Não sei porque aquele Pomposo me veio contar aquela história. Fui à casa de um vizinho tratar de um assunto sem importância e encontro lá o Pomposo contando vantagens. Ele nunca fica por baixo. Pois foi quando me perguntaram se estou bem de saúde e eu respondi que tive alguns problemas que ele, que enquanto eu falava me olhava um tanto invejoso, começou a desfiar uma longa série de desgraças e doenças. Era algo esperado. Mas quando ele começou a descrever as crises de hemorróidas da esposa, algo mudou, no clima, no ânimo e até na expressão das pessoas. Dizia com entusiasmo juvenil que ela sangrava pelo cu há mais de dezoito anos e que isso a levou a inúmeras crises de anemia e que...bem, ele começou a descrever a hemorróida que ele conhece tao bem. Meu vizinho quando cheguei estava jantando. Quando as imagens alusivas começaram a escorrer pelas nossas mentes imaginativas, me dei conta que o coitado olhava com cara de nojo contido e não comia. O prato estava ainda cheio.
A Maria Rita, a sexagenária do primeiro andar que me passa sempre uma cantada até quando está sem dentaduras, sempre me disse que o Pomposo não é digno de consideração. Foi ela que me chamou à atenção para o fato de que ele, não obstante tenha como esposa uma baranga absurdamente feia e ignorante e que agora sabemos que tem hemorróida, esteja sempre muito bem arrumado e perfumado. Ela notou também que quando ele chega, cumprimenta com voz baixa e olhar idem, mas quando sai, principalmente à noite, vai aos saltos e sorri como um menino que ganhou presente. O perfume. A Maria Rita tem razão. O perfume é fortíssimo.
Não que me interesse, mas comentei isso com o Raimondo do terceiro andar e ele concorda. Me lembrou que os perfumados no condomínio são dois, o Pomposo e a mulher do Perigoso. Disse que ela está brincando com fogo, pois o Perigoso não tem esse apelido à toa. Esteve envolvido em casos não bem esclarecidos que envolviam até homicidio. Raimondo deixou escapar que eles se conheceram em circunstâncias especiais. Ele, o Perigoso, procurava diversão e ela, a vendia, se é que me entendem. Depois, veio a paixão, a gravidez e o casamento, nessa ordem. Mas parece que a abissal diferença de idade e principalmente de forma física, está fazendo das suas.
Essas coisas acontecem. Outro dia eu falava mesmo com o Manoel sobre isso. Falávamos do Raimondo, que claramente não dá mais no couro. A pobre Michela se vê que é carente. Abraça, beija, todo mundo. Precisa de contato físico. O Raimondo fuma muito. O Manoel me falava da Carolina. Dizia que o quarto filho, o moreninho, é irmão dos outros três, loirinhos, só pela metade.
Essa gente não tem o que fazer, fica falando dos outros, declarando intimidades. Eu que tenho mais o que fazer, só fico ouvindo, entra por uma orelha e sai pela outra. Fico imaginando o que é viver projetado na vida dos outros e principalmente, penso nas conseqüências dessas más línguas. Fico pensando por exemplo, no futuro desse moreninho, o que terá que ouvir por toda a vida. Quanta maldade, santo deus. Por falar no moreninho, engraçado, ele é a cara do Pomposo.