
O governo chinês pediu que hoje, segunda 19 de maio, a população fizesse três minutos de silêncio pelas vítimas do terremoto em Sichuan. Eu tinha aula de Investigation & Practice e avisei aos meus doze alunos, do último ano, que interromperíamos a aula na hora marcada mas voltaríamos em seguida. Às 2h28 uma sirene inidicou que até as 2h31 todos deveriam ficar em silêncio. Menos a sirene, e os carros, estacionados, buzinando. Foram os três minutos de silêncio mais barulhentos que já vi.
Os alunos na universidade ficaram todos quietos. Algumas turmas ficaram de pé com a cabeça baixa e olhos fechados, como que orando. Alguns alunos no corredor foram para a janela como que se para confirmar que a cidade parara. Os meus se limitaram a fechar os cadernos e olhar para baixo, para a mesa, para o nada.
Sirene silenciosa, voltamos a aula.
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Há a sensação de impotência diante de uma, qualquer, tragédia. Neste caso específico, há o sentimento, porém ele está sendo diferente para mim.
No dia seguinte ao ocorrido, quando o número de mortos já saíra das centenas e chegara aos milhares (mais sobre isso em seguida), passou-se pelos departamentos da universidade uma sacolinha (ok, urninha) de doações para a Cruz Vermelha. Doei, claro. Mas fiquei com uma sensação esquisita, pois acho que o problema aí/aqui não é dinheiro. O país China tem recursos. Em casos como o Tsunami de dois anos atrás ou do recente ciclone em Mianmar, a situação é diferente, e a grana faz diferença.
(Não que um campanha de doação na China não tenha suas, digamos, qualidades. Afinal, é um bilhão e meio de pessoas. Se apenas metade doasse 1 renminbizinho que seja, tem-se aí mais de cem milhões de dólares. E os chineses estão fazendo questão de doar, até a faxineira.)
Por toda a universidade e nos edifício empresariais e residenciais outras campanhas estão sendo feitas. O que se precisa, hoje, é de comida, roupas, remédios e barracas. Todos temos aquela blusa velha, lata de leite em pó etc, mas também não acho que isso seja "a" solução. Afinal, é muito mais jogo isso vir das indústrias têxteis, alimentícias e semelhantes - por preço de custo, que seja: ainda bato na tecla de que grana não é a encrenca. Até por que não é exatamente caro de se produzir coisas na China, não é verdade?
Individualmente, como ajudar? E mais: como designer gráfico, como ajudar? Uma indústria pode doar (ou fazer a preço de custo, a título de doação) o que produz. Prestador de serviço doa seu trabalho. Um arquiteto pode fazer o projeto de reconstrução da cidade, de uma escola, algo assim. Um designer de produto, o projeto de um kit de emergência (idéia de um dos professores daqui, o David Fox). Mas e o designer gráfico? Fizemos um brainstormingzinho entre os professores (idéia do Ian Norris, de Cingapura) e não saímos dos E se?... Cartazes para serem leiloados na internet? Mas dinheiro não é o problema. Um site com um banco de dados que ajudasse as pessoas a localizarem familiares e amigos? Mas informação na China é muito controlada. Chegamos, no máximo, ao projeto de uma série de templates para download gratuito de projetos de identidade, sinalização, cardápios etc que ajudassem os moradores a reconstruir sua economia. Nada muito factível, ou útil, na prática. Frustrou.
Ainda mais que há também a sensação de que, apesar da atual comoção nacional, em alguns meses (um ano, no máximo), esse povo vai ser esquecido.
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Outra coisa_ Detesto reforçar o coro de que a China exagera, a China mente, a China camufla, e tal, mas é realmente difícil descobrir os números (exatos ou aproximados) da tragédia. Cada jornal, canal de tv estrangeiro, comunicado oficial, ou o que o valha, prega um totalmente diferente. Enfim, isso não importa, tragédia é tragédia, sejam 8 mil, 30 mil ou 100 mil, não é?
A única coisa que me surpreendi em achar 'positiva' dessa história é que não tem como a China culpar alguém (a la Tibete) ou maquiar a história (como quando as pontes aqui caem por que são coladas com cuspe), por que dessa vez foi natural mesmo! E parece que estão dando abertura total para os reporteres estangeiros chegarem lá. Como disse lá em cima, dessa vez o sentimento é diferente. Neste mundo maluco (clichê número 1) em que vivemos (clichê número 2), em que tudo é culpa de alguém (do Osama, da imperícia da polícia, dos interesses escusos, do tráfico, do motorista bêbado, dos corruptos do PT), me espanto quando sinto um alívio por isto não ser culpa de ninguém.
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O designer curitibano Marcos Minini fez o cartaz postado lá em cima para o Semana em Cartaz da semana passada. É daqueles que deu para murmurar "queria ter feito...".
Comments (3)
ontem assisti episódio da série que a Globo News está fazendo sobre a China às vesperas dos Jogos, e eles deram esse fato - na cobertura do desastre, os jornalistas têm trabalhado sem qualquer tipo de restrição. provavelmente pelo que tu apontastes, ser uma catástrofe natural, comovente. e, numa leitura mais fria, uma boa oportunidade para sinalizar uma abertura no rigor do controle - ainda que passageira como esse evento.
~.~
teus posts no feed estão vindo todos feiosos, sem formatação nem quebra de linha. vou ver se consigo ajeitar isso. :)
Posted by tiagón | May 19, 2008 11:00 AM
Posted on May 19, 2008 11:00
pois eu estava pensando nisso esses dias, ouvindo as noticias pela radio. aqui, o clima é de dever. a catastrofe, sendo natural, é meio que uma trégua, e parece um lembrete de humanidade, solidariedade (esses clichês todos. necessarios e bem vindos no mundo onde vivemos - te roubando outro clichê).
Posted by larissa | May 21, 2008 9:12 AM
Posted on May 21, 2008 09:12
Belo texto, meu velho, belas reflexões!
Mas acho ainda que o design pode ajudar. Tem que ter um jeito não?
Posted by Felipe | May 23, 2008 4:11 AM
Posted on May 23, 2008 04:11