O que foi a kilo?
Desde setembro que estou muito preocupado com um acontecimento que pode se transformar em uma tragédia de dimensões planetárias. O Kg não pesa mais um Kg. Como todo mundo sabe, em Paris, no Bureau International des Poids et Mesures de Sèvres, se encontra guardado a sete chaves o protótipo internacional oficial daquele que representa a unidade de peso preferida por nove entre dez estrelas de cinema. Feito de platina e irídio em 1875, constitui-se em um cilindro de 39mm de altura e diâmetro e deveria pesar um quilo, mas pesa 50 microgramas de menos.
O fato é que o chamado Grand Kilo (cito tudo isso de memória, sem recorrer a google nenhum), está perdendo peso e ninguém sabe explicar o fato. Será depressão? Uma desilusão de algum tipo? Os técnicos silenciam quando questionados. Michael Borys, um especialista no assunto, hipotiza que se como o Gran Kilo a cada dez anos é comparado com outros protótipos nacionais idênticos ao original, pode ser que eles é que tenham ganho peso. Mas é improvável que muitos apresentem uma deformação idêntica e somente um, o original, se mantenha intacto. Em resumo, é quase uma ceteza que o quilo está em crise existencial. Um tipo de anorexia sem explicação, que de resto é em compasso com os tempos que correm.
Os ingleses, aqueles abomináveis comedores de batatas, estão vibrando. Foram sempre acusados, e do meu ponto de vista com razão, de serem os campeões mundiais da confusão e complicação com as suas libras, direções à direita, polegas com frações de 64 e até onças como medida de peso. Imagine o quanto varia o peso de uma onça segundo a disponibilidade de caça que ela encontra. Um absurdo. Eles acreditam até que com 12 polegares se possa produzir um pé. Não por acaso em um lugar com essa mentalidade, surgem mitos como o do doutor Frankenstein. Mas agora eles se esfrangalham da risada com o quilo que emagraceu.
O quilo, nosso companheiro de todas as horas, é a unica unidade de medida do sistema métrico qua ainda depende de um manufato e não de uma parâmetro definido de uma propriedade física, como o metro por exemplo, que aposentou o bastão de platina e adotou como parâmetro o comprimento do trajeto percorrido pela luz no vácuo, durante um intervalo de tempo de 1/299.792.458 de segundo. Como sempre, cito de memória.
Mas, o que nos deveria dar certa segurança, vem agora nos lembrar que a mesma, a segurança, não existe. Nem o quilo é mais um quilo. Estamos entrando em uma época onde tudo parece ter a consistência das nuvens. Voltamos à mais primária lógica e o absoluto relativo se liquefaz.
Imagino o que se passou pela cabeça do Le Grand Kilo. Uma responsabilidade enorme que alguém lhe impôs. Dever estar ali, imutável, com o encargo de apenas ser, enquanto tudo muda e vibra à sua volta. Deve ter raciocinado: porque a moeda pode flutuar como pluma e eu não? Devo ser um peso pra todo mundo? Nesse sentido, até entendo que se vá em depressão. Ele deve saber que por definição, mesmo que ele mude, ele é o quilo, os outros devem se adaptar a ele, ainda que isso represente algo como um terremoto de dimensões planetárias. Ele deve ter pesado bem a decisão antes de fazer dieta, porque corre o risco nada remoto de ser aposentado compulsóriamnte como ocorreu com o metro.
Imagino, e deixo claro que esta é uma minha especulação, que tudo possa ser um enorme compló, orquestrado pelo setor do comércio varejista. Pode parecer pouco o que se ganha com 50 microgramas por quilo, mas ao longo de anos e anos de verdadeiro roubo, quanto presunto cru fantasma e quanta abobrinha virtual foram vendidos como reais? Alguém deve pagar por isso. Difícil vai ser calcular tudo e administrar os processos de ressarcimento de danos com ação retroativa. Mas devemos confiar na justiça.
De minha parte, se olho com os olhos do homem moderno ultra inividualista, deduzo que foi algo muito bom o que ocorreu. Fazendo as contas, perdi, de uma hora pra outra, nada menos que 5 miligramas! Vou ligar pra nutricionista. Ela vai vibrar.
Comments
Tendo em vista a liga em questão, afirmo que a Platina não teve culpa no ocorrido; foi o Irídio que iri-desceu...
Posted by: christiana | novembro 25, 2007 2:49 AM
bom saber que em 4515, 1 Kg pesará zero grama. Esclarecedor
Posted by: gugala | novembro 23, 2007 3:19 PM
adoro quando vc está animado para comentar e postar.
:>)
Posted by: Biajoni | novembro 23, 2007 1:20 PM
Caro Paglia sem feno,
E Ditinho pergunta : e como é que fica então a onça do ouro. Ela é pintada ???
José Rico, sem Milionário
Posted by: Hocus Pocus | novembro 20, 2007 2:20 PM
Pois aqui no Brasil descobriram que o crescimento do PIB de alguns anos atrás (não confunda com ânus atrás) não foi de 2,8 mas de 3,8. Ora, direis, reclamar quem há-de? Só sei o Brasil ficou "muito mais rico" com este acerto de contas. Quero a minha parte!
Posted by: Cláudio Costa | novembro 20, 2007 2:47 AM
É repugnante que o mundo vire as costas a este post. As pessoas não estão considerando as conseqüências que a diminuição progressiva e inexorável do quilo deverá acarretar as suas vidas. O nosso dia-a-dia não será o mesmo e todo nosso referencial cairá por terra.
Novamente, George Bush, na sua incompreensão, nega-se a pronunciar-se. Claro, os EUA devem estar levando alguma vantagem com esta terrível crueldade do destino.
Despeço-me preocupado com a humanidade.
Posted by: Milton Ribeiro | novembro 19, 2007 5:40 PM
Resolver isso é fácil, basta colocar um francês com o dedão aí atrás da balança, para restabelecer o quilíbrio.
Posted by: claudio boczon | novembro 17, 2007 1:46 PM