fevereiro 2006 Archives

Não tem jeito, a gente critica, resmunga, mas cinéfilo sempre vai assistir aos filmes candidatos ao Oscar. É bem verdade que eu gostaria muito de ter a mesma chance em assistir aos filmes dos 3 grandes festivais, mas tenho que me contentar com os poucos que chegam a ser lançados e mais uma boa parte que passa na Mostra SP. Mas é inegável que grande parte dos melhores filmes do ano nos EUA estão no Oscar, depois dessa fase são poucos os filmes que acabam me interessando, portanto não dá para fugir. Eu não dou a menor importância para os prêmios mais técnicos (do tipo efeitos especiais, direção de arte, figurino, canção), na minha opinião são como encher lingüiça. Qual a real diferença entre mixagem de som e efeitos sonoros? Não sei, ou melhor até sei, ou só achoq que sei, mas pouco me importa, porém também não desprezo quem se interessa pois há gente especializada nisso, técnicos super competentes e etc.
Primeiro vou justificar a razão de não ter visto alguns filmes que conseguiram indicações. A primeira razão é que ter indicações ao Oscar não é pré-requisito para que eu assista, é verdade que se for indicado a Melhor Filme as chances de que seja conferido são enormes, mas fora isso tenho que me interessar de algum modo pelo filme. Sendo assim Memória de uma Gueixa não foi nem cogitado, Johnny & June até cheguei a pensar umas duas vezes em ir, mas infelizmente não conheço as músicas de Johnny Cash, e de resto me pareceu um Ray melhorado, talvez assista, mas os elogios aos dois atores ainda não me comoveram. Orgulho e Preconceito parecia aqueles filme de época que estamos cansados de ver, alguns elogios me animaram um pouco nos últimos dias, mas não o bastante para ir. Desculpas expostas, vamos ao que interessa.
Falando agora dos meus favoritos que nem chance tem. Atendo-me apenas aos filmes que foram realmente indicados, se tivesse a possibilidade de votar no melhor, ficaria entre Match Point e O Jardineiro Fiel, a meu ver estão um degrau acima dos outros. Match Point é um filme que anda redondo o tempo todo, e duas grandes sacadas no final fazem dele um filme especial, inusitado. Já Jardineiro Fiel é um filme engajado, um pouco frio em alguns momentos, mas por outro lado uma mistura dinâmica de romance, drama, suspense, tudo acrescido de um ingrediente importantíssimo, um engajamento político e uma coragem em expor um problema urgentíssimo e quase oculto do mundo. O discurso final contra os laboratórios farmacêuticos é fantástico, didático, direto, e o filme não é só isso, ele mescla grandes momentos, com uma fotografia diferenciada, ângulos inusitados e uma mudança gigantesca nos rumos do personagem central, levado pelo amor.
Como os dois estão fora da briga principal falemos dos concorrentes. Crash foi fuzilado pela crítica por aqui, eu o considero um bom filme, com vários equívocos, mas um bom filme. Tratar da guerra social em diversas classes, sem vergonha de assumir que o racismo continua impregnado na sociedade atual foi um tema bastante pertinente, entre as várias histórias que se desenrolam há dois ou três grandes momentos como a seqüência em que o policial maliciosamente revista uma negra, mas como falei há histórias bem babacas, no balanço é um filme razoável.
O filme do ano é Brokeback Mountain, todo mundo usa o mesmo rótulo para comprovar que o filme é belíssimo, dizendo que se esquecendo que é uma relação homossexual, temos uma belíssima e moderna história de amor. Tudo bem, isso é verdade e conduzida com muita sutileza por Ang Lee, ainda mais numa época em que o presidente dos EUA é das mais antiquadas (para não falar outras coisas) pessoas do mundo. Mas não é só isso, o que mais me comoveu no filme foi a maneira como a solidão é tratada, uma visão fabulosa da dor e angústia que ela pode causar, vidas sem esperança.
Good Night and Good Lucky é uma deliciosa recriação de uma época romântica, mais do que isso a recriação de um embate histórico entre um jornalista de credibilidade e um senador capaz de arquitetar uma caça às bruxas contra o comunismo nos EUA. George Clooney nos faz sentir dentro dos bastidores daquele programa de TV, além de mostrar a capacidade de políticos matreiros em impulsionarem seus nomes na mídia. Um período negro da memória política dos EUA, um filme belíssimo acompanhado de um jazz delicioso e uma interpretação monstruosa de David Strathairn.
Muitos que acompanham esse blog podem não acreditar, mas meu preferido, por milímetros, é Munique. Steven Spielberg conseguiu a proeza de misturar o cinemão dos estúdios com uma história atual e capaz de travar discussões intermináveis, e ainda sobrar espaço para o lado mais artístico de uma interpretação. Começamos a história com seu lado mais político, no miolo é quase um filme de ação filmado sem heróis invencíveis ou seqüências rocambolescas, e nos minutos finais temos Eric Bana e seus conflitos pessoais, os medos e angústias, a dor da distancia da família, a desconfiança do mundo, os questionamentos sobre suas atitudes, sobre a real importância de sua nação e da religiosidade. Ouvir o choro da filha por telefone, já é candidata a cena do ano.
Para finalizar, diferente da maior parte da blogosfera eu não gostei de Marcas da Violência, e o texto já está muito grande, não vou voltar a esse assunto. Sobre os estrangeiros achei Paradise Now bom, mas só isso. Uma Mulher contra Hitler é regular, aquela história de sempre, mas dessa vez com uma mulher como protagonista. Dos outros ainda não tive chance, mas tenho muito interesse em assistir ao italiano La Bestia Nel Cuore. Outro detalhe importante é que ainda falta conferir Capote, de longe parece ser um bom filme, mas nada especial, só que com uma interpretação arrebatadora do talentosíssimo Philip Seymour Hoffman, e que deve ganhar o Oscar. Não vou apontar os prováveis ganhadores ou aqueles que eu acho que mereceriam, mas não escondo que se Jardineiro Fiel ganhar mais de um Oscar eu ficaria muito feliz, e que também me alegraria se Munique ou Good Night and Good Lucky surpreendessem em algumas categorias importantes.
(Syriana, 2005 – EUA)

Quem fica paranóico ao ler os noticiários internacionais (principalmente notícias vindas do Oriente Médio) vai delirar ao perceber todos aqueles temas e conspirações, unidos numa mesma trama. Há muito a se elogiar do filme de Stephen Gaghan, no que se diz respeito ao tema e sua capacidade de criticar os mais diversos lados da mesma moeda, todos se transformam em alvo de sua visão sobre a política que envolve o ouro negro. Por outro lado um pouquinho menos de Hollywood faria bem ao filme, além da bondade exacerbada do Príncipe Nasir, tudo bem aproveitemos o que de bom há.
A complexidade da trama se dá muito mais pelas ramificações que negociações internacionais desse porte envolvem, do que um desejo de tornar o filme indecifrável, se bem que a edição ágil contribui bastante para confundir mais ainda. Gaghan foi muito feliz ao abordar todos esses lados, geograficamente o filme é quase um losango com cada um dos personagens chave posicionado numa vértice e o petróleo ao centro disso tudo. Syriana mostra como uma mera decisão movimenta o destino de inúmeras pessoas, em todos os lados do globo, simultaneamente.
Um grande conglomerado norte-americano perde para chineses a concorrência visando a exploração de novos pontos de extração de petróleo no Oriente Médio, ao mesmo tempo uma pequena empresa consegue um acordo com o Cazaquistão para essa mesma atividade. O grande conglomerado deseja uma fusão com a empresa menor, os chineses chegam demitindo os imigrantes que ali trabalhavam. Pronto, nasceu o embrião de onde surgirão as ramificações dessa trama intricada.
Bryan Woodman trabalha numa empresa especializada em prestar consultoria na área de energia, um terrível drama familiar torna-se porta de entrada para seu sucesso profissional. Bob é um agente da CIA infiltrado no Oriente Médio, na caça de terroristas e suas facções, recebe uma nova missão que está muito mais ligada a politicagem e jogo de interesses de alguns do que a proteção de seu país. Bennett Holyday é um advogado contratado para auxiliar um grupo de investidores na aprovação do governo da fusão de duas empresas norte-americanas, um jogo de corrupção, interesses, e amizades apenas até certo ponto. O imigrante paquistanês Ali Naimi é demitido quando os chineses assumem o controle da refinaria de petróleo, almejando novas oportunidades na região pretende aprender a falar árabe, acaba se convertendo muçulmano e contaminado pelas crenças religiosas.
Com todos esses personagens Gaghan se põe a discutir os interesses escusos dos norte-americanos e todo o jogo político que surge onde há rios de dinheiro, a política internacional preocupa-se apenas com a macroeconomia deixando totalmente de lado os reles seres humanos. Os governantes do Oriente Médio que usam a religião para manter a população a favor enquanto apenas enriquecem às custas das riquezas naturais, sem a menor preocupação em melhorar o país e suas condições, de infra-estrutura, de educação, ou qualquer outro ponto, apenas extraem as riquezas, pensam no hoje. O filme discute ainda o preço de nosso orgulho, a capacidade de sermos corruptíveis, qual é o preço de cada um? Não é um filmaço, mas discute muitos temas interessantes e atuais, e mais do que isso, demonstra pontos que poderiam ser alterados na sociedade. E quando o petróleo acabar, ou outra fonte de energia mais barata aparecer, o que será dos países árabes tão falados e visados ultimamente (economicamente falando)?

Ponto Final – Match Point

| | Comments (0)
(Match Point, 2005 – ING)

Não é possível discutir ou desejar sorte. Há aqueles que têm e outros que não têm, e isso é fato. Woody Allen propõe uma ampliação da sorte (como se pudéssemos olhar com um microscópio em momentos da vida de uma pessoa) para que se possa nitidamente perceber a diferença que ela pode fazer para quem a possui e para quem não. De início um narrador versa sobre a sorte enquanto uma bola de tênis toca na rede e aguardamos para confirmar se por sorte a bola irá passar para o outro lado ou não, a imagem da bola será congelada, mais tarde teremos um lance parecido e crucial no filme, só ali saberemos o que Allen está querendo versar.
Se extrairmos toda a discussão sobre a sorte e os caminhos que ela propõe, perderíamos a genialidade do filme, o toque de especial que ele possui, para termos uma história envolvendo amor, desejo, infidelidade e tudo mais que estamos cansados de ver. O roteiro brinca com a dúvida entre a luxúria e ambição de um lado contra desejo e amor de outro (não é bem isso, mais quase isso). Já que felizmente Allen nos presenteou com esse toque de genialidade, desfrutemos de tudo que Match Point tem a nos oferecer.
Vou ser sincero, em certo momento fiquei com um pouquinho de inveja da vida que Chris conseguiu, não precisava de tanto, mas quem não quer um bom emprego, uma esposa amorosa, inteligente, bonita e carinhosa, uma vida social prazerosa, a possibilidade de estar sempre envolto ao mundo das artes (cinema, pintura, ópera, teatro), praticar esportes semanalmente. É verdade que não era necessária aquela fortuna toda, nada de motorista particular, também não espero passeios de iate no fim de semana e nem estou falando de ter uma amante como a Scarlett Johasson (que mulher!). Estou me referindo a essas pequenas coisas, essas que almejo em meus sonhos mais perfeitos (e quem não?).
Só uma coisa faria Chris balançar por toda aquela vida, a ex-noiva de seu cunhado (espécie de paixão à primeira vista, quando ele ainda pensava em se aproximar daquela que seria sua esposa), e o reencontro com Nola dá início a uma paixão quente, um desejo latente e a perturbadora dúvida em trocar toda vida de conforto por uma vida de prováveis dificuldades financeiras. Mas é preciso ter sorte na vida. E é preciso ser um grande cineasta para conduzir o filme de maneira exemplar e ainda nos proporcionar momentos de amor, dúvida, prazer, e principalmente inteligência, e quando ela vem com humor e leveza melhor ainda. Os minutos finais de Match Point são geniais, um roteiro que seguia uma lógica milimétrica, guardava segredos que se encaixaram perfeitamente ao todo. Woody Allen refinado e em grande estilo.
A Noite Americana (La Nuit Américaine, 1973 – FRA)

Os bastidores do cinema, uma homenagem ao cinema de alguém que foi “salvo” por ele. François Truffaut, talvez, realmente devesse essa homenagem. Seu filme é um deleite só, há um pouquinho de várias das características marcantes de seu estilo cinematográfico peculiar, como o amor essencial, o culto às mulheres, a leveza da imagem e da narrativa, a indecisão e o jeito desastrado de Jean-Pierre Léaud (ou seria Antoine Doinel disfarçado de ator?).
E Truffaut aliou tudo isso à vida nos bastidores do cinema, as crises e os sentimentos volúveis dos atores, o estrelismo, as dificuldades e dúvidas dos diretores, os relacionamentos amorosos nos sets de filmagem. Os segredos da arte de ludibriar a imagem, cobrir todo o cenário com neve, gravar com inúmeros figurantes, trabalhar com prazos, remodelar cronogramas, e etc, etc e etc.
É uma comédia, é uma homenagem, é um deleite ver as loucuras que acontecem durante as filmagens de um filme. E, além disso, tem Jacqueline Bisset, um dos rostos mais bonitos da história do cinema, e Truffaut sabe filmá-la sem parecer vulgar, sem parecer ofensivo, tornando os lindos traços deste rosto divino um quadro que admiramos mais e mais e mais a cada cena. Truffaut genial.




Shrek (Shrek, 2001 - EUA)

As pessoas idolatram o burro, também seu humor irrecusável está mais em não conseguir fechar sua matraca do que qualquer outra coisa, se parece muito com aquelas crianças que quanto mais as mães mandam ficar calados, mais não conseguem ficar. Parece que obedecem por antônimos. Mas há outros pontos pelo filme que fazem de Shrek uma animação diferente, a referência a temas adultos, a paródia com Matrix e outros sucessos do cinema, aquele mar de personagens de contos de fadas clamando por ajuda no pântano do ogro, aquele "travelling" é genial.
Dirigido a duas mãos, por Andrew Adamson e Vicky Jenson, o filme faz rir sem forçar a barra, o ogro rabugento, o burro falante e a princesa não muito angelical, formam um trio capaz de alegrar multidões. É bem verdade que inúmeros clichês hollywoodianos estão transportados para a animação, tudo para arrastar os adultos para as garras de Shrek, as crianças vão ficar dispersas nesses momentos, mas o fim justifica os meios e Shrek é diversão bem acima da média.




O Espanta Tubarões (Shark Tale, 2004 - EUA)

Não deixa de ser uma boa diversão, trata os temas de maneira simples, mas não consegue interação entre os mesmos e as crianças. Os adultos se divertem muito mais que os pequenos com as metáforas entre a vida aquática e nossas grandes metrópoles. O trabalho num lava-rápido, o desejo de se tornar alguém na vida, a fama que lhe traz sucesso, mas em nenhum momento ensina ou ajuda a se tornar alguém melhor na vida. É um filme que deseja ser humorado, tem o clima para isso, mas excetuando aquele ar leve e gostoso, suas piadas não vão muito além. Serve como passatempo naquele dia chuvoso, quando pouca vontade de sair de casa temos ao olhar pela janela, mas não mais que isso, espero que meu sobrinho não me faça assistir de novo. Direção de Bibo Bergeron, Vicky Jenson e Rob Letterman

A Dama de Honra

| | Comments (0)
(La Demoiselle d'Honneur, 2005 - FRA/ALE/ITA)

Estou engatinhando pela filmografia de Claude Chabrol (Um Assunto de Mulheres/Mulheres Diabólicas), esse foi apenas o quarto filme, mas há uma característica predominante (pode ter sido coincidência, talvez não), em todos os filmes havia a figura de uma mulher forte, além disso, mulheres que trabalham na ofensiva, que não hesitam em usar a violência para atingir seus objetivos, para provar seus ideais. Desculpem os adoradores, mas isso não me agrada, Chabrol se repete, vou assistir a seus filmes sabendo o que esperar do desenrolar deles. Mas cinema não é somente começo, meio e fim de uma história, claro que o cineasta sempre tem algo de especial para diferenciar cada um deles. Por outro lado senti um filme mais fluido do que os anteriores, muito mais pela mise em cène (tento usar o termo no sentido mais amplo da palavra e não simplesmente direção) do que algo mais específico.
O fio narrativo é conduzido pelo personagem masculino, o antiquado e correto Philippe, porém é a figura feminina (Senta) quem irá conduzir a trama, oferecer caminhos inimagináveis, pouco ortodoxos, ela possui as rédeas da situação. Não que Philippe seja volúvel ou influenciável, mas Senta é quem possui brilho, é o lado criativo desse relacionamento. Só que é o amor e a maneira como Chabrol o detalha que se torna o néctar mais precioso desse filme.
Se não me engano, na primeira conversa ela diz que estava o esperando há muito tempo, poucos encontros depois afirma categoricamente que tudo que é dela também é dele. Pode parecer um amor doentio, ou um amor-a-primeira-vista, mas não, Chabrol desconstrói essa impressão com o desenrolar do relacionamento, o amor compulsivo que toma conta dos dois. Por estilos de viver mais diferentes que os dois possuam, eles vão encontrando um modo de vida, um sincronismo, tal qual todo casal deveria acertar. Há sim, e bastante acentuado, o desejo carnal, mas há neles uma cumplicidade, uma vontade de estarem juntos, de simplesmente fazerem um jantar à dois, de sair mais cedo do trabalho num dia qualquer só para ficar ao seu lado.
E Chabrol leva todo esse amor ao limite, fica cada vez mais clara a maneira como Senta enxerga o amor, e o primeiro sentimento que me bateu foi o medo. Medo de que suas atitudes pudessem destruir aquele relacionamento delicioso, aquela harmonia. Mas só o amor tem dessas coisas, o verdadeiro amor é cheio de compreensão (sem ser bobo), o verdadeiro amor é um resultado perfeito de carinho, paixão e razão. Chabrol nos ensina isso, termina o filme de maneira linda e eu termino esse texto achando que falei demais (e olha que nem consegui comentar sobre o tufão Laura Smet, mulher que extrapola a sensualidade, merecia muito mais que um parênteses, uma decidida dama de honra para deixar qualquer um transtornado).

Philippe Tardieu (Benoît Magimel) Senta (Laura Smet) Christine (Aurore Clément)

As Chaves de Casa

| | Comments (0)
(Le Chiavi di Casa, 2004 – ITA)

Está estampado por todos os lados que se trata de um melodrama, e consequentemente já sabemos como toda a história irá transcorrer. Mesmo assim nos interessamos, nos esforçamos para não achar que vimos àquela história um milhão de vezes, e sempre acabamos nos emocionando com uma cena ou outra. Não tem jeito, esse tipo de filme sempre vai ter um cantinho especial em nossas vidas.
E o filme de Gianni Amelio tem o que de especial? Nada, é exatamente tudo que escrevi acima. É bem verdade que o ritmo contido não é muito de praxe nesse tipo de melodrama que sempre prefere trabalhar com as emoções estampadas, inflamadas. Só que mesmo assim o filme não possui nada de novo, nem na estética, nem na narrativa, nem na trama, nem nos personagens. Antes de começar sabemos que o pai vai se apaixonar pela criança, outrora rejeitada pelo mesmo, que a criança vai dar um pouco de trabalho, ser até mesmo relutante, mas que no final o amor triunfará.
Resgato do filme a demonstração de como as experiências são importantes em nossas vidas, as decisões tomadas há dez anos poderiam ser completamente diferentes se ocorressem agora, é o caminho da vida, o aprendizado entre erros e acertos. E esse é o caminho que marca a paternidade de Gianni, no fundo, como em outros filmes, é ele a criança dessa história e o filho problemático apenas a estrada que o fará chegar à maturidade, subir mais um degrau na escada que o fará ser uma pessoa melhor.
Algum tempo atrás eu pedia para ver Charlotte Rampling em um papel que não fosse de uma aristocrata antipática, orgulhosa e rabugenta. Pois parece que alguém ouviu minha solicitação, dessa vez trata-se de uma mãe ferida, abdicando de toda sua vida para cuidar da filha deficiente, preocupando-se apenas com a pasta de dente que acabou, com a hora do remédio e outras coisas corriqueiras. Ms Rampling é uma atriz magnífica.

Gianni (Kim Rossi Stuart) Paolo (Andréa Rossi) Nicole (Charlotte Rampling)

George Clooney na Direção

| | Comments (0)
Boa Noite e Boa Sorte (Good Night, and Good Lucky, 2005 - EUA)

A voz de Diane Reeves chega suave, dona de um swing empolgante, um som divino. As imagens em p/b começam a aparecer, a câmera viaja pelos bastidores de um programa de TV. Ainda estou contaminado pela música, dá para se ter a sensação de flutuar sob uma nuvem enquanto adentramos àqueles halls. Diane Reeves aparecerá cantando mais vezes, uma música mais deliciosa que a outra, eis apenas uma das formas que o diretor George Clooney encontrou para situar melhor o filme na época, e fez isso com muita classe.
Há cigarros em toda parte, há apresentadores de TV que filmam em frente às câmeras. Impossível imaginar algo parecido atualmente, mas estamos nos anos cinqüenta, estamos em outra época. E o filme é sobre o que mesmo? É que foi tudo construído tão elegantemente que dá vontade de ficar relembrando cada detalhe, aquela música ainda ressoa em meus ouvidos. Trata-se do embate público que se deu entre o senador Joseph McCarthy e o jornalista Edward R. Murrow.
Todo mundo já deve estar careca de saber sobre o McCarthismo, mas para quem não se lembra foi uma espécie de movimento, capitaneado pelo tal senador, que pregava a investigação de todos que tivessem ligação com o partido comunista, uma caça às bruxas. Na verdade nem se precisava de provas, apenas de alguma suspeita, ou invenção da cabeça do senador e sua turma para que a pessoa fosse julgada pela sociedade, discriminada, sua vida e carreira postos em dúvida. É um período negro da história dos EUA, muitos ficaram famosos por serem delatores, no intuito de salvarem-se faziam denúncias sobre seus colegas. Atualmente os delatores são mal vistos, perderem sua dignidade (exemplo, o falecido cineasta Elia Kazan).
Edward R. Murrow foi a primeira voz a confrontar McCarthy e seus métodos, liderando um programa de muito sucesso na TV CBS (uma espécie de Globo Repórter bastante politizado), colocou em dúvida seus procedimentos, o acusou, e deu início a uma guerra declarada, ao senador. O filme utiliza imagens em vídeo reais do próprio senador, trazendo maior riqueza e deixando ainda mais alegórica a figura folclórica de McCarthy. É um filme sobre essa época, mas é principalmente um filme sobre o bom jornalismo, aquele feito por paixão, por acreditar na importância da notícia, e na função de confrontar que o jornalismo possui. Isso fica muito claro no produtor Friendly e no sólido e sóbrio Murrow.
Nada menos que espetacular é ver David Strathairn interpretar esse homem, seu tom de voz equilibrado e constante, suas feições que parecem não se emocionarem, Murrow era o mesmo na frente ou atrás das câmeras. Mesmo assim consegue transmitir a paixão pela profissão, o desejo de transmitir a verdade a seu público, o desejo pela liberdade e pela justiça. David Strathairn dá o tom, ouvir seu pausado “Boa Noite e Boa Sorte” é muito mais marcante do que o “Boa Noite” de nosso saudoso Cid Moreira, é quase um alerta, um símbolo. Mas a opção em usar a fotografia em p/b é o ponto crucial desse ótimo filme, ela fez com que todo o foco estivesse centrado nas discussões entre Murrow e McCarthy, dando mais espaço para que o público se atenha aos diálogos, aos detalhes, a ouvir palavra por palavra e assim não se distrair com um vestido tal, ou um objeto diferente. Estamos ali ouvindo Murrow, totalmente centrados, e ele esbanjando não só credibilidade, como um senso de justiça, e por outro lado ao ver McCarthy é como se presenciássemos mais uma dessas sessões das nossas queridas CPI´s, políticos são sempre assim. Quero mais daquelas músicas!

Edward R. Murrow (David Strathairn) Fred Friendly (George Clooney) Joe Wershba (Robert Downey Jr.) Shirley Wershba (Patricia Clarkson)




Confissões de uma Mente Perigosa (Confessions of a Dangerous Mind, 2002 – EUA)

De dia um produtor de TV responsável por aqueles ridículos programas que o Silvio Santos adora copiar e trazer para cá, por exemplo Namoro na TV. De noite um assassino profissional trabalhando para a CIA. A vida de Chuck Barris merece atenção, merece um filme. Baseando-se em relatos do próprio Barris, George Clooney assumiu a direção contando com roteiro de Charlie Kaufman e o que mais desperta aos olhos é a fotografia despojada. Aliás, é um filme bastante despojado, moderno, a fotografia é apenas o elemento crucial no quesito aspecto visual. Só que resolveram que deviam tratar dos conflitos vividos pelo personagem e para isso temos inúmeras vezes o talentoso Sam Rockwell nu, de barba por fazer, em frente a uma TV ligada. Além de pregar o descontrole emocional pela qual passava Barris, a cena repetindo-se inúmeras vezes, não passa de um pesadelo cansativo.
É um roteiro confuso, que não mede a importância real de Barris para o mundo televisivo, nem se dedica por completo em analisar sua relação com as duas mulheres que mais o envolveram, e nem privilegia o lado mais humorístico do personagem. É um filme querendo transmitir o conflito pela qual passou esse homem de dupla identidade, e nesse emaranhado todo o filme só conseguiu me aborrecer um pouco, é daqueles filmes que você vai na certeza que vai gostar, e depois se pergunta, era só isso?

Chuck Barris (Sam Rockwell) Penny (Drew Barrymore) Patricia (Julia Roberts)
Crime Delicado (2005)

Filme de Beto Brant, então teremos câmera na mão, presença da corrupção (sob diversas formas), o provocativo desejo de chamar a atenção, a violência nua e crua. Nada disso, o cineasta demonstra-se extremamente eclético, capaz de mudar completamente aquilo que parecia sua marca registrada, Brant parece ser “inrotulável”. Mas há a presença de um elemento de seus filmes anteriores, a violência, mas dessa vez ela é muito mais profunda, atinge os personagens de outra maneira, é dúbia e altamente cruel.
Quase todo mundo já sabe que a história chegou até ele pelas mãos do próprio Marco Ricca, portanto não se trata de um filme autoral, por mais que pareça ser. É que Brant aparentemente envolveu-se completamente, a câmera estática que almeja contemplar cada plano como um quadro, quando não faz os dois ao mesmo tempo, é também possui uma sagaz capacidade de desnudar seus personagens. É um filme sobre amor, ciúmes e desejo, mas é também um filme tentando envolver diversos tipos de arte, essencialmente pintura e teatro, buscando sempre traduzir as emoções por essas manifestações artísticas.
Há sim aquela terrível arrogância intelectual que projetos como esse podem suscitar, mas como disse Marcelo Nova outro dia, ter um pouco de arrogância é bom também (a frase não foi bem essa, mas tinha esse sentido). As metáforas teatrais estão fadadas a dialogar com um público mínimo, podendo obter resultado oposto ao esperado, invés de aproximar o público, acaba por afastá-lo dos interiores dos personagens. É uma direção instigante, porém com um resultado irregular.
Mas falemos da violência no filme, um crítico teatral apaixona-se por uma deficiente (ela não tem uma perna) que trabalha como modelo para um pintor que basicamente expõe em seus quadros o sexo e o desejo, tomando por base seu próprio corpo e de sua modelo, nas mais diversas posições (um pintor de kama-sutra?). Há dois tipos de violência, uma física que regerá a segunda fase da trama, causada por uma explosão de amor, uma crise de ciúmes.
Mas para mim, o melhor do filme está nessa segunda faceta da violência, quando o crítico usa a crueldade de sua profissão para julgar àquela que ele tanto ama, desnudando completamente sua vida e aquilo que ela mais preza. É um momento cruel, doloroso, mas o crítico está tão acostumado a tratar assim as peças de teatro que nem percebe a crueldade de seu tratamento. Quer dizer, demora a perceber, já nas cenas finais ele se dá conta, o rosto de Marco Ricca em choque demonstra toda a fragilidade que aquele solitário convicto guardava. Formou sua personalidade num alicerce quebradiço, camuflado em sua profissão, e desmoronou pelo amor, ao ponto de não medir seus atos, verbalizados ou não.

Antônio Martins (Marco Ricca) Inês (Lilian Taublib) Campana (Felipe Ehrenberg)




Lavoura Arcaica (2001)

Há filmes que se tornam mitos dentro de nós mesmos, eu me tornei cinéfilo em 2002 e desde então Lavoura Arcaica se tornou um objeto de desejo. Qualquer um que me perguntasse qual era o filme que eu mais teria curiosidade em ver, a resposta seria clara e direta. E motivos não faltam, é um filme polêmico, amado por alguns, odiado por outros, um filme que suscita um tipo de discussão diferente, dito por alguns o melhor filme brasileiro pós-retomada. Pois bem, o mistério acabou, finalmente consegui assistir ao filme, a expectativa era alta demais e o filme acabou não atendendo amplamente, mas assim mesmo é um filme bárbaro.
De suas características marcantes gostaria de ressaltar alguns pontos. Um deles é a substituição da palavra por imagens, os monólogos (porque a maior parte do filme não é de diálogos) são poetizados, declamados verso a verso, quando não se usa esse artifício é a força da imagem que transmite todo o conflito da alma e tudo o mais que se deseja ressaltar. É um trabalho teatral, visceral, Selton Mello está entregue de corpo e alma, a flor da pele. Outro ponto é a tríade religião-desejo-natureza, o filme é uma adaptação fiel do livro homônimo de Raduan Nassar, e essa relação é muito interessante e pessoal, cada vez que André toca delicada e maliciosamente com seus pés às folhas secas pelo chão, é como se sentíssemos a sensação, o aroma, mas também o desejo que assalta seu corpo.
Outro ponto é o tempo que é um dos temas principais da obra, tanto o tempo dos personagens e os acontecimentos marcantes de suas vidas que os transformaram nas pessoas que são (principalmente André e a ojeriza a figura paterna severa, o excesso de carinho da mãe, a relação com a irmã Ana). E por fim a estética experimental, digo isso porque falar que os detalhes técnicos são maravilhosos, perfeitos, é pouco perto do que fizeram Luiz Fernando Carvalho na direção e Walter Carvalho na fotografia. Sem dúvida um espetáculo, um deleite, o trabalho com luz e sombra, a beleza de cada imagem como uma paisagem, a sensação de estarmos presentes naqueles campos.
Pena que até hoje a discussão sobre o filme seja sobre esse último aspecto, sobre uma possível arrogância do diretor em buscar a cena perfeita e coisas do tipo, esquecem que há também os personagens e seus conflitos, que há uma história belíssima e contada de maneira pessoal, diferente, inusitada. É bem verdade que a lentidão narrativa proposta e a longa duração do filme pecam por não permitir ao público concentração total durante toda a projeção, desculpem mas é impossível, e com isso perde-se detalhes, perde-se momentos de profunda riqueza.
Por fim, já que dos acontecimentos em si falei pouco, vou lembrar que como o Pai repete diversas vezes “a paciência é a virtude das virtudes”, eis uma das vertentes que carrega a trama. André quer se rebelar contra tudo aquilo que viveu, aquela micro-sociedade composta por sua rígida família, de sete irmãos, de imigrantes libaneses camponeses, onde cada um tem seu papel totalmente delimitado. André quer romper barreiras, quer ter direito ao livre-arbítrio, ou como ele mesmo diz “quero ser o profeta da minha própria história”, não imaginaria que ao mexer numa mísera peça daquele cosmos estava derrubando o alicerce familiar, o trágico inflama-se como inevitável.

André (Selton Mello) Pai (Raul Cortez) Pedro (Leonardo Medeiros) Mãe (Juliana Carneiro da Cunha) Ana (Simone Spoladore)
O Segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain, 2005 – EUA)

Primeiramente começamos com o inusitado, os caubóis são um irretocável símbolo da masculinidade e virilidade nos EUA, ao se conceber uma história de amor entre dois caubóis, ainda mais nesse momento em que o país é governado por um presidente ultra-conservador (para ser apenas superficial), é no mínimo uma grande afronta àqueles que são os manda-chuvas do planeta. Mas esse é apenas um contexto histórico, vamos ao filme propriamente dito que é o que realmente interessa.
Um amor proibido. Cada vez mais acredito que somos nós mesmos quem criamos barreiras para que esse amor permaneça proibido, nos tornamos incapazes de fazer com que nossa vontade prevaleça, caímos na armadilha da infelicidade. Sejam motivos de preconceito, ou familiares, morais, religiosos, da sociedade, não importa, é mais fácil nos encolhermos dentro de nossa insignificância a enfrentar e fazer prevalecer aquilo que sentimos por dentro. Não há amor proibido, há regras para que um amor não seja possível.
No filme, durante a década de sessenta, dois caubóis se apaixonam enquanto cuidavam de um rebanho de ovelhas na Montanha Brokeback. Depois não conseguem assumir seus sentimentos, pudera, imaginem só a situação se ocorresse agora, naquela época então. Voltam a suas vidas, casamentos, filhos, infelicidade. Buscam uma maneira de viver esse amor com o passar dos anos, momentos de fuga da solidão e das aguras que a vida lhes reserva.
“Até domingo”, uma frase que aparentemente deveria ser corriqueira, doeu como um golpe fulminante em Alma, ver a alegria de uma criança estar estampada no rosto do marido, despedindo-se para uma pescaria, logo após ela ter presenciado ele beijando um outro homem. Com a filha no colo, ela chora compulsivamente, o público interage, sofre junto, aquele “até domingo” não doeu apenas nela, mas em todos nós que nos colocamos por um segundo em sua pele.
É um filme muito mais do que delicado, mas uma delicadeza que não nos impele de ter certeza que se trata realmente de dois caubóis, um amor e não uma anomalia. Ang Lee é a razão de ser do filme, porque esse tecido delicado necessariamente precisaria de mãos capazes de manuseá-lo sem que perdesse seu encanto. O que mais me chama a atenção, é que excluindo o inusitado da trama, o filme não passa de uma comum história de amor impossível, ou melhor, não passaria porque Ang Lee demonstra uma força incrível para tratar de um tema em especial de uma maneira que até então eu não tinha conseguido encontrar.
Ele trata o lado mais profundo da solidão. Porque há o estar só e o se sentir só, mesmo que acompanhado (isso pode se referir ao amor, mas também amizade ou família). Esse segundo ponto da solidão é tratado de maneira sublime, é como se depois de terem experimentado aqueles momentos juntos, os dois não pudessem encontrar beleza em mais nada na vida, um eterno sentimento de solidão, nada mais tendo graça. Só quem já foi apresentado a essa faceta da solidão sabe do que estou falando, Ang Lee foi genial ao construir lentamente essa percepção, com o transcorrer da história se ganha ainda mais ênfase nesse ponto. Seu filme não passaria de um western gay caso ele não apresentasse esse tema com tanta sabedoria. A solidão corrói por dentro, estar só com alguém ao lado é das piores sensações que se possa sentir.

Ennis Del Mar (Heath Ledger) Jack Twist (Jake Gyllenhaal) Alma (Michelle Williams) Lureen (Anne Hathaway) Joe Aguirre (Randy Quaid)



O Banquete de Casamento (The Wedding Banquet / Hsi Yen, 1993 - TPE)

Ang Lee fez um filme divertido, a situação por si só já é causar um leve sorriso, e por se tratar de um filme desse cineasta, consegue escapar de grandes clichês para privilegiar alguns momentos levemente dramáticos. Mas o filme sofre de um grande mal, o feito para exportação é um defeito crescente nos filmes que desejam atingir o mercado ocidental. Está tudo arranjado, o roteiro é todo voltado para uma melhor diluição das platéias.
Morando em Nova York, um chinês bem-sucedido mantém um relacionamento de cinco anos com outro homem, obviamente às escondidas de sua família. Seus pais estão afoitos para ganharem rapidamente um neto, e para apaziguar a família o casal gay decide forjar um casamento com uma chinesa que precisa do green card para continuar nos EUA. Só que para ser uma comédia, é claro que nem tudo sai como planejado.
É aquele tipo de humor leve, mas com esse apelo homossexual torna-se um filme um pouco diferenciado por possuir cenas de beijos entre homens, pro exemplo. Talvez Ang Lee quisesse tentar quebrar as barreiras do preconceito, fazer um filme com apelo mais familiar, mas duvido que essa intenção foi realmente conseguida. Pouco importa. A graça do filme está mesmo em Wei-Wei e em seus “futuros sogros”, são eles que conseguem o tom certo de humor, carinho e respeito que toda essa relação remete.
Pena que a cultura chinesa seja exposta de maneira glamourizada, havia muito mais a se aprender com o filme, mesmo assim há bastante a se abstrair. Os amigos esbanjam humor e irreverência naquele banquete de casamento, e principalmente no quarto de hotel, inesquecível noite de núpcias. Depois de cinco mil anos de repressão sexual...

Wai-Tung Gao (Winston Chão) Andrew (Dion Birney) Wei-Wei (May Chin)

A Queda e Mediterrâneo

| | Comments (0)
A Queda (Der Untergang , 2005 – ALE)

Um documento histórico, já foram tantos e tantos filmes retratando a Segunda Guerra e principalmente os campos de concentração que já estava mais do que na hora de se investigar esse outro lado, a queda de Hitler, o fim do Nazismo. Não deixa de ser um filme de guerra, com muito sangue, tiros, trincheiras, fanatismo nacionalista, crianças pegando em armas e poderosos querendo acordos para livrar suas peles.
O personagem principal do filme é a queda e não Hitler, obviamente como ele era o líder máximo da Alemanha as principais decisões passavam em suas mãos e, portanto, deveria ser ele a figura a desfilar por boa parte do filme. Como a história é baseada nos relatos de sua secretária, ela também ganha bastante espaço no filme, mas acima de tudo é sobre as últimas horas do Nazismo e os personagens são meros coadjuvantes dentro dessa história.
Talvez seja o retrato mais fiel de Hitler, Bruno Ganz está espetacular, tanto no aspecto visual e gestual, quanto nos discursos inflamados e na cara derrotista que aos outros prefere parecer como louco. Mas se olharmos bem, o retrato do Fuhrer em Moloch (do russo Sokurov) não é muito diferente, claro que lá estava mais próximo do extremo, só que também tratava ali do mais íntimo do ditador, de seus momentos de lazer, de descanso, de sua relação íntima com a amante. Enquanto que no filme de Oliver Hirschbiegel o ditador está escondido num bunker subterrâneo com muitos oficiais e amigos.
Não foi um filme a me cativar profundamente, se Bruno Ganz merece toda a atenção em cada segundo em cena, a seqüência em que a mãe dá calmamente veneno aos seus seis filhos é de uma frieza exemplar, e talvez sintetize eficazmente todos os delírios que o extremo-fanatismo pode causar a uma pessoa, é melhor matar os filhos do que os permitir viver num mundo sem o Nazismo, cruel.

Adolf Hitler (Bruno Ganz)Traudl Junge (Alexandra Maria Lara) Joseph Goebbels (Ulrich Matthes) Eva Braun (Juliane Köhler)



Mediterrâneo (Mediterraneo, 1991 - ITA)

É um filme bonitinho, mas não passa muito disso. Muito mais que o desenrolar da história, é o argumento interessantíssimo e altamente humanista e anti-belicista que faz o filme ter um charme diferenciado. Oito soldados serem enviados para uma ilha completamente esquecida do mundo, em plena Segunda Guerra Mundial, e viverem anos naquele lugar totalmente a margem, sem qualquer contato com o mundo. A guerra acaba e eles nem avisados são, é uma situação inusitada, óbvio que eles se acostumariam com a vida naquele lugar bucólico.
Mas de tão delicado o filme chega a ser exageradamente ingênuo, mas nada que absorva a ternura empregada pela direção de Gabriele Salvatores (Não Tenho Medo/Nirvana), ele alia o ritmo narrativo, a fotografia e seus personagens, a paisagem e a sociedade que se forma nessa micro-ilha grega. O soldado que se apaixona pela prostituta é a personificação dessa ingenuidade e pureza. E pincelando ainda encontrei um diálogo com uma reflexão que vez ou outra eu me faço, transcrevo a seguir um pequeno trecho: “Destino! O destino pode ser manipulado. Pode-se tentar fazer as coisas serem como queremos. Pode-se mudar o destino.”; “Não é fácil. Ás vezes tem que se aceitar.”.

Nicola Lorusso (Diego Abatantuono) Luciano Colasanti (Ugo Conti) Vassilissa (Vanna Barba)

Este arquivo

Esta página é um arquivo de posts de fevereiro 2006, listado do mais novo ao mais antigo.

janeiro 2006 é o arquivo anterior.

março 2006 é o próximo arquivo.

Posts fresquinhos na página principal - ou mexa nos arquivos pra ver outros posts.



v e r b e a t  b l o g s

Michel Simões