objeto pontiagudo na mesma posição que o professor demonstrava como deve ser feito com o touro. O espírito do filme foi exposto.
Para dissecar melhor esse espírito Almodóvar enche a história de personagens, o macabro dá espaço para o bizarro e principalmente o confuso (que tanto instigavam o cineasta). Essa é a fase menos interessante do filme, Antonio Banderas domina esse trecho interpretando um jovem vivendo com sua mãe católica fervorosa, o rapaz está intimidado por sua virgindade, tenta estuprar a vizinha, e termina assumindo crimes que não cometeu. A crítica ostensiva a religião é o ponto principal dessa fase, de resto serve como elo entre os verdadeiros personagens cruciais.
Rapidamente o mistério começa a desenvolver-se e o que prometia ser apenas um filme de suspense, apresenta-se como uma bizarra história de amor. Um sentimento explosivo fortalecido pelo prazer de matar: amor, sexo e prazer, morte, touradas, quem poderia imaginar que essa união causaria um amor inflamado, ardente, definitivo. O final vai te conquistando, nem tanto pelos momentos decisivos, muito mais por aquele sentimento que toma conta dos dois corpos, lá se foi o limite da razão, chegaram ao limite do prazer.

Semana Almodovar [2]

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Que Fiz Eu para Merecer Isto? (Qué He Hecho Yo para Merecer Esto!!, 1984 – ESP

No início, a faxineira de uma academia transa com um dos freqüentadores, no vestiário. Essa será a heroína de Pedro Almodóvar, a mulher centralizadora de todos os problemas, deveria ser a personagem a fazer a pergunta do título. O roteiro expõe a vida dessa mulher a um turbilhão tão fantástico de situações que a naturalidade com que se encara tudo isso causa uma inverosimilhança terrível.
Claro que é uma comédia de absurdos e deve ser encarada como tal, mas tem coisas que não descem goela a baixo, é inaceitável, ver uma mãe afirmar tão naturalmente para o filho de doze anos (aproximadamente) que ele não estava estudando, mas tendo relações com um homem adulto, depois virar e continuar os afazeres domésticos. É surreal demais, ou eu que sou retrógrado?
A comédia tem uma primeira parte bastante divertida, enquanto Almodóvar distribui o mundo de absurdos que perpetua a vida de Gloria (Carmen Maura sempre interessante). A vizinha prostituta, o marido taxista que imita assinaturas e caligrafias, o filho traficante, o mais jovem já citado, a sogra mesquinha, as dificuldades financeiras, a vizinha com uma filha pequena com poderes mágicos (extremamente fora de propósito). Ainda há a história paralela de um casal de escritores que nada de bom acrescentam.
Depois da introdução que como já falei tem momentos bastante divertidos, o filme vai se perdendo no seu conjunto de aberrações, até chegar ao momento em que deseja ganhar um lado policial com a morte de um dos personagens. Daí em diante só me restava fazer a pergunta do título e esperar terminar logo, Almodóvar já estava completamente perdido.

Semana Almodovar [1]

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Quem acompanha o blog deve se lembrar que há pouco tempo iniciei uma peregrinação na filmografia de Pedro Almodóvar. Sinceramente achei que iria gostar mais de seus filmes, não que saio dessa viagem desapontado, mas a gente sempre espera mais. Consolo maior é que, ao meu gosto, ele passa por uma fase muito mais interessante e portanto podem surgir filmes maravilhosos nos próximos anos. Essa semana dedico aos quatro últimos filmes que vi, no final, como fiz com Truffaut, colocarei minhas cotações para todos os seus filmes e citarei aqueles que infelizmente faltaram para completar (apenas dois), agora é esperar Volver.



A Flor do Meu Segredo (La Flor de Mi Secreto, 1995 - ESP)

Quanto mais penso sobre o filme, menos tenho a dizer, principalmente porque ele não me marcou e nem conseguiu desagradar, passou inócuo. As situações propostas são solucionadas tão facilmente fazendo, a meu ver, com que se diluam e percam importância. A vida da escritora de livros populares que mantém sua identidade não-revelada, usando um pseudônimo, passa por uma grave crise conjugal. O marido é do exército e tem passado pouco tempo em casa, mas quando estão juntos o clima de guerra persiste.
Problemas com os editores, com as brigas entre sua mãe e sua irmã, e outras descobertas pouco agradáveis, tudo é motivo para que Leo Macías beba mais um copo, mas na verdade pouca importância ela dá a tudo isso, sua única preocupação é seu casamento, ou o esfacelamento notório e talvez irreversível do mesmo. O filme tenta dar enorme importância ao segredo da identidade da escritora, mais tarde revelando-se mais um daqueles alarmes falsos.
Pareceu-me um Almodóvar transitório, pontuando por lances de humor, com uma história que almeja ser mais densa. Em seus próximos filmes ele acaba encontrando a fórmula certa, neste aqui valem as pequenas e divertidíssimas aparições de Chus Lampreave, falando rápido, reclamando de tudo, um típico estilo de mulher idosa que se encontra perdida por aí.


MÚSICA DA SEMANA:

TOP TOP
(Mutantes / Arnolpho Lima Filho)


Eu vou sabotar
Você vai se azarar
O que eu não ganho eu lezo
Ninguém vai me gozar, não jamais !!

Eu vou sabotar
Vou casar com ele
Vou trepar na escada
Pra pintar seu nome no céu

Sabotagem !
Sabotagem !
Sabotagem !
Eu quero que você se... top top top UH!

Ninguém vai dizer
Que eu deixei barato
Vou me ligar em outra
Te dizer bye bye, até nunca, jamais

Sabotagem !
Sabotagem !
Sabotagem !
Eu quero que você se... top top top UH!

Agora ou Nunca

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(All or Nothing, 2002 – ING)

Assemelha-se bastante em temas e estrutura ao seu filme anterior (Segredos e Mentiras), porém muito longe do impacto que aquele causa. No emaranhado de personagens do mundo criado por Mike Leigh, ninguém está imune, nenhum deles consegue mais que um sorriso amarelo, não há felicidade. Já sentimentos negativos estão espalhados por todos os cantos, em todas as famílias, em toda e qualquer relação. A família central é problemática, o patriarca é um ser vegetativo, o pai e a mãe da preguiça e do desânimo; sua esposa divide-se entre o emprego no supermercado e os afazeres domésticos; os filhos super-obesos, a vida do garoto resume-se em duas atividades (assistir tv estirado no sofá, e discutir com a mãe sobre tudo), a filha então é uma coitada, a cena inicial é o melhor exemplo de sua vida, numa silenciosa casa de repouso para idosos ela passa no chão um pano úmido, tristeza, melancolia, desanimo, há tanto a ser exprimido naqueles simples gestos.
Ainda há espaço para abordar a vizinhança, uma família pior que a outra, alcoolismo, gravidez na juventude, pessoas cheias de inveja e cobiça, almas desequilibradas. Phil exprime bem parte do que os empurra cada vez mais para baixo, ao ser perguntado sobre quanto sua esposa recebia de salário, ele afirma ser o bastante para mantê-los afastados da pobreza. Essa nuvem negativa acinzenta-se vagarosamente, sentimentos sufocados, a rotina os deixa incapazes de virar a mesa, de buscar saídas, até que do pior reluz uma esperança que talvez afaste um pouco desse desencanto, por vezes só acordamos quando estamos praticamente no fundo do poço.
Mike Leigh abusa das expressões melancólicas de Timothy Spall, a depressão é sentida em cada músculo do seu rosto. Ele realmente nos deprime, ver todos aqueles dramas e lembrar que nada daquilo é absurdo, ao contrário, está espalhado em cada rua, só traz a sensação de que esse mundo está perdido, e olhar para Spall é a mais clara constatação. Se em Segredos e Mentiras a cena crucial era explosiva, dessa vez as verdades extrapolam de maneira contida, não apontam para um final “e viveram felizes para sempre”, apenas nasce uma esperança, o mundo não pode ser tão ligado aos extremos num agora ou nunca, mas quanto antes chegar a mudança melhor. Viver assim é que não é possível, ou é, já que esse modo de vida prolifera-se entre nós, obviamente com menor intensidade.

Pintura - Degas

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MULHER NO BANHO (Girl in the Bath)

Edgar DEGAS

The art of Degas reflects a concern for the psychology of movement and expression and the harmony of line and continuity of contour. These characteristics set Degas apart from the other impressionist painters, although he took part in all but one of the 8 impressionist exhibitions between 1874 and 1886. Degas was the son of a wealthy banker, and his aristocratic family background instilled into his early art a haughty yet sensitive quality of detachment. As he grew up, his idol was the painter Jean Auguste Ingres, whose example pointed him in the direction of a classical draftsmanship, stressing balance and clarity of outline. After beginning his artistic studies with Louis Lamothes, a pupil of Ingres, he started classes at the Ecole des Beaux Arts but left in 1854 and went to Italy. He stayed there for 5 years, studying Italian art, especially Renaissance works.
Returning to Paris in 1859, he painted portraits of his family and friends and a number of historical subjects, in which he combined classical and romantic styles. In Paris, Degas came to know Édouard Manet, and in the late 1860s he turned to contemporary themes, painting both theatrical scenes and portraits with a strong emphasis on the social and intellectual implications of props and setting.
In the early 1870s the female ballet dancer became his favorite theme. He sketched from a live model in his studio and combined poses into groupings that depicted rehearsal and performance scenes in which dancers on stage, entering the stage, and resting or waiting to perform are shown simultaneously and in counterpoint, often from an oblique angle of vision. On a visit in 1872 to Louisiana, where he had relatives in the cotton business, he painted The Cotton Exchange at New Orleans (finished 1873; Musée Municipal, Pau, France), his only picture to be acquired by a museum in his lifetime. Other subjects from this period include the racetrack, the beach, and cafe interiors.

Coração Iluminado

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(Corazón Iluminado, 1998 – ARG/BRA/FRA)

Tudo começa com uma cena ridícula, risadas forçadas quando numa situação como aquela seria o espanto e a dó a atingir a multidão. Depois descobrimos que se tratava de um sonho, se é assim tudo bem, ficou aceitável. Só que o filme todo segue o mesmo ritmo daquela cena, tudo meio fora de órbita, tudo confuso e sem graça, aquele mal-estar da cena inicial persiste e até piora no finalzinho. Eu só torcia para acabar logo.
Um conjunto de momentos incômodos, um roteiro que almeja ser intimista, tem cara de ser muito autobiográfico, mas infelizmente nada compreensivo. Um jovem judeu (Juan) se mete com uma turma que faz experimentos para fotografar a áurea humana, acaba apaixonando-se por uma mulher desequilibrada mentalmente. O tempo em que se relacionam é de grande aprendizado para o jovem, uma fase de libertação e contestação da família, uma fase de falta de responsabilidades, de viver aventuras. Vinte anos mais tarde Juan volta para visitar seu pai hospitalizado e uma estranha mulher faz com que ele remexa algumas coisas do passado.
Hector Babenco pode ter tido ótima intenção em fugir do tema da violência urbana e refugiar-se em algo que diz mais respeito a si, mas esqueceu de colocar legendas (no sentido figurado), Coração Iluminado é um teste de paciência, porque diz pouco de interessante e apenas se trata de uma reunião de coisas estranhas (experiências malucas, uma mulher maluca, um jovem atormentado e perseguido), a fotografia de Lauro Escorel ainda consegue safar-se. O melhor do filme, disparado, é a apresentação de alguns trechos do filme Os Amantes de Louis Malle (não dava para esquecer da história e ficar só com o filme do Malle?). Eu já falei que no final fica pior? Como pode um personagem tão chato, ter uma sorte tão, digamos... iluminada?

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Michel Simões