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1) Boas estreias como Horas de Verão, Casamento Silencioso, Paris, mas não vejo a hora mesmo para ver Inimigo Público nº 1


2) Segue no Cinemark as exibições de Almodovar, tem Labirinto de Paixões, Maus Hábitos e Que Fiz eu par Merecer Isto?


3) Sessão Cinéfilo do Espaço Unibanco tem Dez do Abbas Kiarostami (alguém quer um filho igual aquele?); no Cine Segall tem Contra a Parede


4) Programação imperdível da Cinemateca
07.07
| TERÇA
SALA CINEMATECA PETROBRAS
19h00 MADEMOISELLE NOUVELLE VAGUE | ATIREM NO PIANISTA
21h00 MADEMOISELLE NOUVELLE VAGUE | A BAÍA DOS ANJOS
08.07
| QUARTA
SALA CINEMATECA PETROBRAS
16h30 MADEMOISELLE NOUVELLE VAGUE | UM SÓ PECADO
18h30 MADEMOISELLE NOUVELLE VAGUE | MADE IN U.S.A.
09.07
| QUINTA
SALA CINEMATECA PETROBRAS
16h30 MADEMOISELLE NOUVELLE VAGUE | A NOIVA ESTAVA DE PRETO
18h30 MADEMOISELLE NOUVELLE VAGUE | A BAÍA DOS ANJOS
20h30 MADEMOISELLE NOUVELLE VAGUE | ATIREM NO PIANISTA


5) E fora isso começa a 4ª edição do Festival de Cinema Latino, p/ ficar de olho na programação principalmente porque há vários dos filmes brasileiros que estão em cartaz e o preço do ingresso é bem convidativo.

Paris

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Paris (2008 - FRA)

A ideia de Cédric Klapisch é clara, apontar um pouco de sua visão de Paris, enaltecendo a cidade por meio de tipos que ele conheceu, vivenciou, ouviu falar, encontrou na rua. Assim ele recorre a imigrantes, estudantes, profissionais liberais, o pessoal da feira, assistente social, arquitetos, enfim uma infinidade de raças, classes sociais, essencialmente um filme sobre pessoas dialogando com a cidade. Dentro desse contexto os personagens se esbarram pela cidade (não há uma preocupação em conectá-los essencialmente, apenas uma sutil composição para provar que vidas riem e sofrem simultaneamente umas às outras, na mesma rua, no prédio em frente). Klapisch assumiu que o ponto inicial é a cena em que Pierre (Romain Duris) vai de táxi ao hospital e deita-se no banco traseiro admirando a cidade de seus cidadãos. Partimos dele então, um jovem dançarino com problemas cardíacos, à beira da morte. Sua irmã Elise (Juliette Binoche), solteira, divide-se entre o trabalho, os três filhos pequenos e os cuidados do irmão, e a necessidade de um amor, de um homem para dividir seus momentos. A relação fraternal é apenas um dos temas, ela se repete com o divertidíssimo historiador Roland (Fabrice Luchini) que em crise de meia-idade acaba de perder o pai e apaixonar-se por uma de suas alunas, e enxerga no irmão o oposto de si (parte do queria e parte do que repudia). Destes dois grandes pólos desfilam outros tantos personagens como a indelicada e cítrica dona da padaria, o fruto feirante da barraca de peixe, e até o camaronês que tenta clandestinamente chegar a Paris. Esse bolo de sabores distintos resulta num filme estranhamente apático de momentos isolados delicados e até inesquecíveis. Pierre da varanda enxerga a Torre Eiffel, a neve cai enquanto ele avista a cidade em mais um de seus momentos de sutileza melancólica. Uma frase capciosa acaba com a noite de hormônios incandescente pela lembrança recente de um amor interrompido pela ironia do destino. Binoche nos brinda com um desses momentos eternos num pequeno e encantador strip-tease onde há sim sensualidade, mas acima de tudo um sorriso, um reencontro com o prazer de viver, de sentir a emoção, de se permitir momentos de felicidade. Paris é tudo isso e muito mais, louvável que Klapisch tenha tentado, a seu modo, resumir Paris num filme, desajeitado, meio manco, mas ainda assim com um quê de verdade.

Jean Charles

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(2009)

Nota-se uma preocupação em não exagerar nas tintas, em não fugir de um formato literalmente comercial, o intuito seria de não fugir ao grande público, o apelo comercial do filme é grande (prova a quantidade de salas que ocupou na estreia). Esse cuidado de Henrique Goldman lança seu filme no comentário requintado que emerge do boca-a-boca, de um filme arrumadinho, direitinho. Bonitinho, mas ordinário? Nem tanto, é bem verdade, mas que Goldman não se preocupa em ir além das limitações mínimas a que se impôs, isso é fato. Selton Melo (e um incrível sotaque mineiro) personifica o brasileiro morto sumariamente no metrô londrino, e a figura do malandro cheio dos meandros e amizades para se dar bem na Inglaterra cai-lhe como uma luva. Quando tanto se fala em imigrantes ilegais, em inúmeras maneiras (arriscadas) de driblar fronteiras e ingressar nos países ricos, aparece muito bem pontuada a história de sobrevivência de um (valendo por milhares). Por mais que trace a biografia dos últimos meses de vida de Jean, o foco do filme é todo na questão da imigração, desse estilo de vida desde o trabalho na construção civil, a cooperação entre os experientes e os que chegam sem pronunciar uma palavra em inglês (ou melhor, a relação desse micro país criado no estrangeiro onde há brasileiros que só se relacionam com brasileiros e passam anos sem aprender a falar o idioma).

Seguindo o jeito expansivo e divertido de Jean o filme corre leve, engraçado entre tantas trapalhadas, o personagem parece sob medida tamanho seu envolvimento com comunidades, passaporte, e ambição exagerada. A transição da historia após a morte é outro ponto que não funciona bem, Goldman não conseguiu escapar do melodrama, daquela música irritante, e a ausência de Selton começa a fazer falta. Eis que Luis Miranda surge para tomar conta das lacunas, nos remetendo as duas melhores cenas do filme (o primeiro contato com a imprensa, que é de arrepiar, e quando recebem o cheque das despesas com o funeral). Perde-se a chance do algo mais para oferecer aquilo que já se esperava, e a vida de Jean Charles se repete entre tantas outras que conhecemos, quer dizer repetia-se antes do fim trágico, absurdo, e que deixa qualquer um no limite da revolta.

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(Ascenseur pour l'Échafaud, 1957 - França)

A estreia de Louis Malle (filme este um dos precursores da Nouvelle Vague) denota aquela sensação de prazer único, de leve conforto ao ser conduzido a uma intricada trama policial com leve nota humorística, guiada pelo jazz mágico de Miles Davis e pelas loucuras insanas de um roteiro plausível. A historia guarda amantes planejando assassinato de olho na herança, um casal de delinquentes de ocasião, um elevador como álibi e uma câmera fotográfica esquecida. Malle nos oferece tantas alternativas que o desespero pela madrugada de Florence Carala (Jeanne Moreau) não parece ter contato tão direto com Julien Tavernier (Maurice Ronet) impossibilitado de seguir adiante com o plano arquitetado, e dentro de tantas idas e vindas, e o poder avassalador do acaso, surge o desfecho surpreende (assim como a não menos surpreendente virada na história e caça de suspeitos pela polícia). A maneira como Malle conduz o espectador, seja por seus recursos técnicos, seja pela leveza em tratar crimes e mortes de maneira tão espirituosa, reflete no resultado acalentador e singelo de um noir por excelência.

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Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios (Otac Na Sluzbenom Putu, 1985 - IUG)

Tantas mudanças acontecendo à sua volta e o pequeno Malik Malkoch (Moreno D'e Bartolli) no alto de seus seis anos divide-se entre ouvir jogos da seleção iugoslava pelo rádio, economizar dinheiro para comprar uma bola e apaixonar-se pela amiga com quem faz os deveres de casa. Emir Kusturica faz do garoto narrador, a honestidade com que o cineasta trata essa visão de um mundo tão complexo e indecifrável ao pequeno apregoa ao filme algo maior que ternura, um encontro com a credibilidade, com uma família crível. Nesse resgate à pós-segunda guerra, do governo de Tito e da influencia stalinista, Kusturica expõe a perseguição desenfreada aos contrários (ou os que se supunha fossem) ao regime, quando o pai é acusado pelo próprio cunhado (que trabalha na polícia secreta). A família fica aos frangalhos, tanto financeiramente como nas relações inter-pessoais. A Malik dizem que o pai foi viajar a negócios (e novamente o garoto a ver navios). Dando um drible no dramalhão Kusturica, deixa de lado a crítica político-social em detrimento a essa relação compassiva e afetuosa com um pequeno garoto de sonhos tão lisonjeiros e cristalinos envolto a uma vida de segredos e pequenas mentiras de uma família equilibrando-se para manter-se unida.

Happy Hour na Toca XXXI

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1) Enquanto muita gente corre para ver Transformers 2, eu prefiro me concnetrar em A Erva do Rato e Jean Charles. Este último, com um pequeno valor sentimental, meu tio morou alguns anos em Londres e chegou a conhecê-lo (ou quase isso, vou checar melhor para ter mais inofmrações). A Mostra Panorama Francês terminou e agoras os filmes começam a ser lançados, o primeiro é o bonito Há Quanto Tempo que Te amo.


2) Repercutindo muito a morte do rei do pop Michael Jackson. Um cara que fez o que fez para depois optar pela bizarrice, há anos desprezo esse ser abominável, prefiro repercutir a morte da eterna pantera dos seriados, Farrah Fawcett.


3) E o Oscar resolveu agora que serão 10 os indicados a melhor filme. O que isso signica? Ao invés de aturar marketing de 5 filmes, teremos o dobro e com isso mais espaço para filmes medíocres e fracos. Os bons filmes estariam lá de qualquer jeito, triste essa jogada de marketing que nos EUA deve fortalecer muitas bilheterias


4) A Reserva Cultural está dando um banho de programação, muita gente sabe do meu não-interesse pelo cinema de horror, mas é louvável e porque não necessário elogiar a iniciativa do SP Terror, festival voltado para novidades e tendências do gênero. E olha só o destaque, o belíssimo Deixa Ela Entrar (texto abaixo).

Deixa Ela Entrar (Laat den Rätte Komma in / Let the Right One In, 2008 - SUE)

Aos dozes anos Oskar (Kåre Hedebrant) é um garoto solitário, filho de pais separados. A mãe o trata como um bibelô enquanto no colégio sofre agressões e judiações dos colegas, típica criança introvertida e envergonhada em suas relações. Entre suas predileções está o brincar no playground do prédio onde mora, encontra ali a maneira de divertir-se dentro de sua solidão, e naquele ambiente que lhe é seguro conhece a nova vizinha, Eli (Lina Leandersson). A amizade é rápida, na velocidade que só as crianças sabem contornar, e Eli e Oskar descobrem um tipo de afinidade que nunca havia sentindo antes. A relação mais que amistosa dos dois é narrada sutilmente pelo diretor Tomas Alfredson demonstrando inicialmente uma incrível capacidade de tornar homogêneas ternura e violência, nesse ambiente levemente hostil e gélido de neve caindo e individualidade aflorada em ambos.

Uma série de assassinatos sangrentos ocorre na região, parte da população está aterrorizada, no frio moribundos, alcoólatras, qualquer pessoa solitária caminhando pelas ruas acaba atacada brutalmente. O filme começa a entregar seus segredos, Eli é uma vampira, o que se apresentava como uma dócil e singela garota é capaz dessas "atrocidades" por sua subsistência. Nesse contexto surge seu protetor, seria ele seu pai ou um homem apaixonado por essa garota, renegado a acobertar seus passos e auxiliar na tarefa de encontrar sangue novo. Volto a revirenciar o trabalho de Alfredson em sempre resgatar com delicadeza a figura de Eli que com o passar da relação vai descobrindo na convivência com Oskar a maneira de se viver no mundo aos doze anos. Invariavelmente os dois se apaixonam, e cada cena relacionada a este sentimento é linda. Desde os olhares inocentes aos diálogos atrevidos, e o ápice na cena em que os dois deitam na cama, a discussão sobre namoro, a maneira como se comunicam pela parede. O amadurecer da adolescência, Oskar aprende a revidar às violências dos colegas enquato Eli vive um mundo de descobertas (detalhe que essa singeleza seja sempre precedida de sua necessidade por sangue). Na fase final a opção de Alfredson é pelo clichê, pelo mais que esperado, e o todo decepciona um pouco já que o que havia de melhor no filme fica deixado de lado. Faltou pouco para Alfredson acertar do início ao fim nesse inimaginável e enigmático romance.

Vencedor do Goya 2009

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Camino (Camino, 2008 - ESP)

Javier Fesser quase te faz odiar seu filme de tão carregado no melodramático, atinge sim o detestável, aquela câmera fechada em caras e bocas de angustia, aquelas frases colocadas rumo à exaltação, a garota na cama do hospital e todo a exploração do sofrimento. Tudo bem, é "baseado" em história verídica, mesmo assim não deixa de ser modorrento. Por outro lado, Fesser é mais um que consegue exibir doçura nas relações entre crianças, nesse universo pueril. No meio disso tudo a Igreja Católica, mais precisamente a Opus Dei, e aquela relação de agradecimento da doença vai te enervando, aquela mãe com dogmas religiosos tão enraizados, a irmã entregue à vocação, o pai aparece como uma alternativa de oxigenar essa radicalização, respirar por breves instantes fora dessa vida claustrofóbica. No fato real, a igreja corre na missão de santificação dessa menina que amou a Jesus até em seu leito de morte, no filme Fesser mostra um caminho diferente. Num deboche escandaloso (e na fase final esse fato torna-se relevante, praticamente sobrepõe-se a toda história quase como a verdadeira razão de existir do filme) o cineasta que já trabalhava sob os clichês da falsidade camuflada que os religiosos fervorosos se prezam no intuito "do bem maior", parte então para essa provocação audaciosa sobre as verdadeiras razões do amor de Camino (Nerea Camacho) por Jesus.

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Tokyo! (Tokyo!, 2008 - FRA/JAP/ALE/COR)

Por mais antagônica que possa ser a união entre as histórias (Merde, um ser asqueroso em nada se equivale à delicadeza do rapaz se apaixonando pela entregadora de pizza, por exemplo) há sim muita unidade nos estilos de direção que se complementam, na fotografia de tons vivos e vibrantes, e por mais que o dedo de cada diretor esteja presente em seu trabalho, há esse flerte com o fantástico, com o bizarro, e nesse quadro geral Tokyo é sim um filme uniforme. Três visões da metrópole nipônica, três inserções dentro da loucura de uma megalópole que engole seus habitantes. Em Interior Design, Michel Gondry recorre ao HQ para contar a vida de um casal em busca de novas perspectivas em Tóquio, passando alguns dias de favor no cubículo de uma amiga, e a jovem sem conseguir emprego sente-se a cada dia mais inútil até chegar ao ponto de transformar-se numa cadeira. A visão de Gondry é delicada e divertida, tanto pelo aspirante a cineasta, quanto pela anfitriã enfrentando a falta de liberdade, culminando na esposa degradando sua alma numa sucessão de insucessos (desemprego, carro guinchado, dificuldades em reaver os equipamentos do marido).

Desde o primeiro instante é escatológica a história de Leos Carax, o Sr. Merde sai do esgoto da cidade com sua barba ruiva, sua roupa verde e os olhos esbulhados e leitosos. Comendo dinheiro, fumando, atacando as pessoas, o "monstro do esgoto" aterroriza a população enquanto caminha livremente pelas calçadas até esconder-se num bueiro. Carax acompanha em planos sequências todas a selvageria cometida por Merde, até que o mesmo é preso. Surge então outra figura esquizofrênica, um advogado francês (que mais parece pai de Merde) e apresenta-se como sendo o único a traduzir as palavras do monstro. Seria Merde um francês no Japão livre para agir da forma como gostariam os franceses? Sem papas nas línguas, ele solta o verbo, diz odiar os japoneses e a bizarrice não para nem após a condenação. Num ritmo oposto surge Shaking Tokyo, abordando os hikikomori's, espécie de japoneses na faixa dos trinta anos que vivem enclausurados em casa, sustentados pelos pais, comunicando-se com o mundo via telefone ou internet (e viva o delivery). Bong Joon-ho trata dessa Tóquio introvertida nesse romance sutil (que facilmente tornar-se-ia um longa) entre este homem enclausurado que de repente apaixona-se por uma linda entregadora de pizza e cria coragem para sair de casa após dez anos longe das ruas (a cena em que ele tenta tirar a bicicleta do meio das plantas é sacal).

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O Terceiro Homem (The Third Man, 1949 - EUA)

A história do escritor americano de meia-tigela Holly Martins (Joseph Cotten) que a convite de um amigo muda-se para Viena (dividida como uma pizza no pós-2ª Guerra) e surpreendido pela repentina e estranha morte do mesmo, resolve investigar os sinistros fatos que lhe foram apresentados, pode ser dividida em dois grandes blocos. No primeiro, o cineasta Carol Reed foca-se no mistério, nas pistas e investigações sobre a morte, sobre os dois homens que socorreram o amigo atropelado, sobre um terceiro homem que não consta nos autos. Exceto a namorada Anna Schmidt (Alida Valli) do falecido Harry Lime (Orson Welles), os demais são dos tipos mais suspeitos possíveis. Na segunda fase descobre-se a verdade dos fatos, e começa uma perseguição de gatos (polícia e serviço de inteligência) contra o rato (e a perseguição nos esgotos vienenses é perfeita para exemplificar isso). Finalmente aparece Welles, o leve tom de trama política dá espaço para uma discussão moral, apoiar amigos ou buscar justiça para livrar inocentes. O Terceiro Homem é intenso do início ao fim, tal característica se dá porque quando se acredita que o confronto entre Welles e Cotten (principalmente este) deva definir os destinos, eis que surge Anna Schmidt e suas convicções sobre amor, lealdade e justiça.

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Ondas Invisíveis (Invisible Waves, 2006 - TAI/HOL/HK/COR)

Assassinos no cinema são celebrados com glamour chamuscado e certo charme místico, deixam a tutela de vilões para um staff de assassino. Pen-Ek Ratanaruang vem com a desglamourização, renegando a posição de assassino ao rudimentar, algo totalmente fora da rota de vida fácil, do conforto. O cozinheiro Kyoji (Tadanobu Asano) assassinou sua amante (a mando do chefe que era casado com a vítima). O processo é lento, um jantar silencioso, banhado a sexo, até a vítima sentir os efeitos do envenenamento. Ratanaruang filma com exímia delicadeza e prazer, jamais foca o rosto da vítima, e a paciência do assassino é exemplar. Eis a faísca, a verdadeira trama é a relação do cozinheiro (agora fugitivo sob patrocínio do mandante) com a morte (exceção à sinuca de bico que se meteu na posição de amante, ele apresenta-se como um sujeito de respeito, atencioso), e principalmente com seu chefe. A fuga num cruzeiro oferece apenas uma escotilha onde nada funciona (cama que não fica na horizontal, fechadura quebrada, chuveiro disparando duchos de água em momentos inoportunos), num tom de bege capaz de enjoar o mais experiente dos marinheiros (os enquadramentos me fizeram lembrar Liverpool do Lisando Alonso). Uma viagem para apagar da memória, e Ratanaruang batendo na tecla que só na ficção cinematográfica que a culpa e conforto andam unidos. Os planos de quem tem coragem de contratar para matar são torpes, pode-se confiar em alguém tão leviano? O desenrolar não poderia ser mais humano e ingênuo, os desdobramentos na Tailândia que aproximaram novamente os dois envolvidos serão mera formalidade dentro da proposta elaborada e bem executada de Ratanaruang, o anti-suspense vem de encontro às perspectivas de Kyoji e à vingança que planeja ao sentir-se encurralado.



v e r b e a t b l o g s

Michel Simões

  • 30 anos, cinéfilo, teimoso, assiste entre 150 e 200 filmes por ano e acredita ter uma vida quase normal.

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