Daunbailó

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Down by Law (1986 - EUA)

Dois casais, em um deles a mulher reclama que ele não pensa no futuro, que é impossível manter um relacionamento com ele. No outro, a mulher divaga que ele é focado excessivamente no presente, que não pensa no futuro. Assim começa mais um filme de Jim Jarmusch, o tempo das cenas é impressionante, pausado, sereno, o foco está na cena, em todos os elementos que a compõe, não especialmente no que ela pode representar no desenrolar da história. Aliás, a história é bem simples, os dois caras desses casais caem em ciladas armadas contra eles e vão dividir uma cela na prisão. Há uma conexão entre as duas ciladas, apenas uma pitadinha de humor para o público, não fará diferença nenhuma aos personagens. Há um terceiro, um imigrante italiano que não fala bem o inglês e acaba na mesma cela que eles. Nasce uma amizade, torta, do tédio que aquele cubículo sem janela pode propiciar.

Depois da rápida introdução pré-cadeia o filme se divide entre eles naquela cela ou fugindo pelo mato, Jarmusch conduz essa relação entre dois sujeitos vacinados pela malandragem e outro tão "inocente", de forma a mostrar que a amizade pode não só surgir de locais inusitados (entre pessoas tão diferentes, nisso o foco presente/futuro é ferramenta a evidenciar a disparidade entre os dois), como também mostrar facetas de um relacionamento que só quem está dentro é capaz de compreender comportamentos, como dois amigos porco-espinhos que sabem que um abraço pode machucá-los.

A Voz Solitária do Homem

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Odinokiy Golos Cheloveka (1978 - RUS)

Filmado como trabalho de conclusão de curso, foi recusado como tal para anos mais tarde finalmente ser lançado marcando a estréia de Aleksandr Sokurov cujo roteiro baseava-se em textos do escritor Andrej Platonov. Retratando a década de vinte, o filme é centrado (se é que podemos dize que o filme tenha algum foco de tão fragmentando e rarefeito) num solitário homem atormentado pelas lembranças da guerra civil. Entre os assombros daquela época o solitária encontra refugio ao propor a um recém-viuva que vivam como marido e mulher.

Muito se fala do início das marcas de Sokurov, só que a característica marcante é essa fragmentação, essa onipresença de uma história retilínea, são apenas momentos entrecortados pela casa singela de tinta descascando e a pequena paisagem bucólica pela janela enquanto o novo casal tenta adaptar-se aos novos tempos. Um filme de sentidos, de flashes surgidos da memória, de vibrações eclipsadas por uma trilha sonora pontual.

Cabeça a Prêmio

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(2010)

Gosto particularmente das soluções escolhidas por Marco Ricca em cada cena, como era de se esperar sua estreia marcaria um estilo mais autoral, alguém fugindo da imagem limpa e direta. Isso não implica num grande filme, a boa vontade de Ricca esbarra num roteiro sem inspiração e numa frágil direção de atores. Falta brilho nos filmes policiais brasileiros, falta ritmo, a opção pelo caminho mais lento não condiz com a vibração do gênero. Fica tudo muito seco, e com as artimanhas da trama esbarrando em sua própria obviedade torna-se difícil alguma empolgação nessa historia envolvendo contrabando, interesses escusos e amor.

Ricca divide o filme em três pequenos núcleos que se entrecruzam, um piloto de avião namorando as escondidas a filha do patrão, dois irmãos enriquecendo ilegalmente numa cidade na região do Pantanal, e dois capangas especializados no trabalho sujo. Ricca tenta dar alma a cada uma dessas sub-tramas, enquanto alguém tem a cabeça a premio, o diretor desenvolve bem os dramas de cada um desses micronúcleos.

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(2010)

Fim dos trailers, a poderosa e conhecida imagem da 20th Centry Fox aparece, sinal que o filme vai começar, ouve-se um grito no público:" Vai Corinthians", a galera vibra, estamos no cinema, mas não é um filme comum. Praticamente uma aula de história sobre o Corinthians, desde a iniciativa da fundação até o último título e a imagem de Ronaldo com a taça na mão lá se vão 100 anos de histórias, glórias, vitórias e derrotas.

O documentário dirigido por Ricardo Aidar e André Garolli até que se esforça em abranger o máximo da história do clube, preocupa-se com o aspecto visual, com brincadeiras gráficas e reconstituições de momentos e jogadores importantes cujo registro de imagem não existe. Sem dúvida que o propósito é par um público especial, totalmente dirigido, sem grandes preocupações com o cinema em si, ainda assim o filme poderia ter se aproveitado da riqueza nos depoimentos com figuras com boas histórias para contar, Sócrates, Wladimir, Zé Maria, Biro-Biro e tantos outros, de fato o filme preocupa-se demais com os fatos e não com as particularidades, com aqueles detalhes capitais que poucos conhecem e podem divertir. Claro que todo corinthiano vai se emocionar, vibrar, festejar e tinha realmente gente chorando durante a projeção. O resgate do passado é sempre mais que bem-vindo, mas no fundo não passa de um grande especial do Esporte Espetacular, é televisivo e raso.

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Semih Kaplanoglu filmou a trilogia de um personagem em cronologia decrescente, Yusuf é adulto no primeiro filme, no seguinte um estudante e no último um garoto. Kaplanoglu mostra-se tão arrogante em sua necessidade de ser poético que segue um mesmo personagem e nega ser o mesmo personagem (não sei a quem ele consegue enganar). Todas as características se conectam num mesmo Yusuf, mas quando alguma data surge na trilogia é para desmentir, só que a presença do leite, da literatura, tudo tão forte e que funcionaria a favor da trilogia tudo tão presente a desbancar a preferência de Kaplanoglu em transformar em mimos seu cinema de arte.


Egg (Yumurta / Egg, 2007 - TUR)

Yusuf é dono de um sebo após uma frustrada tentativa de ser poeta. Ele volta a sua terra natal para o enterro da mãe, ali reencontra amigos e familiares. A fotografia dá sensação de envelhecido, de um tempo antigo, enquanto ele se encanta com a beleza e dedicação da prima que morou com sua mãe até seus últimos dias. Não estamos aqui atrás das respostas do porquê Yusuf distanciou-se da família (principalmente da mãe), o filme está muito mais focado em pequenas cenas, em micro-sensações, num personagem sem jeito e uma casa singela, nos sonhos de uma jovem que pouca ideia faz do mundo lá fora.



Leite (Süd / Milk, 2008 - TUR)

Yusuf e sua mãe são leiteiros, de manhã eles ordenam as vacas e mais tarde Yusuf sai vendendo pelas casas. Ele almeja ser poeta, mas não é aprovado na faculdade e nem no serviço militar (vida de frustrações), aqui a arrogância estilística de Semih Kaplanoglu atinge seu auge com silêncios e lentidões que almejam uma poesia que não existe efetivamente. A fase de decisões profissionais esbarra em todas essas dificuldades, Yusuf vê os amigos também com as mesmas aflições, empregos braçais ou a vontade de tentar a vida na metrópole.


Um Doce Olhar (Bal / Honey, 2010 - TUR)

Sem dúvida o mais bem estruturado (não o melhor da trilogia), as obsessões de Semih Kaplanoglu estão bem definidas aqui. Busca-se o fim da inocência pelos olhos do pequeno Yusuf aos seis anos de idade. O pai cultiva colméias, vive da extração e venda do mel, um pequeno vilarejo dentro da floresta de um verde reluzente enquanto o escuro privilegia os ambientes fechados. O garoto detesta tomar leite, e encanta-se em aprender a ler e escrever (na cena mais bonita ele quer ganhar seu broche de premiação na escola e decora um texto para ler em voz alta, mas o professor escolhe outro texto e ele é pego de surpresa).

A primeira cena marca um acidente, mais tarde entenderemos quem era e quanto a vida de Yusuf será alterada com tal acidente. Kaplanoglu esforça-se em cativar o público e o pequeno ator Bora Altas é o detentor dos méritos no falar cochichando, no contar os sonhos, na timidez com que olha os amiguinhos ou foge do puxão de orelha por não ter feito a lição, porém a mão do cineasta continua pesada em sua necessidade de poesia da imagem, no desejo de fazer um filme dito de arte, quanto mais se almeja esse caminho, menos se obtém sucesso, estamos novamente cansados por seqüências lentas sem relevância.

Paris, Texas

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Paris, Texas (1984 - EUA)

A sensação de vazio, de solidão, é algo assim impressionante, até que o misterioso homem que vagava moribundo pelo deserto começar a se envolver novamente com sua família (incluindo seu filho) e soltar, pelo menos um pouco, dessa tristeza profunda que resguarda, já teremos nos envolvido com toda a dor solitária que ainda nem temos idéia das razões que a fizeram surgir. E não é só o deserto árido da paisagem, ou da música de Ry Cooder, não, é mais profundo, é o vazio demonstrado pelo ator Harry Dean Stanton, é a imensidão de pesar que ele parece carregar na alma.

Os laços de sangue são outro ponto arrebatador, mas a relação pai-filho não se compara à cena na cabine com a Lolita, Nastassja Kinski, onde finalmente tudo se encaixará e Wim Wenders mostrará que o amor é assim, cego, inconseqüente, devastador, e causa feridas incuráveis como esse vácuo que desconcertou Travis a ponto de jogar quatro anos fora, que dirá os desesperançosos que virão pela frente. Wenders fala de sonhos, fala da irracionalidade humana e de como se destroem relações pela pura incapacidade de não se saber vivê-las.

Alice nas Cidades

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Alice in den Städten / Alice in the Cities (1974 - ALE)

Phillip (Rüdiger Vogler) viaja aos EUA para escrever um livro/artigo, volta com um punhado de fotos tiradas em sua polaroid e nenhuma linha escrita, além da demissão furiosa de seu editor. No aeroporto conhece a pequena Alice (Yella Rottländer) e sua mãe. A mulher desaparece deixando um bilhete ao desconhecido Philip para cuidar de sua filha e encontrá-la em Amsterdã dois dias depois.

Começa uma história de afeto, Phillip cruza cidades e mais cidades da Alemanha embalado pelas lembranças de uma garota de nove anos largada por uma mãe, desamparada da figura que transmite segurança, buscam a casa da avó enquanto dividem experiências, vivências, e o silencio do estranhamento de dois desconhecidos perdidos vagando por uma pista como uma agulha num palheiro. Phillip mais que se sensibiliza pela menina, mais que se apega àquela doce criança que se sente jogada sozinho no mundo dos adultos, ele praticamente busca um alento para a solidão que ele mesmo se impôs.

A Aurora de um Amanhã

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The Dawn of a Tomorrow (1915 - EUA)

Mary Pickford é Glad "a orfã mais feliz de Londres", ela é a protagonista do núcleo pobre, moradora de um vilarejo e apartamento muito parecidos com que Charles Chaplin seria eternizado). De outro lado há o homem rico e seu sobrinho de caráter duvido esperando pela herança. Por mais que a realização do diretor James Kirkwood não passa de bobinha cismando com um feijão-com-arroz, há alguma leveza e graça (talvez na presença de Pickford) transformando tudo aquilo numa agradável história (de algo que hoje estamos carecas de saber, a busca pelos valores morais, por uma vida mais feliz e menos focada em bens e poder).

Following

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Following (1998 - ING)

Em seu trabalho de estréia, Christopher Nolan já apontava para uma de suas características marcantes. Não, não eram grandes seqüências com efeitos especiais ou perseguições, e sim roteiros cerebrais, extremamente racionais, e um desejo de embaralhar o público, uma vontade nata de surpreender, de pegar desprevenido. Filme de baixíssimo orçamento, branco e preto, os cenários ou são apartamentos, ou bares, ou as ruas mesmo, resumindo: o que se tivesse disponível sem custo. A história de um aspirante a escritor contando a seu terapeuta sobre a obsessiva manifestação de seguir estranhos pela rua, sem motivo aparente, apenas pela curiosidade de segui-los, de descobrir para onde iam, em que horário. Nesse hobby bizarro sua regra era não repetir qualquer pessoa, não possuir um alvo. Dessa brincadeira ele cai nas garras de um malandro profissional cujo hobby-profissão é de invadir casas que estejam vazias, tirar coisas do lugar, roubar cd e outros pequenos objetos e simplesmente viver da emoção e dos pequenos frutos dessas invasões.

A trama planeja tornar-se complexa, nas mãos de um jovem visionário como era e é Nolan, ganha contornos de um filme esperto, e se guarda uma reviravolta como esperança de grande sacada, nas minuciosidades temos parte da complexidade que estaria presente nos próximos filmes desse cineasta que não passa indiferente. Following é quase um trabalho experimental, talvez uma obra de conclusão de curso, é um filme milimetricamente pensado.

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If I Want to Whistle, I Whistle (2010 - ROM)

O cinema romeno deixou de ser novidade, seu status já enquadra-se numa realidade estável de filmes críticos e dotados de características marcantes próprias, que muito os aproxima, esbanjando versatilidade, enquanto alguns nomes despontam no cenario internacional pela criatividade e excelência. O cineasta Florin Serban trata aqui de uma outra realidade ainda não abordada, tantos emigraram para a Europa Ocidental devido a crise e recessão pós queda do Muro de Berlim. E os que ficaram? E os familiares? Os adultos levaram seus filhos ou os mesmos ficaram sob cuidados de outros parentes, ou pior à sorte da vida?

Silviu (Pistireanu George) é dócil no convívio no reformatório, pelo ótimo comportamento já está prestes a receber sua liberdade. O retorno da mãe aflora a fúria, o temor de que a família volte a desfigurar-se como no passado (na verdade sua família é somente seu irmão). O desespero do garoto é latente, a mudança de comportamento, Serban esquematiza o descontrole, a panela de pressão que se torna a consciência desse jovem enjaulado enquanto sua única raiz verdadeira com a sociedade pode ser desfeita, assim como ele tão bem sabe por experiência.



v e r b e a t b l o g s

Michel Simões

  • 31 anos, cinéfilo, teimoso, assiste 200 filmes por ano e acredita ter uma vida quase normal.

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