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O Vidente (Next, 2007 - EUA)

Ver Julianne Moore num papel tão pragmático como a da policial Callie Ferris é atestar a falta de competência do diretor Lee Tamahori. A premissa nem é das mais desgastadas, Cris Johnson (Nicolas Cage) tem o dom de enxergar os eventos que se relacionarão com ele com dois minutos de antecedência. A partir daí você já sabe o que virá a seguir, alguma cena de perseguição, alguma cena de apelo sexual com uma mulher maravilhosa (no caso Jessica Biel), um heroísmo absoluto e algum evento relacionado ao salvamento do planeta. Alguém já deu um toque para o Nicolas Cage mudar de cabeleireiro? Desculpe a pergunta tola, infelizmente o filme que começava razoavelmente interessante cai num marasmo tão grande que não sobra muito a falar e suscita esse tipo tolo de questão.

E Surgia o Cinema Noir

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O Falcão Maltês (The Maltese Falcon, 1941 - EUA)

John Huston fazia história quando inaugurava o cinema noir com este título. Um desfile de interesseiros e vigaristas a procura de uma jóia valiosíssima, um falcão incrustado de pedras preciosas que fora roubado há muitos séculos quando os maltas o ofereceram ao rei da Espanha por agradecimento à independência do país. Entre este bando de dissimulados que percorrem o mundo farejando o falcão, entra em cena a figura de Sam Spade (Humphrey Bogart), um astuto detetive que se vê numa enroscada ao se meter com este bando. Enquanto a polícia investiga algumas mortes (incluindo a do sócio de Spade), o detetive tenta levar vantagem nessa história e livrar-se da acusação de ter assassinado o parceiro. John Huston apresentava um novo marco, um gênero em seu nascedouro, e entre o melodrama exagerado de Brigid O'Shaughnessy (Mary Astor) e a canastrice dos demais interessados no falcão, brilha Sam Spade no alto de uma coragem e perspicácia que tornariam este detetive imortal.

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Roma, Cidade Aberta (Roma, Città Aperta, 1945 - ITA)

A cidade de Roma vive a ocupação Nazista, os italianos se perguntam se os americanos existem enquanto vivem o toque de recolher às 17h. Católicos e comunistas criam uma união impensável na luta pela libertação italiana contra os Fascistas. O exército alemão é implacável caçando os revolucionários por cada canto da cidade que fora declarada "cidade aberta". Os padres são uns dos poucos com liberdade maior de ir e vir, tornando-se figuras-chave no transporte de dinheiro e demais necessidades, além de proteger e esconder revolucionários. O filme de Roberto Rosselini foi um dos marcos do neo-realismo, apostando numa poderosa força em alçar críticas à maior ferida da humanidade. As mulheres esforçam-se em ludibriar os soldados enquanto os homens fogem, escondem-se, no meio desse ambiente caótico mantém seu estilo de vida, as discussões inflamadas, os gritos com as crianças, o sonho do casamento (com destaque para Pina (Anna Magnani) com presença marcante nas cenas de desespero melodramático, nas gritarias familiares). No meio desse mar aterrorizante o padre Don Pietro Pellegrini (Aldo Fabrizi) ganha contornos de porto seguro, doce ilusão que ficará estampada na marcante e indigesta cena final. Rosselini nos hipnotiza com as crianças aflitas na grade, com o desconsolo dos olhares que miram ao chão por não terem coragem de presenciar o que se passa.

Happy Hour na Toca III

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1) Imperdível - o excelente Noite de Estréia de John Cassavetes na Sessão Cinéfila do Unibanco, sábado 12h


2) Começou esta semana em São Paulo o itinerante 7º Festival Varilux de Cinema Francês. Nesta edição não me interessei muito, em parte porque os filmes não me empolgaram, ou como no caso do Honoré a estréia está programada para dezembro, ou porque já tinha visto (como o ótimo Elogio ao Amor de Godard, ou o fraco Atrizes que marca a estréia na direção da ótima atriz Valéria Bruni-Tedeschi).


3) Das estréias da semana, ou reestréias, destaco Terra Vermelha, e vou correr atrás de Queime Depois de Ler, Deserto Feliz, e o resgate de Garage Olimpo de Marco Bechis.


4) No Cinesesc, somente domingo e segunda, As Testemunhas de Téchiné, estarei lá com certeza.


5) Cinemateca Brasileira, entre os dias 27 de novembro a 05 de dezembro, rola o Africala, Festival de Cinema Africano


6) Já no Belas-Artes, esta semana passa A Noite, do Antonioni


7) E o 41º Festival de Brasília escolheu para melhor filme segundo o júri, o polemico FilmeFobia, de Kiko Goifman. Curiosidade, assim como o diretor, eu morro de medo de sangue, desmaio só de pensar, por isso não sei se vou acabar assistindo (li na imprensa que o cineasta desmaiou 3 vezes durante as filmagens, ao enfrentar seu medo).


8) Sou fã do Los Hermanos, fui até o RJ para conferir o último show da banda. E agora acompanho o trabalho dos dois grandes destaques da banda. Marcelo Camelo e sua voz triste e chorona lançou aquele disco chato que desisti de gostar, e continua nessa linha pseudo-intelectual transformando o artístico no "incompreensível". E agora chega a notícia do namoro com essa cantora de 16 anos, Mallu Magalhães. O cara está descendo ladeira abaixo, ele que chegou no auge com sucessos com a banda, e outros interpretes que tanto gravaram suas canções impulsionando ainda mais seu nome, e agora ele caminha ao ostracismo, para não dizer ridículo. Já o Rodrigo Amarante segue com seus trabalho e agora junto com o brasileiro baterista do Strokes, lançou esse disco ótimo do Little Joy, uma delícia de ouvir.


9) Falando em música, ela não deve durar muitos anos, cada dia mais está acabando, mas na segunda-feira assiste ao show na Multishow, e o que posso dizer é que Amy Winehouse arrasam que voz, letras que resumem a si própria, queria muito ir num show dela.


10) O que vi ventilado na imprensa do que vem por aí, o próximo filme de István Szabó deverá se chamar The Door adaptação de um Best-seller hungaro, já Hector Babenco deve iniciar uma co-produção com a Espanha intitulada A Brasileira.


11) E no Brasil soube que o casal Caio Blat e Maria Ribeiro deve protagonizar Histórias de Amor, que marcará a estréia na direção do roteirista Paulo Halm


12) O Senado aprovou cota de 40% para meia-entrada, já vi aqui e ali algumas propostas, e não sei exatamente qual seria a solução para este caso espinhoso e complicado. O que sei é que como estão, as coisas não podem ficar, qualquer um tem carteirinha, qualquer um paga meia-entrada, e com isso os exibidores colocam o ingresso nas alturas. Agora é aguardar a aprovação final na Câmara e depois verificar se o preço dos ingressos irá cair mesmo como tanto defendem os exibidores.


13) Chuvas em SC, ando distante dos noticiários, mas não é possível passar em branco essa tragédia que já matou tanta gente, além de estrago e destruição na vida de tantas pessoas. Na empresa onde trabalho, recebemos um e-mail de um cliente relatando que sua família está bem porém a água invadiu sua casa e perderam muita coisa. E as palavras são apenas de otimismo e principalmente preocupação com os que estão desaparecidos, com o luto pelos que se foram. E essa é apenas uma história, que essas chuvas parem imediatamente. Segue link para quem quiser e puder ajudar

14) E os Lakers estão atropelando na NBA, Go Los Angeles.

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Se Eu Fosse Você (2006)

Nunca fui muito de criticar essa invasão de televisão que tomou conta do cinema nacional, gosto muito dos filmes do Guel Arraes por exemplo, e por mais que lamente a utilização desenfreada desse aspecto televisivo empobrecendo nosso cinema e pasteurizando o gosto do público (que passa a ver a mesma estética que está amplamente acostumado, só que na tela grande e paga caro), ainda acho que se é bom, vale a pena.

Infelizmente não é o caso do filme dirigido por Daniel Filho, o sucesso comercial foi estrondoso, que pena, porque o filme é sofrível em tantos aspectos. Começando com os minutos iniciais e a caracterização dos personagens e ambientes, é tudo clichê, tudo óbvio, e principalmente exagerado (e Thiago Lacerda talvez seja o melhor exemplo, tamanha canastrice). Claro que quando a história realmente mostra a que veio e Glória Pires e Tony Ramos mudam de corpos, muitas piadas funcionam, o talento dos dois é inegável. Só que a troco de algumas boas risadas (e o grito histérico da empregada é hilariante) temos que aturar tantas situações sonsas, e mal-elaboradas, profundos exageros como a seqüência na piscina, ou no banheiro masculino. Não deixa de ser um filme simpático, e no fundo não passa de um daqueles especiais de natal da Globo, só que um bem chinfrim.

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Haze (Haze, 2005 - JAP)

Um homem (o próprio diretor) acorda num local estranho, não se lembra de como foi parar ali. As paredes são estreitas, armadilhas, contusões, hematomas, o medo. Estes elementos o acompanham enquanto ele se rasteja por espaços nebulosos a espera do pior. Shinya Tsukamoto filma com planos fechados, causando sensações claustrofóbicas. A falta de espaço que o personagem sofre passa a nos incomodar, a imagem é totalmente escura, só distinguimos o rosto, e as vezes sangue que se espalha. Seria um milionário praticando joguinhos perversos? A guerra eclodiu e eles são prisioneiros de guerra? Ele se faz estas perguntas enquanto o pavor segue estampado e as paredes parecem cada vez mais estreitas. Até que ele encontra uma mulher corajosa e capaz de buscar uma saída a entregar-se a seus medos. O média-metragem é um delírio aos fãs do gênero.

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Os Amantes do Círculo Polar (Los Amantes Del Círculo Polar, 1988 - ESP)

Sabe aqueles filmes que seu desejo é de que eles não terminassem nunca, e você pudesse passar o resto da sua vida acompanhando os destinos das vidas de seus personagens. Esta é a sensação que o filme de Julio Medem me causou. O ritmo narrativo é despojado, solto, sem deixar de ser lírico (dois narradores é uma jogada muito inteligente e condizente com o ritmo empregado, um dos grandes trunfos). O filme é um grande palíndromo, e sua estrutura circular completa a composição para que as deliciosas coincidências possam causar esse efeito de leitura de frente para trás com o mesmo resultado (inclusive os nomes dos personagens são palíndromos). Tantos momentos tornam-se nostálgicos na memória, como os aviões de papel, ou a bola de futebol, ou ainda o esconder-se pelado debaixo da cama.

E assim acompanhamos desde muito pequenos, o romance de Otto (Fele Martinez) e Ana (Najwa Nimri), e não é somente a história de um amor, mas das riquezas e complexidades que permeiam nossas vidas. Da emoção do amor infantil, do desejo da relação adolescente, das dificuldades infindáveis na vida adulta. E a escolha das profissões, o relacionamento com pais, madrastas e etc. Resumindo, Medem preenche todos os ciclos da vida, e faz de forma inesquecível, cuidando caprichosamente de um roteiro formidável, inteligente, que culminando no Ártico com a história do lendário Otto reafirma que a vida está recheada por coincidências que podem mudar completamente nossos rumos, e que no fundo estamos o tempo todo encerrando um ciclo para iniciar outro.

Happy Hour na Toca II

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1) Era uma vez uma brasileira com descendência oriental que se apaixonou por um loiro de olhos azuis nascido na terra do Papai Noel. Também podemos dizer que se trata da história de dois românticos apaixonados, incorrigíveis e corajosos, que enfrentaram a lógica para decidirem que a vida de um estava ligada demais ao outro para que qualquer distância ou empecilho pudesse os separar. E o casamento não poderia ser de outra forma, inventivo, jovial, romântico ao extremo, dominado pela presença dos amigos. Desde a linda e romântica cerimônia na areia, até a festa cheia de surpresas, o que se viu foi um casamento único, que fez chorar a todos, e emocionou quem estivesse naquela praia no momento. Sábado participei e fui padrinho do casamento mais emocionante e honesto, o amor é lindo, mas essas demonstrações eternas de sentimentos são dignas daqueles inesquecíveis momentos do cinema.


2) O Espaço Unibanco continua revisitando John Cassavetes, no sábado é a vez de A Morte de um Bookmaker Chinês

3) Estréias: são muitas as dessa semana, Selton Mello estreando na direção com Feliz Natal promete um filme ame ou odeie. A Duquesa não me anima, pouca inspiração para essas mulheres reprimidas da monarquia. E engraçado como a gente se empolga a toa, quando vi que na Mostra iriam passar dois filmes de um tal de Wayne Wang coloquei os dois como prioridade. Depois estava difícil de mantê-los, sorte que descobri que iriam estrear logo. Agora que Mil Anos de Orações e A Princesa da Nebraska estão chegando, eu já não estou tão interessado, porque do que li, pouco me animou, e porque ainda não sei porquê me empolguei tanto se o desinformado aqui nunca tinha ouvido falar dele. Por isso, tirando Feliz Natal, nada garantido, talvez aproveite que os canais Telecine estão abertos até domingo


4) Festival de Brasília: ninguém está muito animado com os filmes selecionados, mas o retorno triunfal de São Bernardo de Leon Hirszman, que será relançado em DVD nos próximos dias, e quem sabe nos cinemas, já está deixando a imprensa mais empolgada. Eu quero mesmo é ter a chance de ver logo esta adaptação do sempre ótimo Graciliano Ramos


5) falando em literatura, no CCSP está rolando uma mostra com filmes baseados nos livros de Machado de Assis, considero tão fracos os que já assisti. E na terça começa o Veneza Cinema Italiano lV, com novos e inéditos filmes de diretores como Ferzan Ozpetek e Pupi Avati, além de Terra Vermelha do Marco Béchis (que estréia provavelmente na próxima semana)


6) Sundance, divulgado que a animação australiana "Mary and Max", de Adam Elliot abre o festival, e dessa vez eu prometi a mim mesmo que vou dar uma olhada no que se passa por lá.


7) Charlotte Gainsbourg presidirá a 34ª Cerimônia do César, irrelevante se eu não achasse ela simplesmente o máximo, linda.


8) na Cinemateca muitos curtas de Agnès Varda e algumas raridades do cinema francês


9) Jules e Jim (foto) no HSBC Belas Artes, Truffaut é sempre necessário

Tristão e Isolda no sertão

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Romance (2008)

O ator e diretor de teatro Pedro (Wagner Moura) inicia testes para escolha da atriz de seu novo espetáculo, e com Ana (Letícia Sabatella) ele encontra não só a atriz ideal, como também o amor romântico e uma relação que se confunde diversas vezes com a dos próprios personagens da peça. E a história de Tristão e Isolda se interliga tantas vezes com a de Ana e Pedro que essa preocupação exagerada do roteiro em criar repetições de situações, de resgatar o mito do amor idealizado, de transformar os personagens em reencarnações da história do século XII, causa imperfeições e falhas mais cruciais. Quando a história é transpassada ao sertão nordestino, e Ana e Pedro reaproximam-se (após a linda seqüência ao som de Nosso Estranho Amor, na voz de Caetano Veloso, marcando toda a separação do casal), definitivamente não são eles e sim Tristão e Isolda que estão representados, e os dois perdem alguns de seus princípios numa artimanha desagradável do roteiro.

Não me incomodo que Guel Arraes não consiga se livrar de sua carreira bem-sucedida na televisão, quando se aventura no cinema, os sotaques caricaturados da Globo estão lá presentes, e aquele humor agradável de seus filmes anteriores também. A química entre Sabatella e Moura talvez seja o ponto chave, eles amam e sofrem e cada sentimento é altamente perceptivo, emocional. Só que Letícia Sabaltella apresenta-se num momento inspirado de beleza, leveza, meiguice, nos apaixonamos por cada expressão, por cada sorriso, por sua atuação irrepreensível. Isso sem falar em Andrea Beltrão e Wladimir Brichta que fazem seus personagens crescerem mais do que deveriam(e isso é bom). Romance é sem dúvida uma bela história de amor, chamuscada de clichês, em lindas e marcantes frases que se repetem, baseada nessa vida artística que divide atores entre cinema, teatro e TV, alicerçada por essa tragédia belíssima do amor impossível, e de quebra o final surge com um quê genial, encontrando com leveza um resumo cirúrgico de constatação da vida moderna e de seus próprios personagens.

A Poliana de Mike Leigh

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Happy-Go-Lucky (Happy-Go-Lucky, 2008 - ING)

Uma Poliana moderna e solteirona. É assim que Mike Leigh apresenta Poppy, uma professora de pré-escola, alegre, exageradamente sorridente. Ela faz o tipo imatura, levemente inconseqüente, que enxerga apenas o lado bom das coisas. Já entrando na casa dos trinta, busca sim um amor, enquanto divide-se entre o trabalho, amigas, e passeios com sua bicicleta por uma Londres bonita, alegre, verde. Quando ela é roubada, Poppy decide aprender a dirigir. Simples assim, a vida é simples para Poppy. Só que o instrutor é um cara mal-humorado, irritado, conservador ao máximo, e ela com roupas e cores extravagantes, exalando alegria em cada sorriso, em cada brincadeira boba. E tem também o assistente social que flerta com ela enquanto tentam ajudar uma criança violenta. Leigh novamente trata das relações pessoais, dessa vez busca na comédia uma nova roupagem para seus filmes tão densos, só que não consegue fugir de suas raízes optando por uma cena determinante, explosiva e forte (de longe o melhor deste filme). Um filme insosso, pregando um caminho para felicidade que pode ser bonito de se ver, porém impraticável, por mais que se todos tivessem um pouquinho de Poppy, o mundo seria muito mais fácil (que clichê extravagante, e que visão mais simplista e ingênua).