março 2006 Archives

Carmen de Godard

| | Comments (0)
(Prénom Carmen, 1983 – FRA)

Um célebre cineasta passando uma temporada num hospital psiquiátrico, um quarteto ensaiando uma das sinfonias de Beethoven, um grupo planejando um assalto a banco. Adicione a tudo isso uma livre inspiração do conto Carmen de Mérimée, idealizada por Jean-Luc Godard. Realmente era pretensão demais querer compreender mais do que os meus olhos assistiriam.
Temos basicamente dois diálogos mais fortes do filme com o público, um é a dificuldade de Godard em se relacionar com a indústria do cinema. Resolve ele então, tratar das dificuldades de se fazer um filme, principalmente no que se refere à captação de recursos. Por outro lado está a transposição de Carmen para o mundo contemporâneo, ela deixa de ser cigana para se tornar uma mulher ainda mais inconseqüente, imune às fragilidades, uma devoradora de homens.
Não gosto de vários pontos da condução da trama, por exemplo, a maneira como nasce a paixão entre Carmen e o guarda, ou melhor, quando nasce a obsessiva paixão dele por ela e o desejo repentino dela por ele. A montagem desfragmentada não é problema, são detalhes como o citado que incomodam, diria que é “artístico” demais e pouco factível. Mas Godard é brilhante em sua sabedoria, na maneira de instigar o público com frases e pensamentos de impacto, pode-se gostar ou não de seus filmes, mas a atenção redobrada é necessária para que não percamos alguns desses momentos mágicos e ácidos dessa cabeça em eterna ebulição.
Nesse filme há inúmeros casos, repetir todas as indagações e afirmações seria tolice, fico com o registro de apenas uma delas que praticamente abre o filme e já nos deixa maravilhado com a certeza de que está começando mais um filme de Godard. Não sei se as palavras eram exatamente essas: “Eu não tenho muito estudo, mas sei que o mundo nunca será dos inocentes”. Corpos nus estão presentes em boa parte do filme, mas Godard consegue algo extraordinário, excluir a sensualidade do que enxergamos. Os três segmentos do filme relacionam-se mas não chegam a se encaixar perfeitamente, mas como disse no começo, seria pretensão demais querer decifrar a mente desse tal Godard.

O Veneno da Madrugada

| | Comments (0)
(2005)

O título é explosivo, não acham? O que seria esse veneno que se derrama pela madrugada? Primeiramente seriam os misteriosos Pasquins anônimos que estão sendo colados nas portas das casas desse pequeno vilarejo perdido em algum canto da América Latina, contando detalhes sórdidos das vidas dos habitantes (traições, segredos de família, assassinatos, política). Porém eles tornam-se apenas o princípio das chamas que tomarão a madrugada daquele local inóspito e repugnante.
O mau cheiro causado por uma vaca atolada num rio impregnou-se no ar daquele vilarejo, a chuva cai torrencialmente pela noite, despenca incessante enlameando ruas e os aventureiros que ousam sair de casa. A igreja está infestada de ratos, nem a água benta está livre deles. Nada desse aspecto enfadonho incomoda tanto quanto as verdades expostas nos Pasquins, descobrir o autor é emergencial, algo como necessidade pública número um.
Há uma disputa ferrenha pelo controle da cidade, por um lado a decadente família Assis, da qual sobraram apenas a viúva, seu filho e a esposa; de outro está o Alcaide com sua dor de dente insuportável e sua sedenta sede por poder e por sua própria justiça. O jogo político vive um momento dos mais acirrados, aquela noite pode ser crucial para as pretensões dos Assis, mas o Alcaide prepara o contra-ataque, mesmo que precise agir acima da lei.
O filme transcorre pelo intervalo de vinte e quatro horas, a chuva não dá uma trégua. Até que o tempo passa a ter menor importância, começando idas e vindas de acontecimentos, abrindo espaço para três maneiras de se ver a mesma noite. Uma estrutura complexa, porém muito bem definida, que acaba se tornando muito mais interessante do que o próprio filme. Aliás, a trama começa a derrapar, demonstrando-se não tão interessante, desde então nos deslumbramos com a qualidade técnica impecável do filme. Walter Carvalho faz milagres para resgatar todo o clima necessário, quase é possível sentir aquele mau-cheiro, a umidade do ar, a repugnância dos lúgubres casebres. O aspecto enlameado está por toda parte, o trabalho com as sombras, Carvalho destoa até demais de tão ímpar seu trabalho.
Adaptação do livro La Mala Hora de Gabriel García Márquez, amigo pessoal do diretor Ruy Guerra que pode não ter desenvolvido tão bem o roteiro, mas com o material que dispunha demonstrou toda seu talento e controle na direção. Há uma cena inesquecível, se bem que o grito de dor de Leonardo Medeiros é de doer o estomago, mas um beijo violento em que a mistura de saliva e sangue escorre pela boca do casal, forma uma cena de uma plasticidade incrível, uma pintura expressionista (já que o filme tem um quê expressionista).

A Ostra e o Vento

| | Comments (0)
(1997)

O vento como personagem crucial, ainda não tinha pensado nessa hipótese, mas Moacir C. Lopes pensou ao escrever esse romance adaptado ao cinema pelas mãos de Walter Lima Jr. A delicada história de uma menina crescendo numa pequena ilha habitada apenas por ela, seu pai (José) e o velho Daniel. José é responsável pelo farol, de tempos em tempos um navio traz mantimentos para os três moradores, é o único contato de Marcela com o continente, um tanto quanto vago e indireto, diga-se de passagem.
A rigidez do pai em não permitir que a filha saia da ilha cria nessa doce menina uma série de conflitos, agravados quando se torna moça. O pai decidiu isolar-se naquele fim de mundo e tem medo da filha naquele mundo de gente cruel, mesmo que seja apenas para fugir um pouco do tédio em que se encontra. Resta a Marcela as conversas com Daniel, os relatos de sua vida num diário (que se torna fio-condutor da trama) e sua amizade com Saulo (uma incógnita que será respondida na segunda parte da trama).
Walter Lima Jr brinca com a ausência de ordem cronológica, Daniel está de volta à ilha com Pepe e sua pequena tripulação. Lá não encontram ninguém. Enquanto procuram pelo paradeiro de José, Marcela e Roberto, passam a ler o diário da jovem e por ele são acionados os flashback's que nos apresentam todos os fatos ocorridos naquela ilha. Um filme tratado com imensa delicadeza por Walter Lima Jr, que tem na pureza do rosto angelical de Leandra leal, o encontro perfeito para narrar essa trágica história.
A força das paisagens, do mar, é como se pudéssemos sentir o vento nos tocando, o cheiro daquela ilha, a angústia daquela garota cheia de dúvidas, cheia de desejos, que acaba criando uma relação quase sexual com seu amigo vento. Quando o ser humano é testado aos seus limites é que demonstra sua verdadeira faceta, sem máscaras, sem pudores, desprendido de conseqüências.

Marcela (Leandra leal) José (Lima Duarte) Daniel (Fernando Torres) Pepe (Castrinho) Roberto (Floriano Peixoto)
Meu amigo Marcos não vai nem acreditar, finalmente assisti o VHS que vc me mandou rsrs, antes tarde do que nunca, obrigado!!!




(1999)

O documentário de João Moreira Salles e Kátia Lund propôs uma abordagem dessa “guerra particular” a qual enfrenta o Rio de Janeiro, resultado da nova sociedade criada pelo tráfico de drogas, usando a visão de três lados dessa guerra (policiais, traficantes, e moradores dos morros cariocas). Ouvir um policial lamentando a morte de seus companheiros, ou o medo da família de não saber se ele irá voltar do trabalho, ou ainda o orgulho de sentir-se num filme de hollywood enquanto fazem uma ação é algo exacerbadamente famigerado pelo público em geral.
Depoimentos de crianças que entraram no tráfico por falta de opção, ganhando muitas mais que seus pais e não tendo o menor receio em morrer ou ser preso, também está presente em qualquer palestra nas escolas. E o documentário passa muito tempo nessa ladainha, inclusive é possível ouvir as perguntas dos diretores dando corda para essa abordagem realista, porém com nada de novo.
Há alguma novidade quando os moradores dos morros afirmam categoricamente que é melhor viver sob a proteção dos traficantes do que da polícia, segundo eles (e infelizmente não há porque duvidar disso), os traficantes ajudam a sociedade, chegam até a dar remédios em alguns casos mais necessitados (uma forma de cativar os moradores, de tornar o convívio mais fácil e contar com ajuda deles contra a polícia), enquanto que a polícia invadia casas e levava aparelhos eletrônicos como se tudo que estivesse no morro fosse roubado, como se não houvesse pessoas honestas que vivem por ali.
Me despertou interesse também o depoimento de um garoto que fugiu da cadeia quatro vezes, ele narrava seu histórico policial (prisões, fugas, crimes, leis que foi julgado) e a cada vez que contava mais uma fuga de presídio agradecia a Deus pela graça concedida. Aquele depoimento mereceria uma análise mais profunda, até que ponto Deus estaria ajudando-o a fugir e cometer mais crimes, assassinar mais inocentes? Não sei, mas ele usa sua fé para os assuntos que mais lhe interessam: suas fugas.
E agora o melhor, o que faz desse documentário algo surpreendentemente especial, a contundência do depoimento de Hélio Luz (na época o chefe da polícia civil). A nítida impressão que tive é que ele soltou o verbo, esquecendo de sua posição na polícia e no governo. Entre todas as coisas interessantes que falou, sua visão sobre uma polícia não corrupta dentro de nossa sociedade onde todos somos corruptos quando nos é interessante (o maldito desejo brasileiro de levar vantagem em tudo), deixa de ser chocante quando raciocinamos friamente e infelizmente somos obrigados a dar a mão à palmatória e concordar com sua visão. Enquanto não melhorarmos a honestidade e o senso de justiça de nossa população, não adianta lutar contra a corrupção em qualquer esfera, nós brasileiros temos os políticos, os juízes, os policiais e todos os órgãos do governo que merecemos.

A História Oficial

| | Comments (0)
(La Historia Oficiál, 1985 – ARG)

Poderia falar que é um melodrama convicto, sem vergonha de se assumir, porém prefiro resgatar a importância que histórias como essas têm. Elas fazem parte de nosso passado recente, as pessoas que sofreram os transtornos causados pelas ditaduras da América do Sul são hoje os governantes, os empresários, são as pessoas influentes da sociedade atual. Cicatrizes como essas não serão curadas durante décadas; injustiças, perseguições, exílios, proibições da liberdade, ninguém pode simplesmente esquecer.
Alicia leciona história da Argentina, seu marido se deu bem profissionalmente, logo saberemos que a filha de cinco anos do casal é adotiva. O reencontro com uma amiga que estava exilada desperta em Alicia uma dúvida cruel, sua filha seria de uma mãe torturada pelo regime? Logo ela que sempre acreditou na “versão oficial” começa a rever conceitos, a questionar o marido sobre a origem da filha e sobre seu sucesso financeiro quando todos a sua volta estão arrasados.
A vida de Alicia é uma metáfora a própria Argentina da década de oitenta, as mães clamando por seus filhos na Plaza de Mayo, a população entre a pobreza e a recente lembrança de perseguição e tortura, uma geração sem esperanças chorando pelos garotos que estiveram na Guerra das Malvinas. Seria um filme ótimo, temas não faltavam, mas o diretor Luis Puenzo preferiu criar cenas exageradamente melodramáticas, abusando da trilha incidental chorosa, o que poderia ser um filme forte e engajado torna-se um novelão com resquícios de temas políticos.
Os personagens são rotuláveis demais, está tudo em seu devido lugar, como se o filme não desse espaço alguma para contestação. Os pontos relevantes que deixariam a história menos pessoal para torná-la mais esclarecedora e porque não política, estão contidos apenas para ilustrar. Quando Luis Puenzo optou pelo melodrama, resolveu desistir de todo o resto, criou um filme dentro da cartilha do gênero, e isso não deveria ser obrigatório no cinema. A História Oficial é importantíssimo como resgate histórico, como forma de não se esquecer do que somos capazes, mas como cinema não passa de um filme bem razoável.
Ata-me (Átame!, 1989 - ESP)

Tendo visto um pouco de cada fase da carreira de Pedro Almodóvar, classificaria esse como um Almodóvar intermediário. Nem tão extravagante e bizarro como no início da carreira e nem tão intrínseco e delicado como na recente safra de seus filmes. Ata-me é um filme solto (por mais estranha que essa afirmação possa soar) que além de tratar do amor, trata também de uma classe da sociedade que o cineasta conhece bem e sempre está presente em seus filmes (o submundo de drogas, prostituição, travestis, violência).
Nota-se que Almodóvar não está preocupado em dar fluidez total a seu filme, muito menos fazer com que todos os acontecimentos pareçam extremamente plausíveis, essas passagens são de importância secundária, apenas para dar ritmo a história. O importante é o que de maior o cineasta quer transmitir, nesse caso o louco amor levado às últimas conseqüências.
Saído de um hospital psiquiátrico, Ricky vai direto atrás da mulher por quem se apaixonou há um ano, uma ex-atriz pornô e ex-drogada que acaba de estrelar um filme de terror “B”. Querendo a todo custo fazer com que ela o ame assim como ele sente, Ricky seqüestra Marina e a mantém amarrada dentro de sua própria casa, prometendo mantê-la assim até que o amor dela seja despertado. Por mais hediondo que possa parecer esse ato e esse amor, acontecimentos desencadeados por esse seqüestro fazem a história rumar para um estranho pedido (a cena mais bonita do filme) que demonstra os sentimentos e a inconstância do amor.

Marina (Victoria Abril) Ricky (Antonio Banderas) Lola (Loles León) Maximo (Francisco Rabal)






De Salto Alto (Tacones Tejanos, 1991 - ESP)

Uma filha que se casa com o ex-amante da mãe. Não, isso não pode acabar bem, disso tenho certeza. Prontamente essa atitude demonstra uma característica da filha, um desejo secreto de competir com a mãe, de ser igual a ela, mais precisamente de ser melhor que ela, de ter o que a mãe tem. Acrescente que se trata de um filme de Pedro Almodóvar, e, portanto, estão lá os travestis, o vermelho berrante, viciados e traficantes, o mundo das artes (cinema, teatro e música).
Após quinze anos distantes, mãe e filha reencontram-se em Madri. Rebecca escondeu do marido que era filha de sua ex-amante, e agora há tensão para o reencontro de Becky e Manuel. Um mês depois ele é encontrado morto num chalé, seu casamento estava em crise, tinha uma amante e voltara a viver seu caso com sua atual sogra. Suspeitas não faltam a esse crime, enquanto prosseguem as investigações mãe e filha deixam seus sentimentos aflorarem e as verdades de suas vidas chegam à tona.
Diria que é um Almodóvar pouco inspirado, se a trama rocambolesca funcionava eficazmente em Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, aqui o artifício incomoda, só faz a trama patinar, a figura dupla do juiz Dominguez é dura de engolir, talvez pela interpretação no pior estilo canastrão, talvez pelo absurdo de sua existência. O que mais segura o filme é o estilo próprio de Almodóvar que está presente em todo o momento, e a figura fatal, doce e nebulosa de Victoria Abril. Seu cabelo channel, seu ar sexy sob o salto alto e seu estilo decidido criam uma personagem enigmática, frágil e saborosamente intrigante.

Rebecca (Victoria Abril) Becky (Carmen Maura)



Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios, 1988 - ESP)

Com um título desses, duas conclusões são certeiras, trata-se de uma amalucada comédia e a culpa dessa histeria feminina deve ser de algum homem. Bingo, as duas impressões estão corretíssimas, Pedro Almodóvar tece um emaranhado tão complexo e tão cheio de coincidências que em certo ponto fica difícil tentar separar um personagem de outro, uma rede dos mais esquisitos tipos e dos mais diferentes desejos encontram-se num mesmo apartamento.
Pepa está desesperada para reencontrar seu amante que acaba de deixá-la, passa o dia entre telefonemas e visitas a possíveis paradeiros de Ivan. Sua amiga candela se envolveu com terroristas xiitas. A ex-esposa de Ivan vive um amor obsessivo, o quer de volta a todo custo, seu filho procura com sua antipática noiva um apartamento. Cada uma dessas mulheres vive um conflito de amor, perderam um pouco da noção da compostura, esquecem da linha para alçar seus objetivos.
É um Almodóvar completamente alucinado, reunindo tipos, aprontando mil e umas. Uma mulher tenta pular pela janela, outra coloca fogo na própria cama e um simples gazpacho torna-se peça chave nessa trama deliciosamente rocambolescas e com leves doses de suspense. Um roteiro genial, um filme delicioso que te envolve a cada nova situação inusitada. Um momento mágico de inspiração, Almodóvar solta sua imaginação e mostra que quando as mulheres estão a beira de um ataque de nervos (Carmen Maura é a mais completa tradução desse momento), e colocam suas garras à mostra, é melhor deixar que elas que se entendam.

Pepa (Carmen Maura) (Antonio Banderas)





Em Abril deve chegar aos cinemas um de seus primeiros trabalhos, o inédito comercialmente no Brasil, Que Fiz eu para Merecer Isto?

Fanny e Alexander

| | Comments (0)
(Fanny Och Alexander, 1982 - SUE)

Comecei pelo fim, não é a maneira ideal para se começar, mas deve se começar de algum lugar. Meu primeiro contato com Ingmar Bergman, e o rótulo mais usado é filme-testamento, aonde o cineasta desenvolve suas próprias obsessões que estiveram presentes em seus filmes anteriores. Isso tudo não sei, vou descobrir com o tempo, mas de cara ficou fácil perceber o fascínio do diretor pelo teatro, e um eterno e mal resolvido conflito religioso.
Natal de 1907, uma família aristocrata intimamente ligada ao teatro comemora a data reunindo toda a família. Na primeira hora do filme somos apresentados a cada um dos membros dessa família, a matriarca seca e doce em doses equivalentes, aos filhos, esposas e netos e toda a complexidade de suas vidas. Sucessos ou insucessos profissionais, amantes, doenças e muitos etcs. Aquele Natal marca alguns acontecimentos que alteram a vida de todos, mas principalmente dos irmãos Fanny e Alexander (alter-ego de Bergman).
Na segunda fase da história, os dois irmãos deixam o leito familiar para se mudarem à casa do novo padrasto, um feroz repressor religioso. Tem início uma vida de conflitos, os olhos ingênuos de Alexander, que até então enxergavam apenas contos de fadas, passam a ser o catalisador de suas incompreensões, de suas angústias, e de seus questionamentos. Fantasmas o assombram, a figura de Deus lhe é uma incógnita, o mundo das artes lhe causa fascínio e é uma saída possível.
Bergman demonstra uma capacidade de comprimir os cenários, como se sua imagem tivesse mais profundidade, uma fabulosa noção de espaço. Também culpada por isso é a direção de arte, principalmente nos cômodos da mansão, mas a sensação é de que ele aproveita melhor cada milímetro, há também a sensação de se estar num teatro, tendo um campo de visão mais amplo de todo o palco. Dos olhos de Börje Ahlstedt saltam um oceano de sentimentos, impressões, medos, um garoto espantoso, capaz de transmitir todas as emoções sem necessitar de uma palavra. Talvez Fanny e Alexander se torne um filme ainda melhor ao conhecer melhor a obra de Bergman, isoladamente já me é um bom filme, mas não a obra-prima reverenciada.
Gosto do distanciamento que Bergman tenta impor por mais pessoal que seja a história, mas gosto de emoção a flor da pele em momentos máximos, e elas fazem falta, talvez congeladas pela frieza da aristocracia sueca. Dos grandes momentos que o filme possui, por exemplo, a cena em que Alexander enfrenta o padrasto culminando na surra de chicote, o mais poético e que me chamou mais a atenção foi a chuva caindo na cena que marca a transição entre a primeira e a segunda parte do filme, um prenúncio do que estaria por vir.

Alexander (Börje Ahlstedt) Fanny (Bertil Guve)

Contos da Lua Vaga

| | Comments (2)
(Ugetsu Monogatari, 1953 – JAP)

A ganância e a ambição cegam os homens. Inspirado livremente em dois contos de Akinari Ueda, o cineasta Kenji Mizoguchi versa sobre a fraqueza masculina e as conseqüências que invariavelmente recairão sobre a família, principalmente sobre as mulheres. O instinto humano de sempre querer algo mais, jamais se contentar com o conforto já conquistado, a tentadora facilidade de se envolver com o luxo, com os prazeres da carne, a sensação magistral de massagear o ego. Dolorido é acordar e enxergar a decorrência de seus erros.
Temos a história de dois homens que vivem num pequeno vilarejo rural, Genjuro exerce o ofício de oleiro, junto com seu cunhado confeccionam algumas peças de cerâmica e tentam vender num vilarejo próximo. Os rendimentos eram o bastante para manter suas famílias por um bom tempo, a esposa de Genjuro alerta, o país vive em Guerra Civil. Mas Genjuro enxerga a possibilidade de enriquecer e pretende viajar para uma cidade maior com uma grande quantidade de peças de cerâmica.
Durante a viagem ele decide deixar para trás sua esposa e filho, com medo da guerra. As vendas são um sucesso, mas os homens terminam enfeitiçados por seus maiores desejos, Tobei esquece de tudo para se tornar um samurai. Genjuro apaixona-se por uma aristocrata e sua fabulosa mansão. As mulheres ficam jogadas a seus próprios destinos, sobrevivendo às custas da sorte, da solidariedade e da maneira que dispõem para ganhar a vida. Quando os homens acordarem de suas escolhas egoístas será tarde para recuperar a harmonia e a alegria da vida.
A história é forte, Mizoguchi trata de um tema que ainda hoje é recorrente, mesmo com todo o espaço e independência conquistados pelas mulheres. A mansão Kuchiki e seus lagos cobertos de névoas resgatam o fascínio e mistério que atraem Genjuro, a cegueira o faz esquecer do filho e da esposa, está ali envolto a tudo que sempre sonhou, uma bela casa, uma linda esposa e todos os prazeres que aquela vida pode lhe proporcionar. Mizoguchi cria toda essa atmosfera de fascínio e luxúria, dá voz a ambição dos homens e renega às mulheres a condição de vítimas. Décadas depois e o filme continua atual, com um ritmo narrativo impressionantemente compassado, e uma sabedoria ácida que sabe dosar mistério e o fantástico para criar uma história universal e um retrato da alma humana.

Genjuro (Mori Masayuki) Tobei (Ozawa Sakae) Miyaki (Tanaka Kinuyo) Ohama (Mito Mitsuko) Wakasay (Kyo Machiko)

A Tale of Two Sisters

| | Comments (0)
Depois de muita enrolação de minha parte finalmente fui conferir a Sessão do Comodoro, um dos motivos que me faziam adiar era o gênero terror que nada me atrai, as legendas em inglês também eram um empecilho devido ao meu fraco conhecimento no idioma (para minha surpresa até que entendi bem os diálogos do filme), mas não dava mais para adiar, devo voltar a estudar e então ficaria impossível sentir o gostinho de conferir essas sessões especiais. Lá tive o prazer de conhecer mais dois amigos da blogosfera, Edú Aguilar (finalmente rsrs) e Marcelo Carrard, pena que não consegui falar com o Carlão Reichenbach dessa vez, já deu vontade do filme que o Comodoro prometeu para a próxima sessão, vai ser difícil...




A Tale of Two Sisters (Janghwa, Hongryeon, 2003 - COR)

A casa é o cenário ideal com seu piso de madeira proporcionando sinistros ruídos num local um pouco afastado da civilização. A madrasta é uma megera, figura indiscutível para uma vilã. As duas garotas desequilibradas emocionalmente são presas fáceis para todo o clima de terror arquitetado. O desenrolar caminha eletrizante, o final e a revelação de seus segredos é extremamente mandrake (desculpem os aficionados, mas já falei uma vez e repito, respeito esse artifício do final de alguns filmes, mas não gosto, não me convence, nessa história de enganar o espectador e depois querer que eu ache genial eu não caio). Peraí, mas isso não é demérito ao filme, estava tudo caminhando perfeitamente e o culpado é um só.
Eis seu nome, Kim Ji-Woon, o diretor capaz de conceber todo esse jogo de terror psicótico, de sustos e pânico a cada segundo. O cineasta cria a atmosfera perfeita, mas é sua câmera quem dá todo esse clima, quem faz isso tudo se torna crível, e fazer o espectador um voyeur do drama daquelas duas meninas.
A morte da mãe levou Su-Mi a um hospital psiquiátrico, no retorno à casa do pai ela e a irmã encontram com a madrasta que se apresenta num misto de dócil e ácida, um sorriso falso e um estranho ar de quem pretende deixá-las à vontade. A convivência entre as três mulheres não é nada pacífica, o pai um mero observador, um sujeito sem pulso. Estranhos ruídos, visões e ataques, deixam o clima ainda mais tenebroso até os momentos finais de um embate sangrento entre as duas principais opositoras.
As atrizes estão bárbaras em cena, a história segue uma lógica até que racional (tirando as resoluções finais que são espertas, mas não me convencem como expliquei acima). É Kim Ji-Woon quem dá ao filme ares de espetáculo grandioso, utilizando todos os recursos de maneira precisa e traduzindo esse conto popular coreano para um drama universal.

Su-Mi (Im Soo-Jung) Su-Yeon (Moon Geung-Young) Eun-Joo (Yeom Jeong-a)

Orgulho e Preconceito

| | Comments (0)
(Pride & Prejudice, 2005 – ING)

Poucos segundos de filme e um teimoso sorriso surge no rosto, e ele é tão teimoso que o filme termina, você sai da sala de cinema, e ele ainda resiste por mais um tempo. Comédia? Magia? Loucura? Não, apenas mais uma adaptação de um livro de Jane Austen, dessa vez capitaneada pelo diretor Joe Wright, e executada com muito sucesso. Pela sinopse parece mais um daqueles filmes de época sobre um amor entre um representante da alta sociedade britânica e uma pessoa da camada menos abastada, mas a câmera com a sensação de valsar pelos ambientes, o clima divertido (e obsessivo) de convivência na casa dos Bennet, e a altivez deslumbrante de Keira Knightley (um sorriso agradabilíssimo, um jeitinho faceiro, uma forma de falar convicta e desprovida de arrogância), fazem do filme mais que um romance de época.
Contar a história seria estragar um pouco de seu frescor, se bem que nela não há nada demais, o segredo está na maneira como foi conduzida e ai entra Joe Wright. Normalmente filmes desse estilo são rígidos, coloniais, duros, Wright traz uma sonoridade, uma leveza, uma forma mais deslizante de fluir seus personagens. Darcy parece um pomposo e petulante ricaço, Elizabeth foge do estereótipo de mulher criada para casar e servir ao marido que sua mãe tanto pregou a suas cinco filhas, por isso mesmo recebe um carinho tão especial do pai.
O amor entre os dois aparentemente é impossível, o orgulho e o preconceito são apenas dois dos muitos quilômetros que os distanciam. Mas os encontros causais tornam-se freqüentes, a descoberta mais íntima de cada um fica cada vez mais fascinante, e impossível é não torcermos para que esses dois fiquem juntos o mais rápido possível. Eu sou um romântico, o que há de se fazer, já desisti de lutar contra essa minha característica, e assistir a um filme tal qual foi concebido esse, apenas nos enche de mais desejo de viver um amor límpido, cristalino, honesto e delicioso, tal qual esse, e o mundo que se dane.

Elizabeth Bennet (Keira Knightley) Darcy (Matthew Macfadyen) Mary Bennet (Talulah Riley) Sr. Bennet (Donald Sutherland) Sra. Bennet (Brenda Blethyn) Bingley (Simon Woods) Lydia (Jena Malone)

Capote

| | Comments (0)
(Capote, 2005 – CAN/EUA)

“Algo entre quarenta e cinqüenta dólares”, antes mesmo de ouvir a resposta à pergunta feita por Truman Capote já achei aquele questionamento pedante. Ao ouvir a módica resposta citada acima, um inevitável arrepio correu pelo corpo. Por mais obviedade que viesse carregada a pergunta, ela provou que se fazia necessária, nós gostamos de sentir na pele a dor, que diferença faria o valor respondido? Nenhuma, mas ouvir o numeral é dolorido.
Chamar de biografia é quase um insulto ao filme, não, honestamente não se trata de uma biografia. É verdade que Capote resgata sua infância, fala dos problemas infantis, da mãe e seu alcoolismo, das tias que o criaram. Porém isso faz parte de meu modo de entrevistar, de sua maneira de fazer pesquisa, o filme é sobre a confecção de um livro e sobre o mergulho de corpo e alma de um escritor (com todas suas crenças, seu egocentrismo, seu sofrimento e seu envolvimento). Uma família é assassinada numa fazenda em Kansas, todos os repórteres queriam fazer uma reportagem, Capote transformou aquilo num livro e revolucionou a literatura de seu país com um novo modo de se fazer literatura de não ficção, falamos do best-seller A Sangue-Frio.
O que mais se encontra de novo é a proposta do roteiro de Dan Futterman em não dar contornos definitivos sob os temas que o filme aborda, mergulhando nessa maneira pessoal de Capote pesquisar sobre os fatos de seu livro. Muito se especula sobre uma possível paixão desperta pelo homossexual Capote após tantos encontros com um dos condenados (Perry Smith), outro tema controverso seria uma luta velada do escritor para mantê-los vivos até que terminasse seu livro e por fim o desejo final de que a sentença fosse logo executada para que ele obtivesse o final de seu livro e se livrasse daquela tortura.
O filme não esconde e não opta por nenhuma dessas verdades, fica tudo exposto ao julgamento de cada um. O que o cineasta Bennett Miller não esconde é sua competência em recriar a época, o momento, em dar condições de Philip Seymour Hoffman resgatar a complexidade dessa figura única, um sujeito orgulhoso, sensível, arrogante e matreiro. Até busquei algum adjetivo, mas meu vocabulário é incapaz de explicitar algo que se aproxima da mágica interpretação de Philip Seymour Hoffman, portanto imaginem o melhor elogio que se possa fazer, não passou nem perto do que esse rapaz merece. Falar das semelhanças com alteração da voz e dos trejeitos é pouco, praticamente nada. Tenho costume de dizer que um ator com uma impecável interpretação representa a alma do filme, nesse caso ele é a alma, o corpo, a áurea...
Não há discussão sobre a brutalidade ou as razões dos crimes, em dado momento Capote se compara a Perry, pelos dois terem tido os mesmos problemas de abandono e alcoolismo materno na infância, e sutilmente mostra o caminho oposto que seguiram. Depois Capote fala sobre duas Américas existentes dentro de seu país, uma cercada de segurança e outra dos subterrâneos, da violência. Conclui profetizando que naquele 14 de Novembro de 1959, aquelas duas Américas confluíram. Capote era um prepotente, um arrogante, divertidíssimo em reuniões sociais, um solitário com seus sofrimentos e medos, um homem trancado no calabouço de suas angústias.

Truman Capote (Philip Seymour Hoffman) Perry Smith (Clifton Collins Jr) Nelle Harper Lee (Catherine Keener) Alvin Dewey (Chris Cooper)

Este arquivo

Esta página é um arquivo de posts de março 2006, listado do mais novo ao mais antigo.

fevereiro 2006 é o arquivo anterior.

abril 2006 é o próximo arquivo.

Posts fresquinhos na página principal - ou mexa nos arquivos pra ver outros posts.



v e r b e a t  b l o g s

Michel Simões