Em blogs se fala de blogs. Demais. Talvez porque na atividade bloguistica, ainda que tenha completado 10 anos agora em abril, o que prevale é a indefinição do que é a própria ferramenta. As possibilidades são tão largas que cada tentativa de enquadramento nasce morta. Os blogs formam um tipo de subespécie infofaunistica que requer ainda muito estudo e catalogação. Mas são também ao mesmo tempo acidentes internetográficos, além de material interminável de análise antropoeletrônica. E tudo isso em uma escala evolutiva que se conta aos minutos e segundos. Quem achar que tem a definição ou a resposta definitiva, pode saber que já estará ultrapassado em poucos instantes.
Por isso, a discussão é difícil e flébil como as que buscam definir deus ou pior, tentar entender as mulheres. Ficam na categoria dos esforços inúteis. Não por outro motivo é que nos ocupamos disso, inúteis que somos.
O quarteto Lívia, Leandro,Luizinho e Luizão tratou do assunto em consequência de coisa ditas e feitas aqui pelo senhor Edney e companhia. Entram em questão a profissionalização dos blogueiros, a monetização, a credibilidade dos blogueiros, a produção de conteúdo inédito e pertinente, tudo coisa da mais alta importância. Claro que para Edney e grupo, que apostam em uma atividade bloguenta com vistas à obtenção de lucro, a coisa é bem mais importante que para quem como nós, vem aqui para passar uns minutos em modo interativo e prazeroso (quando possível). Quem botou as fichas na mesa e tem que viver de blogs, é mesmo obrigado a ficar inventando novidades e chamarizes. O ponto chave é esse. Um choque de intenções e que interfere no meio ambiente e na paisagem.
Imaginemos que o mundo dos blogues seja uma ilha no Atlântico. Como vivemos alguns bons anos em Florianópolis, sabemos do que estamos por dizer. Vamos à praia. Nos aproximamos das dunas, tiramos os calçados e vamos caminhando até o paraíso. Cada inseto, planta, animalzinho e monte de areia é uma agradável surpresa. A brisa fresca do mar traz o perfume do caldo primordial. Nos faz lembrar quem somos. Varias pessoas fizeram o mesmo percurso e tomam um pouco de sol ou fazem o banho. Caminhamos por quilômetros de praia e o que pode ser a remota lembrança de stress nos faz sorrir.
Mas aí o tempo passa e pessoas aparentemente normais, gente de bem, que estuda, vai à igreja e tem filhos, tem a magnífica idéia de monetizar a praia. Um deles tem a boa idéia de construir uns bares em cima da areia da praia. Logo chega alguém que constrói um pequeno hotel e restaurante. Tudo isso pede uma boa estrada asfaltada. Zum, e lá vai a prefeitura com as máquinas com betume, acompanhados dos postes de luz e dos canos de água. O esgoto jogamos no mar, que ele é bem grande. A estrada gera fluxo, que beleza. Quanta gente. Um loteamento e alguns prédios de apartamento despontam aqui e ali. Estamos indo bem. Alguns desconfortos aparecem, mas a gente tem a capacidade de se acostumar até com isso. Que bom. As vezes nos vem em mente que o nível de qualidade de vida está indo pro brejo e passamos o tempo discutindo isso, mas daí pedimos mais uma cerveja no boteco e passa. As surpresas agora ficam por conta dos engarrafamentos, boladas na nuca e algum cocô de cachorro na sola do pé.
Depois de algum tempo, a descarga de esgoto se parece com um pequeno rio que corre no que era areia branca. O perfume é aquele que se conhece. Aquele visual do costão que todos ficavam horas a admirar agora tem umas placas de publicidade. A publicidade. Se você olha muito para algum lugar, os publicitários ficam só te sacando e vão lá e trac, botam uma placa onde você tá olhando. Já faz um tempo que olho a paisagem com o canto do olho que é pra não dar bandeira. Além, disso, o conjunto da obra humana, ou seja, prédios, placas, casas e hotéis, formam agora um paredão que borda toda a orla da praia que com sua sombra impede os banhantes de.... tomar sol. Alguma coisa se perdeu, mas paciência, dizem, é o preço do progresso.
Ok, basta não freqüentar mais aquela praia e deixar os bravos empreendedores defenderem o pão de cada dia. Nada mais simples e justo. Mas o problema é que eles, todos os agentes que mercantilizam a vida, não destroem somente a praia em si. Eles criam a idéia de que praia para ser boa tem que ser daquele jeito e propagam e vendem essa idéia. Transformam e formam outros agentes que como eles, vão se apropriando dos espaços que antes tinham imenso charme e agora tem o mérito de gerar algum lucro a eles que se dispõe a explorá-los. Toda a ilha agora é plena de belas praias soterradas pelo mercado.
Deixo claro que minha opinião é política. Sem ser comunista e bem longe disso, ainda que isso seja ainda possível de ser na Itália de hoje, acredito que um projeto de futuro para esse planeta deva levar em conta a liberação das pessoas da ação nefasta do mercado. Ou ao menos meios de se defenderem dele. O momento é de elaboração de novas formas de relacionamento, desenvolvimento e produção.
Sob a ótica do crescimento econômico, a expansão de mercados, o aumento do produto interno bruto e da geração de lucros, atingimos um ponto de saturação em quase todos os níveis da atividade humana. Um dos mais dramáticos é do que essa lógica esta causando ao meio ambiente.
E esse é apenas um dos motivos pelos quais levar essa lógica obsoleta e destrutiva a um espaço que tem enorme potencial de ferramenta de transformação, deve ser considerado o oitavo pecado mortal. O mundo, ou melhor, a sociedade humana tem necessidade de mudanças profundas e urgentes. A ultima coisa de que precisamos é de gente preocupada somente com links, visitas e banners nos próprios blogs.