janeiro 2006 Archives

Munique

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(Munich, 2005 – EUA)

Há muita gente elogiando o novo filme de Steven Spielberg, dizendo que é mais um de seus bons filmes sérios em detrimento a maior quantidade de filmes de pura diversão (vide Et's, dinossauros e etc). E dessa vez estou com a maioria, o filme é bom mesmo, vale cada um de seus longos minutos (que estão longe de serem entediantes). Não me importo se ele faz filmes cheios de efeitos especiais ou não, o que ele se propõe a fazer, faz e faz bem. Se o filme me interessa eu vou e assisto, só que ultimamente seus filmes não tem me despertado interesse. Mas esse em especial não tinha como deixar de lado, principalmente pela curiosidade sobre esse atentado na Olimpíada de Munique (1972), um momento triste, porém marcante do esporte, logo os Jogos Olímpicos que celebram a paz e a união dos povos. E o tema está na crista da onda no momento, a Palestina.
O interessante do filme é o jogo de temas com que Spielberg trabalha, claro que a trama central é a disputa entre árabes e judeus, mas o filme vai muito além disso, tratando com delicadeza a importância da família, da nação, das crenças, e as angústias, as paranóias, o medo. Avner é uma espécie de matador profissional, um agente escolhido pela inteligência israelense para vingar seu povo, caçando os envolvidos no atentado em Munique. E Eric Bana faz esse homem de carne e osso, seus olhos refletem muito mais que sentimentos e emoções, eles retratam seu estado de espírito. A explosão de emoção ao ouvir o som de sua filha ao telefone, a paura de estar sendo caçado e tendo que dormir no closet como precaução, a desconfiança de todos a sua volta, o artificial encontro da paz em seu lar já que a insegurança toma conta de si. São apenas alguns exemplos, cada forma de olhar mais aprofundada que Bana utiliza condensa ainda melhor os conflitos vividos pelo personagem.
O filme pode passar grande parte de seu tempo em operações de guerra na busca dos alvos, e diga-se de passagem, alguns desses momentos são eletrizantes, e mesmo nesses momentos Spielberg tem o cuidado de não entregar tudo mastigadinho, com uma montagem intrigante que com o passar do filme reconstitui os fatos que culminaram na morte dos onze esportistas israelenses. Outro trunfo é a fotografia de Janusz Kaminski, um trabalho irretocável, a busca por ângulos inusitados, os tons cinzentos e etc, etc, etc.
Além do mais, o todo tempo o cineasta está buscando humanizar seus personagens, sem tentar torná-los mocinhos ou vilões, apenas homens que lutam por suas causas. Sejam elas justas ou não. Diferente de algumas críticas, não senti que o cineasta tomou partido desse ou daquele, fez ele um filme sobre um acontecimento marcante, focando sua história de um dos lados, porque assim além de tratar desse caso isolado, pôde ele desfilar por um conjunto de temas universais e tão importantes, que bom seria se muitos tivessem não só o amor e a determinação pelo que Avner acredita, mas também soubessem enxergar até que ponto deve ir esse sentimento todo, até onde ele pode ferir outras coisas também importantes (ou na minha humilde opinião, ainda mais importantes). Faça mais filmes como esse Spielberg, e pode ter certeza que eu estarei lá para conferir.

2x Amos Gitaï

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Free Zone (Free Zone, 2005 – ISR/FRA/ESP/BEL)

A Free Zone é uma região de fronteira tríplice entre Jordânia, Iraque e Arábia Saudita. É também o destino de Hanna que parte em busca do homem que deve dinheiro a seu hospitalizado marido. Acaba ela saindo de Israel para fazer essa viagem na companhia da triste Rebecca que voltou a pouco a Jerusalém, e enfrenta problemas em seu relacionamento amoroso. O incansável Amos Gitaï busca em seu cinema formas de demonstrar a situação caótica no Oriente Médio, a falta de tolerância, a desgastante incompreensão, mas o cineasta busca também um alento, uma forma de demonstrar de que há sim solução, por mais que o contrário teime em persistir.
Três mulheres, defendendo seus interesses (econômicos ou religiosos), Gitaï prova que pode haver um mínimo de solidariedade, ao tocar num tema delicado faz com que essas personagens femininas aproximem-se, compreendam um pouco o sofrimento alheio e solidarizem-se. Talvez Gitaï quisesse dizer também que se as mulheres estivessem a frente dessa guerra, as coisas se resolveriam mais facilmente, mas talvez ele simplesmente tentasse demonstrar que há formas de se encontrar um denominador comum nessa história, basta um pouco de empenho e desejo, a solidariedade está dentro de nós.
Flagramos a dificuldade para se cruzar as fronteiras entre esses países, o temor presente de que todos sejam suspeitos, depois o encontro e o embate entre judia e palestina, onde cada uma coloca as diferenças de seu povo no meio da discussão particular, até que a sensibilidade humana é colocada a prova, a humanidade ainda existe, o amor muda as pessoas. Mas a cena final transcorre, os créditos finais começam a ocupar a tela, e Gitaï deixa subentendido que talvez tudo seja um delírio seu, e que o conflito e as discussões jamais cessarão, essa seria uma guerra insolucionável.

Rebecca (Natalie Portman) Hanna (Hana Laszlo) Leila (Hiam Abass)




Kedma (Kedma, 2002 - ISR/FRA/ITA)

Não é um filme de personagens, é um filme de situação. Por isso Amos Gitaï pouco se aprofunda nos poucos personagens que ganham um espaço mais privilegiado no filme. Insisto, o filme não é sobre esse ou aquele. Kedma é um navio que em 1948 traz judeus refugiados da Europa para a criação do Estado de Israel, os sobreviventes do Holocausto. O filme trata da chegada dos passageiros desse navio, o ataque do exército inglês que ainda ocupava a região e o início dos conflitos com os povos árabes que por ali habitavam. Gitaï faz a mesma pergunta que fazemos todos os dias: é possível que judeus e árabes possam dividir a mesma região? Cada vez a resposta mais plausível é a negação.
Gitaï não busca respostas, nem traz soluções ou mesmo críticas, como a maioria de nós ele só quer a paz, a compreensão, uma solução justa (se é que há). Agora falando de cinema, é o meu segundo filme do cineasta, o segundo sobre guerra e os filmes dele são difíceis de se assistir. Gitaï nos tortura, sempre parece que poderia ter desligado a câmera alguns segundos antes, é óbvio que seus planos-seqüência buscam nos dar a extenuante sensação do que os personagens estão sentindo, mas sinto que a tortura dele passa um pouco do desejável. Por outro lado há detalhes riquíssimos nas imagens que formam metáforas, mas acabo percebendo depois de ler textos dos outros, minhas deficiências ainda são visíveis a mim mesmo.
Aos que conseguem concentração durante todo o filme, podem tirar boas lições de alguém que está no olho furacão do problema e ainda assim não quer tocar fogo no mundo. Passaram cinqüenta anos e a situação é no mínimo a mesma, para não falar pior. O discurso final é magnífico, precisaria ser revisto umas dez vezes para se refletir melhor sobre aquela metralhadora de verdades.

Dois Brazucas

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Gêmeas (2000)

É gostoso assistir, de vez em quando, uma história de Nelson Rodrigues ser bem contada. E felizmente foi assim que Andrucha Waddigton fez sua estréia no cinema. Gêmeas trata dessa estranha ligação “cósmica” tão discutida entre irmãos gêmeos, essa coisa de sentir o que o outro sente. Marilena e Iara são extremamente diferentes em alguns pontos (uma muita estudiosa e profissional, a outra muito mais preocupada em se divertir), mas as duas mantém um estranho prazer de dividir os namorados sem que estes saibam. Um estranho comportamento dissimulado que transformou aos poucos os pais dela numa pessoa amargurada, desiludida com a vida, os joguinhos arquitetados pelas irmãs corroem a família. Esse ar negativo está muito bem apresentado pela fotografia do filme, pelo jogo de luzes e sombra utilizado dentro da casa.
E tudo começa a se complicar quando Marilena se apaixona verdadeiramente e não quer mais continuar dividindo o namorado, a quebra dessa relação tão íntima entre as duas é quase como uma maldição que trará conseqüências catastróficas. E a figura do pai demonstra-se tão equilibrada a ponto de enxergar a situação e ver o que o futuro ainda reserva para aquela família, o fim anunciado sem possibilidade de conserto. Bom filme, bom trabalho de Andrucha, e mais uma interpretação vibrante de Fernanda Torres.



Deus é Brasileiro (2002)

Deus é um debochado, cansados dos pedidos e inúmeros erros da humanidade, ele decide tirar umas férias e vem para o Brasil atrás de um candidato a santo para cobrir suas férias. Seu guia na peregrinação pelo Brasil atrás do tal candidato é um malandro nordestino que tenta tirar proveito dessa oportunidade única, seu nome: Taoca. Mas como eu afirmei no início, Deus é um debochado e demonstra-se sem dó alguma de deixar Taoca se virar com suas próprias mentiras. Se junta a eles nessa viagem a solitária e sonhadora Madá, que inclusive estou buscando alguma explicação para ela ter entrado nessa história, ainda não encontrei.
Carlos Diegues (Bye Bye Brasil/Orfeu) baseou-se num conto de João Ubaldo Ribeiro, mas ao meu ver faltou humor nesse road movie pelo norte-nordeste brasileiro. É um filme leve, pretensamente divertido, só que possui cenas de nudez desnecessárias, é um conjunto muito heterogêneo e pouco interessante. Engraçado como os três atores estão muito bem em seus papéis, e mesmo assim o filme não funciona, as queixas de Deus com a humanidade e as referências ao livre-arbítrio são de longe o que de interessante há, apesar desse oceano de fantasia e malandragem que Diegues armou e não soube capitanear.
Blade Runner (Blade Runner, 1982 - EUA)

Engraçado como mesmo sem assistir a um filme a gente vai criando na cabeça uma imagem sobre ele, e que muitas vezes foge completamente da realidade. Esse é o meu caso com relação a esse clássico da ficção científica, filme cult dos anos 80. Pairava em mim uma grande sensação de se tratar de um filme frenético, cenas alucinantes de perseguição e caça dos andróides, que nada, é um filme lento para os padrões do gênero, cultua questões filosóficas do tipo: quem somos, de onde viemos?
Ser lento não é uma crítica negativa, apenas uma constatação. Que Blade Runner estava a frente do seu tempo é fácil de perceber e interessante notar como Ridley Scott (Alien/Gladiador) recheou de referências seu filme. Harrison Ford é um caçador de andróides, uma espécie de policial, e seu estilo de se vestir é puramente de filmes noir da década de 50, já a cidade de Los Angeles em 2019 tem aquele aspecto underground de submundo. Decadência total, uma chuva torrencial, moradias esquizofrênicas (mesmo sem ter assistido ainda é clara a referência a Metrópolis de Fritz Lang).
Mas a grande sacada não está no clima futurista, nem no blade runner quase emotivo de Ford, nem nos efeitos especiais. Os andróides sobrevivem apenas quatro anos e é isso que eles buscam, aumentar seu tempo de vida, são robôs extremamente humanizados, com sentimentos, sensações e até recordações de infâncias que não viveram. Eles lutam para viver mais, discutem questões filosóficas já citadas e aí Rutger Hauer dá seu show e rouba o filme para ele. No ápice, a câmera é centrada em Hauer, seus olhos azuis, sua cara de desilusão, seu discurso no melhor estilo “penso, logo existo”, é nesse momento que o filme deixa de ser uma simples ficção científica. Não posso dizer que me entusiasmei com Blade Runner, mais há algo mais do que as atuais sci-fi que são apenas filmes de ação camuflados.

Deckard (Harrison Ford) Roy Batty (Rutger Hauer) Rachael (Sean Young)




O Iluminado (The Shining, 1980 - EUA)

Atravessar cinco meses de inverno rigoroso trancafiado num imenso hotel com esposa e filho é uma situação tentadoramente paranóica. Se adicionarmos o elemento de um terrível crime cometido no passado naquele mesmo local, em situação bastante parecida, já se tem o clima aterrorizante que vai dominar o filme. Stanley Kubrick é gênio, quem tem a capacidade de se embrenhar por tantos gêneros cinematográficos diferentes e obter sucesso em todos, não merece um adjetivo menor que genial.
O filme vai cozinhando o espectador num suspense psicológico capaz de deixar qualquer um completamente louco, Jack Nicholson e seu olhar aterrorizante é a própria personificação de demência, sandice. A cena-ápice, no labirinto coberto de neve é espetacular, uma perseguição empolgante, mais por sua atuação do que pela atmosfera em si, que já é das melhores. Mesmo para alguém que não gosta de filmes desse gênero, é impossível não se envolver, se assustar, sentir o coração palpitando num ritmo descompassado. Se não é magistral, é Stanley Kubrick, já vale o ingresso (ou a locação).

Tão Longe, Tão Perto

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(In weiter Ferne, so nah!/Faraway, So Close!, 1993 – ALE)

Continuação de Asas do Desejo, Win Wenders (Paris, Texas) volta a inserir anjos como protagonistas de seu filme. Dessa vez logo após a queda do muro de Berlim, Cassiel é quem de tanto observar os humanos e acaba se tornando um deles, bem a tempo de salvar uma menina que estava caindo da varanda do apartamento. O filme alternar-se entre preto e branco e colorido diante da alternância da câmera, ao focalizar uma cena sobre a visão de um humano a imagem está colorida, já na visão dos anjos fica em preto e branco.
O começo é sonolento, cheio de passagens poéticas e reflexivas, mas é um exagero que fica difícil coordenar o raciocínio para assimilar tudo. Quando Cassiel torna-se humano o filme dá indícios que vai começar, ele sai a procura do anjo do filme anterior que também se tornou humano. Acaba tomando algumas atitudes pouco ortodoxas, demonstrando que a vida de carne e osso é bem diferente daquela que os anjos idealizavam.
E o filme vai caminhando meio sem eira nem beira, até piorar de vez no final com algumas seqüências no mínimo curiosas. Pareceu-me que Wenders perdeu a mão, não soube desenvolver o que tinha em mente, seu estilo de filmar é pouco para segurar um filme tão inconstante. Até Mikhail Gorbachev arrumou uma ponta no filme. Por mais perto que você se esforce, o filme parece cada vez mais longe... Está certo que tudo que escrevi é uma leitura pobre do filme, mas ele não é muito animador também.

Almodovar em 3 filmes

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A Lei do Desejo (La Ley del Deseo, 1986 - ESP)

A Lei do Desejo é um título mais que pertinente, é como se nessa micro-sociedade exposta por Pedro Almodóvar essa fosse a lei principal a reger as pessoas, a reger seus corpos, seu instintos. O amor está sempre envolvido, mas é o desejo a suprema força capaz de envolver esses estranhos personagens. Estranhos porque, como muitos sabem, Almodóvar é obcecado pelo bizarro, pelo esquisito, pelo repulsivo.
Não gosto do filme, mas sei perceber que o desejo está impregnado em cada cena, em cada movimento de câmera, em cada gesto dos atores. Um escritor apaixonado (Pablo) vive certa crise com seu parceiro que se mudou para uma cidade litorânea, simultaneamente inicia uma relação de puro desejo com um estranho (Antonio). Por mais claro que Pablo tente deixar sobre seus sentimentos, Antonio é possessivo e o desejo sem limites é a faísca para a fogueira que essa relação vai se tornar.
Almodóvar não tem vergonha em retratar que uma parcela das relações homossexuais preza pela promiscuidade, é como se ele quisesse dizer que essas relações são menos hipócritas já que o desejo é um instinto humano. Então esses relacionamentos são mais honestos em aceitar e entender o desejo, não o tratando como infidelidade, é uma proposta complexa e delicada, e completamente impossível à sociedade de modo geral. Não gostei porque não consegui enxergar no filme algo especial, algo diferente, é como se Almodóvar apenas camuflasse seus personagens com o bizarro e o estranho. O leve tom de suspense, o roteiro pobre que não foge do trivial, tudo está camuflado pelo homossexualismo, por exemplo.
Mas nem tudo está perdido, numa cena de curta duração, alguns poucos segundos, Almodóvar mostra sua marca, nos minutos finais todos esperam o que irá acontecer dentro de um apartamento. A câmera focaliza os carros de polícia, os policiais e outros pedestres que olham para as janelas do apartamento, uns fumam, outros apenas olham, e o travelling apenas retrata esse momento, uma cena linda, uma parada estratégica.

Antonio (Antonio Banderas) Pablo (Eusebio Poncela) Tina (Carmen Maura) Juan (Miguel Molina)




Maus Hábitos (Entre Tinieblas, 1983 - ESP)

Pedro Almodóvar tem uma enorme indisposição com a igreja Católica, ou algo muito pior. Muitos esperavam que seu último filme (Má Educação) seria uma afronta gigantesca a Igreja, não foi bem assim, porém Maus Hábitos (que foi um de seus primeiros filmes) é isso e muito mais, em tom de comédia que ameniza bastante seu poder, mas não deixa de ser uma afronta corajosa.
Um convento de freiras (Redentoras Humilhadas) abriga mulheres pecadoras e as auxilia a se livrar da vida de perdição. Só que ultimamente não tem aparecido muitas garotas. As próprias freiras foram salvas no passado, viciadas em droga, assassinas, traficantes e etc. E vivem nesse convento entre a vida de penitencia e os prazeres que as levaram a se refugiar no convento. Com isso Almodóvar satiriza a figura “sagrada” das freiras e seu puritanismo. Enquanto abrigam uma cantora de cabaré que viu seu namorado morrer ao consumir drogas, as freiras levam sua vida entre cuidar da horta, das galinhas e coelhos, rezar e cumprir penitencia, consumir heroína, cocaína, viver o amor, até costurar o luxo.
É uma junção de valores heterogêneos, é difícil integrar o que os olhos vêem e o que está acontecendo, porque Almodóvar novamente leva o esquisito ao cinema, seu filme tem uma proposta caricata, mas com alvo certo.

Yolanda Bell (Cristina Sanchez Pascual) Madre Superiora (Julieta Serrano) Irmã Esterco (Marisa Paredes) Irmã Perdida (Carmem Maura)




Carne Trêmula (Carne Trémula, 1997 - ESP)

É um roteiro muito bem arquitetado por Pedro Almodóvar, mais uma vez provando a grande mudança do seu estilo do início da carreira para essa sua fase atual, já que mesmo sendo repleto de ramificações é um filme muitíssimo sensível. Interessante como Almodóvar inverte mocinhos e vilões, desmascara alguns personagens, e ainda assim trabalha sutilmente alguns temas tabus como inserção na sociedade de ex-detentos ou a vida ativa de deficientes físicos. Essa grande gama de temas apenas enriquece o que realmente o cineasta quer tratar, o amor em algumas de suas facetas.
A belíssima cena em que dois corpos nus, deitados lado a lado, encaixam-se perfeitamente demonstrando a perfeição do corpo humano e um alto grau de envolvimento físico, funciona como efeito plástico fabuloso. Mas há outros momentos dramáticos que pela delicadeza e importância podem se tornar até mais bonitos, como a cena seguinte quando Elena sente o cheiro do suor que está impregnado em seu corpo após a longa noite de amor, mas principalmente mo fim de cada um dos personagens que depois de todo o drama vivido parecem encontrar a redenção, seu melhor momento na vida. Carne Trêmula ainda tem espaço para relembrar ao mundo a época em que a Espanha vivia uma rígida ditadura, o direito de liberdade das pessoas era cerceado.

David (Javier Barden) Elena (Francesca Neri) Victor (Liberto Rabal) Clara (Angelina Molina) Sancho (José Sancho) Isabel Caballero (Penélope Cruz)

Duas Palmas de Ouro

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Gosto de Cereja (Ta’m e Guilass, 1997 – IRA)

Gosto de Cereja é pensado como se fosse um jogo de xadrez, como o próprio Abbas Kiarostami disse em entrevistas, seu filme não é sobre suicídio, mas sobre a vontade de cometê-lo. Nem sobre qual tipo de razão levaria alguém a cometer tal ato o filme trata, o foco é completo sobre o pensar em cometer. Para suscitar essa discussão tem-se um homem dirigindo por uma região extremamente árida e arenosa, olhando uma a uma as pessoas na rua, evidentemente está procurando alguém em especial. Ele decidiu suicidar-se e procura alguém que vá até a cova que ele escolheu e procure por ele na manha seguinte para confirmar se o suicídio foi realmente consumado, se sim que jogue vinte pás de terra nele, se não que estenda a mão e o ajude a sair do buraco. Quem aceitar essa tarefa ganharia uma boa quantia em dinheiro.
Mas o suicídio é um tema que causa grande repulsa da maioria e na religião muçulmana essa repulsa é ainda maior. Kiarostami joga seu xadrez porque coloca no destino desse homem pessoas de três faixas etárias diferentes e de três ramos que são ou foram os pilares da sociedade contemporânea (militarismo, religião e ciência). Cada um dos envolvidos tenta persuadi-lo a desistir, mas em momento algum sabemos dos motivos que levaram esse homem a uma decisão tão cruel. O máximo que sabemos torna-se mais um tema a se refletir, se não é pecado fazer sua família infeliz, fazer as pessoas a sua volta infeliz. É o tipo de filme que pouco importa como vai terminar, porque sua importância virá mais tarde, no dia seguinte, na semana que vem, quando você conseguir refletir melhor sobre tudo que foi falado, sobre o prazer em sentir o gosto da cereja (eu nem gosto de cereja, mas é só trocar por outra coisa).

Sr Badii (Homayon Ershadi) Sr Bagheri (Abdolrahman Bagheri)



Segredos e Mentiras (Secret & Lies, 1996 - ING)

Mike Leigh vai criando uma atmosfera nebulosa naquela família e a tempestade parece que nunca vai desabar, mesmo estando sempre prestes a acontecer. Se bem que quase todas as famílias são cercadas de segredos e mentiras, tal qual essa, e a tempestade permanece no ar, eternamente a ponto de se precipitar. Há crises entre mãe e filha, inveja e descaso entre cunhados, negligência entre irmãos, há segredos guardados a sete chaves, nos mais profundos calabouços familiares.
Por tudo isso o filme de Leigh já seria interessante, verdadeiro, mas o diretor guarda revelações para a hora da sobremesa e posso dizer que a seqüência é de arrepiar todos os pelos do corpo. Uma cena explosiva onde todos os segredos, ressentimentos e sentimentos negativos são expurgados, desentendimentos postos a mesa, doa a quer doer, e da escuridão que se faz a luz. Aquelas pessoas aprendem que a verdade é muito mais simples e menos dolorida, dói na hora e o tempo cura, já os ressentimentos... Segredos e Mentiras é levado em banho-maria até a hora em que seus personagens são jogados na fogueira e queimamos junto com o filme e os personagens.

Maurice (Timothy Spall) Mônica (Phyllis Logan) Cynthia (Brenda Blethyn) Roxanne (Claire Rushbrook) Hortense (Marianne Jean-Baptiste)
O Cheiro do Papaia Verde (Mui Du Du Xanh / Lordeur de la Papaye Verte, 1993 - VIE/FRA)

Para falar bem a verdade, as vezes dá até medo de assistir esses filme exóticos que foram muito premiados. Porque se você não gosta vai sempre ficar com uma pontinha de dúvida se soube compreender o filme ou não, se sua sensibilidade foi capaz de extrair o que o filme tinha a lhe oferecer e coisas do tipo. Continuando com a honestidade, eu já passei da fase de ter que gostar só porque outros já gostaram, posso até ficar com esse grilo de talvez não ter entendido, mas não é mais uma nuvem que me incomode como era há algum tempo.
O filme de Tran Anh Hung deseja tratar da relação amor/submissão, dentro da realidade feminina no tradicional da cultura vietnamita. Para isso estamos em Saigon na década de cinqüenta, e uma garotinha de doze anos vai trabalhar como empregada doméstica na casa de uma família onde o patriarca tem alguns impulsos inconstantes. Hung filma um grande culto a comida, foca delicadamente grande parte de seu filme em preparativos para refeições, no cozinhar, no descascar, no separar o arroz.
Esse culto às banalidades da trivialidade é marca constante em seu cinema, uma marca altamente registrada. Outro ponto é a movimentação constante da câmera, só que de forma lenta, fugindo sempre ao final da cena para algum objeto ou parede diferente. Com toda essa beleza estética e essa pseudo-profundidade artística, o filme acaba criando uma quantidade de camadas tão grande que o tema amor/submissão vai ficando cada vez mais escondido e conseqüentemente difícil de ser julgado, de ser abstraído.
Mais tarde o filme adianta-se em dez anos, o tema principal ganha um pouco mais de espaço na trama, só que novamente ele está levemente subentendido, portanto você tem que descascar muito para encontrar sutilmente no rosto da jovem Mui esse questionamento do cineasta de que se há amor, então essa submissão não se tornou prazer? Além de esconder seu tema, o considero de uma visão profundamente machista.

Mui – 22 anos (Tran Nu Yên-Khê) Mui – 12 anos (Man San Lu)



As Luzes de um Verão (À La Verticale de L'été, 2000 - VIE/FRA)

É difícil falar do filme de Tran Anh Hung, principalmente porque ele possui duas características muito presentes, realmente enraizadas por todo o filme. Primeiramente a fotografia é belíssima, com presença maciça do azul e do verde, cada cena é mais linda que a outra, e a força da imagem enche nos olhos causando um delírio visual virtuoso. A outra característica é o fraco desenvolvimento do roteiro, a grande sensação é de que nada vai acontecer o filme todo, são diálogos pobres e um conjunto sutil de acontecimentos.
Na Hanói moderna quatro irmãos cuidam dos preparativos do memorial da mãe, são três mulheres que criam uma teia de cumplicidade muito grande e enquanto manipulam os alimentos tratam de temas relativos ao amor e ao sexo. Duas são casadas, e a sombra da infidelidade ou paira em suas vidas ou já está mais que presente. A solteira mora com o irmão e o amor platônico por ele instiga uma quase relação de incesto, ela deseja ao menos encontrar um homem igual ao irmão.
Tran Anh Hung caminha vagarosamente com a vida de seus personagens, privilegia cada cena como se fosse a única e dá exemplar atenção ao despertar dos dois irmãos, ao som de Lou Reed. É quase um ritual onde os dois conversam, fazem alongamentos e ginástica, tomam seu chá, todo esse ritual faz com que tenhamos realmente a sensação de que esses irmãos são um casal, mais do que isso, desperta a sensação de querer aquilo para nós, aquela paz, a harmonia. Um despertar carinhoso, pacato, ao lado de alguém que admiramos, que amamos, que temos prazer em curtir o tempo ao seu lado, em curtir cada momento. O filme como um todo é preguiçoso e lindo de se olhar, mas se enxergado cada cena em separado é lírico, divino, e um pequeno recorte da vida em Hanói.

Lien (Tran Nu Yên-Khê) Suong (Nhu Quynh Nguyen) Khanh (Le Khanh) Hai (Quang Hai Ngo)

O Pagamento Final

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(Carlito's Way, 1993 - EUA)

Foi com muita boa vontade que encarei esse clássico de Brian de Palma (Os Intocáveis/Vestida para Matar), boas recomendações não faltaram. Os minutos passam, a história transcorre e na minha cabeça uma idéia fixa: o que tanto viram de espetacular nesse filme? Em certa altura desisto de responder essa pergunta, vai ser mais um filme a entrar na minha lista pessoal de grandes decepções. Isso não quer dizer que achei o filme horrendo, não, ele é bastante razoável. Perceberam o adjetivo que usei, razoável. Que a história é um grande clichê, isso ninguém discute, disso tenho certeza. Mas além dos clichês, o filme é todo marcado, sempre estamos a frente do que vai acontecer. Nunca serei surpreendido?
O filme vai dando todas as pistas para o que vem a seguir, começando pela cena inicial que dá espaço ao grande flashblack aonde todo o filme se desenvolve. Cena inicial essa que extermina com todo o clima intrigante que se poderia formar com a seqüência frenética do final do filme. A seqüência é ótima, mas quando se sabe o resultado, perde-se parte do sabor. De Palma é mestre em escolher ângulos mágicos para posicionar sua câmera, mas por outro lado usa e abusa do melodrama com músicas românticas e câmeras lentas açucaradas.
Nesse vai e vem de espetáculo e breguice acompanhamos as peripécias de um porta-riquenho ex-traficante que tenta se manter fora do crime quando sai da cadeia, só que quanto mais foge, mais as complicações estão a sua volta. Al Pacino é aquela coisa que todos sabemos, sempre competente e nesse tipo de personagem está mais que escolado. Já Sean Penn é quem consegue criar algo de diferente (até que enfim alguma coisa diferente nesse filme), tanto nos aspecto físico (cabelo principalmente) e na maneira de se vestir, como até na maneira de falar do seu advogado aprendiz de mafioso. O Pagamento Final não consegue se livrar do cheiro de mais do mesmo que o persegue o tempo todo, claro que há momentos bárbaros como a conversa pela fresta da porta entre Carlito e Gail, mas é pouco, muito pouco.


Carlito Brigante (Al Pacino) David Kleinfeld (Sean Penn) Gail (Penelope Ann Miller)

Swimming Pool

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(Swimming Pool, 2003 - FRA)

Coloquem numa mesma casa de campo, uma escritora inglesa de meia-idade e uma jovem francesa com a libido mais que aguçada, sem vergonha alguma de explorar seu lado mais pervertido. Uma quer paz e sossego para aproveitar o clima bucólico do lugar e terminar seu livro, já a outra se diverte, transa com quem quer, quanto quer, a hora que quer. É óbvio que o choque é inevitável, a relação entre elas é muito mais que explosiva. Só que em algum momento, um elemento as aproxima (aliás, um grande clichê do gênero).
François Ozon (5x2/Oito Mulheres) quer dar suspense ao filme, mas é o erotismo que acaba instigando seu público, e o cineasta usa e abusa das majestosas curvas de Ludivine Sagnier. Já Charlotte Rampling é um show a parte, mas começo a querer vê-la em outro tipo de personagem para confirmar se é talento mesmo ou se ela só sabe fazer esse tipo de mulher seca, metida, ar independente, britânica.
Agora me diz uma coisa Ozon, aquela cena final é aquilo mesmo que estou imaginando ou não? Porque sendo ou não sendo, não torna o filme genial, pelo contrário, não gosto de tramas arquitetadas e de que depois se mostram como mero sonho ou coisa do tipo. Repito que Ozon atirou no suspense e acertou no erotismo, pelo menos soube filmá-lo com elegância e sensualidade, muita sensualidade. E assim fez seu filme à beira da piscina que fica bem mais interessante.


Sarah Morton (Charlotte Rampling) Julie (Ludivine Sagnier)

Apenas um Beijo

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Antes de começar, eu temia, mas não tinha como adiar o post com os melhores do ano. Pois bem, como eu temia, esse filme entra na lista, e como não tem mais graça tirar nenhum, e pouca importa a ordem, fica apenas a menção de que APENAS UM BEIJO é um dos melhores filmes de 2005.


(Ae Found Kiss, 2003 – ING/IRL/BEL)

Dentro da sociedade como está formada nós somos educados para aprender a acreditar no amor, desde os primórdios dos ensinamentos nos nossos lares, passando pelos livros, cinema, TV, a vida em si nos ensina a acreditar que o amor é essencial. Só que na prática, quando realmente acreditamos no amor e colocamos nossa felicidade nesse campo acima de tudo, bem nesse momento alguém bate nas nossas costas: hey peraí, o mais importante é o que sua família pensa, ou o que religião diz, ou o que as pessoas vão pensar e dizer. Quer dizer que nos ludibriaram direitinho, porque quando se coloca em prática o que foi amplamente pregado, são as convenções que falam mais alto, é o preconceito, são as tradições, e se depois de tudo isso ainda tiver o amor ótimo, seja feliz.
Na Escócia, um DJ paquistanês se apaixona por uma professora de música, católica. É um relacionamento maduro, um amor que seja eterno enquanto dure, sem aqueles romanceados momentos de “te amarei a vida inteira” ou “você é o amor da minha vida”. São duas pessoas com diferenças, mas que encontraram no outro o sentimento, a atração, a cumplicidade, e outros elementos que são necessários para que um amor seja realmente promissor.
Mas o mundo conspira contra eles, o muçulmano Cassim está prometido a uma prima, enquanto Roisin é impedida de trabalhar numa escola ultra-católica por não estar divorciada e manter um relacionamento com um não católico. Entre os dois também há tensão, pois educações tão diferentes não são possíveis de se compreender facilmente e cada um é incapaz de viver todo o conflito e ainda raciocinar abertamente sobre essas diferenças. Mas diferente da maioria das pessoas, esses dois teimosos levam a ferro o que aprenderam desde crianças, eles acreditam no amor, talvez estejam no caminho acerto, já que está mais do que provado que a maioria tem errado feio. Malditas convenções.
Ken Loach não deixou seu cinema político de lado, é dos filmes românticos mais realistas que já tive notícia, grande parte da culpa é do casal de atores que está mais que convincente em todos os momentos. Loach consegue tratar o amor, e todos os temas que envolvem seu filme, sem banalizar ninguém, sem julgar culturas, sem apoiar ou se opor a xenofobia, ele apenas narra uma história, opta pelo amor, e faz com que as conseqüências sejam expostas abertamente. Loach faz um filme lindo, com momentos de rara emoção e exclusão total de pieguice, um belo trabalho, um trabalho para poucos.

Cassim (Atta Yaqub) Roisin (Eva Birthistle)
10º














































A Igualdade é Branca (Trois Couleurs: Blanc, 1994 - FRA/POL)

Não guarda a mesma genialidade de seu antecessor, aquela efervescência que exalava de cada cena, de cada detalhe. Mas está longe de se jogar fora. Nessa segunda parte da trilogia, Krzysztof Kiéslowski leva a ferro o seu conceito de igualdade. Trata de forma crua, rude, a igualdade sob forma de vingança. É um filme mais seco, mas também com alguns detalhes que parecem desconexos. Basicamente narra a desolação de um cabeleireiro polonês, morando em Paris, que é pego de surpresa ao ser intimado pelo judiciário para tratar de seu divórcio. A esposa é francesa e alega que o casamento nunca foi consumado, e ele não pode negar que não seja verdade, por mais amor que sinta por ela.
Só que Dominique arquitetou minuciosamente para ficar com todos os bens do casal e Karol é totalmente surpreendido, fica na rua da amargura, tendo que se virar para voltar para a Polônia e recomeçar sua vida. Mesmo tomado de amor, ele deseja vingança, está exposto o princípio de igualdade que tanto Kiéslowski queria. Numa cena crucial Dominique reclama que mesmo que ela diga que o ama, ele não entende (problemas com a língua), é um momento forte, mas muito longe da beleza que a cena final nos guarda, principalmente o que veremos atrás do binóculos.
O que sinto é que Kiéslowski não cobriu as arestas que sua história abriu para tratar da igualdade, a dureza e a secura com que o filme é conduzido dessa vez não chegam aos pés do lirismo que o filme anterior possuía, mas ficar comparando os dois é uma grande perda de tempo. Para Kiéslowski o mundo é um caso perdido, seu pessimismo e crueldade são gritantes.





A Fraternidade é Vermelha (Trois Couleurs: Rouge, 1994 - FRA/POL/SUI)

A trilogia é encerrada com muita sutileza, a maioria o considera o melhor de todos, para mim ficou anos luz de Bleu, já aprendi que gosto não se discute. Que o filme é sutil e delicado, também não se discute, novamente são os detalhes que fazem a diferença, e o vermelho está espalhado por todos os lugares, não há aonde olhar e não encontrá-lo. Do que abstraí do filme, sinto que ele trata do acaso, mas, além disso, de como as pessoas interferem na vida das outras, até mesmo involuntariamente. Conhecer uma pessoa, ou se relacionar mais profundamente com outra, abre um oceano de possibilidades, de mudanças na sua vida.
Uma modelo atropela uma cadela na rua, sem saber o que fazer descobre na coleira seu endereço e a leva ao dono. Lá conhece um ex-juiz que vive espionando as conversas telefônicas de seus vizinhos. Aquela situação repugnante de um homem ultrajante, que perdeu a vontade de viver, ao invés de causar repulsa transforma esse capricho do acaso numa amizade.
Uma relação que muda profundamente a vida dos dois, o ex-juiz guarda algo de misterioso, e os encontros, pouco a pouco, mudam completamente o comportamento de cada um. Com o transcorrer do filme é possível entender porque a cena inicial é com um outro rapaz que parece não ter grande importância na trama, tentando fazer uma ligação telefônica. No final um encaixe com os dois filmes anteriores, faz da seqüência final um brilhante desfecho para a trilogia e principalmente para a homenagem aos ideais da Revolução Francesa.
A Liberdade é Azul (Trois Couleurs: Bleu, 1993 - FRA)

Dificilmente eu revejo um filme, tenho que ter gostado muito para revê-lo, por isso mesmo que só tenho em casa dois DVDs de filmes. Menos de vinte e quatro horas depois, me obriguei a rever esse filme, não dava para desperdiçar aquelas imagens com uma primeira olhada, não é toda hora que você assiste um filme que lhe faz perder o fôlego. Precisava ser revisto, dar maior importância a algumas nuances, algumas texturas, é um filme completo em sua estrutura, bem fotografado, bem interpretado, bom roteiro, muito bem dirigido, música ótima e muito bem empregada, e outras inúmeras qualidades. Na revisão o filme ficou ainda melhor, ficou majestoso, inesquecível.
Difícil saber por onde começar, poderia ser pelo olhar de Juliette Binoche, adoro quando um ator não precisa se pronunciar, em seus olhos estão explícitos sentimentos, desejos, angústias, ternura e dor. Juliette Binoche é uma surpresa a cada instante, um espetáculo a cada plano. Só que Krzysztof Kiéslowski (Não Matarás/Não Amarás) apronta das suas, sua câmera consegue ir além do olhar, chega até usar os olhos de Binoche como um espelho. Há cenas inimagináveis, como o princípio de um choro que é focado apenas nos lábios de Binoche, Kiéslowski está espetacular em cada momento, impressionante. Em alguns momentos emblemáticos a imagem é escurecida por três, quatros, cinco segundos, uma música clássica surge, a imagem volta ao ponto de onde o filme tinha parado. É como se o diretor nos permitisse um momento de reflexão entre um instante e outro.
Julie renuncia a liberdade depois de perder seu marido e filha num acidente de carro, tenta o suicídio, mas não consegue, ficou apenas com a renuncia, à saudade, às lágrimas, à emoção, à liberdade. Tenta se livrar de tudo que a apegue a vida, foge das lembranças, dos amigos, muda-se, não leva nenhuma recordação, a não ser um lustre azul. Aliás, o azul está presente no filme todo, começando pela divina fotografia. Mas há o amor, mas há a amizade, e por mais que renunciemos a esse tipo de relação humana, é impossível controlar, e também há a música que embala nossos corações em todos os momentos da vida. Julie luta, mas será possível não se render a essas forças que nos movem? A cena final é a melhor resposta. Obra-prima!

Julie (Juliette Binoche) Olivier (Benoít Régent) Lucille (Charlotte Very)

Terra de Ninguém

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(Nikogarsnja zemlja / No Man's Land, 2001 - ESL)

Alguns soldados da ONU (ou sei lá que raios de organização internacional eram, pouco importa) num tanque de guerra cruzam um campo de guerra. Dirigem-se aos lados adversários e combinam uma trégua de minutos entre sérvios e bósnios. Aquela situação tão absurda de dois pequenos pararem a guerra porque um outro mais poderoso pediu (por que então não pediram para cessar a guerra e pronto? Interesses, não esqueçam dos interesses) me fez lembrar meus tempos de criança quando minha mãe mandava eu e meu irmão pararmos a brincadeira para ir almoçar. Então deixávamos tudo intacto, para voltarmos assim que acabássemos de comer.
A situação proposta no filme é tão ridícula, que se torna brilhante. Contudo, o ridículo é ser cabível, é ter acontecido algo parecido diversas vezes durante essa guerra. O roteiro é original, inteligente, brilhante, a situação é real e, portanto, ainda mais ridícula (situação a que me refiro são essas tréguas momentâneas a pedidos de terceiros). Alguns soldados inimigos ficam presos numa trincheira, na chamada terra de ninguém. Dali não conseguem fugir por estarem na mira dos inimigos, e por haver ainda alguns agravantes. É requisitado auxílio de órgãos competentes que não “participam” dessa guerra, e para agravar a imprensa acompanha tudo ao vivo, o tempo todo.
Danis Tanovic (O Inferno) expõe essa guerra ao ridículo, sem o menor pudor, é ridícula mesmo, está somente refletindo-na como um espelho. Não há cenas, ou diálogos, ou interpretações brilhantes. Há uma idéia, criou-se uma situação, e dali nasceu um filme necessário, sagaz, irônico. Com pouco material Tanovic mostrou o despreparo dos que participam da guerra, o desinteresse dos órgãos internacionais, o absurdo daquela disputa. Disputa essa por interesses comerciais, porque a população não ganhou, ou ganhará nada com isso, pelo contrário.

Chiki (Branko Djuric) Nino (Rene Bitorajac)

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Michel Simões