(The Three Burials of Melquiades Strada, 2005 – EUA)
Um road movie a cavalo, uma celebração da amizade, o anseio de cumprir uma promessa, o problema da imigração ilegal na fronteira dos EUA com o México. Todos são temas recorrentes, mas é na valoração dos princípios morais onde se sedimenta a raiz do roteiro de Guillermo Arriaga (a cada dia mais se confirma um ótimo roteirista e continua desfragmentando suas histórias para depois entrecruzá-las, brincando com a noção de tempo). O desenvolvimento dos personagens é um trunfo eficaz em proporcionar humanidade, em criar cenas que não suavizam e nem extrapolam em dramaticidade, uma perfeita combinação entre contido e sensível.
É um filme de tantas possibilidades, todos os personagens merecem um pouco de reflexão. Desde o policial, típico, que oculta fatos e julga pela sua consciência o que investigar e quem prender, passando pela jovem de casamento infeliz que se vê num marasmo interminável ao se mudar para uma cidadezinha no meio do nada e encontra algum consolo na cama de outros homens. A garçonete balzaquiana que não esconde seus casos extraconjugais, porém mantém-se fiel a não deixar seu marido solitário.
E outros ainda menores (como o velho cego), o roteiro cria essa sociedade ressaltando brilhantemente os medos, as fraquezas, e principalmente os valores morais dessa sociedade que aceita relações extraconjugais desde que minimamente camufladas, que aceita a não investigação de uma morte só por se tratar de um ilegal. Aceita também a infelicidade conjugal, a rotina mórbida, a complacência como forma de facilitar as coisas, mas se assusta quando alguém clama por justiça, quando alguém decide colocar sua amizade a frente e realizar o desejo de um amigo, quando alguém se rebela contra o sistema.
A morte de Melquiades Strada, em circunstâncias obscuras, motiva o capataz Pete Perkins a realizar o desejo do amigo de ser enterrado num pequeno vilarejo no México. Pete seqüestra um patrulheiro, o possível assassino, e inicia uma peregrinação a cavalo desde o Texas. Árido, solitário, determinado, áspero, assim é Pete, alguém que aprendeu a lidar com o sistema para sua sobrevivência, porém guarda em si princípios que alicerçam sua vida. Não é o desejo de vingança que o motiva, apenas a necessidade de cumprir uma promessa. Solidarizar-se até o último momento com quem realmente lhe importa.
Deixei por último no intuito de dar maior importância, Tommy Lee Jones estréia na direção e já nos deixa na expectativa do que vem pela frente. Um trabalho maduro, centrado, não diria detalhista, está mais para profundo sem o desejo de ser fundamental. Barry Pepper é o tipo de ator que a maioria não dá nada, parece que não vai deixar de ser coadjuvante de filmes de ação, mas o ator se encaixa tão perfeitamente no conteúdo de Arriaga e na condução de Lee Jones, que só se abre a certeza de que há espaço para quem tem talento. O patrulheiro durão, ignorante, insensível, e ainda assim arrependido, capaz de chorar compulsivamente, lamentar profundamente seus erros, talvez até encontre a ressurreição.
Engraçado como duas cenas fundamentais estão ligadas a uma novela de quinta categoria. Primeiro a mulher assiste a novela, encostada na pia da cozinha, enquanto o marido cumpre suas necessidades sexuais, e ela dividida pelo choro de se sentir um mero objeto desprezível e a atenção no capítulo que parece mais importante do que seu prazer sexual. Mais tarde, o patrulheiro assiste a mesma novela e chora, ao seu lado alguns vaqueiros que não o conhecem e nem falam sua língua, sensibilizam-se com a dor incontida do rapaz. Um local tão viril e predominantemente masculino, realmente impossível que não se comovessem com aquelas lágrimas, uma situação completamente inimaginável.