dezembro 2005 Archives

Reis e Rainha

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(Roit et Reine, 2004 - FRA)

Rapidamente um ponto chama minha atenção, o roteiro que parece cada vez mais se desconstruir com o passar do tempo, é uma teia de flashbacks e alternância entre os dois personagens principais que quase fazem com que esqueçamos do outro, é um estilo narrativo diferente aliado a uma fotografia cheia de vida, amplamente iluminada. Duas histórias que se entrelaçam, uma bem carregada de humor e outra mais puxada para o drama. A trama armada por Arnaud Desplechin (Sentinela/Ester Khan) vai correndo bagunçada, mas nunca confusa, é realmente estranho e de maneira alguma isso é sinal negativo. Figuras bíblicas ou místicas aparecem desde o início, seja nos nomes dos personagens, ou no presente que Nora escolheu para seu pai, até mesmo o título do filme.
A rainha é a citada Nora, os reis são: seu filho, seu pai, e os homens com que ela se relacionou, pode haver outras correlações entre o título e o filme, mas essa assim é simples e direta. A outra figura chave é Ismael, seu ex-marido que não é o pai de seu filho, um violinista sofrendo algumas crises existenciais, a ponto de se preparar para cometer suicídio e acabar internado numa clínica psiquiátrica. A reaproximação entre os dois ocorre nesse momento, principalmente porque Nora está cuidando do pai que sofre com um câncer terminal.
Há reviravoltas, algumas bem interessantes, outras nem tão bem arranjadas (a carta, o encontro com o marido falecido), o filme também exagera um pouco na duração. Desplechin opta por filmar Emmanuelle Devos de uma maneira tão tenra e delicada que fica difícil concordar com o que algumas passagens vão demonstrar. Ela não se encontra nem na maneira fantasiosa como a câmera teima em filmá-la, nem como a maldade que o roteiro gostaria de pintá-la, fica no meio termo onde a maioria das pessoas vive. Alguém que comete erros e tenta levar sua vida com as ferramentas que a vida lhe disponibiliza. É uma personagem equilibrada, muito ligada a realidade humana, diferente de Ismael que é uma figura raramente possível na realidade, mas com uma atuação tão estupenda como a de Mathieu Almaric fica difícil não se encantar por ele, suas paranóias e seus desequilíbrios. Não vejo o filme com tão bons olhos como a crítica e alguns amigos viram, mas é um filme para lá de interessante.

O Fim e o Principio

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(2005)

Meu primeiro filme do Eduardo Coutinho (Cabra Marcado Para Morrer/Edifício Master), eu sei que estou atrasado, mas vou pagando minhas dívidas aos poucos, parcelando. O principal interesse era mesmo o de me iniciar na carreira desse importante documentarista brasileiro, porque olhando as críticas, os cartazes, a sinopse, tudo levava a crer que se tratava de um bom filme, onde gente muito simples conta, com boas pitadas de um humor inocente, pequenas histórias de suas vidas simplórias.
Coutinho foi para os rincões do Nordeste brasileiro, mais precisamente no sertão da Paraíba, num pequeno sítio onde vivem 86 famílias ligadas por algum tipo de parentesco. Ele e sua equipe começaram a empreitada sem roteiro, sem locações ou pesquisas, sem uma linha pré-determinada, sem um tema aparente. Queria ligar sua câmera e ouvir histórias, fazer as pessoas falarem. E o que conseguiu foram depoimentos de pessoas simples, já idosas, carregando as marcas da idade pelas rugas no rosto, pelas mãos calejadas de tanto trabalhar na lavoura.
Eles narram, a seu jeito, cheios de graça, e com humor inocente, as pequenas e simplórias histórias de suas vidas. Pois é, o filme é exatamente o que parece ser, e isso não é incomodo nenhum, mas também não faz dessa obra um grande acontecimento. É prazeroso ouvir cada comentário, o jeito tão ímpar de cada um dos moradores daquele lugar tão longínquo dos grandes centros do país, o fervor católico, o princípio de dignidade, as regras de sociedade. É aquela velha história de saber exatamente o que você vai ver, mas é tão gostoso de assistir que você se diverte assim mesmo.

Bens Confiscados

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(2005)

Um escândalo em Brasília, um suicídio, corrupção, um senador envolvido, um bastardo, uma ex-amante, mais um filme de Carlos Reichenbach (Alma Corsária/Anjos do Arrabalde)! Aquele plano contra-plano inicial é de se tirar o chapéu, coisa de quem entende. Quem segurou aquela câmera? Aliás, os movimentos de câmera que marcam o filme todo são realmente bárbaros, de muito longe são o grande ápice que faz quem gosta de cinema ficar ligado em cada tomada.
Já a história não é lá essas coisas. Começa muito bem com Beth Goulart fazendo as vezes de Nicéa Pitta e metralhando o marido senador com acusações e provas. Declarações que criam todo o encadeamento da história, o advogado que a mando do senador manda o filho bastardo e a ex-amante para bem longe da imprensa até que a poeira possa baixar. Só que depois o filme fica preso a tantas portas que se abriram e mal damos uma espiada no que elas reservavam que o todo fica levemente insosso. Há inúmeras situações pouco interessantes, uma tensão sexual exagerada, é um conjunto irregular composto de algumas falas bárbaras, porém devem ser pinceladas separadamente.
Não há como esquecer de comentar a caricatura dos apresentadores de jornais policiais que é realizada por André Abujamra, momentos bárbaros. Mas novamente nos filmes de Reichenbach sente-se uma artificialidade nas atuações secundárias, falas decoradas e faladas como se estivessem lendo sílaba por sílaba. Por outro lado o ritmo lento, o contraste com o mar, combinam perfeitamente com aquela fase dos dois personagens que se encontram presos, um momento estagnado da vida deles. Bens Confiscados é demais vago.

Melhores da Década (90)

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Eis a minha lista que participou da votação da Liga dos Blogues Cinematográficos:

1- Magnólia
2- O Carteiro e o Poeta
3- Tudo Sobre Minha Mãe
4- O Silêncio dos Inocentes
5- Pi
6- Matrix
7- A Lista de Schindler
8- Melhor é Impossivel
9- O Auto da Compadecida
10- Los Angeles Cidade Proibida
11- Thomas Crown
12- História Real
13- Moloch
14- O Poderoso Chefão - Parte III
15- Os Bons Companheiros
16- Amores Expressos
17- O Sexto Sentido
18- Duro de Matar III
19- Louca Obsessão
20- O Mundo de Andy


Muito mais interessante do que fazer a própria lista, que aliás a minha eu achei muito "pop", é descobrir filmes obrigatórios nas listas dos outros. São aqueles filmes que você já ouviu falar, mas ainda não rolou a oportunidade de conhecer. De tanto se repetirem esses filmes abaixo certamente serão procurados por mim no próximo ano:

Os Amantes do Círculo Polar, A Bela Intrigante, O Pagamento Final, A Ostra e o Vento, Ondas do Destino, Desconstruindo Harry, O Jogador, O Gosto de Cereja, os filmes da trilogia das cores e Pulp Fiction (rever urgentemente)

King Kong

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Começando lentamente com as mudanças...


(King Kong, 2005 - NZL/EUA)

Peter Jackson (O Senhor dos Anéis/Almas Gêmeas) fez um filme grande, um filme muito grande. Deve ter gostado das longas durações de seus filmes anteriores e repetiu a dose, para isso esticou bastante e também mostrou aonde gastou centavo por centavo de seu gigantesco orçamento. Mas no filme em si Jackson não tinha muito que inventar, começar situando na época da Grande Depressão, depois dar um ar visionário ao diretor de cinema Carl Denham (algo com espírito de Orson Welles, só espírito é claro), e mais tarde colocar a turma toda num navio rumo a uma ilha jamais explorada para fazer um filme num local totalmente primitivo, algo que o mundo nunca viu. Lá encontram uns nativos que seqüestram a loirinha protagonista do filme para oferecer ao King Kong. E o gorila acaba se apaixonando pela moça até culminar na famosa cena no alto de um prédio importante de Nova York.
Então Jackson resolveu preencher seu filme e decidiu rechear com dinossauros e outros insetos gigantes, e os dinossauros quase ocupam o mesmo espaço no filme que o próprio King Kong. E o miolo do filme é um conjunto de seqüências de ação, desnecessárias, algumas lindas e empolgantes, outras nem tanto. Só depois dessa longa perda de tempo é que o filme volta a história da bela e da fera, e toda a magia que faz de King Kong um mito. Que os efeitos especiais são fabulosos é uma grande hipérbole frisar, o problema é que cinema não deveria ser só isso, os efeitos especiais deveriam estar a serviço do filme e não o filme a serviço deles. Quanto a paixão do gorila pela Naomi Watts, quem não se apaixonaria por ela? Jackson usa e abusa de closes no belo rosto de Watts, está mais do que certo, ela não deveria sair de cena, chega de tanto dinossauro. King Kong está muito humanizado, parece um apaixonado incondicional brincando na neve com sua amada.

O Pré-Fim de um Blog

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Tenho certeza que muitos de nós que formamos essa blogosfera cinéfila vivem com a sombra de até quando continuar com seu blog. A principal razão é a falta de tempo, cada vez ficamos mais exigentes e queremos escrever melhor e melhor (dentro de nossas limitações), e para atingir essa melhoria precisamos de mais tempo, de calma, de atenção, mas principalmente de honestidade nas opiniões. Eu não sou diferente, há meses me pergunto se não é a hora de parar com essa prazerosa brincadeira, porque encaro isso como uma brincadeira, uma válvula de escape da vida comum. Tenho resistido porque o blog me obriga a prolongar os filmes, eles não terminam após os créditos finais, porque depois me sento no computador e relembro, imagino, analiso, curto, assim eles fiquem mais tempo vivos na memória.
Mas não tenho tido tempo para outras coisas que no fundo deveriam ser mais importantes na minha vida do que o blog. O ano de 2005 foi bastante atípico em minha vida, com grandes transformações em diversas áreas e outras que estão prestes a acontecer e irão mudar ainda mais sensivelmente meu dia-a-dia. Com isso tudo que se desenha não haverá espaço para o blog, impossível e a bem da verdade é melhor assim. A vida é de prioridades, vou trocar algo que gosto por coisas que gosto ainda mais, vai ser muito bom.
Só que também não queria acabar de vez com isso, porque fiz boas amizades e receio que sem o blog elas possam afastar-se lentamente. Então a partir de agora pretendo mudar um pouco a maneira de escrever, quero continuar falando dos filmes que vejo, mas não necessariamente de todos com textos longos e nesse formato que uso. Assim vou escrever menos, vou tentar tornar mais pessoal o blog e com pequenas citações, um filme ou outro com maior destaque, não sei ao certo, aos poucos essa mudança vai se solidificar melhor, no começo talvez nem seja possível perceber, mas gradativamente vai acontecendo. É a única maneira que encontrei para continuar com o blog, estou prolongando mais um pouquinho essa minha diversão. Espero continuar contando com as visitas dos amigos (não vou listá-los para não correr o risco de esquecer de alguém) que estão sempre por aqui, obrigado pelos comentários, participações, críticas, visitas e elogios. Abraço.

Cinema Paradiso

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(Nuovo Cinema Paradiso, 1989 – ITA)

Delicadeza! É com profunda delicadeza que Giuseppe Tornatore (Malena/Uma Simples Formalidade) conduz sua homenagem ao cinema. Como se dirigisse cada cena na ponta dos dedos, com todo o cuidado para que soasse leve e bastante delicado. Foi tanto cuidado que chega até a passar do ponto um pouquinho, resgatando o espírito do antigo cinema italiano, e emocionando menos do que poderia, culpa dos excessos.
Trinta anos após ter saído definitivamente de sua cidade natal na Sicília, o cineasta Salvatore recebe um recado sobre a morte de Alfredo. A notícia traz o resgate das lembranças e embarcamos nesse longo flashback, Salvatore ainda criança, descobrindo o prazer do cinema, vive-se o fim da Segunda Guerra Mundial. O padre da cidade aponta as cenas que devem ser cortadas para que o filme seja exibido para a população (principalmente as que contenham beijos), o cinema é o grande divertimento da sociedade.
Pelos olhos desse pequeno garoto assistimos ao fascínio pela sétima arte, não poderia haver melhor homenagem ao cinema do que esse descobrimento fantástico de um pequeno garoto. São inúmeros os trechos de grandes clássicos que o filme resgata: Fellini, Chaplin, Visconti. Alfredo era o projecionista e Totó (Salvatore) herda as funções naturalmente após o surgimento de uma grande amizade entre Alfredo e esse garoto espoleta cada vez mais encantado pelos rolos e películas do Cine Paradiso.
Tornatore cria uma forte relação entre os dois, insere um caso de amor para complementar melhor seu roteiro, mas está nesse triângulo (Alfredo-Totó-Cinema) que está calcada toda a representação da história, toda sua plasticidade e delicadeza. A trilha sonora de Ennio Morricone, a magia que salta aos olhos de Alfredo, o delírio do público com cada filme. E claro a demonstração do tempo atual, do que aquilo tudo se transformou e como o cinema marcou a vida das pessoas. A cena final é o trunfo guardado por Tornatore, se a delicadeza da condução causou um sentimento de afago no filme todo, guarda-se a emoção para os minutos finais, as lágrimas de Salvatore resumem tudo.

O 13º Guerreiro

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(The 13th Warrior, 1999 - EUA)

Numa espécie de churrasco (comparação grotesca, mas resume bem) um homem ouve atentamente a conversa dos demais, em questão de minutos aprende a falar fluentemente a língua deles. Depois de ter visto isso eu deveria ter parado de ver o filme, nada mais que viesse pela frente traria credibilidade ao que meus olhos veriam, maldita mania de não desistir dos filmes por pior que sejam. Isso sem falar em ter que engolir um espanhol interpretando um árabe, só os norte-americanos mesmo.
Começa como aqueles contos de fada que ouvíamos quando criança, um embaixador árabe é enviado ao Norte (nunca sabemos exatamente o que significa esse Norte), mais ao norte ainda um reino está sendo atacado por um mal maligno, tenebroso, tão horrendo que nem o nome poderia ser citado. Uma vidente profetiza que treze guerreiros devem ser enviados no intuito de proteger aquele povo, só que um deles não poderia ser do norte, eis nosso embaixador árabe completando o grupo.
Os terríveis monstros são espécies de ursos que atacam com a neblina, engraçado como são tão aterrorizantes que para enfrentar um bando inteiro desses “ursos” apenas treze homens, e até no esconderijo deles esses bravos guerreiros vão conseguir adentrar. O roteiro faz uma salada com referências à cultura árabe, não explica nada direito e acha que todos devemos nos divertir com a porcaria que nos empurram goela abaixo.
O diretor é John McTiernan (Duro de Matar/Thomas Crown), inegavelmente o cara sabe fazer filmes de ação, mas aqui a história é tão maltrapida que optaram por uma fotografia extremamente escura, como se tivéssemos apenas luz de velas e assim apenas os rostos são expostos na tela. Resultado, não se pode distinguir nada, nem as cenas de luta, nem quem feriu quem, muito menos é possível se identificar com os personagens, exceção ao protagonista Antonio Banderas na pele desse árabe que está mais para praticar hipismo e ainda me aparece com umas idéias geniais.

Morte ao Vivo

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(Tesis, 1996 - ESP)

Se um roteiro inventivo fosse sinônimo de um grande filme, este aqui estaria certamente nessa lista, mas como não é esse o segredo principal resta repartirmos o rocambole e saborear suas melhores partes. Agora que é um filme de suspense com atmosfera muito bem criada e dinâmica bastante interessante, isso não se discute. Alejandro Amenábar (Os Outros/Mar Adentro) estreando na carreira de cineasta dava sinais do que poderia fazer com sua câmera, parece uma história que estaria bem próxima do seu círculo social, pode ser apenas uma impressão.
Ângela (Ana Torrent), uma estudante de cinema está preparando sua tese e o tema é a violência no audiovisual. O que seria apenas pesquisa para sua tese ocasiona uma morte misteriosa e a garota se vê envolvida numa rede de snuff-movies (um gênero de filmes em que as pessoas são torturadas e mortas enquanto tudo é filmado sem cortes). Daí nasce o suspense envolvendo o desaparecimento de uma aluna da faculdade, e também amigos, alunos, professores, amor e muito medo.
Abordar os snuff-movies é bastante interessante, mais do que isso, altamente apropriado para um filme de suspense. É óbvio aonde nossa mocinha será arremessada, e se bem tramado daria um bom filme, mas Amenábar sai sem querer de sua rota criando situações inverossímeis, encontros e desencontros e outros tipos de situações que mais aborrecem do que auxiliam ao filme. Mas por outro lado é muito inteligente ao envolver muitos dos personagens na lista de suspeitos.
O guru de Ângela é Chema um especialista em filmes de horror que veste uma camisa do Canibal Holocausto. Quem aprecia esse gênero de filmes vai se familiarizar com outras citações, sem dúvida alguma. Chema (Fele Martinez) é uma figura bastante interessante, seu personagem torna-se um municiador de informações e tendências, além de carregar toda a veia cômica do filme: “Você é uma privilegiada, nunca deixei ninguém entrar no meu quarto – Mas por que você me deixou então? – Porque você é linda”. Há de existir explicação mais honesta do que esta?

As Amorosas

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(1968)

Filmes muito auto-biográficos podem ser um problema, porque podem se tornar muito representativos para uma única pessoa, o próprio cineasta. Ao que parece Walter Hugo Khouri (Noite Vazia/Anjos da Noite) fez de Marcelo um alter-ego, expurgou nele todos seus receios, angústias, dúvidas, desejos da época da faculdade, e sua juventude. Mas As Amorosas aparece hoje muito velho, mal envelhecido, pedindo talvez um upgrade que não é possível.
De longe o distanciamento que Marcelo sente da maioria dos universitários é o que parece ser mais interessante. Aquela visão superior que ele possui, como se os outros fossem vazios, seguidores de um padrão de comportamento social onde seguem regras fixas e se tornam incapazes de agir por vontade própria. Por outro lado há a seqüência final que aponta para um outro nicho da juventude, os desordeiros que também seguem um padrão específico. Como se fossem várias tribos com diferenças aparentes, só que idênticas no mais íntimo, no alicerce.
Marcelo busca refugio das mulheres. No carinho que sua irmã não lhe nega. No sexo que uma atriz de quinta pode lhe oferecer, sendo que ele não vê nela um mínimo de inteligência. Ou ainda no namorico com uma universitária de quem ele reprova as amizades e alguns comportamentos. Marcelo vive a fase da contestação, não quer um emprego, e discorda de todos os caminhos que os a sua volta tomam.
O difícil é extrair isso e muito mais do que oferece Khouri, seu filme é cansativo, os discursos de Marcelo sonolentos e algumas situações parecem equivocadas, tolas, principalmente a seqüência final que para mim é de um mau-gosto incrível. Novamente volto a pensar comigo que talvez seja eu incapaz de compreender sua arte (assim como a de outros cineastas), mesmo admirando sua coragem de fazer seu próprio estilo de cinema enquanto o Cinema Novo tilintava pelo mundo. As Amorosas me parece com peças difíceis de encaixar.

Uma Rua Chamada Pecado

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(A Streetcar Named Desire, 1951 - EUA)


Desejo não é somente o letreiro do bonde a qual Blanche DuBois deve tomar ao sair da estação de trem para dirigir-se a casa de sua irmã. Desejo é um dos principais elementos enraizados nos diálogos travados por ela e seu cunhado bruto, adaptados da peça homônima de Tennessee Williams. Aliás, a irmã é apenas ponte, mera coadjuvante funcionando para dar sentido a algumas seqüências, ao enredo.
A tensão fica mesmo com o marcante Stanley Kowalski, e sua famosa camiseta branca colada ao corpo, de onde quase podemos sentir o suor de sua vida viril, suas bebedeiras e jogatinas, o trabalho pesado, o boliche com os amigos. A chegada da cunhada Blanche desequilibra a vida do casal, o que seria uma pequena estadia prolonga-se durante meses. Não só a falta de liberdade afeta Stanley e sua esposa, Blanche é uma mulher neurótica, desequilibrada, dissimulada. O confronto entre esses dois titãs é fatal, irremediável, e logicamente atinge diretamente o casal.
Elia Kazan (Vidas Amargas/Sindicato de Ladrões) soube adaptar os personagens ao cinema, mas há fragilidade em diálogos e situações. Como se o clima fosse armado, mas o que se vê e ouve não condizem exatamente com ele. A força fica nas duas atuações monstruosas de Marlon Brando e principalmente Vivien Leigh, nada a se comentar, apenas apreciá-los. Aquela casa parece em alguns momentos próxima ao ponto de ebulição, eles discutem, flertam, desejam, odeiam, uma explosão de emoção e sentimentos, malícias e pensamentos.
A ausência da figura de heróis e vilões dá maior dramaticidade, é uma guerra familiar, daquelas que a maioria das famílias conhece. Dinheiro é apenas um dos problemas, mas não é o único, há disputa por espaço, por atenção, por comando. A vaidade está enrustida dentro do desejo que aflora dos personagens, o descontrole é total. Pena que tudo isso é sentido exclusivamente nas atuações, se não fossem os atores o filme não seria nem um terço do que se tornou.

Blanche DuBois (Vivien Leigh) Stanley Kowalski (Marlon Brando) Stella Kowalski (Kim Hunter) Mitch (Karl Malden)

Lanternas Vermelhas

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(Da hong deng long gao gao gua/Raise the Red Lantern, 1991 - HK)

Não sei se era bem essa a intenção, mas na prática Zhang Yimou (Nenhum a Menos/Herói) construiu um filme pautado na eterna disputa feminina. Aquela velha história da rixa entre as mulheres, a inveja, o desejo de ser melhor que as outras e etc. Tudo bem que pode parecer um discurso muito machista, só que na prática isso acontece na maioria das vezes, as mulheres disputam entre si e não medem esforços para isso.
China no início do século passado, um ricaço mantém muitas das tradições de sua família, como manter casamento com diversas esposas ao mesmo tempo, fazendo-as almoçarem diariamente juntas e as colocando para morar numa espécie de vila particular onde cada uma tem sua casa de frente para a outra. Todos os dias o marido escolhe com qual delas vai passar a noite e o sinal é a colocação de inúmeras lanternas vermelhas na porta da casa da escolhida, cada um delas espera ansiosamente na porta de sua casa (imaginem a disputa que não se forma entre elas).
É óbvio que vai se criando uma terrível guerra, o filme é focado na quarta esposa, uma jovem que chegou a cursar faculdade, mas foi obrigada pela família a se casar. Cada uma das mulheres tem personalidades e idades bem diferentes, e cada uma usa de suas armas para ter a preferência do marido (ou só para se vangloriar perante as outras). Não há limites, não há pudores, não há escrúpulos.
Yimou abdica da figura masculina no filme, todas as vezes que o marido aparece em cena a câmera se afasta sendo impossível distinguir sua fisionomia por exemplo. A verdade é que ele não é importante, nenhuma diferença faz em sabermos quem ele é. O foco é a disputa interna, uma finge estar doente, outra inventa uma gravidez, magia negra. Quando as mulheres declaram guerra, ninguém pode detê-las. Mas o filme de Yimou é de pouca ação, é de pouca emoção, é uma interessante história que na prática enche nos olhos com a beleza e o colorido das imagens, mas não chega a empolgar, não chega a ter contundência, em momento algum emociona, daquele tipo que tem tudo para ser um grande filme, mas não consegue ser.

Songlian (Gong Li) terceira esposa (He Caifei) segunda esposa (Cão Cuifen)

O Filho da Noiva

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(El Hijo de la Novia, 2001 - ARG)

Em algum momento da vida você vai se dar conta das coisas que são realmente importantes. Talvez essa visão imprescindível venha tarde demais, quando lhe restar apenas um fio de vida, ou quando já for impossível corrigir alguns erros, mal-entendimentos ou escolhas incorretas. Em outros casos (raríssimos) essa percepção de valores importantes pode vir mais cedo e desde então haverá um longo caminho a se trilhar, aproveitando o que de melhor, a vida, tem a oferecer a cada um.
Essa mudança de panorama pode chegar pela experiência, pela percepção de seguir pelo caminho errado, e até mesmo por um acontecimento marcante que te faça repensar a vida, rever conceitos. Rafael Belvedere poderia muito bem ser inserido nesse último caso. No auto de seus quarenta e dois anos administra o restaurante que herdou da família, sua rotina é puro stress, preocupação com fornecedores, pagamentos, funcionários e etc, etc, etc. Divorciado, pouca atenção sobra para a filha, ou até mesmo para sua jovem namorada. Seu único momento, consigo mesmo, é de madrugada, sozinho, à frente da TV com um pote de sorvete.
A mãe sofre de Alzhemeier e o pai diariamente desdobra-se em carinho para estar ao lado de sua amada. Deseja ele realizar o grande sonho de sua esposa, casar-se na igreja, mesmo que pareça uma loucura com ela nesse estado de saúde. Sob toda essa pressão diária Rafael sofre um infarto, os dias na UTI, o reencontro com um amigo da infância, e principalmente a percepção dos rumos que sua vida havia tomado fazem Rafael refletir.
Até que ponto vai à importância financeira na vida de alguém? Qual a real função da família? E seu filho, você lhe dá a devida atenção, você oferece carinho, amor, atenção e passa bons momentos ao se lado? O amor? Ter alguém ao seu lado é apenas para oferecer sexo, uma companhia (ou obrigação) para alguns programas e jantares, e de resto alguém para te tirar do sério, e azucrinar sua vida? Essas são apenas algumas questões a serem levantadas para aquele que olhar o filme além de um dramalhão divertido, envolvente e emotivo, e não se preocupar com a fotografia de cores exageradamente fortes, ou qualquer outro detalhe técnico.
O filme de Juan José Campanella (Um Mesmo Amor, Uma Mesma Chuva/Clube da Lua) oferece a possibilidade, para aqueles que ainda não enxergaram, de olharmos para nossas próprias vidas e refletirmos se estamos no caminho certo, ou se há pequenas coisas que poderíamos mudar facilmente, e trariam um acréscimo tão grande de qualidade de vida. Muito mais interessante do que falar da vida de Rafael, ou da linda história de amor de seus pais, é olhar para si mesmo e pensar se você vai precisar sofrer um infarto ou coisa pior para começar a mudar alguns péssimos hábitos.

Rafael Belvedere (Ricardo Darín) Nino Belvedere (Héctor Alterio) Norma Belvedere (Norma Aleandro) Juan Carlos (Eduardo Blanco) Naty (Natalia Verbeke)

Violência Gratuita

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(Funny Games, 1997 - AUT)

Tinha tudo para ser mais um filme de suspense, como disse tinha tudo, mas não é. Michael Haneke (Caché/Código Desconhecido) nos propõe uma discussão salutar, ou melhor, propõe nada ele acusa. E a acusação é contra o espectador, contra o próprio público. Uma crítica cáustica à cumplicidade do espectador que incentiva mais e mais o aparecimento de novos filmes que incitam a violência de maneira gratuita, sem uma única razão de ser, além de entreter (e lucrar com isso obviamente).
Se não houvesse tanto interesse, não viveríamos sob essa enxurrada de valentões preparados a disparar milhões de vezes durante seus filmes. E mais do que ir atrás desses filmes o público vibra com esse massacre descabido. E o que faz Haneke para confeccionar tamanha crítica? Pois bem, o diretor deixa clara a posição do espectador como cúmplice, dois jovens psicopatas aterrorizam uma família que estava saindo de férias, para sua casa de campo, com jogos psicóticos e violentos. Não há razão alguma para esse comportamento, além do puro prazer em humilhar, em abusar, em machucar, em aterrorizar.
E um desses psicopatas dialoga com a câmera, faz comentários, dá algumas piscadelas. É o pretexto para que tenhamos a sensação de estarmos sentados num sofá daquela sala apenas exercitando nosso voyeurismo, enquanto os dois deliciam-se em destruir aqueles pobres seres humanos. Novamente Haneke faz um filme instigante, o incômodo sai de dentro do estômago, os dois algozes são irritantes. E é exatamente isso que o cineasta pretende, nos incomodar a qualquer custo, para isso ele criou diálogos enervantes, irritantes mesmo, queremos nos livrar daquela cena, daquela situação.
As cenas de violência são cruas, diretas, cirúrgicas, os longos planos sempre aparecem após situações-limites, trazendo mais contundência, criando um espaço para reflexão, dando-nos um respiro. É Haneke destilando seu estilo, um diretor focado em seu objetivo principal, um exercício de direção, de controle não só do que estamos vendo, como do que iremos sentir. Não é filme de fácil digestão, muito menos daqueles filmes que correm tranqüilos como mero passatempo. Discutir a violência gratuita no cinema é bastante complexo, inúmeros serão os detratores, mas Haneke soube muito bem expor seu ponto de vista e desenvolvê-lo, sob uma história de ficção.

Ana (Susanne Lothar) Georg (Ulrich Mühe) Paul (Arno Frisch) Peter (Frank Giering)

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v e r b e a t  b l o g s

Michel Simões