maio 2006 Archives

Alexandre, O Grande

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(Alexander The Great, 1955 - EUA)

Tive a nítida impressão de que o cineasta Robert Rossen abriu seu livro de história, dos tempos do colégio, e seguiu piamente os passos de conquista de Alexandre. O filme é didático, explicativo e pouco desenvolvido. A personalidade de Alexandre é rascunhada, seus feitos são muito mais importantes do que tentar entender aquela mente megalomaníaca de um conquistador nato. Ao final do filme, além dos fatos que marcaram sua vida, sabemos que ele viveu para conquistar, não tente tirar outras conclusões, é perda de tempo.
Surpreende a interpretação exagerada de Richard Burton, confeccionando quase uma caricatura do lendário guerreiro da Macedônia. A figura de Aristóteles parece que vai ter peso na história, para depois ser jogado para escanteio (dentro do filme). A relação com o pai, Felipe, também é trabalhada de maneira frouxa. Os conflitos entre os dois estão concentrados em inveja e preocupação de um ultrapassar o outro nas linhas da história.
Alexandre colocou em prática a visionária idéia de unificar Europa e Ásia. Invadiu os persas, acalmou os gregos (por pouco tempo) e depois de tantas conquistas mostrou-se cada vez mais crente na profecia de que era filho direto de Deus, um ser abençoado, perdeu-se em sua loucura. O filme vale sim como relato histórico, e mesmo longo possui dinamismo, um prato cheio para os ávidos por aulas de história, Robert Rossen já fez muito melhor e já inovara muito mais, vide Corpo e Alma.
O amigo Edú Aguilar me emprestou o filme, deve estar feliz pelo Loach ter ganho a Palma ontem, não é?


Kes (Kes, 1969 - ING)

A palavra de ordem é fascinação. O êxtase como forma de abrir horizontes, de garimpar novas estradas, como maneira de trazer equilíbrio e liberar sentimentos que até a pessoa desconhecia possuir. Ken Loach flerta com o neo-realismo italiano, um flerte tímido tão somente a equilibrar a narrativa já que o estilo próprio do cineasta está presente em toda parte, cenas naturalistas, duras e cruas.
A cena crucial acontece na sala de aula, Billy Casper (um David Bradley fascinante) é um garoto todo atrapalhado, desestimulado, restrito a um tipo de timidez invariavelmente divertida, vai mal nos estudos. O professor questiona, tenta encontrar no garoto alguma coisa que o desprenda, que o faça manifestar-se. Quando Billy começa a contar de Kes, de tudo que aprendeu em livros (logo ele que mal sabia ler), dos apetrechos, e tantas outras coisas; com um pequeno estímulo o garoto destrambelha-se a falar, domina a sala que o ouve atentamente, seus olhos empolgados são a prova crucial de sua fascinação. Uma cena exemplar para educadores, o segredo da vocação.
Para quem não sabe Kes é o nome de seu falcão (não vá dizer que é seu animal de estimação). Billy é a forma de Ken Loach demonstrar que uma juventude aparentemente perdida tem solução desde que encontre refúgios fora da vida desgastante e deprimente. O garoto vive numa casa em pé de guerra, maltratado tanto pelo irmão como pelos colegas da escola, acorda cedo para entregar jornal, depois vai a aula, procura outro emprego, já cometeu alguns delitos.
Que perspectiva de vida tem um garoto desses? A descoberta do fascínio por essa ave tão cheia de charme e realeza demonstra que sentir prazer na vida é só questão de encontrar a fórmula certa. Kes é só um despertar, não a solução, pois a vida continua repleta de pessoas como o irmão de Billy ou o professor de educação física (outro momento fora de série do filme). Ken Loach começava a mostrar a que veio, o drama desse garoto é todo enraizado em temas político-sociais, mais que sua marca registrada, sua vontade de expressar-se.



MÚSICA DA SEMANA:

SUNSHINE OF YOUR LOVE
(Eric Clapton, Jack Bruce and Pete Brown)

It's getting near dawn,
When lights close their tired eyes.
I'll soon be with you my love,
To give you my dawn surprise.
I'll be with you darling soon,
I'll be with you when the stars start falling.
I've been waiting so long
To be where I'm going
In the sunshine of your love.
I'm with you my love,
The light's shining through on you.
Yes, I'm with you my love,
It's the morning and just we two.
I'll stay with you darling now,
I'll stay with you till my seas are dried up.

I've been waiting so long
I've been waiting so long
I've been waiting so long
To be where I'm going
In the sunshine of your love.

Rocco e Seus Irmãos

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(Rocco e i Suoi Fratelli, 1960 - ITA)
A saga da família Parondi, apenas um dos inúmeros exemplos de êxodo rural, fenômeno recorrente em todos os países que se industrializaram, nesse exato momento é a China quem enfrenta esse fenômeno. A troca das raízes com seu povo, com sua terra, com as lembranças de seus antepassados, na ânsia de um futuro melhor para os filhos, no sucesso financeiro nos grandes centros metropolitanos.
Uma viúva e seus cinco filhos de personalidades completamente diferentes, o mais velho já se instalara em Milão, sem avisar o restante da família chega de mala e cuia. Após o prólogo o filme divide-se em cinco capítulos, privilegiando um dos filhos em cada um deles, sem que o desenrolar dos destinos de cada um e da família em si fossem comprometidos. É Rocco, o terceiro filho, aquele a se destacar. Torna-se o eixo central da família, principalmente por seu senso de total união familiar, sua bondade exacerbada e a firmeza em suas decisões.
Luchino Visconti narra essa tragédia sob as bases do Neo-Realismo, há cenas de altíssima voltagem na carga dramática, eu sinceramente não sou grande fã desse movimento cinematográfico. As cenas máximas me parecem iguais em todos os filmes, sempre duas pessoas se abraçam enquanto choram desesperadas pelo drama que marca o filme. Muito mais me interessou o desenvolvimento de cada personagem, o perfil de suas personalidades, os motivos que fazem alguns se tornarem pessoas tão equilibradas e outras tão desnorteadas. Desvio de caráter, fraqueza e falta de pulso, o amor, a conjunção desses e outros fatores...
Mas como retrato político-social, o filme é um arquivo fabuloso de uma época, tanto no aspecto do sonho de um futuro melhor, como nas dificuldades enfrentadas para se descobrir que não passava de sonho realmente. E o melhor do filme é a maneira como Visconti trabalha o tema família, as crises, a união, o perdão, o ódio, a figura da mãe como imã dos filhos. Os Parondi são o exemplo de uma família, tal qual conhecemos, com seus dramas, suas dificuldades, suas disputas, seus dilemas e seus momentos de prazer juntos.
Adeus Meninos (Au Revoir, Les Enfants, 1987 - FRA)

Apenas duas palavras, não mais que isso foi necessário para que se criasse uma fala poderosíssima, a pequena frase que dá título ao filme soa como afável e carinhosa, porém vem impregnada de incerteza, de terror, de apreensão, nos atinge com o poder de um míssil. Adicionando a imagem congelada no rosto de Julien Quentin e todo o temor que seu semblante aponta, tem-se uma mistura explosiva das lembranças de infância de Louis Malle, lembranças terrivelmente inesquecíveis, daquelas que gostaríamos de nos livrar.
O cineasta nos engana durante quase todo o filme narrando a história de uma escola de garotos administrada por padres. Os conflitos são pertinentes à idade, pequenas brigas, brincadeiras e disputas, o desejo masculino de se fazer prevalecer perante os outros, a sexualidade, a puberdade e suas descobertas, a conflituosa relação entre a necessidade de carinho materno e renegá-lo a frente dos amigos, auto-afirmação seja no grupo, seja no consumo de fumo ou bebidas alcoólicas.
Louis Malle tem um alter-ego, trata-se de Julien, o filme prende-se um pouco mais na relação entre ele e um novo aluno (Jean Bonnet). É uma amizade diferente, que se forma dia-a-dia; tempestuosa, cheia de rivalidades, é um tipo de amizade comum entre garotos dessa idade. Entre eles há respeito, as afinidades surgem gradativamente. Vive-se em 1944, a França dominada pelos Nazistas, os alunos interrompem suas aulas para abrigarem-se dos ataques aéreos, os padres escondem alguns judeus entre os alunos. Adeus meninos.
O Sopro no Coração (Le Souffle Au Coeur, 1971 - FRA)

Quem mais poderia fazer um filme sobre incesto e tratá-lo sem culpa alguma na visão de seus personagens? Fazer com que esse amor acontecesse naturalmente sem que uma grande tragédia os marcasse? Só mesmo Louis Malle seria capaz de uma tarefa como essa, trabalhar cada centímetro da história com sensibilidade, dar a cada cena a simplicidade e lisura necessárias.
Laurent aproxima-se de completar quinze anos, a França anda polvorosa com a guerra na Indochina, mas esse garoto está mais preocupado em ouvir seus discos de jazz, mergulhar na leitura de Camus e outros, e principalmente exercitar sua sexualidade descobrindo tudo o que a ele ainda é um mistério. Os irmãos mais velhos abusam, brincam e zombam, mas são uma espécie de vitrine para sua vida, vivem tudo aquilo que está prestes a acontecer com Laurent (mulheres, dirigir carros, festas, cigarro e bebidas).
Com o pai nunca se deu bem, sempre incompreendido; já com a mãe vive uma afinidade estranha, uma relação que vai além do amor materno. A mãe vive em busca de uma felicidade que só pode alcançar numa vida aventureira, num tom de liberdade maior, que não encontra no casamento burguês. Quando uma moléstia no coração (um sopro) atinge Laurent, parte com a mãe para tratar-se numa estação climática. É um tempo onde se abrem definitivamente as portas de sua sexualidade e Laurent diverte-se com sua adolescência, ao invés de sofrer por não entendê-la.
A cena na banheira é crucial (Lea Massari translumbrante), poderia ela resumir e resgatar tudo o que Malle esforçou-se a dar ao filme. Sem dúvida trata-se de uma outra época muito mais romântica e interessante, porém com menor grau de informação. A vida evolui, os tabus permanecem, e todos os medos, anseios e desejos, esses continuam a brotar na mesma época, da mesma forma. Um amor como esse é um escândalo, aos olhos dos que não viveram o sentimento, Laurent e Clara sabem como guardar esse momento sem contaminar suas vidas.





MÚSICA DA SEMANA: depois dos ocorridos em São Paulo na semana passada, a sugestão do Raulzito volta a ser uma ótima opção (pensando bem, quando deixou de ser?).ALUGA-SE
(Raul Seixas e Claudio Roberto)

A solução pro nosso povo eu vou dar
Negócio bom assim ninguém nunca viu
Tá tudo pronto aqui é só vir pegar
A solução é alugar o Brasil!

Nós não vamos pagar nada
Nós não vamos pagar nada
É tudo free,
Tá na hora agora é free,
vamo embora
Dar lugar pros gringo entrar
Esse imóvel tá prá alugar

Os estrangeiros, eu sei que eles vão gostar
Tem o Atlântico, tem vista pro mar
A Amazônia é o jardim do quintal
E o dólar deles paga o nosso mingau

Nós não vamos pagar nada
Nós não vamos pagar nada
É tudo free,
Tá na hora agora é free,
vamo embora
Dar lugar pros gringo entrar
Esse imóvel tá prá alugar

Nós não vamos pagar nada
Nós não vamos pagar nada
Agora é free
Tá na hora agora é free,
vamo embora
Dar lugar pros gringo entrar
Esse imóvel tá prá alugar
(La Meglio Gioventú, 2003 – ITA)

As revoluções estudantis, a grande enchente em Floresça, a vitória na Copa do Mundo de 82, o seqüestro de Aldo Moro, o assassinato de juizes pela máfia siciliana, abordando esses e outros importantes acontecimentos dos últimos quarenta anos da história da Itália, o longa segue a trajetória de uma família, ou mais precisamente dos irmãos Nicola e Matteo, tão sensíveis e ainda assim tão diferentes. Durante seus quatrocentos minutos, que milagrosamente passam voando (acreditem!), vivemos uma saga semelhante a do Poderoso Chefão, mas retratando uma família comum italiana, seus pequenos e grandes problemas e como atravessaram as mudanças que a história os impôs.
Um filme sublime, um momento inspirado de Marco Tullio Giordana. Cada cena é curtida vagarosamente, travellings lentos para que apreciemos cada plano, cada movimento dos personagens e cada detalhe dos cenários. Muitas pausas silenciosas, a câmera aproxima-se de cada rosto lentamente (inúmeras vezes), são momentos de reflexão, mas também são momentos em que podemos ler a alma daquele personagem. Os olhares fixos são privilegiados repetidamente, captados profundamente, e sabem dizer naquele silêncio tudo aquilo que desejamos saber. Jasmine Trinca que o diga, ela é quem melhor atua com os olhos, esbugalhados, atônitos, refletem seu estado de espírito segundo a segundo.
Giordana cunha personagens reais, a cada fase na vida deles impõe prazeres, dificuldades, traumas e soluções extremamente críveis. O ar aventureiro da juventude, a vida no exército, o início da fase adulta e as relações amorosas mais maduras, o surgimento dos filhos, as dificuldades para se estabelecer uma carreira e para viver o dia a dia do matrimônio. O desemprego, o sucesso, a importância fundamental das verdadeiras amizades, a perda de entes queridos, doenças, engajamento político, os filhos adolescentes, a redescoberta do amor, feridas incicatrizáveis, etc.
Trata-se de um filme sobre uma geração e sobre tudo aquilo que os influenciou, desde os primórdios até a velhice. Giordana dá espaço para a sensibilidade, permite que os personagens ganhem vida própria e que nos aproximemos deles a ponto de nos sentir da família, rindo junto na festa de Natal e sentindo as lágrimas em situações de extrema tristeza e lamentação, ficamos tão envolvidos que alguns momentos são de arrepiar. Nicola é um aventureiro equilibrado, um sujeito dedicado às coisas a ele importantes. Matteo é um sujeito estranho, genial na época da escola, recruzou-se a solidão dos seus livros, incapaz de se deixar compreender. A vida é assim, cada um segue seu caminho, e os grandes acontecimentos do mundo, pouco-a-pouco os influenciam. Como é bom viver o melhor da juventude, o filme vale cada segundo e termina com um gostinho de quero mais, lindo, lindo, lindo.

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Começou na quarta-feira, e vai até agosto, a exposição no Masp com obras de Edgar Degas, talvez o maior fotógrafo da pintura. Óbvio que terá minha presença, e aproveitando o ensejo vamos falar um pouquinho desse impressionista obcecado pelo movimento, que entre outras coisas notabilizou-se por pintar bailarinas e corridas de cavalo (onde seu real interesse era o movimento).




Portraits in a New Orleans Cotton Office (1873) Oil on canvas. 73 x 92 cm

Edgar DEGAS (1834-1917)


O Museu de Arte de São Paulo (Masp) é um dos quatro no mundo inteiro que possuem a série completa de esculturas de bronze do francês Edgar Degas (1834-1917), um dos mestres do Impressionismo. São 73 peças, conjunto que existe também no Museu D’Orsay (Paris), no Metropolitan Museum (Nova York) e na Carlsberg Glyptotek (Copenhague, Dinamarca). Ao contrário deles, no entanto, o Masp raramente exibe esses tesouros ao seu público. Motivo: costumam estar viajando, emprestados por bom dinheiro, para exposições no exterior. Vivem rodopiando mundo afora por causa das graves dificuldades financeiras da instituição. Agora, voltaram para casa. É a exposição Degas: O Universo de um Artista, que será inaugurada em maio e fica em cartaz até agosto/06. A turnê, porém, é por pouco tempo. É bom aproveitar, porque o magnífico elenco logo vai bater asas.
A dolorosa precariedade administrativa do Masp se reflete na programação e, por conseqüência, na visitação. Desde a grande mostra de pinturas do francês Claude Monet (1840-1926), em 1997, comemorativa do cinqüentenário do museu, o belo prédio suspenso por vigas vermelhas na avenida Paulista não consegue atrair visitação expressiva. Com enormes oscilações de qualidade na agenda, recebe média anual de 180 mil visitantes. Na exposição Monet, o público foi de 700 mil pessoas, recorde nunca mais alcançado.
Assim, mesmo com alguns acréscimos pontuais vindos principalmente de museus franceses de grande relevância, como o D’Orsay e o Picasso, as maiores atrações da exposição Degas são exatamente aquelas que deveriam ser as mais corriqueiras: as esculturas do artista pertencentes ao acervo da instituição, além de uma tela a óleo (Quatro Bailarinas em Cena) e duas obras sobre papel (pastel e carvão), estas sim bem conhecidas de quem freqüenta a coleção, no segundo andar do prédio. A jóia excepcional é a escultura Pequena Bailarina de 14 Anos, também do acervo do Masp, que o artista fez em 1880 em cera policromada e posteriormente foi fundida em bronze. A mimosa escultura é disputadíssima e vive rodeada de pretendentes estrangeiros.
Em 1998, aconteceu uma grande exposição de Degas no Masp: Degas em Movimento, realizada pelo historiador Luiz Marques. Naquela ocasião, como nos eventos do cinqüentenário e agora, a fórmula para organizá-la foi a mesma: na falta de orçamento folgado para trazer vários e bons trabalhos do exterior (que custam fortunas em transporte e seguro), completa-se o espetáculo com obras do museu (assinadas, diga-se, não só por Degas). É recurso inteligente, que destaca a chamada prata — no caso, ouro maciço — da casa.
Para Degas, a fórmula é especialmente certeira, embora soe postiço acrescentar ao conjunto da mostra um retrato feito por Picasso e outro por Cézanne e, até, um quadro do brasileiríssimo acadêmico Rodolfo Amoedo (1857-1941), pertencente ao Museu Nacional de Belas Artes (RJ). O que fazem os três ali? Bem, Cézanne foi contemporâneo de Degas e, assim como este e Picasso (que apareceu depois na história), gostava de pintar retratos. Raciocínio meio tortuoso mas, enfim, sempre é bom ver Picasso e Cézanne. E Amoedo? Ele comparece com um dos temas prediletos de Degas: a observação de cenas urbanas, no caso, personagens em um café.
Outras atrações de peso, embora habituais no acervo —como Ingres, Mantegna e Ticiano —, têm justificativa mais direta: foram autores que Degas, ainda aprendiz de pintura, copiava no Museu do Louvre. Claro que não exatamente essas obras. Então está combinado: é o máximo que o Masp pode fazer no momento, em esforço extremo para tentar recuperar público. Pode não ser a melhor das mostras do mestre impressionista, mas funciona para quem nunca viu nada dele ao vivo nem teve condições de viajar a Paris para emocionar-se com a maior coleção do gênero, no D’Orsay. Afinal, como o Masp, a maioria dos brasileiros não pode se dar a certos luxos.
Eugênia Esmeraldo e Romaric Bruel são os curadores da mostra. Ela é um dos esteios remanescentes da antiga e competente equipe técnica do museu. Foi assistente direta por mais de uma década de Pietro Maria Bardi (1900-1999), fundador e o mais prestigiado diretor do museu. Romaric Bruel, ex-adido cultural do consulado da França no Rio de Janeiro, surgiu bem mais tarde na vida da instituição: quando o atual diretor, o empresário do ramo imobiliário e arquiteto Júlio Neves, quis atrair multidões.
Autor de uma das obras fundadoras da modernidade, Edgar Degas é sempre garantia de visitação prazerosa aos olhos e ao coração. Mas é bom avisar que, quanto ao tema das bailarinas, que o senso comum entende indissociável do artista, não foi bem assim. Na realidade, Degas não era um apaixonado pelas bailarinas, mas pelo movimento, fosse o observado em um espetáculo de balé, uma corrida de cavalos ou uma empregada doméstica passando roupas. O artista fazia até sutilíssimas anotações da mobilidade das expressões faciais, o que o tornou excelente retratista.

EM BRAVO! DE MAIO DE 2006 (NAS BANCAS) A MATÉRIA COMPLETA DE ANGÉLICA DE MORAES

Fonte: http://www.bravonline.com.br/impressa.php?edit=ap&numEd=105
(Mystic River, 2003 – EUA) [REVISADO]

O passado é um armário de possibilidades. Naquele cantinho quase esquecido do guarda-roupa ficam as coisas que não usamos, mas que também não conseguimos nos livrar. Tentamos, sem sucesso, esconder as lembranças que gostaríamos de não possuir. Uma eterna e inglória luta para afugentar temores que infelizmente nunca nos libertamos, eles continuam guardados, até que sejam despertados para nos assombrar e testar nossos frágeis limites.
Enquanto brincavam, três garotos foram repreendidos pelo motorista de um carro que passava na rua. Depois da bronca pela travessura que faziam, um deles (Dave) é levado e mantido num cativeiro na floresta por quatro dias. Anos depois e o destino caprichosamente reaproxima os três, e é a violência que os une novamente, a morte da filha adolescente de Jimmy será investigada por Sean, alguns fatos tornam Dave um dos principais suspeitos.
Durante muito tempo a trama policial me incomodou, desde os primeiros minutos parecia óbvio, aos meus olhos, quem havia cometido o bárbaro crime. Revendo o filme, tempos depois, aprendi a dar menor importância a esse lado, a força dramática é muito superior a qualquer outro aspecto do filme e a trama policial é apenas uma estrada sinuosa que vai encaminhar os personagens a seus destinos. A solidez e a consistência de alguns personagens são fascinantes, tornando cada movimento deles muito mais que palpável, cinco interpretações incríveis. Clint Eastwood construiu uma parábola aterrorizante, densa e polvorosamente angustiante. Com uma admirável fotografia, trilha sonora discreta (do próprio Eastwood) e vagarosos movimentos de câmera, o diretor busca outras maneiras de se expressar.
A violência é esmiuçada em diversas facetas, o crime banal, o ódio incontrolável, o abuso de menores, a violência ressentida, todos são culpados e vítimas em algum momento. A perda da inocência vem como bagagem na vida destes homens, como se os três tivessem sido levados naquele carro, mas se os poupados carregam medo e insegurança, o vitimado está impregnado de angústia, uma vida perturbada por lobos perseguindo o menino.
Jimmy corre desesperado para o parque, tudo indica que o corpo de sua filha foi encontrado, inúmeros policiais tentam segurá-lo, seu desespero é latente, grita ao léu clamando por uma confirmação de Sean. O desespero daquele pai arrepia a alma, quem não se emocionar numa cena memorável como essa não tem compaixão, não sabe o que é amar, não sabe o que é perder. Sean Penn deixa tudo mais difícil, faz tudo ficar mais real, sua expressão, seu desespero, aquela última tomada pegando de cima o olhar ao céu de um pai desesperado era tudo que faltava para cortar o coração. Em outro momento Celeste e Annabeth trocam olhares, Celeste anda como um fantasma na multidão, uma defende o que tem e a outra não se dá conta de tudo que perdeu.
Nos momentos em que trabalhamos perto de nossos limites é que demonstramos nossas fraquezas, nossos temores, nossa força interior e capacidade de superação. Nesses momentos demonstramos quem realmente somos. O sofrimento recluso de Dave, a violência explosiva de Jimmy, a insegurança platônica de Celeste e as convicções diabólicas de Annabeth sempre estiveram ali, só precisavam ser despertadas. O sombrio e o duvidoso instauram reflexões no público, Eastwood deixa algo no ar para que a discussão não pare ali. Nossos medos ficam guardados, nunca esquecidos, nunca estamos totalmente limpos.

Jimmy Markum (Sean Penn) Sean Devine (Kevin Bacon) Dave Boyle (Tim Robbins) Whitney Powers (Laurence Fishburne) Celeste Boyle (Marcia Gay Harden) Annabeth Markum (Laura Linney)
O Amor aos 20: Episódio Antoine e Colette (L' Amour à vingt ans, 1962 – FRA)

Assistir a saga completa de Antoine Doinel e não assistir esse pequeno episódio é algo lamentável, como um quebra-cabeças faltando algumas peças. Você consegue distinguir perfeitamente a figura, mas aquelas ausências incomodam, não te deixam apreciar tão bem o todo. Primeiro porque perder algumas das peripécias de Doinel é uma perda irreparável, começando pelo despertador, atrelado a vitrola, que o desperta pelas manhãs.
Nosso desajeitado Don Juan é o rei das paixões definitivas, dos amores avassaladores, avista uma linda jovem e a deseja compulsivamente, passa a segui-la, faz de tudo para se encontrarem pelo bairro até que surge a oportunidade de iniciarem uma conversa. Entre eles surge a amizade, mas pelo lado dela não passa disso. Doinel passa a freqüentar a casa de Colette, a família da garota se encanta pelo rapaz, praticamente o adota. Ele muda-se para o apartamento de frente ao dela, declara-se, mas ela só o tem como amigo.
Como descrever a satisfação ao assistir Doinel na varanda de sua nova morada, e Colette e sua família surpreenderem-se com tal surpresa, correm para visitá-lo, só mesmo Doinel seria capaz de uma deliciosa sandice como essa. Sua forma de abordar a moça, a maneira como descreve seu trabalho na indústria fonográfica, a hilária cena da tangerina. E principalmente quando se recorda com o amigo que o acolheu em Os Incompreendidos o momento em que o pai do garoto vê fumaça no quarto e finge não ver os pés de Antoine escondido atrás da cama. Já estou com saudades de Doinel (um personagem inesquecível).

Antoinel Doinel (Jean-Pierre Léaud) Colette (Marie-France Pisier)




Filmografia (em ordem da minha preferência)

1- Os Incompreendidos *****
2- Beijos Proibidos *****
3- A Noite Americana *****
4- Jules e Jim ****
5- Domicílio Conjugal ****
6- Antoine e Colette ****
7- De Repente Num Domingo ****
8- O Último Metrô ****
9- Duas Inglesas e o Amor ****
10- O Homem que Amava as Mulheres ****
11- A Noiva Estava de Preto ****
12- A Mulher do Lado ***
13- Um Só Pecado ***
14- O Amor em Fuga ***
15- Na Idade da Inocência ***
16- A História de Adèle H. ***
17- Atirem no Pianista ***
18- O Quarto Verde ***
19- O Garoto Selvagem ***
20- A Sereia do Mississipi **


Não vistos:
Uma Jovem Tão Bela como Eu
Fahrenheit 451

O Último Metrô

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(Le Dernier Métro, 1980 - FRA)

Depois de uma grande homenagem ao cinema, pequenas referências espalhadas por seus filmes à pintura e à escultura, a música presente em personagens e cenas importantes, e depois de tantas adaptações literárias, faltava ainda o teatro. E para homenageá-lo, François Truffaut, resolveu expor uma ferida francesa incicatrizável, a Segunda Guerra Mundial e o colaboracionismo. É um filme repleto de panos de fundo, todos os personagens têm segredos (dos mais diversos) expostos à revelia no decorrer da história. Os próprios alemães exercem somente função figurativa, sua influência é sentida por sua presença e pelas alterações exercidas no estilo de vida francês, como a invasão da população aos teatros por falta de opções de lazer.
O teatro Montmartre passa a ser administrado pela atriz Marion Steiner, depois que seu marido judeu alemão (Lucas Steiner) foi obrigado a refugiar-se do Nazismo escondendo-se no porão do teatro enquanto todos pensam que ele fugiu do país. Uma nova peça está sendo montada pelo grupo e Lucas encontra uma maneira de acompanhar os ensaios, passando depois instruções para sua esposa. Está armado o palco para que o roteiro desenvolva-se, o funcionamento de um teatro é só um dos temas.
Militantes da resistência, críticos teatrais trabalhando como censores, parte da população repudia a invasão alemã enquanto outra parte colabora delatando judeus e aproveitando o desenvolvimento industrial promovido. Um triângulo amoroso só começa a se desenhar na parte final, Truffaut pontua toda sua história com pequenas recordações, com detalhes presentes nessa época a ser terminantemente esquecida. Uma mulher esfrega a cabeça do filho apenas porque um soldado alemão tocou seus cabelos, paranóia ou raiva? Um ator agride um crítico teatral pró-alemanha que o elogiou, porém criticou o restante do elenco, justiça ou traços de seu militantismo?
A fotografia do eterno colaborador Nestor Almendros é primorosa, principalmente retratando o ambiente escuro e lúgubre do porão, ou o palco durante as apresentações. Em uma das noites que Lucas e Marion passam juntos, a câmera focaliza apenas os rostos, a luz azul é flamejante nas feições delicadas dela enquanto o escurecem; ela aliviada por estar com o marido, ele sempre preocupado com sua situação ultrajante de ser obrigado a esconder-se. Em outro momento a câmera faz um travelling de 180º, saindo da mesa de um bar e apontando para a entrada do teatro, ligando duas pessoas que guardavam seus desejos oprimidos. Catherine Deneuve sempre divina, Gérard Depardieu é a alta inspiração interpretativa, reparem no ator que ensaia uma cena que já vimos Depardieu repetir inúmeras vezes, a comparação é a mais completa comprovação do talento. François Truffaut em mais um momento inspirado, e sem esquecer de suas marcas registradas, as pernas femininas vestidas de meia-calça, o amor e seus instintos, os homens incansáveis por mais uma paixão.



MUSICA DA SEMANA: Na próxima sexta-feira o 10,000 Maniacs fará show em São Paulo comemorando seus 25 anos de carreira, cogitei em ir mas as mudanças na formação original me desmotivaram, principalmente a ausência da vocalista (Natalie Merchant) e sua voz inconfundível. Ainda assim não poderia deixar de destacar essa presença. Quem ouvir a versão acustica, repare nos violinos, principalmente no momento do solo (empolgante e magistral).


STOCKTON GALA DAYS
(Natalie Merchant/Christian Burial)

That summer fields grew high with foxglove stalks and ivy.
Wild apple blossoms everywhere.
Emerald green like none I have seen apart from dreams that escape me.
There was no girl as warm as you.
How I've learned to please, to doubt myself in need,
you'll never, you'll never know.
That summer fields grow high.
We made garland crowns in hiding, pulled stems of flowers from my hair.
Blue in the stream like none I have seen apart from dreams that escape me.
There was no girl as bold as you.
How I've learned to please, to doubt myself in need,
you'll never, you'll never know.
You'll never know.
Violet serene like none I have seen apart from dreams that escape me.
There was no girl as warm as you.
How I've learned to please, to doubt myself in need.
You'll never, you'll never know.
You'll never know.
That summer fields grow high.
We had wildflower fever. We had to lay down where they grow.
How I've learned to hide, how I've locked inside, you'd be surprised if shown.
But you'll never, you'll never know.

Anjos Caídos

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(Fallen Angels, 1995 - Taiwan)

Uma mulher dirigindo-se a uma escada rolante completamente vazia, a câmera flagra-a sob diversos ângulos enquanto percorre esse trajeto, os cortes são secos, seqüenciais, esquemáticos, a seqüência é tão plasticamente bem conduzida que as sensações pulsam de nossos olhos: solidão, pressa, tranqüilidade, insegurança, e um mar de etc's, contínuo movimento. Essa utilização do movimento como forma de linguagem é prática costumeira no cinema de Wong Kar-Wai, carros cruzam avenidas, trens passam e as luzes acompanham seus destinos, tudo frenético e belo, uma paleta de cores em movimento.
Um assassino profissional pretende encerrar sua relação com a agente que faz seus contatos profissionais, mesmo com encontros raríssimos a relação entre eles está tornando-se perigosamente próxima (subentenda amor). De outro lado um jovem mudo invade pequenos estabelecimentos para trabalhar neles de madrugada (uma sorveteria, um restaurante), apaixona-se por uma mulher desesperada, sofrendo por amor, consumindo-se de ciúmes por uma tal "loura". Os dois segmentos entrecruzam-se, mas nem precisavam.
Em cada fotograma está impresso o estilo de Kar-Wai, fotografia, câmera lenta, a explosão de cores (principalmente vermelho e amarelo que estão presentes em todos os lugares), enquadramentos corajosos, o voyeurismo por frestas em portas e janelas. O amor vivido por seus personagens continua irrealizável, impossível de ser concretizado, e o tema não se esgota em suas mãos.
Há tantas coisas a se destacar que se corre o risco de detalhar o filme todo, o choro do jovem ao assistir ao vídeo caseiro do pai cozinhando em casa é de cortar o coração. Porém Kar-Wai inventou o lance da moeda, e com ele criou um dos momentos mais mágicos que tive o prazer de assistir. Kar-Wai é um poeta, porque aquela seqüência é simplesmente poesia pura, escolheu um música a dedo e a transformou em personagem, extrapolou os sentidos da solidão. Aquilo pode ser impossível na vida real, mas Kar-Wai faz parecer tão real, tão possível, a situação é encantadoramente poética, e os sentimentos de uma realidade cristalina. Não basta ver, é necessário sentir.
Hoje vou abrir o leque e falar de outras coisas, começando pelas coisas boas claro. Cinemateca lotada como eu nunca vi, o culpado é ele François Truffaut, não tinha nem onde parar o carro no domingo à noite. Algumas mudanças já são notadas, como a entrada que mudou de lugar, agora é aguardar a chegada da nova sala. Fiquei feliz quando fui pegar o folheto com a programação e o “são-paulino” (não sei o nome dele) me presenteou com um calendário da Cinemateca (dizendo que era só para os clientes especiais). Peguei sessão com o amigo Edu Aguilar e falar de Truffaut com quem conhece é sempre um grande prazer, e ele fez uma observação de que eu lembro Doinel em alguns pontos, como te disse concordo, o corpanzil franzino, o cabelo, o jeito desajeitado, tenho bastante de Doinel talvez por isso adore seus filmes.
A Mostra vai até segunda-feira, então quem puder confira, eu ainda devo assistir O Último Metro, e o curta O Amor aos 20 (aproveitando para ver A Noite Americana na tela grande, já que vi em DVD), e se assim conseguir vai ficar faltando apenas dois longas para completar a filmografia. Quando falo em Truffaut, imediatamente me lembro de onde assisti seus filmes, foram 14 no Top Cine, e hoje de manhã me deparo com a triste notícia de que amanhã esse berço de filmes clássicos e alternativos irá fechar as portas. Estou de luto!


http://www.estadao.com.br/arteelazer/noticias/2006/mai/10/7.htm



Duas Inglesas e o Amor (Les Deux Anglaises et le Continent, 1971 - FRA)

Correm os créditos iniciais entre imagens de páginas entreabertas do romance de Henri-Pierre Roché. Entre as folhas há pequenas anotações espalhadas pelos cantos, frases grifadas, seria um esboço das idéias que François Truffaut tramava para o roteiro que iria adaptar? Grande parte da filmografia do cineasta foi sedimentada em adaptações literárias, mas esse me parece o filme mais fiel na estrutura, por vezes tive a sensação de que se tratava de um livro falado e com imagens. A voz em off dos personagens funcionando como narrador, a maneira como Claude narra alguns acontecimentos às duas inglesas, alguns diálogos, a transposição de passagem do tempo dentro da história. Não me lembro de ter visto um filme tão próximo de um livro, em sua forma. É Truffaut surpreendendo em pequenos detalhes novamente.
Essas características não tornam o filme rígido, ao contrário é um típico Truffaut com toda sua fluidez, e a particular leveza nos personagens. Temos a adoração às mulheres, temos Jean-Pierre Léaud com aqueles traços de Doinel de que não consegue se esquivar e ainda assim em nada nos incomodam, temos o amor sob diversas formas, a louvação às artes. Quem mais inseriria por duas vezes a escultura de Balzac feita por Rodin, sem parecer mera repetição de imagem?
No intuito de aprimorar seu inglês, o jovem Claude é enviado a casa de uma amiga de sua mãe no País de Gales. Durante a temporada em que se hospeda ali se torna extremamente íntimo das irmãs Anne e Muriel. Amizade, amor, separação, desejo, mágoa, solidão, angústia, paixão, encontros e desencontros desses e outros sentimentos marcam a relação desses três durante grande parte de suas vidas. Talvez pela proximidade de Beijos Roubados e Domicilio Conjugal (o antecessor desse filme), Claude aparenta ser Doinel no início do século XX, vestido com uma roupagem tipicamente burguesa, um Doinel camuflado.
E não é só isso, além da deliciosa história desse estranho triângulo envolvendo Anne, Claude e Muriel, o filme guarda passagens marcantes, aborda aspectos interessantes sobre a vida, sobre o amor, demonstra o quão volúvel podemos nos tornar quando se trata desse sentimento caprichosamente irracional. As duas irmãs, tão distintas entre si, unidas talvez resumam o ser feminino, em uma a fragilidade (Muriel é quase Adele H.), o máximo do recato, na outra a firmeza e a decisão a seu alcance, a liberdade com graça. Como não se deliciar com Claude contando às moças sobre prostitutas, a mesma discussão com as duas moças em separado sobre o amor físico enquanto caminham no mesmíssimo lugar, ou ao se despedir de uma de suas amantes no momento em que abre a porta de casa para sua mãe conservadora. “A vida é um conjunto de partes que não se juntam”.
Achados e Perdidos (2006)

José Joffily bem que se esforça, inventa, cria e recria, copia, mas o problema é estrutural e quando não há um bom alicerce não adianta, nenhuma estrutura agüenta a pressão. Câmera na mão, imagem granulada, fotografia nebulosa, montagem querendo ser moderninha, cronologia bagunçada, rostos famosos porém não desgastados com o excesso de aparições na mídia, o conjunto de todos esses elementos resulta num filme que se encaixa bem (em seu próprio título).
Acontece que o filme vai desmoronando pouco a pouco, no final mais parece um doente terminal suplicando por eutanásia. Tudo por culpa de um roteiro, histórias como essa precisam ser muito amarradas, envolventes, e o efeito é o inverso, a última coisa que interessa é saber exatamente quem matou Magali (Zezé Polessa numa interpretação levemente audaciosa, desinibida, a personagem mais bem construída do filme). Se não chega a ser tudo muito óbvio, também não se precisa de muito para juntar duas ou três peças e montar o falso quebra-cabeças jogado num emaranhado de diálogos pobres e marcados.
Esse repetido retrato de submundo, prostituição, drogas, matadores de aluguel, policiais corruptos e tudo mais já está bastante desgastado, ou se tem um bom material para se trabalhar, ou temos aquela mesma ladainha de sempre, e isso realmente cansa. Juliana Knust é linda e realmente tentadora, quesitos de encher os nossos olhos masculinos, porém não gabaritam ninguém a ser chamada de atriz. Não se trata de um trabalho desprezível de Jofflly, apenas desnecessário.


Acordo Quebrado (Après la Vie, 2002 - FRA)

Talvez o interessante seja assistir toda a trilogia, ver os mesmos personagens (interpretados pelos mesmos atores) passando por histórias completamente diferentes, deixar que o diretor Lucas Belvaux brinque de navegar por diferentes gêneros com seus personagens. Aparentemente não há mais nada que faça conexão entre os filmes, mantendo entre eles total independência, mas assistindo apenas um deles perde-se esse único diferencial e olhá-lo como uma obra única não é lá muito interessante.
Uma esposa viciada em morfina, um policial mantendo conluio com um traficante para guardar silêncio do vício da esposa. O traficante precisa de um favor, chantageia o policial, caso contrário não lhe fornecerá mais morfina. Resumindo, um grande clichê, então Belvaux tenta imprimir seu ritmo, dar ao filme um ar mais autoral. Filma cenas frias, cria situações incoerentes ou mal planejadas, busca o tempo todo deixar uma marca que nem ele sabe qual é. Uma sucessão de acordos verbais quebrados.
E o que consegue de fato? Pouco, porque sedimenta mal seus personagens, nenhum deles cria identidade, nenhum deles marca sua personalidade. A trilogia pode ser uma boa jogada de marketing, uma inovação, o filme isolado é desanimador, olhar para os atores é desanimador, pensar em cada uma daquelas pessoas é desanimador, esse texto então é o muito mais que desanimador, é sofrível (não liguem, o filme também)!

A Grande Viagem

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(Le Grand Voyage, 2005 – MAR/FRA)

Há algumas cinematografias que pecam pela mesmice, o mesmo tema presente em quase todos os filmes, e o tema repete-se ao longo dos anos e ainda tem gente que continua a achar brilhante. Só que repetição de temas ou não, quando o filme é bem realizado, trata seus personagens com dignidade, simplicidade e honestidade, acrescentando a eles doses de diferenciação, dando-lhes vida própria, não há como se aborrecer em ver a mesma história.
Esse é o resumo do filme de Ismael Ferroukhi, uma viagem iniciada na França com destino a Meca, a peregrinação muçulmana. O pai, que não sabe dirigir, obriga seu filho a conduzi-lo. O garoto vai a contragosto, seus objetivos são completamente opostos. O pai volta-se a suas crenças religiosas, a esse momento sagrado dentro de sua religiosidade. O filho preocupa-se com sua namorada não-muçulmana, com as provas que irá perder no colégio, concentra-se nas coisas de seu mundo.
Cortando países, culturas e línguas diferentes, a completa falta de afinidades entre os dois é exposta causando feridas, tornando o convívio quase insuportável. Dois teimosos, incapazes de compreender as necessidades do outro, uma longa estrada de aprendizado, estamos tão próximos de nossos parentes e muitas vezes pouco os conhecemos. Filmes desse tipo sempre têm duas ou três frases de efeito, esse possui uma passagem muito bonita quando o pai fala sobre a importância dessa viagem e abre uma metáfora relacionando a purificação da água quando essa evapora e o meio de transporte utilizado para cruzar o caminho até Meca (a pé, cavalo, carro, avião).
Outro ponto que pude enxergar, esse muito mais ligado a minha maturidade do que a uma mensagem proposta no filme, principalmente porque esse tema está presente em inúmeros filmes, mas apenas implícito e nunca destacado. Como nas relações familiares há uma total ausência de tolerância e sensibilidade para saber quando nos impormos ou não, ocasionando situações explosivas para coisas tão tolas. Na sociedade de maneira geral, no emprego, entre amigos, muitas vezes nos contemos para não extrapolar, explodir, temerosos das reações. Já numa discussão a toa com pais, irmãos e etc, não existe esse filtro protetor, a proximidade nos leva ao limite, prova de amor, mas também uma eterna chama pronta a incendiar-se.


MÚSICA DA SEMANA:

ELA FAZ CINEMA
(Chico Buarque)

Quando ela chora
Não sei se é dos olhos para fora
Não sei do que ri
Eu não sei se ela agora
Está fora de si
Ou se é o estilo de uma grande dama
Quando me encara e desata os cabelos
Não sei se ela está mesmo aqui
Quando se joga na minha cama
Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é a tal
Sei que ela pode ser mil
Mas não existe outra igual

Quando ela mente
Não sei se ela deveras sente
O que mente para mim
Serei eu meramente
Mais um personagem efêmero
Da sua trama
Quando vestida de preto
Dá-me um beijo seco
Prevejo meu fim
E a cada vez que o perdão
Me clama
Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é demais
Talvez nem me queira bem
Porém faz um bem que ninguém
Me faz

Eu não sei
Se ela sabe o que fez
Quando fez o meu peito
Cantar outra vez
Quando ela jura
Não sei por que Deus ela jura
Que tem coração
e quando o meu coração
Se inflama
Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é assim
Nunca será de ninguém
Porém eu não sei viver sem
E fim

Caché

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Tenho vários filmes para postar, mas como na minha humilde opinião Caché será o filme do ano, pois duvido que outro filme irá me causar emoções semelhantes, resolvi postar novamente o que escrevi sobre o filme quando o vi na última Mostra, fica p/ semana que vem A Grande Viagem, Achados e Perdidos, Acordo Quebrado e outros mais... Assistam Caché!


Caché, 2005 – AUT/FRA/ALE/ITA)

Instigante e intrigante. O leve incomodo na barriga persiste desde a cena inicial quando os intermináveis créditos iniciais aparecem enquanto a câmera focaliza ao fundo a porta de uma casa, ao fim dos créditos descobrimos que já estamos no filme e nem percebemos, aquela imagem se tratava de uma fita gravando a casa dos protagonistas. Fita essa misteriosa que foi entregue junto a um desenho de um garoto cuspindo sangue.
Georges é apresentador de um programa de TV e sua esposa Anne trabalha numa editora, vou usar as mesmas palavras que Georges diz a sua mãe, ele está bem, sua esposa está bem, o filho está bem, portanto levam uma vida sossegada, classe média alta e todo o requinte que essa situação lhes proporciona. A fita traz o sentimento de estarem sendo vigiados, princípio de desestabilização pessoal, e é só o começo já que outras fitas virão, com mais pistas e uma história que remete a um passado que Georges teima em esquecer.
Michael Haneke é meticuloso, cada tomada é pensada no intuito de instigar, em momento algum o diretor permite um refresco ao público. A fotografia de Christian Berger auxilia muito, um trabalho primoroso entre luz, sombra, ambientes claros e escuros. A engenhosidade do filme de Haneke é extraordinária, só ao final você é capaz de encaixar as peças e compreender que o filme é todo centrado no preconceito, mais precisamente na relação entre franceses e argelinos. Haneke deixa uma crítica ácida à sociedade francesa, culpa-a de até hoje não se arrepender de atrocidades cometidas, mas Haneke faz isso de maneira tão sutil, mas tão sutil que quase passa desapercebido.
Há momentos gloriosos, algumas cenas inesquecíveis, um Daniel Auteuil esplendidamente comedido nos agracia com cenas como na cozinha enquanto pega os frios para um lanche, ou a mais que instigante cena do elevador onde pelo espelho observamos as reações pulsantes dos personagens. Mas há também Juliette Binoche, e com ela outro banho de interpretação, algumas discussões entre o casal possuem verdades tão profundas e tão bem interpretadas que se estivesse em casa repetiria algumas vezes cada cena.
Haneke faz de Caché um filme impressionante, negamos tudo aquilo que nossos olhos estão vendo até o ultimo momento, assim como negamos tudo que pesa sobre nossos ombros mas não nos incomoda no dia-a-dia. Há três ou quatro passagens, pequenas frases que fazem toda a diferença no filme. Caché é um filme onde não se pode piscar um segundo.

Georges Laurent (Daniel Auteuil) Anne Laurent (Juliette Binoche) Pierrot (Lester Makedonsky) Majid (Maurice Bénichou)

The Potato Eaters

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A serenidade da mulher segurando o bule, completamente focada em derramar o café na xícara enquanto um dos braços repouca sobre a perna. O velho, pacato, usando uma das mãos para auxiliar o outro braço a segurar a xícara ainda vazia, demonstrando sinais de fragilidade. A chama reluzente do lampião, a luz que reflete fraca nas paredes do cômodo, a judiada mesa de madeira, um quadro na parede com uma foto. O "casal" dividindo o prato de batatas, com a mulher focada no rosto do marido. E ele? A mão segura o talher no prato, mas sua mente não parece acompanhar aquele movimento, sua visão aérea e suas feições dão sinais muito mais reflexivos... um detalhe mais rico que o outro.



O COMEDOR DE BATATAS (The Potato Easters, 1885) Oil on canvas 82 x 114 cm

Vicent Van Gogh


The Potato Eaters, completed in 1885, is considered by many to be Van Gogh's first great work of art. At the time of its creation, Van Gogh had only recently started painting and had not yet mastered the techniques that would later make him famous. This could attribute to the interesting look of the piece as well as the overall feeling produced from the painting.

Van Gogh wished to create his first masterpiece that could boost his reputation as a developed artist; his goal was to paint human figures that did not appear to be awkward, but rather existing naturally. Portraying the figures in a dark room with light from an oil lamp, however, proved to be a bit too extreme for his newly acquired artistic skills. The outcome of all of these factors, in turn, made the painting more appreciated in the art community then if Van Gogh had succeeded in his original task.

The painting that was completed consisted of 5 figures sitting around a square table eating potatoes; four of them are females and one male. Although the piece is laced in darkness, the mixed emotions residing in the faces of the occupants shine out brightly. These figures are so intense that one can nearly hear the conversations being spoken around the table. Perhaps this vibrancy layered with the darkness is what draws one closer to examine the smaller details of the painting. These details include but are not limited to:

The rafter boards in the back of the piece. The soft gentle lines forming a window in the darkness. The picture frame hung on a darkened wall. The large platter of potatoes, and the boney fingers stretched out to obtain them. The woman pouring a brew similar to coffee. The large rectangular column behind the table that seems to hold the building up

Fonte: http://www.vangoghgallery.com/painting/potatoindex.html


As a young man, van Gogh worked as a lay missionary in a poor Belgian mining village. But he was a failure at this vocation. More and more he withdrew into himself and turned to his art. He loved art; whenever he visited museums he would draw and paint at every opportunity. His early pictures were painted in browns and other drab colours and showed peasants going about their daily routines. One of these early paintings was The Potato Eaters.(1885).
In this picture, a peasant family has gathered around a table to eat their humble meal of potatoes. In most families, this would be a happy time, a time to share experiences and talk over the events of the day. But there is no happy chatter here. This day is no different to any other day. it has meant the same backbreaking work in the dark mines for the men and the usual dull routine in and around the drab cottage for the women. The interior of the cottage is dark and cool. Steam rises from the potatoes and from the tea, and everyone wears heavy clothing. There is little colour, the walls, clothing and even the faces of the people have an earthen hue. The entire scene appears to be taking place underground.

Fonte: http://www.deakin.edu.au/education/visarts/example2.htm

O Novo Mundo

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(The New World, 2005 - EUA)

O melhor do filme de Terrence Malick está no primitivo, ninguém melhor do que ele soube dar ao público a sensação de descoberta, de invadir aquela mata virgem e selvagem, totalmente desprevenidos do que os olhos irão avistar. Longos planos pela paisagem, sobre rios e lagos, dentro da floresta intacta. São momentos contemplativos, imagens a se admirar, um espetáculo fabuloso de cores, formas e sensações. Chegamos ao novo mundo.
Uma expedição aporta em 1606 em Virginia, a fim de povoar o lugar. Confronto com os nativos, falta de mantimentos, a proliferação de doenças, brigas internas pelo poder, são inúmeros os problemas enfrentados pelos homens enviados pela monarquia britânica. O Cap. Smith é capturado pelos nativos e ao invés de ser sacrificado passa a viver com os índios e aprender seus costumes, a filha preferida do cacique apaixona-se por ele. Temos aí a lendária história de Pocahontas.
Esse mistério sobre o incógnito, promovido por Malick, promove o efeito de nos fazer viajar pela imaginação. Deixemos um pouco a idéia de reconstituir fatos e celebrar nomes, e passemos a saborear o prazer de se embrenhar pelo desconhecido, vislumbrar a natureza em sua forma mais pura. O cinema de Malick mostra-se muito mais forte por sua forma do que pelo contexto, aliás, quando o filme perde um pouco dessa contemplação da natureza e passa a concentrar-se na história desse amor desfragmentado é que tudo passa a ser levemente maçante. Mesmo mantendo sua forma, os olhos não se interessam tanto por aqueles sentimentos patinando, o romantismo escorrendo, o bom-mocismo, e as vozes em off que teimam em tentar explicar desnecessariamente a alma de seus personagens.
Instinto Selvagem (Basic Instint, 1992 – EUA)

Um suspense libidinoso, quem não tem essa impressão na cabeça? Sharon Stone despontou para o mundo nesse filme, principalmente por suas curvas e pelo voraz apetite sexual da personagem. Catherine Trammel é uma devoradora de homens, ou para ser mais exato, uma mulher que busca seu prazer sem limites, sem tabus, dona de uma ativa e desregrada vida sexual que encontra no detetive Nick Curran um par perfeito para mais um de seus jogos sexuais.
Um ex-roqueiro morre apunhalado por um picador de gelo durante o ato sexual, ele mantinha caso com uma escritora especializada em psicologia. Seu livro anterior narrava a morte de um roqueiro com detalhes idênticos aos fatos que o levaram à morte. Teria ela cometido o crime e o livro seria seu álibi? Algum fã da escritora decidiu dar vida às páginas do livro?
Quanto mais o problemático investigador mergulha no caso (problemas com alcoolismo, drogas e etc), mais se aproxima da investigada, numa rede de desejo, tensão sexual e desconfiança que nenhum dos dois consegue evitar. Paul Verhoeven mostra-se aqui um discípulo incontestável de Alfred Hitchcock, são inúmeras as cenas em que há impressão de se tratar de um filme do mestre do suspense. Os enquadramentos, o posicionamento dos atores diante das câmeras, algumas das externas, há muito Hitchcock espalhado por todo o canto. Quase tive a impressão de que Verhoeven queria dizer algo como: olha, não estou o homenageando, estou fazendo igual mesmo!
Falar de todo o filme e não citar a famosa cena da cruzada de pernas é quase uma heresia, não só pelo que se vê, mas principalmente pela seqüência completa que é totalmente dominada por Sharon Stone e seu sex appeal enfeitiçando o ambiente. Ela controla todas as ações, deixa aquele bando de homens constrangido com sua verborragia, com sua segurança. A cena é toda de Stone, e Verhoeven sabe extrair o melhor do melhor, os cortes rápidos, o plano contra-plano entre ela e os policiais. Um momento espetacular, de tirar o fôlego.


Instinto Selvagem 2 (Basic Instint 2, 2006 - EUA)

Quem não foi preparado para o pior? De tão negativa a expectativa o filme até consegue surpreender. Vejam só, ele é apenas ruim, bastante ruim, mas apenas isso. Para começar o argumento que sustenta a continuação não tem cabimento algum a não ser um grande caça-níqueis, uma mudança aqui e ali e praticamente repetiram o roteiro do filme anterior. O diretor Michael Caton Jones, não consegue nem de longe repetir o estilo empregado por Paul Verhoeven, sua condução não consegue dar a trama aquele clima de suspense, aquele ar de algo prestes a acontecer, a tensão.
Os atores são péssimos, com destaque pior para David Morrissey, que interpreta o psiquiatra. É irritante notar a mesma feição em seu rosto em todos os momentos, pior que em nenhuma cena aquela feição mostra-se minimamente adequada. Um ator patético, fazendo algumas cenas tão patéticas quanto. A seqüência final é ridícula, no mínimo desnecessária para não dizer coisas bem piores, mas há uma outra cena, num julgamento, em que o psiquiatra confirma uma pergunta de uma advogada de acusação sobre a ré ser um perigo para si, simplesmente medonho. E chega de falar mal, porque quanto mais se pensa sobre o filme, mais lembranças negativas surgem.
Nesse mar de incompetência e babaquice há Sharon Stone no que sabe fazer melhor. Ninguém, repito ninguém, transmite essa tensão sexual como ela faz, esse desejo a flor da pele, a vontade de transar o tempo todo, com todo mundo, em qualquer lugar, o apetite sexual mais voraz do cinema. Mesmo com a picotada edição que corta tudo de maneira rápida e não deixa nenhuma cena ser mais apurada pelo público, ainda assim Stone dá um banho de sensualidade, esbanja seu corpo escultural fervilhando de prazer e faz de Catherine Trammell uma personagem memorável. Não, Sharon Stone não é uma atriz espetacular, mesmo nesse filme ela dá suas rateadas, mas nesse tipo de personagem, esse vulcão em forma de mulher, é espetacular.

O Corte

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(Le Couperet, 2005 - FRA)

Grandes corporações em reestruturação, fusões visando tornarem-se a máxima competitividade, cortes e demissões. Dinâmica de uma época? Desnorteado pelos mais de dois anos desempregado, um executivo do ramo de papel decide eliminar (no sentido literal da palavra) seus maiores concorrentes para um futuro processo seletivo. Devido à freqüência e gravidade do problema, acredito que o tema desemprego poderia ganhar muito mais espaço no cinema atual. Sua recorrência está impregnada nas sociedades, difícil quem não possui um desempregado na família. Mesmo quando Costa-Gavras idealiza um serial-killer, o insere num contexto político-econômico, mantendo assim seu engajamento cinematográfico coerente, dando mais um passo convicto dentro de sua sólida carreira.
O filme apega-se demais ao lado “psicopata” do personagem, prefiro deixar de lado a desenvolver melhor esse aspecto por não haver nada de novo, ao contrário, há muitos outros personagens com característica semelhante, porém bem mais interessantes e melhor resolvidos. Um homem em momento de total desequilíbrio e desespero, perde seus limites morais, o instinto passa a regular sua personalidade, como se matasse por sua sobrevivência.
O que há de interessante é a nova configuração familiar. Primeiro a mulher passa a sustentar a família enquanto o homem é incapaz de cumprir todas as funções domésticas exercidas por ela. Prossegue com a queda do padrão de vida, como possuírem apenas um carro, cancelar tv a cabo e outros confortos que não se inserem no novo orçamento. Chegando na fase mais grave quando os elos familiares ficam balançados, o casamento na corda bamba, a relação com os filhos mais complicada. O incômodo sentimento de incapacidade que o desempregado carrega, sentir-se um fardo, a total falta de perspectivas, a dificuldade de recomeçar (ou continuar).
Costa-Gavras deixa seu recado em pequenos diálogos, trata a ambição e o medo. Todos demonstram o receio do desemprego, as mazelas que marcam essa fase que pode não chegar ao fim, principalmente àqueles que atingiram certa idade e com uma capacidade profissional onde as oportunidades que se encaixariam a seu perfil são raríssimas. O mundo encontra novas formas de crescimento, mas não está se preocupando com os estragos que está deixando pelo caminho.


Música da Semana:

CANDY

(Iggy Pop)

It's a rainy afternoon In 1990
The big city...geez, it's been 20 years!
Candy,
You were so fine
Beautiful, beautiful Girl from the north
You burned my heart with a flickering torch
I had a dream that no one else could see
You gave me love for free

Candy Candy Candy
I can't let you go
All my life you're haunting me
I loved you so
Candy I can't let you go
Life is crazy
Candy baby

Yeah, well it hurt me real bad when you left
I'm glad you got out
But I miss you I've had a hole in my heart
For so long
I've learned to take it and Just smile along
Down on the street
Those men are all the same
I need a love
Not games
Not games

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Michel Simões