abril 2006 Archives

Ranking anos 80

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Hoje eu ia postar também mais um quadro do Van Gogh, mas a correria está complicada e vai ficar para sexta que vem. A minha lista está pronta há dias, mas eu estava esperando chegar mais perto do prazo limite para enviar os votos p/ Liga dos Blogues porque queria ver alguns filmes, mas já percebi que dificilmente vou conseguir, portanto vou postar e mandar o voto logo. Estou aproveitando as listas dos outros amigos blogueiros para fazer uma listinha dos filmes obrigatórios que ainda não vi, assim como fiz quando foi feito o ranking dos anos 90! E diferente do que muitos fizeram, não me preocupei em colocar um filme de cada diretor, fiz com meus 20 preferidos mesmo...


1- A Cor Purpura (Steven Spielberg)
2- Vestida para Matar (Brian de Palma)
3- A Ultima Tentação de Cristo (Martin Scorsese)
4- Meu Tio da America (Alain Resnais)
5- Eu Sei que vou Te Amar (Arnaldo Jabor)
6- Depois de Horas (Martin Scorsese)
7- A Era do Radio (Woody Allen)
8- Duro de Matar (John McTiernam)
9- Sociedade dos Poetas Mortos (Peter Weir)
10- Mulheres a Beira de um Ataque de Nervos (Pedro Almodovar)
11- Fanny e Alexander (Ingmar Bergman)
12- O Iluminado (Stanley Kubrick)
13- Ligações Perigosas (Stephen Frears)
14- A Mulher do Lado (François Truffaut)
15- Amantes e Finanças (Alan J Pakula)
16- Contos de Nova York (Scorsese/Allen/Coppola)
17- Blade Runner (Ridley Scott)
18- Wall Street (Oliver Stone)
19- O Declinio do Imperio Americano (Denys Arcand)
20- O Beijo da Mulher Aranha (Hector Babenco)

Brasília 18%

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(2006)

Olho para nosso país e sinto vergonha, não pelos escândalos políticos que dominam os noticiários há meses, porque esses corruptos sequer merecem minha vergonha. Sinto vergonha da nossa incapacidade de se rebelar (incluindo-me nessa lista), de mostrar insatisfação, em outros países estaríamos à beira de uma guerra civil com o povo derrubando o governo na marra (panelaços, manifestações, os jovens nas ruas, sei lá). Enquanto aqui, uns criticam, outros se dizem indignados, o líder diz que não sabia de nada e fica tudo como está, até que na próxima eleição as esperanças do povo ressurjam vigorosas com os novos eleitos (e reeleitos). É por isso que fiz questão de assistir ao novo filme de Nelson Pereira dos Santos, porque a tão falada riqueza multicultural brasileira é tão pobre de revolução, de questionamento, de engajamento. Nas artes ninguém se levanta para protestar, o enfrentamento é inexistente, é muito mais fácil pegar a onda e só mostrar a miséria social e a violência. O rock que pelo mundo afora normalmente é escachado e taxativo aqui está mais preocupado em se mostrar pré-ignorante e chulo vivendo de “tamô aí na atividade”. Por isso, quando alguém quebra essa barreira, merece no mínimo minha atenção, se não saio da zona de conforto para demonstrar minha indignação, ao menos numa sessão de cinema preciso comparecer, daí a adorar o filme é outra história.
Há no filme dois pontos que gostaria de destacar, a reconstituição do funcionamento dos lobbies em Brasília é exemplar. Jantares com conversas discretas nos cantos, almoços em locais reservados com parlamentares, assessores, jornalistas. Um mundo de seguranças, motoristas e etc. Nelson Pereira dos Santos mostra aquilo que todo mundo sabe como funciona, mas nunca colocou no papel o organograma. Essa é o lado mais interessante do filme, sem falar em ouvir Sinfonia de Brasília de Tom Jobim (abrindo e fechando o longa), e na fabulosa condução do cineasta, a mão firme em fazer cinema autoral, mas que não fique marcado tão somente pelo roteiro.
Do filme, ele mistura essa modorrenta realidade política (CPI, corrupção, negociatas, seqüestros e assassinatos, dinheiro, dinheiro, dinheiro, como repete Augusto dos Anjos quase no final) a um surrealismo injustificado. Ricceli com cara de paisagem é de atormentar até quem estiver dormindo, Olavo Bilac é um personagem aborrecedor, quase petrificado e ainda assim é arrastado para cama de tantas mulheres, Bilac está mais para um maníaco sexual do que um homem perturbado e altamente ético, um delírio do roteiro. As investigações que querem dar ao médico-legista contornos de detetive são irreais, desnecessárias, seu envolvimento com a deputada Georgesand Romero também não é condizente, uma deputada atirar-se aos braços de um homem por interesses escusos, aos olhos de todos, homem esse que a mídia persegue no momento, realmente não me parece oportuno.
São inúmeras as observações que poderia fazer para reclamar do roteiro proposto por Nelson Pereira do Santos, melhor encerrar por aqui e ressaltar a atitude do cineasta em nadar contra a maré e ser uma voz solitária nesse mundo artístico brasileiro tão petulante, covarde e nada reflexivo. A idéia era se basear no escândalo da CPI do Orçamento (1993, se não me engano), mas é impressionante como parece que o filme usou fatos do ano passado, ou do mês passado, ou da semana que vem.

Três Enterros

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(The Three Burials of Melquiades Strada, 2005 – EUA)

Um road movie a cavalo, uma celebração da amizade, o anseio de cumprir uma promessa, o problema da imigração ilegal na fronteira dos EUA com o México. Todos são temas recorrentes, mas é na valoração dos princípios morais onde se sedimenta a raiz do roteiro de Guillermo Arriaga (a cada dia mais se confirma um ótimo roteirista e continua desfragmentando suas histórias para depois entrecruzá-las, brincando com a noção de tempo). O desenvolvimento dos personagens é um trunfo eficaz em proporcionar humanidade, em criar cenas que não suavizam e nem extrapolam em dramaticidade, uma perfeita combinação entre contido e sensível.
É um filme de tantas possibilidades, todos os personagens merecem um pouco de reflexão. Desde o policial, típico, que oculta fatos e julga pela sua consciência o que investigar e quem prender, passando pela jovem de casamento infeliz que se vê num marasmo interminável ao se mudar para uma cidadezinha no meio do nada e encontra algum consolo na cama de outros homens. A garçonete balzaquiana que não esconde seus casos extraconjugais, porém mantém-se fiel a não deixar seu marido solitário.
E outros ainda menores (como o velho cego), o roteiro cria essa sociedade ressaltando brilhantemente os medos, as fraquezas, e principalmente os valores morais dessa sociedade que aceita relações extraconjugais desde que minimamente camufladas, que aceita a não investigação de uma morte só por se tratar de um ilegal. Aceita também a infelicidade conjugal, a rotina mórbida, a complacência como forma de facilitar as coisas, mas se assusta quando alguém clama por justiça, quando alguém decide colocar sua amizade a frente e realizar o desejo de um amigo, quando alguém se rebela contra o sistema.
A morte de Melquiades Strada, em circunstâncias obscuras, motiva o capataz Pete Perkins a realizar o desejo do amigo de ser enterrado num pequeno vilarejo no México. Pete seqüestra um patrulheiro, o possível assassino, e inicia uma peregrinação a cavalo desde o Texas. Árido, solitário, determinado, áspero, assim é Pete, alguém que aprendeu a lidar com o sistema para sua sobrevivência, porém guarda em si princípios que alicerçam sua vida. Não é o desejo de vingança que o motiva, apenas a necessidade de cumprir uma promessa. Solidarizar-se até o último momento com quem realmente lhe importa.
Deixei por último no intuito de dar maior importância, Tommy Lee Jones estréia na direção e já nos deixa na expectativa do que vem pela frente. Um trabalho maduro, centrado, não diria detalhista, está mais para profundo sem o desejo de ser fundamental. Barry Pepper é o tipo de ator que a maioria não dá nada, parece que não vai deixar de ser coadjuvante de filmes de ação, mas o ator se encaixa tão perfeitamente no conteúdo de Arriaga e na condução de Lee Jones, que só se abre a certeza de que há espaço para quem tem talento. O patrulheiro durão, ignorante, insensível, e ainda assim arrependido, capaz de chorar compulsivamente, lamentar profundamente seus erros, talvez até encontre a ressurreição.
Engraçado como duas cenas fundamentais estão ligadas a uma novela de quinta categoria. Primeiro a mulher assiste a novela, encostada na pia da cozinha, enquanto o marido cumpre suas necessidades sexuais, e ela dividida pelo choro de se sentir um mero objeto desprezível e a atenção no capítulo que parece mais importante do que seu prazer sexual. Mais tarde, o patrulheiro assiste a mesma novela e chora, ao seu lado alguns vaqueiros que não o conhecem e nem falam sua língua, sensibilizam-se com a dor incontida do rapaz. Um local tão viril e predominantemente masculino, realmente impossível que não se comovessem com aquelas lágrimas, uma situação completamente inimaginável.
(The Smartest Guys in the Room, 2005 - EUA)

A câmera posicionada no banco de trás não nos deixa distinguir as feições do motorista, o luxuoso carro trafega cruzando a madrugada, a voz divina de Billie Holiday nos conduz em God Bless the Child. O desfecho dessa seqüência são favas contadas, mas o detalhe da música deixa tudo mais suave, sutil, mesmo em se tratando de um suicídio. Ao se sentar para assistir ao documentário de Alex Gibney, você está mais que preparado para histórias sórdidas de falcatruas, negociatas, ausência de escrúpulos, a ganância acima dos valores, corrupção e mais tudo aquilo que nos recordamos dos noticiários à época. Mesmo assim, em algum momento, você irá se surpreender.
A falência da Enron é sem duvida o maior escândalo corporativo que se tem notícia, acompanhar com proximidade os passos que levaram a Enron a se tornar o conglomerado faraônico que se tornou e depois sua ruína, apenas nos trazem a certeza de que todos têm o seu preço, só é necessário saber quanto. Explicar aqui, ou tentar explicar, todas as artimanhas utilizadas pelos principais executivos da empresa, seria uma grande perda de tempo. Os balanços embasados por renomadas empresas de auditoria, onde os prejuízos eram maquiados como lucros fazendo as ações da empresa bateram recordes e mais recordes são apenas uma pontinha do iceberg.
Que executivos gananciosos são capazes de tudo, todo mundo imaginava, portanto saber que desviaram dinheiro, que não se preocuparam com os funcionários, aposentados, e acionistas; que tinham grande envolvimento com banqueiros e com o governo (explicitamente com George W Bush e seu pai), nada disso surpreende. São dois os pontos que mais chamam a atenção, o primeiro é a transformação dos líderes da empresa em superstars nos EUA, viviam em capas de jornal, faziam discursos, arrastavam platéias com frases planejadas para induzir a compra de mais ações. A queda da empresa e da reputação desses homens que eram ídolos de uma nação foi um golpe duríssimo, empresas de credibilidade podem no futuro sofrer com o fantasma Enron.
Mas o pior é o caso da Califórnia, o que fizeram por lá é de uma crueldade tão grande que se torna impossível medi-la. Forjar blecautes, parar usinas, deixar a população e a indústria a deriva, tudo para aumentar os lucros, para disparar com os preços da energia. A verdade é que os traders da Enron passaram a se sentir semi-deuses e, portanto poderiam fazer tudo que desejassem para atingir seus objetivos, vale tudo pelo lucro, a ética é uma palavra teórica e antiquada. Ask why, asshole. Acho que agora eu sei com quem nosso presidente aprendeu a dizer que não sabia de nada, que todos o traíram, que nunca foi informado daquelas decisões. O povo brasileiro agradece a lição que o ex-CEO da Enron, Jeff Skilling, ensinou a nosso digníssimo presidente.



Música da Semana:

GOD BLESS THE CHILD
(Billie Holiday / Arthur Herzog Jr.)

Them that's got shall get
Them that's not shall lose
So the Bible said and it still is news
Mama may have, papa may have
But God bless the child that's got his own
That's got his own

Yes, the strong gets more
While the weak ones fade
Empty pockets don't ever make the grade
Mama may have, papa may have
But God bless the child that's got his own
That's got his own

Money, you've got lots of friends
Crowding round the door
When you're gone, spending ends
They don't come no more
Rich relations give
Crust of bread and such
You can help yourself
But don't take too much
Mama may have, papa may have
But God bless the child that's got his own
That's got his own

Mama may have, papa may have
But God bless the child that's got his own
That's got his own
He just worry 'bout nothin'
Cause he's got his own
Aos meus olhos, claramente é possível notar o desespero e a solidão presentes na última tela de Van Gogh, os tons nebulosos, os traços fortes e definitivos contém toda a fúria e sofrimento presentes na alma do pintor, que poucos dias depois daria um tiro no peito no mesmo campo, com uma arma emprestada, sob a desculpa de que usaria-a para afugentar os corvos. O notório sentido de movimento, o devastador poder do vento sob a plantação, o desespero e a solidão são realmente desconcertantes.




Campo de Trigo com Corvos(Wheatfield with Crows, 1890) Oil on Canvas, 50.5 X 103 cm


Wheat Field with Crows stands out as one of Vincent van Gogh's most powerful, and most fiercely debated, paintings. The many interpretations of this particular work are probably more varied than any other in Van Gogh's oeuvre. Some see it as Van Gogh's "suicide note" put to canvas, while others delve beyond a superficial overview of the subject matter and favour a more positive approach. And some more extreme critics cast their vision even further--beyond the canvas and the brushstrokes--in order to translate the images into an entirely new language of the subliminal.
Artistic analysis is, by its very nature, a subjective endeavour. Still, the most reasonable interpretations are best undertaken from a foundation based on facts.

fonte: http://www.vggallery.com/painting/p_0779.htm


Wheatfield with Crows is one of Van Gogh’s most famous paintings and probably the one most subject to speculation. It was executed in July 1890, in the last weeks of Van Gogh’s life. Many have claimed it was his last work, seeing the dramatic, cloudy sky filled with crows and the cut-off path as obvious portents of his coming end. However, since no letters are known from the period immediately preceding his death, we can only guess what his final work might really have been. Some scholars believe it was the Tree-roots , but we have no proof that this was the case.

Fonte: vangoghmuseum

Titanic

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Titanic (Titanic, 1997 - EUA)

Em uma releitura depois de anos do estrondoso (e maluco) sucesso do filme nos cinemas, ainda me lembro de ingressos comprados com mais de uma semana de antecedência, Titanic se confirma como um ótimo exemplar de entretenimento para as massas. Sua miscelânea entre romance açucarado e clichê, com boas seqüências de aventura, ambientadas num palco histórico (o mais aclamado naufrágio), rende um filme impecável nos quesitos técnicos e três horas agradáveis frente a uma história decorada de trás para frente.
O segredo está nessa perfeita conexão entre romance e aventura, e no evidente fascínio que o navio causou ao diretor James Cameron (que até hoje está ligado a projetos documentais sobre o navio). Toda a fantasia envolvendo o romance de Jack e Rose, os mundos tão distantes, a burguesia retratada com toda sua petulância e dissabor, tudo isso são favas contadas. As três horas passam rápidas porque quando estamos mais que enjoados daquele açúcar amoroso aparece um iceberg dando novos ritmos à história.
Titanic não acrescenta nada, realmente não é grande filme, é apenas a utilização eficiente de um terrível acidente para que se construa uma obra de ficção, mas ainda assim é um filme que não envelhece e a cada reprise na TV sempre acabo atraído por suas qualidades. Titanic tem um objetivo mais que determinado, e o atinge com destemida capacidade, por isso tem sim seus méritos.


U2 - Rattle And Hum (U2 Rattle And Hum, 1998 - EUA)

O documentário de Phil Joanou não se assume muito, nem como road movie durante uma turnê da banda, nem como uma simples gravação de apresentações musicais, muito menos deseja refletir a vida pessoal de cada um dos integrantes do U2 ou ser fundamental com bombásticas declarações. É apenas uma boa diversão para fãs, e nisso é muito competente trazendo material diferenciado, misturando boa fotografia p/b e colorida.
Das poucas inserções com os músicos (em entrevistas), em quase todas, eles parecem não saber o que falar, um bando de garotos tímidos (nem parece o Bono atual e seu engajamento político grudento), loucos para que Joanou faça uma daquelas perguntas manjadas que os faça falar compulsivamente, mas o diretor pouco os auxilia nessa tarefa. O encontro com BB King é interessante, mas a gravação gospel de I Still Haven't Found What I'm Looking For é disparado o ponto alto do filme (dá vontade de ver repetidas vezes). Quando o mundo fica colorido e alguns dos hits são apresentados num show, Bono demonstra sua capacidade de eletrizar a platéia no palco e nesse momento temos aquilo que realmente se esperava, um show do U2.


TEATRO: O Fingidor

Só prova que preciso dar muito mais atenção ao teatro, ir duas vezes por ano (quando atinjo essa marca) é uma vergonha. O Fingidor é bárbaro, inteligente, poético e divertido. Reconstituição ficcional da última semana de vida do escritor Fernando Pessoa, e trata da necessidade de auto-afirmação, da incapacidade de enxergar o que está diante dos olhos, da cegueira intelectual. O ator Hélio Cícero interpreta o poeta de maneira dilacerante, virtuosa, possui um humor leve e capaz de se envolver de maneira homogênea com a carga dramática, alcançando toda a contextualização poética de sua obra. Os heterônimos do escritor vagam por sua mente, ao se fazer passar por um datilógrafo só para tentar ser reconhecido por um historiador que estuda sua obra, Pessoa busca auto-reconhecimento, discute com os seus eu's, reencontra o amor quando menos esperava. Um espetáculo sensacional escrito e dirigido por Samir Yazbek!

Pele de Asno

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(Peau D'âne, 1970 – FRA)

Olhar Catherine Deneuve com aqueles vestidos deslumbrantes e espetaculosos, no alto de sua mais glamourosa beleza, é um requinte aos poucos que se aventurarem a conhecer a fábula encantada dirigida por Jacques Demy. É um filme doce e cativante, parcialmente voltado ao público infantil, com apresentações musicais singelas e pueris, figurinos desconcertantes, e o afável diálogo que só os contos de fada teimam em possuir.
Num reino distante, onde um asno encantado transforma em ouro e pedras preciosas tudo que come, no leito de morte a rainha faz um pedido ao rei, que ele se case novamente, mas apenas com uma mulher mais linda do que ela própria. Após muito procurar, a única a atender essa característica é a própria filha do rei, que ajudada por uma fada foge para uma cabana para não ter que se casar com o pai.
A jovem princesa sempre veste-se com uma pele de asno no intuito de não ser reconhecida, artifício esse que causa repudio em todos a sua volta (por temerem sua feiúra, além do odor nada agradável), até que um príncipe de outro reino apaixona-se por ela. Não é mesmo uma história singela? Demy baseou-se no conto de Charles Perrault, para fazer esse filme atemporal, despretensioso, um resgate às raízes de nossa infância, quando nos deliciávamos com histórias de cavaleiros, príncipes, dragões, bruxas...


Música da Semana: mais uma novidade do blog, no menu do lado direito toda semana pretendo citar uma música que eu goste, que tenha relação com meu atual estado de espírito, que tenha me chamado a atenção, que seja especial. Estréia com minha banda nacional preferida no momento, nem é das minhas prediletas da banda, mas tem a ver com momento atual (rsrs)


QUEM SABE
(Los Hermanos)

Quem sabe o que é ter e perder alguém
Sente a dor que senti
Quem sabe o que é ver quem se quer sentir
E não ter pra onde ir
Faz tanta falta o teu amor e te esperar...
Não sei viver sem te ver
Não dá mais pra ser assim
Quem sabe o que é ter sem querer pra si
Não quer ver outro em mim
Não fala do que eu deveria ser
Pra ser alguém mais feliz
Faz tanta falta o teu amor e te esperar...
Não sei viver sem te ter
Não dá mais pra ser assim

Árido Movie

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(2004)

Eu poderia ficar gastando linhas, falando que Jonas trabalha na TV e é surpreendido pelo assassinato do pai que mora numa pequena cidade do Nordeste, e que agora precisa ir ao enterro do homem que o viu pela última vez quando ainda tinha cinco anos. Contaria parte da história desse road movie brasileiro e assunto encerrado. Não vou fazer isso, principalmente porque Jonas é um personagem chato, sem a menor graça e que pouco (ou nada) acrescenta ao filme. Estranho não é, o personagem principal ter essa característica?
Fio condutor serve para isso, ligar o que a trama tem de importante. O árido do título está impregnado pelo filme, começando pela paisagem, passando pela vida dos indígenas que habitam de algum modo a região, e terminando na falta de um bem tão abundante, a água. Soledad é uma videomaker que estuda a falta da água e suas conseqüências, procura um ancião conhecido como “Meu Velho”, uma espécie de profeta que vem conseguindo diminuir a seca em sua região, está virando uma lenda.
O que Lírio Ferreira quer discutir e essa visão de mundo atual, um disparate tão grande onde a modernidade atinge alguns de maneira tão veloz e atroz, e de outro lado a vida arcaica e árida continua enraizada naqueles que estão a margem da sociedade consumista, do mundo globalizado. Naquela cidade ainda impera o coronelismo, o jogo de interesses, a vontade imposta a tiros. Nesse cosmo aparece um bando de amigos mauricinhos de Jonas, saídos de sua desfrutável classe média, pobre de cultura e valores, rica em diversões, um bando de jovens imersos em álcool, drogas e o desejo de vadiagem eterno.
Árido Movie é um filme alucinógeno em alguns momentos, assim como a maconha que seus personagens fumam. Zé Elétrico é a voz da sabedoria, aquele que sabe os caminhos que cada um irá seguir, e nada faz para mudar as rotas. Fala sabendo que não será ouvido, por isso conversa com aquela paisagem árida, sabendo que o mundo irá continuar nessa velocidade frenética, mas que aquele seu mundinho ainda continuará o mesmo, os poderosos comandando ao bel-prazer, o povo sendo enganado por todos, alguns perseguidos e outros preocupados exclusivamente com o prazer momentâneo. E a seca trazendo mais miséria aquele povo sofrido.

Os Esquecidos

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(Los Olvidados, 1950 - MEX)

Hector Babenco bebeu dessa fonte para realizar Pixote, bebeu não, embriagou-se, disso tenho certeza. Tamanha a proximidade das duas obras, excluindo-se o grande hiato temporal entre elas. O clássico de Luis Buñuel é menos urgente, e a violência cruel de sua época soa hoje como cócegas perto da infinidade de atrocidades que estamos acostumados a presenciar. Por outro lado aproxima-se bastante do que mais tarde Truffaut faria em Os Incompreendidos, aquela perda da inocência, a troca da ingenuidade pela necessidade extrema de sobrevivência num mundo que teima em tratá-los como subumanos, os esquecidos.
Um bando de garotos comete pequenos delitos na Cidade do México, Jaibo, o mais velho do bando conseguiu escapar do reformatório e volta a liderá-los. A história acompanha principalmente Jaibo e Pedro (um dos mais jovens que sofre com uma forte rejeição materna, a mãe não sabe como lidar com esse momento efervescente do filho e prefere rejeitá-lo). Pedro até tenta ajustar-se, arrumar emprego, mas a presença de Jaibo é crucial para que a sociedade o condene. Um assassinato muda de vez a vida desses garotos.
Os Esquecidos talvez seja o primeiro grande filme sobre esses delinqüentes de rua, sobre essa geração de garotos acostumados com a violência no seu percalço. Os garotos extrapolaram a violência pueril das brincadeiras entre os amigos para transformá-la numa forma de ganha-pão, ilícito, mas que lhes rendia uns trocados. Descobriram muito mais que um caminho sem volta. Buñuel impressiona pelo dinamismo que oferece aos seus personagens e na imparcialidade com que trata seus dramas, de tão realista quase transforma em documentário aqueles que seriam os tios de Pixote. Como o mundo não enxerga que meio-século se passou e a situação apenas se agrava?

Pedro (Alfonso Mejía) Jaibo (Roberto Cobo)
(2006)

A memória guarda ótimas recordações do primeiro filme, as conversas de bar recheadas de discussões inflamadas, paixões clubistas presentes até no tom de voz, as mais divertidas histórias envolvendo futebol. Por isso que a expectativa era grande, uma atualização com “causos” mais atuais, riso e futebol formam um belo casamento que os apaixonados jamais cansam de cultivar.
Iniciam-se os intermináveis créditos e a trilha sonora começa a irritar enquanto naquele fundo amarelo aparecem as letras em verde, e a trilha dará o ar da graça mais vezes. O bar do Aurélio foi todo reformado com a entrada do novo sócio, o craque da seleção Marquinhos que foi o herói do penta (imitação chula do Ronaldinho Gaúcho). No segundo andar continua aquela saudosa mesa com ex-jogadores e suas deliciosas histórias, mas assim como nós, eles não se sentem bem naquele novo ambiente despojado e colorido.
A aparição do novo sócio arrasta repórteres, curiosos, empresários de jogadores e as famigeradas Maria-chuteiras. O filme tenta brincar com o futebol moderno, empresários malandros tentando bons negócios no exterior para seus jovens talentos, mulheres muito mais que interesseiras, parentes de jogadores famosos extorquindo-os em troca da não-revelação de escândalos sórdidos, lindas mulheres com os filhos bastardos dos jogadores brigando por melhores pensões.
Provavelmente é a fórmula que não funciona, essa realidade moderna do futebol não tem nada de agradável, de romântica, de divertida ou entusiasmante. Ao contrário, é mais uma prova da obsessão por status que o mundo vive, o quanto oca tem sido a personalidade da maioria, o mundo do futebol perdeu seu encanto fora dos campos, ainda se mantém vivo dentro dos campos devido a habilidade dos craques. Outro ponto é o artificialismo, os não-atores são fracos em cena, a maioria das demais interpretações também incomoda pela artificialidade, e aqueles que verdadeiramente sabem o que fazer ficam renegados a um pequeno espaço com histórias tolas.
Ugo Giorgetti foi infeliz em todos os aspectos, ficamos buscando no filme todo, alguma esquete que nos entusiasme, que chame a atenção, que consiga alguma identificação do tema futebol e a paixão que move os torcedores. A história do auxiliar técnico que espera ansioso uma oportunidade de mostrar-se um técnico brilhante, adorador do futebol-arte, até consegue divertir em sua conclusão, mas como todo o filme está amarrada por um amadorismo estilístico e um conjunto de cenas sem graça alguma. Colocar a realidade na tela, de qualquer jeito, não é o bastante, precisa ter paixão.
(Private, 2004 – PAL/ITA)

Esse mundo é tão irracional, revoltante e grotesco, que a cada dia torna-se mais impossível acreditar na humanidade. Nada mais me surpreende nesse mundo, e ainda assim quando você acha que já viu de tudo, sempre aparece uma nova situação a extrapolar o absurdo. Uma família palestina é surpreendida por um pequeno comando militar israelense. Os militares confiscam a casa, transformam o segundo andar em alojamento e obrigam a família toda a dormir na sala, tendo horários específicos para utilizar outros cômodos como a cozinha e o banheiro.
O patriarca da família é um pacificador, um humanista, e rivaliza com seus filhos para que aceitem a situação provisória, pois em pouco tempo os militares irão deixá-los em paz e assim poderão voltar a sua vida pacata. Por outro lado não aceita em hipótese alguma deixar a casa e se tornar um refugiado (segundo suas palavras “ser refugiado não é ser”). Eles têm que trabalhar, estudar e etc, durante o dia todo e ao chegar a casa aceitar os inimigos como hóspedes. É uma situação inimaginável, não só pela família ajustar-se a essa condição, como também a vizinhança (e a sociedade como um todo) em calar-se a toda essa condição. Um verdadeiro mundo-cão.
Por mais tenebroso, político e pesado que é o tema, Saverio Costanzo faz seu filme solto, ao invés de discussões ou discursos inflamados, opta pelo suspense emocional onde o terror está muito mais no temor da família do que numa série de acontecimentos. Mesmo assim não se trata de um grande filme, as fugas de Marian (filha mais velha) para o armário são apenas um exemplo da maneira mais que ficcional encontrada por Costanzo para levar seu filme. A situação revolta, porém a revolta vai se desfazendo aos poucos pelo filme, e só volta mesmo a nos atingir em seu final que de algum modo tenta renegar tudo que o filme tentava pregar. Filmes e histórias como essa, só nos demonstram que a humanidade não conseguirá jamais encontrar harmonia, nascemos para ser dominadores ou dominados.

Pintura (o começo)

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Para estrear essa seção vou falar mais de mim do que do quadro. Eu estava com uns quinze anos quando ganhei do meu avô um computador, começara a pouco a cursar colegial técnico de processamento de dados. Meu avô nada entendia de computadores, mas buscou o que de melhor havia, todo equipado, com impressora (uma Cannon com cartuchos coloridos separados) e tudo. Depois dos equipamentos instalados, computador no quarto, fui testar a impressora e sempre aquela dúvida do que imprimir. Abri um CD (uma espécie de enciclopédia) e fui clicando a esmo até que me deparei com Van Gogh, ou melhor, especificamente com esse quadro do pintor. Não sei o motivo principal da minha fascinação, se a calmaria que ele transmitia; um espírito bucólico; se as cores meio sem vida, se as formas não simétricas, se o tolo cachimbo pousando sobre a cadeira. Provavelmente foi o conjunto todo. É óbvio que a impressão desse quadro foi meu teste, mas não me contentei em apenas imprimir, quis guardar, colei trás de uma portinha de escrivaninha (onde guardava meus materiais de escola) que ficava no meu quarto. E por muitos anos, todas as vezes que abria aquela porta, dedicava alguns segundos, por vezes minutos, a ficar admirando aquelas formas, aquelas cores, não sei ao certo explicar o que sentia, mas me trazia boas sensações, uma paz interior, como se eu parasse por alguns momentos e ficasse sozinho comigo mesmo. Não tenho dúvida alguma que comecei ali a gostar dessa arte, um amor a conta-gotas, mas uma fonte que dificilmente irá secar.




A Cadeira de Van Gogh (Van Gogh's Chair, 1888) Oil on canvas 91,8 x 73 cm.

Vicent VAN GOGH (1853 - 1890)



This work was painted while Van Gogh was working in the company of Gauguin at Arles. It was retouched early in 1889. Van Gogh painted a companion picture of Gauguin's armchair, shown by night, now in the Rijksmuseum Vincent Van Gogh, Amsterdam. The two paintings may have been intended to represent the contrasting temperaments and interests of the two artists.



Fonte: www.nationalgallery.org.uk

A Era do Gelo 2

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(Ice Age 2: The Meltdown, 2006 - EUA)

Eu não tenho dúvida nenhuma de que Scrat é o melhor personagem de animação que o cinema já viu, é disparado o melhor. O público começa a gargalhar só de notar que lá vem mais uma nova aparição desse esquilo, e ele não decepciona em momento algum, as gargalhadas acompanham segundo a segundo de sua presença no filme. Sem pronunciar uma palavra, seu humor simples e direto é um completo deleite às platéias, suas feições clamando por piedade ou de surpresa ao notar que algo está errado são motivos para as mais diferentes reações do público. Sua obsessão por uma avelã rende momentos hilários, se no filme anterior ele tinha literalmente rachado o mundo ao meio, dessa vez até ao céu das avelãs ele conseguiu chegar. Scrat é desses personagens que sempre estarão presentes em nosso imaginário, muito antes de lembrar dos personagens que carregam a trama, ao se falar de A Era do Gelo, é de Scrat a primeira recordação.
Falando do filme em si, equipara-se ao anterior, que se não era excelente, pelo menos oferecia boa diversão. Um roteiro um pouco melhor desenvolvido, buscando temas atuais como extinção de animais, super-aquecimento global e o conseqüente derretimento das geleiras; além dos recorrentes temas amizade, família, coragem para enfrentar medos. Dessa vez o mamute Manny ganha maior destaque, por outro lado o preguiça Sid possui falas pouco (ou em muitos casos quase nada) divertidas, fazendo o filme girar muito mais sobre seus temas do que no humor.
Os novos personagens não acrescentam brilho, cumprem função de dar fundamento a história. São eles os dois gambás amantes de estripulias e a mamute que acha ser um gambá. O brasileiro Carlos Saldanha assina a direção, é tudo muito bonitinho, agradável de assistir, mas assim como esse texto, não empolga. Mas é diversão garantida, muito mais pelo genial Scrat.



Pintura: Eu não entendo nada de pintura, eu não sei absolutamente nada sobre o assunto. Pouco visito exposições (pouco quer dizer então que visitei algumas, Monet e Picasso e mais uma meia-dúzia), apesar de tudo isso tenho grande interesse nessa arte, muito mais do que na literatura, por exemplo. É aquela coisa, eu não entendo mas me fascina, posso ficar olhando minutos para um quadro e não compreender o que o pintor pretendia, mas fico admirado, o quadro desperta em mim algumas sensações e elas me interessam tanto, ou mais, quanto a beleza que meus olhos estão celebrando.
Por esses e outros motivos resolvi fazer uma brincadeira nesse blog, ainda não sei bem como será, mas uma vez por semana (ou quinzena) vai ter um post com um quadro, ou algum texto retirado da internet sobre algum pintor, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Não sei bem, vai depender das pesquisas, do meu espírito, e de outros fatores que no momento eu nem imagino quais são, mas está dado o recado para meus amigos-visitantes, para que não se assustem com essas estranhas invasões nos post sobre cinema. Começa nessa sexta e o escolhido foi o quadro que me fascinou quando adolescente.

Strings

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(Strings, 2004 – DIN/SUE)

Há filmes que precisam somente de um diferencial para despertar a atenção, podem ter uma história mais que manjada, daquelas que sabemos até de trás para frente, totalmente focada em clichês, e mesmo assim somos sugados como imã para o filme. Strings é um desses casos, poderia ser mais um épico onde o patriarca morre, o mocinho é enganado por alguém que almeja subir ao trono, no meio do caminho ele se apaixona e por fim consegue restabelecer a paz entre os povos.
Mas há um detalhe muito peculiar, imagine essa história medieval sendo interpretada por marionetes capazes de movimentos milimétricos, com contornos nos rostos onde é realmente possível transmitir emoção. É impressionante o trabalho detalhista e complexo capitaneado pelo diretor Anders Ronnow Klarlund, suas marionetes são cheias de vida, fios e mais fios saem de cada pedaço do corpo desses títeres, sendo possível a realização de movimentos perfeitos. Simplesmente irretocável, para o público ficar anestesiado com essa magia.
E o filme ainda guarda um clima sombrio, a chuva torrencial, os ambientes escuros, a profunda utilização da noite. Uma completa história de amor, ódio e vingança, há cenas com inúmeras marionetes, há cenas com fogo, há lutas com espada, e aqueles fios que enchem a tela sem nunca nos incomodar de tão compenetrados nos detalhes que ficamos. Como enredo não tem nada demais, mas ver essas marionetes no cinema é um espetáculo de encher os olhos.

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Michel Simões